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Biblioteca Eduardo Lourenço

por Correio da Guarda, em 21.03.22

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A Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço (BMEL), na Guarda,  tem em agenda nos meses de março e abril uma programação variada e dirigida a diferentes públicos e idades.

No que diz respeito a exposições, a primeira delas está patente na BMEL entre 5 e 19 de abril, numa organização da Comunidade Intermunicipal das Beiras e Serra da Estrela. '16 bibliotecas, 16 autores' da Rede de Bibliotecas destaca na Guarda o autor Rui de Pina.

Segue-se, entre 20 de abril e 11 de junho, 'Abril Vinil', uma mostra inédita de Capas de discos editados no período pós 25 de abril. Trata-se de uma exposição coorganizada em parceria da BMEL com o Museu da Imprensa.

Entre 23 de abril e 31 de maio, o Centro de Estudos Ibéricos (CEI), no âmbito do V Encontro "Imagem e Território: Fotografia sem Fronteiras", promove a exposição sobre 'O mais comprido Museu do Mundo' – a Estrada Nacional 2; no âmbito desta mostra está também marcado um debate para o dia 23 de abril, pelas 11h00.

No Dia Mundial do Livro, a assinalar a 23 de abril, a equipa da BMEL, sublinha a data com a oficina 'Hospital dos livros', onde pretende ensinar aos mais novos como cuidar dos livros 'doentes' para que possam voltar a ter uma 'vida normal'.

Ainda em abril, dia 23,  e no âmbito do V Encontro Imagem e Território: Fotografia sem Fronteiras, promovido pelo Centro de Estudos Ibéricos, realiza-se o lançamento do livro "Imagem & Território Textos de fronteira", de Jorge Gaspar.

 

Fonte: BMEL/CMG

 

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publicado às 20:29

Pedro Baía: uma vida de descobertas

por Correio da Guarda, em 04.03.22

 

Pedro Baía é um apaixonado, desde cedo, pela fotografia, mas o vídeo e a música preenchem igualmente a sua vida. Define-se, em entrevista ao CORREIO DA GUARDA, como “o resultado de várias experiências, somadas ao longo de uma vida de descobertas, de diversos exemplos daqueles que me rodearam, de inúmeras influências”.

No decorrer da conversa, Pedro Baía (nascido em 1973) confessa que desde muito novo a sua curiosidade foi maior que os seus medos, “sendo a descoberta da música a mais precoce de todas as minhas facetas, por ser de fácil e livre acesso, naturalmente na Rádio Altitude, ou na prateleira de discos dos meus pais. Adorava o poder colocar aqueles disco de vinil a rodar…e ficar a ouvir, assim a admirar o tal aparelho fabuloso, que me levava a sítios distantes…”. Longe ou perto da sua cidade, gosta de fotografar “A luz, os contrastes, o momento”, sempre com tempo para a sua família, pois, como nos diz este guardense, “sem ela nenhum destes projetos paixão teria sentido”.

 

 

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Quando surgiu interesse pela fotografia?

Desde que me lembro… Sempre fui curioso e sempre gostei de saber como as coisas trabalhavam… Nos armários, em casa dos meus pais, existia uma máquina fotográfica que sempre me despertou toda a curiosidade do meu mundo de criança, respeitosamente pois achei que a máquina seria uma coisa cara. Aos poucos lá fui vendo e mexendo…e a partir dessa altura a coisa foi evoluindo…

 

Que géneros de fotos prefere? Fotografia de rua, paisagem, retrato…?

Eu sou um mais “look and shot”. Olho e disparo, nunca fui muito de preparar o momento, gosto de andar e aguardar. Nem sempre corre bem, mas dá-me gozo o efeito surpresa.

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Prefere a fotografia a cores ou a preto e branco? E porquê?

Gosto de ambas abordagens. A minha disposição é que manda.

Gosto dos contrastes altos em preto e branco, gosto da maneira como o momento é realçado, mas também gosto da cor, das cores por si, da força que transmitem e da dinâmica criada.

Não consigo ter uma preferência….

 

Preocupa-se com o trabalho de edição das fotografias? É um trabalho moroso?

Preocupo-me um pouco, mas sem fazer um bicho de sete cabeças!

A ideia é a foto sair bem da camara, deixar o momento ser o que ele é realmente!

