Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Guarda: Bloco de Partos encerrado

por Correio da Guarda, em 12.09.22

 

O Bloco de Partos do Hospital Sousa Martins está encerrado, desde as 9 horas de hoje, até às 9 horas de amanhã, dia 13 de setembro. 

Esta "contingência", como é referido na nota distribuída à comunicação social pela Unidade Local de Saúde da Guarda, ocorrerá também no dia 16 de setembro, no período das 9 às 15 horas. "O Conselho de Administração e a equipa médica do Serviço de Obstetrícia da ULS da Guarda não se têm poupado a esforços para evitar falhas nas escalas do Serviço", é afirmado na informação que foi divulgada.

Nos dias mencionados "manter-se-á o normal funcionamento do Serviço de Urgência Ginecológica e Obstétrica. Mantém-se a Urgência Interna com normal funcionamento."

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:47

Sousa Martins: devoção popular na Guarda

por Correio da Guarda, em 18.08.22

 

Na Guarda, à entrada do Parque da Saúde, o busto do médico Sousa Martins é diariamente o ponto de convergência de muitos crentes da sua acção milagrosa, na linha de uma devoção popular que se manifesta, também em Lisboa (no Campo de Santana) ou em Alhandra. Hoje, 18 de agosto, assinala-se o aniversário da sua morte, ocorrida em 1897.

Sousa Martins - Hospital da Guarda _HS .jpg

O singelo monumento que se ergue dentro dos muros do ex-Sanatório da Guarda, a que a Rainha D. Amélia atribuiu o nome deste distinto clínico, continua a ser alvo permanente de preces e agradecimentos. Emoldurado de flores e envolvido em diferenciadas manifestações de agradecimentos por graças ou auxílios recebidos, junto dele chegam pessoas dos mais diversos escalões sociais ou culturais.

Oriundas um pouco de toda a região, preferem realçar a fé que depositam na intervenção e auxílio de Sousa Martins, invocando, na maioria dos casos, graves situações de saúde ou momentos de grande desespero. Qualquer hora do dia é propícia para alguns momentos de recolha espiritual e de preces que radicam na intimidade ou no sofrimento pessoal; mesmo à noite há quem vá ali rezar ou acender uma simples vela.

Ao serem questionados sobre o motivo que as conduz até ao busto daquele clínico as pessoas, regra geral, são parcas em palavras e querem o anonimato, embora declarem que têm “muita fé no irmão Sousa Martins”, sustentem a “ajuda recebida” e o considerem um santo.

Esta devoção de muitos residentes, ou não, nesta zona do interior não é apenas de hoje; aliás o nome de Sousa Martins está associado à Guarda desde o início do século passado, mercê da estrutura sanatorial que existiu nesta cidade.

A toponímia guardense consagra, igualmente, a memória deste vulto da medicina portuguesa, numa das ruas do moderno Bairro da Senhora dos Remédios, ele que é lenitivo para a dor ou sofrimento de muitos cidadãos anónimos, como se pode deduzir das placas de agradecimento ou objectos de cera deixados junto do seu busto.

 

  • O homem e o médico

 

José Tomás de Sousa Martins nasceu em Alhandra, a 7 de Março de 1843, no seio de uma família com escassos recursos económicos. Orfão de pai, aos sete anos, foi com a idade de doze trabalhar como praticante para a Farmácia Ultramarina, em Lisboa, propriedade de um tio seu, Lázaro Joaquim de Sousa Pereira.

Frequentou o Liceu Nacional de Lisboa e a Escola Politécnica; com aulas de manhã, trabalhava de tarde na farmácia e à noite dava explicações de forma a conseguir receitas para as despesas inerentes à sua formação académica. Concluído o curso de farmácia, em 1864, continuou a frequentar a Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, terminando o curso de medicina aos 23 anos, em 1866; foi sempre um aluno distinto.

Eleito, em 1868, sócio da Sociedade de Ciências Médicas, em 1872 Sousa Martins leccionava já na Escola Médico Cirúrgica, onde viria a reger as cátedras de Patologia Geral, Semiologia e História da Medicina; exerceu actividade clínica no Hospital de S. José, em Lisboa, numa época em que a tuberculose ceifava anualmente milhares de vidas.

Em 1881 a Sociedade de Geografia de Lisboa promoveu uma Expedição Científica à Serra da Estrela, a qual foi integrada, entre outros, por Sousa Martins; dessa iniciativa resultou a elaboração de relatórios das várias secções científicas, que aparecem compilados num volume intitulado “Expedição Científica à Serra da Estrela” e, dois anos depois, o livro “Quatro Dias na Serra da Estrela”, da autoria de Emídio Navarro. A expedição teve o mérito (e sobretudo através da determinação de Sousa Martins), de chamar a atenção dos meios científicos e clínicos para as condições que a região oferecia no tratamento da tuberculose.