Logo, a edição são coisas mínimas e rápidas, simples, só para enfatizar o que realmente é importante ver na captura.

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A zona da Guarda é a preferida para os seus trabalhos? Que outras zonas em especial?

Não tenho uma zona preferida…não consigo ter….

Há muitos sítios, e, sei que vou descobrir mais e mais sítios belos, pessoas simples, momentos felizes, ou não, mas que merecem ser imortalizados e partilhados.

 

O que gosta mais de fotografar na Guarda?

A luz, os contrastes, o momento.

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Como têm reagido as pessoas à suas fotos?

No geral, aceitam bem as minhas abordagens e perspetivas.

 

Tem tido situações em que vê fotos suas utilizadas por pessoas ou instituições, sem a devida autorização?

Sim, é pena que as pessoas ainda não tenham percebido o conceito de propriedade intelectual, e já tive algumas conversas e discussões acerca desse tema…

Não é por estarem em circulação em autoestradas da comunicação que deixam de ter direitos. Já me aconteceu várias vezes encontrar fotos minhas em canais de redes sociais, em que foram recortadas, para ser retirada a marca de água… Uns até compreenderam…outros responderam-me, “se está na internet…é de todos!” Tenho de me rir com esta!...

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O digital incrementou, junto das pessoas em geral, o gosto pela fotografia?

O gosto não sei, mas é mais fácil chegar às pessoas e elas descobrirem coisas! Torna-se mais fácil, mais rápido a ver, rever e partilhar.

É bom dar oportunidades, é bom ter oportunidades de descobrir. É bom descobrir coisas novas, e sendo a fotografia uma arte palpável, e agora virtualmente um pouco mais acessível a todos, e, chegar com ela muito mais longe…e rápido.

 

Fazer fotografia implica uma permanente atualização dos equipamentos?

Sim e não. Depende sempre daquilo que fazemos.

Num nível profissional, alguns equipamentos ajudam imenso a ter um resultado final mais “comercial” e “apetecível”, mas num nível não tão alto, não acho necessário andar sempre a investir dinheiro…

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Os preços dos equipamentos são hoje mais acessíveis?

É um pouco ambíguo este tema. Existem milhares de equipamentos disponíveis para compra, milhares de acessórios, milhares de milhares de gadgets para comprar que podemos achar necessários a qualquer momento, mas, voltando a ser realista… depende sempre do que queremos ou fazemos da fotografia… 

 

Para além das iniciativas que tem havido, na área de fotografia, o que podia ser ainda feito para aproximar o público, em geral, dos trabalhos fotográficos aqui produzidos?

Há, e sempre vão existir, maneiras e modos para cativar e desenvolver o gosto pela fotografia. Mas aquele que eu acho mais importante e cativante, é a proximidade, a curiosidade, a empatia, a vontade de conhecer e dar a conhecer, não o nosso Eu, mas a nossa identidade.

E isso depende só de nós, dos nossos valores, da maneira como os ensinamos aos nossos esses mesmos valores. A aproximação ao público, depende do que lhe queremos mostrar, mas principalmente como lho vamos mostrar!

Atualmente, ao haver cada vez mais facilidade em qualquer pessoa ter acesso a material fotográfico, e cada vez mais existirem amantes de fotografia… o mercado começa a ficar saturado…e fútil, tendo por exemplo as redes sociais…qualquer um tira e coloca fotos online, com ou sem filtros, com ou sem sentido, com ou sem saber ou paixão… Isto dava pano para mangas… simplificando, acho que as relações interpessoais são o mais importante, o estar e saber estar neste mundo, o saber cativar o próximo, o cultivar amizades e valores, simplesmente ser sincero e humilde.

O publico reconhece isto e, no meu ver, é isto que pede.

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Tem algum episódio curioso, ou que lhe tenha deixado boas recordações, no decorrer da sua atividade fotográfica?

Este último ano, 2021, foi demasiado intenso por variadíssimos motivos. Pandemicamente falando, foi importante o poder “sair às escondidas” fazer coisas.

Foi importante devido a um projeto, intensificado pelo atual panorama mundial, mas, numa aldeia aqui na Beira Interior, onde apresentámos um projeto multimédia, com base nos sons das pessoas, locais, labores e sabores. No início seria uma coisa simples e rápida, mas que se desenvolveu para um episódio épico, com novas amizades e imensas histórias para mais tarde recordar. De um projeto que levaria dois meses a ser concretizado, passou para… ainda o estamos a rematar…

 

E episódio menos agradável?

A vida tem sido boa para mim… (risos)

 

Que projetos tem no campo da fotografia?

Como disse anteriormente, sou mais look and shot, deixo as coisas acontecerem naturalmente, gosto de saídas de campo de última hora.

Falando no último passeio com amigos, vou ter umas fotos minhas numa exposição na Camara do Fundão. É disto que gosto! E gosto de levar o meu puto… colocar-lhe uma câmara nas mãos... viver os sítios… abraçar valores e pessoas… Esse é o meu projeto!

 

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Trabalha também com vídeo. Esse labor foi paralelo à atividade fotográfica? E qual prevalece, atualmente?

Sim, o vídeo é, e sempre foi uma curiosidade minha. Os filmes de animação sempre me despertaram, desde miúdo, muita curiosidade. Como era aquilo feito?

Depois veio, com o tempo, a vontade de fazer, fazer coisas, experiências, vhs, digitais, mobile…comecei a editar e a ver um mundo realmente novo…depois veio a oportunidade de o fazer a um nível mais elevado, e a vontade de crescer foi ainda maior. Hoje, sinto-me um sortudo, por fazer aquilo que gosto, por me darem essa mesma oportunidade a nível profissional, e, por conseguir deixar a minha marca na nossa sociedade.

 

Os drones vieram facilitar, e ampliar, o desenvolvimento de trabalhos nessas duas áreas?

Vieram dar uma nova perspetiva. Quem nunca sonhou que podia voar? O drone, e a perspetiva que nos dá, é o que mais se assemelha a esse sonho de criança… E prevalece pela diferença do olhar, pois a vista de cima para baixo não está ao alcance de todos…

Abriu um novo caminho, um novo olhar, que anteriormente era só possível a uma elite de pessoas. É uma mais valia poder contar com esse novo olhar sim, tanto para a fotografia como para o vídeo, pois a dimensão da perspetiva é um abismo finalmente transponível e acessível.

 

A música é também uma das áreas onde se movimenta. Como começou e o que destaca no percurso até agora feito?

A música… A música sempre fez parte daquilo que sou. Ao escrever estas linhas, não consigo estar sem ouvir música, aleatória, como eu gosto, para novas sensações, gosto de descobrir coisas boas neste outro mundo saturado de bons e menos bons artistas…

Como comecei?... Não sei bem… (risos). Mas como Dj, foi na noite da Invicta… 1993/94…por aí… a curiosidade de “como se faz” sempre fez parte de mim, como já tinha dito… na altura era colaborador de um “barzinho da moda” ali na zona das Antas… gente chique... Comecei a falar com o dj residente, que também trabalhava numa rádio (já não me recordo qual) e a coisa lá foi começando a ser real e aconteceu naturalmente...até ao dia em que o dj , na pista alternativa de uma discoteca em Matosinhos, me pediu para segurar ali as pontas enquanto ele se “aliviava” e…nunca mais apareceu! Desde esse dia…

O que eu acho que me destaca… gosto de música, quase toda, acredito que em todos os estilos musicais há coisas boas e bem feitas…só é preciso encontrá-las!

 

Colaborações e projetos na área da música?

Atualmente, a minha realidade exige-me muito tempo. Deixei a produção musical de lado, a situação pandémica também veio afetar a abordagem de dj, exceto para rádios, em que, a nível de exemplo, na Rewindit.fm (rádio online sediada em Londres e com raízes na Guarda) tenho um programa mensal que já vai no quarto ano.

 

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Música, vídeo e fotografia. O que coloca em primeiro lugar?

A família, sem ela nenhum destes projetos paixão teria sentido!

 

 

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publicado às 12:00

João Neves: a Rádio não tem limites

por Correio da Guarda, em 27.10.21

 

 

João Neves é uma voz da rádio, com quem se relacionou bem cedo. Competente, trabalhador, cordial e discreto, João Neves sustenta que a “rádio não tem limites” e fala dela sempre com o entusiasmo dos primeiros tempos.