Sousa Martins defendeu a implantação de Casas de Saúde nesta zona, impulsionando a fundação, em 1888, do “Club Herminio”, uma associação de carácter humanitário que se manteve durante cerca de quatro anos; no verão desse ano, e correspondendo aos argumentos de Sousa Martins e de Guilherme Teles de Meneses, o médico Basílio Freire, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, instalou-se na Serra da Estrela, onde assegurou consultas gratuitas aos doentes que o procuravam.

Os esforços que Sousa Martins desenvolveu, fortalecidos pelas suas esclarecidas convicções, em muito contribuíram para a construção do Sanatório que viria a ter o seu nome, perenemente ligado à mais alta cidade de Portugal; para a Guarda vieram milhares de doentes que procuravam aqui a cura desta doença infecto-contagiosa provocada pela micro-bactéria conhecida por “bacilo de Koch”.

 

  • O primeiro sanatório da ANT

 

A Rainha D. Amélia materializou no sanatório guardense (o primeiro a ser construído pela ANT, inaugurado a 18 de Maio de 1907) a homenagem a Sousa Martins, atribuindo a esta instituição o nome daquele clínico, cuja acção e dinamismo ela tinha já evocado numa intervenção pública da Associação Nacional aos Tuberculosos, realizada em 1889. Sousa Martins, refira-se, tinha falecido dois anos antes, em Alhandra, no dia 18 de Agosto de 1897, depois de ter sido atingido pela tuberculose.

O Rei D. Carlos comentaria que se tinha apagado “a mais brilhante luz” do seu reinado. Guerra Junqueiro, referindo-se à personalidade de Sousa Martins, escreveu que ele se deu “como o Sol dá a luz, aos miseráveis, aos tristes, aos sonhadores. Foi o amigo carinhoso e cândido, dos pobres e dos poetas. A sua mão guiou, a sua boca perdoou, os seus olhos choraram. Teve sorrisos para a graça, enlevos para a arte, lágrimas para a dor”.

Numa cidade que não esquece o homem, o médico e o cientista cujo nome foi dado a um dos mais destacados sanatórios de altitude, permanece a devoção popular e a afirmação, a muitas vozes, da sua influência espiritual.

 

Helder Sequeira

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 13:49

O Poder dos Museus

por Correio da Guarda, em 18.05.22

 

O Dia Internacional dos Museus é hoje assinalado.

Criado em 1977 pelo Conselho Internacional de Museus (ICOM), este dia (18 de maio) pretende promover, junto da sociedade, uma reflexão sobre o papel dos museus no seu desenvolvimento.

Em 2022 o Dia Internacional dos Museus é assinalado sob o tema “O Poder dos Museus”, tendo subjacente a intenção de explorar o potencial dos museus para produzir mudanças positivas nas suas comunidades. Este objetivo desenvolve-se em três vertentes: o poder de alcançar a sustentabilidade; o poder de inovar nas áreas da digitalização e acessibilidade; o poder de reforçar a comunidade através da educação.

Em Portugal, nas últimas décadas, aumentou significativamente, o número de museus; o distrito da Guarda não ficou fora dessa tendência. A pandemia veio, entretanto, a colocar fortes constrangimentos aos museus, que perderam visitantes e receitas, obrigando à adoção de diferenciadas estratégias e planos.

Claro que a designação de museu implica ter em conta o perfil e as características da instituição museológica. De acordo com o ICOM, por museu deve entender-se “uma instituição permanente, sem fins lucrativos, que adquire, conserva, investiga, comunica e exibe para fins de estudo, educação e lazer, testemunhos materiais do homem e do seu meio”.

É inquestionável que o museu assume, cada vez mais, um eminente papel pedagógico e didático, afirmando-se, simultaneamente, como um eficaz meio de comunicação. Numa sociedade onde, face às transformações económicas, se dá uma maior atenção à ocupação dos tempos livres, ao turismo e à cultura, compreende-se que seja reforçado o papel dos museus como centros de conhecimento e de ofertas plurifacetadas, aproveitadas pela escola.

As conceções hodiernas do museu têm conduzido, nas últimas décadas, à criação de novos e inovadores espaços museológicos, de temáticas diferenciadas, e outrossim a uma nova prática na forma de expor os objetos e de os fazer “falar”. A nova museologia abriu promissores horizontes, mais abrangentes do grande público.

De um modo geral, as comunidades locais não geram mecanismo e atitudes de salvaguarda dos seus valores patrimoniais, já que do texto legal à atuação prática medeia, como sabemos, uma enorme distância. É que, muitas vezes, falta o primeiro impulso ou a consciência clara do caminho a seguir. É fundamental, neste contexto, desenvolver uma forte sensibilização, das pessoas e entidades, para que não se percam os valores existentes, assegurando a sua transmissão e conhecimento às gerações futuras.