Natural do Porto, onde nasceu em setembro de 1962, João Crisóstomo das Neves veio ainda muito novo para a Mêda (onde tinha família), vivendo mais tarde em Trancoso e posteriormente na Guarda, onde reside. “Comecei por frequentar a segunda classe do ensino primário, na escola do Espírito Santo. Prossegui cá os estudos até ao secundário, começando logo a trabalhar. Mais tarde retomei a aprendizagem, tirando vários cursos profissionais, jornalismo escrito, e jornalismo de rádio, que me conduziram à profissão que tive; animador de emissão (locutor)”. Disse João Neves ao CORREIO DA GUARDA.

Para o nosso interlocutor de hoje, “a Rádio não deve ser o que as pessoas querem, antes o que nós queremos dar às pessoas. É assim que se “educam” os ouvintes. Se não lhes oferecermos programas de qualidade, elas cingir-se-ão apenas ao que se lhes propõe! Se for bom, tanto melhor.” Tem também, para além da rádio, outros gostos que nos revela. “Gosto de fotografia, automóveis antigos, música, conduzir, conviver com os amigos, e passar o maior tempo possível junto da família (o meu bem mais precioso). Gosto também de me manter anónimo quanto baste”.

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Quem é o João Neves?

Não sou eu que devo falar de mim. Essa pergunta seria mais bem dirigida a uma terceira pessoa. Atrever-me-ia a redirecionar-lhe a pergunta a si! Quem é o João Neves?

Considero-me um cidadão comum, com defeitos e virtudes. Sério, honesto, justo e apaixonado pela família. Detesto conflitos. Sou muito pacato e não gosto de vedetismo.

 

É um reconhecido apreciador de música. Quando começou a manifestar esse gosto? Houve alguma influência familiar?

O meu gosto pela música, começou era ainda criança.

Venho de uma família de classe média. A minha mãe era telefonista, e o meu pai radiotécnico. Frequentava ainda a instrução primária, quando, num Natal o papá me deu um rádio. Pequenino, vermelho com detalhes dourados, e que era também mealheiro, com chave e tudo! Creio que foi a partir desse dia, que o gosto de ouvir música nasceu. Foi, de facto, o meu pai que me “mostrou” a música.

 

Recorda-se dos seus primeiros vinis? Quais eram os cantores ou grupos preferidos?

Eram muito variados. Ainda hoje escuto os meus primeiros LPs oferecidos pelo meu pai, eram também os que ele escutava. Pink Floyd, The Doors, Led Zeppelin, Rolling Stones, Bob Marley, Genesis, Yes, a música eletrónica dos Tangerine Dream, Kraftwerk, Klaus Schulze, Vangelis, e o incomparável Andreas Vollenweider, que faziam “viajar” um solitário introvertido (o que eu era).

Tantos, tantos outros, que se tornaria enfadonho enumerar aqui.

 

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Ainda conserva os seus primeiros vinis? E cassettes?

Com certeza! Jamais me separarei deles, apesar de ter sido “acossado” várias vezes para os vender. E estamos perante grandes quantias que alguns colecionadores estavam dispostos a oferecer!...

Nunca os venderei. É o meu espólio. Pertence aos meus filhos, que também têm um gosto musical bastante apurado.

 

O que representam para si os antigos equipamentos de áudio? Tem algum preferido?

Tal como os discos, também preservo algum do primeiro equipamento. Guardo ainda o meu primeiro gira discos. A funcionar! Um “La Voix De Son Maitre”, pesadíssimo, trazido de França pelo meu pai, e que, no tempo do liceu, levava para as festas de adolescentes.

Depois veio o PE, e mais tarde, depois de vários “upgrades” (como se diz hoje) surge a Grundig. Uma aparelhagem por módulos, completa, com um som potente e límpido. Uma coisa sublime!...

Custou-me o equivalente a um ano de trabalho. Foi importada pelo representante da marca em Portugal. (Apenas pessoas com algum poder financeiro a podiam adquirir – foi um “investimento” enorme para mim).

 

Partilhava os gostos musicais com os seus irmãos?

Sim. Sem dúvida. Até porque na época, eu, como irmão mais velho, já trabalhava e tinha um salário, que acabava por empregar quase na totalidade, em discos e livros.

A minha mãe nunca me exigiu nenhuma “comparticipação” para ajudar nas despesas da casa, apesar se ser apenas ela a trabalhar para sustentar os três filhos e a nossa ama de toda a vida, que vivia connosco, e praticamente nos criou. A mensalidade era toda minha. Assim, nós três ouvíamos juntos a mesma música.

Nunca separámos os discos. Eram NOSSOS! Simples.

Tanto é, que hoje sou eu que tenho comigo todos eles, e os guardo qual tesouro bem preservado.

 

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Como surgiu, e quando, a sua ligação com a Rádio?

A minha ligação à Rádio começou muito cedo. Talvez aos 14 anos!

Andava já no ensino secundário, quando o meu pai me ofereceu um gravador de cassetes Philips portátil e um microfone, e muitas cassetes. Eu gravava tudo, mas mesmo tudo o que me parecia importante. Tinha sempre cassettes prontas.

Preservo ainda as gravações (áudio) que fiz da televisão aquando da queda da estação espacial Skylab, há mais de 40 anos, e que tanto alarido provocou na altura. Foi um acontecimento mediático mundial. Anunciava-se até a venda de capacetes para proteção dos eventuais destroços que atingissem a Terra.

E, ainda mais importante para nós portugueses, a notícia em direto da morte do então primeiro-ministro Francisco Sá Carneiro, a 4 de Dezembro de 1980, no trágico acidente de Camarate, como ficou conhecido, e que ainda hoje permanece um “mistério”. Foi arrepiante… depois de interrompida a emissão, fez-se um silêncio e “apagou-se” a imagem na televisão. Coloquei-me em frente ao ecrã, de microfone na mão (como se já soubesse o que iria acontecer!) e comecei a gravar. Foi Freitas do Amaral quem deu a notícia: …”…português… morreu Sá Carneiro…”…

Naquele momento, tive logo a noção de que estava perante um facto histórico, e que tinha na minha posse um verdadeiro “documento” áudio.

Isto para explicar o meu interesse pela comunicação áudio visual e pela informação. Creio que foi nessa altura que comecei a interessar-me verdadeiramente pela Rádio, e pelo poder que ela tinha.

Cerca dos 16 anos, mais coisa menos coisa, fui para a Rádio Altitude, levado pelo amigo Emílio Aragonês, onde desempenhei variadíssimas tarefas, mas bem cedo me colocaram no estúdio a fazer programas em direto. Estava verdadeiramente “No Ar”. Mas só mais tarde tive os meus próprios programas, à noite, que era o meu ambiente.

 

Foi fácil a adaptação ao ambiente da rádio?

Foi. Foi muito fácil para mim, pois eu vinha habituado a “mexer com os aparelhos”. Nunca precisei que ninguém me dissesse como funcionavam, ou para que servia este ou aquele botão. Hoje é completamente diferente. Também já sou mais velho… e nem sempre acompanhei a evolução tecnológica.

 

Quais foram os seus primeiros trabalhos e em que programas?

Como disse, fiz vários programas. Desde os discos pedidos, até “ler” os jornais na antena.

Quando o então presidente da república Mário Soares fez uma presidência aberta pelo distrito da Guarda (1988), eu estive todo o tempo, desde a abertura até ao fecho da estação (Rádio Altitude), em antena. Foi nesses dias que fiz de tudo, incluindo os noticiários, pois que os restantes companheiros jornalistas, seguiam a comitiva em permanência para dar aos ouvintes toda a informação.

Depois tive os meus próprios programas. Fazia as noites na Rádio Altitude, das oito à meia-noite, e foram programas de muita audiência, onde se inclui mais tarde, o famosíssimo “Música Pimba” que eu fiz (durante a primeira hora), não por apreciar esse “tipo” de música (antes pelo contrário), mas por um desafio de um companheiro. Mal imaginava eu o sucesso que viria a ter, com os próprios cantores em estúdio e tudo! Eu era “falado” em todo o lado!

Alem de conversar com os ouvintes, cativava-os com a minha maneira de ser, calmo, atencioso e, obviamente, com a música que os “ensinei” a ouvir. O telefone tocava incessantemente. Sempre utilizei os meus discos. Cheguei a passar música em “exclusivo nacional”, pois costumava comprar muitos discos que mandava importar, muito antes de serem editados por cá. E assim fidelizava os ouvintes, que ouviam o que não estavam habituados a ouvir. E era ali que acontecia.

Tive patrocinadores do programa da noite, que pagavam, não só o meu salário, como ainda geravam receitas publicitárias para a Rádio. Fui o primeiro “avençado” a ter um ordenado fixo por mês. De referir que fui eu quem inaugurou o FM da Rádio Altitude, uma banda de frequência mais “pura” que fazia com que qualquer risco ou “pico” ou até pó que existisse num disco de vinil não passasse despercebido, ao contrário da Onda Média (AM). Daí também a minha preocupação em utilizar apenas os meus discos (sempre muito bem preservados e limpos).

 

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Teve também programas de que foi responsável. Quais os que gostou mais de produzir?

Como já disse, foram, sem dúvida, os programas da noite. Que aliás mantive, na Rádio F, de que também fui fundador, em 1990. (Era o único animador de emissão no quadro de profissionais).

 

Quais os/as colegas que recordas dessa época?

Recordo todos eles. Todos foram muito importantes na minha formação profissional e pessoal. A todos deverei uma parcela da minha limitada sabedoria, pois a Rádio não tem limites. Auto regenera-se ao longo do tempo. Hoje é completamente diferente do meu tempo. Mas a essência e os princípios do que se deve ou não deve fazer, mantêm-se.

Não destaco nenhum companheiro em especial para evitar esquecer-me de algum. Como disse todos foram importantes para mim. Guardo-os no coração.

 

Como era a relação que se estabelecia com os ouvintes?

Era uma relação óptima e verdadeira. Hoje não é assim!

Estabeleciam-se amizades, algumas que ficaram prá vida. Houve namoricos… e ainda alguns “amargos de boca”!... mas regra geral travavam-se conhecimentos sadios.

Muitas das vezes nem era preciso o contacto físico. As amizades fluíam através da antena…

 

As pessoas identificavam-no no exterior, reconheciam a sua voz?

Eu era um “ilustre desconhecido”.

As pessoas conheciam e “amavam” a minha voz (se assim posso referir-me à minha ferramenta de trabalho). Mas isso era o suficiente para elas. Sabiam que eu estava ali para lhes fazer companhia com a minha música, mas também para ouvir, off record, os seus desabafos e até os seus segredos. Confiavam no locutor como se fosse da família. Chegaram a levar-me o jantar, guloseimas, flores, alguém me fez uma vez uma camisola de lã cinzenta (que eu adorava e usei até deixar de servir) … e por aí em diante.

Mas também houve casos complicados, que se mantiveram vários anos, inclusivamente depois de casar, e que me obrigaram a trocar de número de telefone, por exemplo. Sabiam de cor todos os meus passos e horários, “ameaçaram” suicidar-se, trinta por uma linha! Hoje rio-me daquele tempo louco!

 

Como era feita a seleção musical para os programas que apresentava?

O critério era sempre a qualidade, embora houvesse uma seleção muito variada.

Eu mostrava-me aos ouvintes, como era, através da música. Apesar do meu inglês não ser, nem sequer razoável, o importante para mim, além das palavras, era a melodia.

O som é que me fazia viajar. E era assim que eu gostava de me apresentar a quem me ouvia. Eram passadas muitas “mensagens” para o lado de lá do microfone!

 

Como era a relação entre a Rádio e a Cidade/Região? As pessoas apreciavam a rádio?

Naquela época a Rádio tinha um papel muito importante nas pessoas. Além de informar, era a companhia. Era um ponto de referência. “Ouvi no rádio que…”. “O rádio disse que…”. As pessoas se queriam saber alguma coisa, ligavam o rádio, e telefonavam muito, também a dar “notícias” do que acontecia junto delas, nas suas terras. Não havia ainda telemóveis, nem internet...

 

Tem algum episódio que possa ilustrar essa relação?

Por exemplo um apelo para recolha de donativos, que viriam a ajudar os pais de uma criança a levá-la para Inglaterra, a fim de ser sujeita a um tratamento médico, que não havia cá.

Outro caso em que se tratava de uma família que tinha imensas dificuldades e vivia em condições precárias. Também foi ajudada.
Mas já não me lembro de pormenores, nem isso é importante. O importante era mesmo sentirmo-nos úteis.

Isso era prática corrente na Rádio, sempre que alguém necessitava.

A Rádio desempenhava também um papel social e solidário muito importante.

 

Qual foi a sua experiência mais positiva na rádio? E a mais negativa?

A experiência mais positiva foi poder fazer o que sempre gostei. A música, e o contacto com as pessoas. Mas nunca gostei nem pretendi ser conhecido! Antes reconhecido. Amei muito a Rádio, em devido tempo.

Quanto à questão mais negativa, prefiro, neste momento, não me pronunciar!... (Mas a esta distância, lido pacificamente com a situação!)

 

Tem também feito publicidade, na rádio. Gosta desse trabalho?

Com toda a sinceridade… Não!

É outra etapa da minha vida. Sempre a Rádio, mas agora desempenhando outras funções, pois todos estes anos me deram o “conhecimento de causa”, eu diria!

Estou dentro da Rádio. Sei como funciona. O que se deve ou não fazer. Terminarei a minha carreira nas atuais funções; administrativas e comerciais. (A minha voz, já não é o que era! Hoje não gosto de me ouvir!).

 

A rádio do passado e do presente: diferenças, semelhanças, desafios?

A Rádio evoluiu muito, e está em constante mutação.

Apesar de hoje os ouvintes serem mais exigentes, a rádio é contudo, mais fácil. Tudo é digital.

Hoje com um simples “clique” chega-se a todo o lado, e faz-se praticamente tudo. A tecnologia está ao nosso serviço e disposição.

Tenho para mim que o futuro da rádio passará para as plataformas digitais “online”. Acaba-se o acto de sintonizar o rádio.

 

Hoje é mais fácil o acesso à produção de programas de rádio?

Sem dúvida. Apesar de ser primordial ter, cada vez mais, conteúdos de qualidade. Caso contrário, satisfarão apenas uma imensa minoria.

Sempre fui apologista de que a Rádio não deve ser o que as pessoas querem, antes o que nós queremos dar às pessoas. É assim que se “educam” os ouvintes. Se não lhes oferecermos programas de qualidade, elas cingir-se-ão apenas ao que se lhes propõe! Se for bom, tanto melhor.

 

Acha que a história da Rádio, em Portugal, passa também pela Guarda?

Claro que sim. Até porque é na Guarda que está a rádio local mais antiga de Portugal. Desde 1948. A Rádio Altitude.

 

Os carros, em especial os clássicos, têm merecido a sua atenção e entusiasmo. Teve inclusivamente, uma página sobre “Os Matrícula Preta”. Como surgiu este gosto e o projeto que desenvolveu?

“Os Matrícula Preta” é uma página onde eu e o meu filho João Paulo mostramos as fotos dos carros pré clássicos e clássicos que circulam pelo país com matrículas de fundo preto e numeração branca, e que vamos captando por aí.

O conceito surgiu da junção de dois gostos de família; a fotografia e os automóveis. “Os Matrícula Preta” começaram por ser um blogue, até 2006, tendo depois surgido com uma página no facebook.

Este hobby familiar, uma comunidade em constante crescimento e evolução, conta já com 5162 seguidores, e foi inclusivamente tema em destaque num programa na Rádio Altitude. Todos os veículos presentes são efetivamente fotografados por nós, únicos administradores da página.

O surgimento “oficial” de  “Os Matrícula Preta” no Facebook, a 9 de Outubro de 2011, acabou por rapidamente se revelar um projeto interessante a todo o tipo de públicos e faixas etárias. 

Apesar de estar “adormecido” há cerca de dois anos, por motivos de ordem pessoal, contamos permanecer nesta rede social com a divulgação de mais exemplares. (Temos ainda em arquivo milhares de fotos por publicar, obtidas em vários pontos do país).

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Que outras coisas gosta de fazer, nos seus tempos livres?

Além de ouvir música, gosto de ler, navegar na net, (conhecer coisas novas, pesquisar, informar-me, etc.), fotografar e viajar (adoro conduzir – gostava de fazer uma “volta a Portugal com a minha máquina fotográfica”. Hoje muito mais acessível, devido ao digital! Mas esta ideia já tem muitos anos).

 

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Como vê, hoje, a cidade onde vive?

Vejo a Guarda como sempre vi. Apesar de ter havido alguma evolução ao longo de todos estes anos, para quem cá está, isso não é muito percetível, no imediato. Contudo, hoje vive-se muito melhor. Aqui sim. Temos qualidade de vida!

 

O que desejava para esta cidade e região?

O que seria preciso nesta terra? Talvez indústria, para que as pessoas se fixassem cá. Com isto, o comércio também cresceria.

Pouco mais temos além de serviços.

 

O que representam para si os amigos?

Simples. É preciso tê-los. E saber onde estão quando precisamos deles. (Felizmente tenho alguns!).

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Vinis

por Correio da Guarda, em 09.12.16

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Vinil...

por Correio da Guarda, em 31.01.16

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B.Riddim hoje no TMG

por Correio da Guarda, em 29.01.16

    

     No espetáculo a realizar no auditório do Teatro Municipal da Guarda (TMG) vai ser apresentado hoje, pelas 21h30, o último trabalho de Luís Sequeira, conhecido no universo musical pelo nome artístico de B.Riddim.

    “Bubble Clocks" é o seu terceiro vinil, sucedendo a "(In)Theory" e "Magic My Ear", uma vez mais com selo da editora londrina Third-Ear. O anterior EP contou com o apoio de Pearson Sound, Ellen Allien, Emika ou Benji B e este seu último trabalho já teve especial destaque, por exemplo, na Deep House Amsterdam, revista dedicada à música electrónica, para a qual gravou um Live Set exclusivo, disponível em podcast.

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     B.Riddim continua “a mostrar o seu talento e linhagem musical, num brilhante EP baseado na sua imagem de marca: tridimensionalidade no "beat" com uma linha de baixo bem rica e demarcada em torno de synths com uma sonoridade intrínseca e autêntica.”

   Evidenciado por destacados artistas internacionais, “Bubble Clocks" tem como ponto alto "Talking Proud", tema construído em torno de “uma das melhores vozes de sempre do universo jazz: Nina Simone."

    Luis Sequeira (B.Riddim), produtor/compositor e MC, nasceu na Guarda onde estudou e residiu (aqui impulsionou o projeto G-Ward) até iniciar, em Madrid, a sua formação na área de engenharia de som. A capital espanhola foi, aliás, o ponto de partida para novos rumos. A sua experiência passa, além de Portugal, por países como Espanha, Canadá, México e Reino Unido, onde reside.

    Os bilhetes para o espetáculo de hoje, no TMG, podem ser comprados aqui.

 

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B.Riddim apresenta novo trabalho no TMG

por Correio da Guarda, em 24.01.16

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     No auditório do Teatro Municipal da Guarda (TMG) vai ser apresentado no próximo dia 29 de Janeiro, pelas 21h30, o último trabalho de Luís Sequeira, conhecido no universo musical pelo nome artístico de B.Riddim.

    “Bubble Clocks" é o seu terceiro vinil, sucedendo a "(In)Theory" e "Magic My Ear", uma vez mais com selo da editora londrina Third-Ear. O anterior EP contou com o apoio de Pearson Sound, Ellen Allien, Emika ou Benji B e este seu último trabalho já teve especial destaque, por exemplo, na Deep House Amsterdam, revista dedicada à música electrónica, para a qual gravou um Live Set exclusivo, disponível em podcast.

    B.Riddim continua “a mostrar o seu talento e linhagem musical, num brilhante EP baseado na sua imagem de marca: tridimensionalidade no "beat" com uma linha de baixo bem rica e demarcada em torno de synths com uma sonoridade intrínseca e autêntica.”

    Evidenciado por destacados artistas internacionais, “Bubble Clocks" tem como ponto alto "Talking Proud", tema construído em torno de “uma das melhores vozes de sempre do universo jazz: Nina Simone."

   Luis Sequeira (B.Riddim), produtor/compositor e MC, nasceu na Guarda onde estudou e residiu (aqui impulsionou o projeto G-Ward) até iniciar, em Madrid, a sua formação na área de engenharia de som. A capital espanhola foi, aliás, o ponto de partida para novos rumos. A sua experiência passa, além de Portugal, por países como Espanha, Canadá, México e Reino Unido, onde reside.

   Atualmente, e para além da música, Luís Sequeira está também ligado à atividade radiofónica (relação que vem já desde a infância), produzindo, semanalmente (a partir de Londres para a Rádio Altitude) o programa Rewind It.

    Os bilhetes para o espetáculo do próximo dia 29, sexta-feira, podem ser comprados aqui.

    www.briddim.com

 

 

 

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publicado às 18:20

Vinis...

por Correio da Guarda, em 13.05.15

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