O Museu está no centro deste processo e daí que o seu desenvolvimento tem de passar pelo apoio do público, do cidadão. O empenho e envolvimento dos amigos dos museus assegurará uma imagem diferente destas instituições junto da comunidade. O museu não é, hoje, “um mercado do tempo livre”, na elucidativa expressão de Francisca Hernández Hernández, mas um lugar de convivência e de encontro, na aceção mais lata da palavra. Assim, é fundamental que se amplie o número dos amigos dos museus e se valorizem, cada vez mais, estas instituições.

Nunca será demais sublinhar que “os museus são um importante meio de intercâmbio cultural, enriquecimento de culturas e desenvolvimento de compreensão mútua, cooperação e paz entre os povos”. Hoje, mais do que nunca, importa destacar a cooperação e a paz.

O Dia Internacional dos Museus é celebrado numa data particularmente importante para a Guarda; tenhamos em conta a inauguração do Sanatório Sousa Martins, em 18 de maio em 1907. Uma efeméride de que falamos já neste jornal e a qual gostaríamos de articular com a temática que temos estado a abordar. É que a ideia e a proposta de um Museu do Sanatório Sousa Martins parecem ter ficado pelo caminho…pesem os esforços e a investigação desenvolvida, mormente por Dulce Helena Borges (cujo trabalho é de toda a justiça relembrar).

Exposição sobre o Sanatório .JPG Exposição sobre o Sanatório, realizada no Museu da Guarda (1994), dirigido, então, por Dulce Helena Borges.

 

Será oportuno recordar que, no ano 2000, uma comissão mandatada pela Administração do Hospital da Guarda efetuou o levantamento do espólio que seria destinado a um Museu do Sanatório Sousa. O que seria, desde logo, instituição única, com estas características, a nível nacional.

O trabalho desenvolvido, nessa altura, nos vários edifícios permitiu identificar e inventariar muitos objetos e equipamentos que pertenceram à antiga unidade de tratamento da tuberculose. A relação do material identificado, bem como as atas das reuniões da referida comissão foram oportunamente entregues à direção da unidade hospitalar em referência. Há anos, chegou a ser anunciada, na Guarda a criação do Museu da Saúde, que teria um âmbito nacional. Tempo depois, em Lisboa, foi assinado um protocolo entre o Instituto Nacional de Saúde “Doutor Ricardo Jorge” e a Associação Portuguesa da Indústria Farmacêutica com vista à implementação de um Museu da Saúde.

Face às mudanças físicas e estruturais operadas nos vários edifícios existentes no Parque da Saúde (e nas intenções que têm sido anunciadas, mas como intenções valem o que valem…), urge acautelar, salvaguardar, o espólio ainda existente, definindo séria e responsavelmente um espaço condizente; honrando também a memória de clínicos cuja atividade profissional engrandeceu a Guarda.

Por várias vezes aqui acentuámos a importância que tem o conhecimento de personalidades ligadas à Guarda, quer pelo nascimento, quer por laços afetivos ou profissionais. O reencontro com essas pessoas e a salvaguarda da sua memória e obra, viabiliza uma valorização citadina, numa simultânea homenagem a quem protagonizou a afirmação e o engrandecimento da cidade.

Fará, assim, todo o sentido recordar médico Lopo José de Figueiredo de Carvalho, a propósito do aniversário do seu nascimento, ocorrido no passado dia 3 de maio; um distinto clínico que está ligada à cidade da Guarda e ao Sanatório Sousa Martins, de que foi o primeiro diretor. Ainda no Parque da Saúde, o outrora denominado pavilhão novo, que ladeia atualmente a Av. Rainha D. Amélia, completa o 69º aniversário; foi inaugurado, a 31 de maio de 1953, ainda com Ladislau Patrício a dirigir o Sanatório.

Pavilhão D. António de Lencastre HS  .JPG Pavilhão D. António de Lencastre, um dos edifícios do Sanatório Sousa Martins (Guarda)

 

Neste Dia Internacional dos Museus, que evoca o poder da instituição museológica, não será despropositado desafiar entidades, investigadores e cidadãos a refletirem e agirem no sentido de não ser apagada uma importante página da história da Guarda do passado século, bem como da história da saúde e da tuberculose em particular.

 

Hélder Sequeira 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:00

 

Sanatório da Guarda - Pavilhão D.António de Len

O centésimo décimo quinto aniversário da inauguração do Sanatório da Guarda ocorre hoje, dia 18 de maio.

Esta instituição, recorde-se, foi uma das principais instituições de combate e tratamento da tuberculose em Portugal.

A designação de “Cidade da Saúde”, atribuída à Guarda, em muito se fica a dever à instituição que a marcou indelevelmente, ao longo de sete décadas, no século passado.

A Guarda foi, nessa época, uma das cidades mais procuradas do nosso país; a afluência de pessoas deixou inúmeros reflexos na sua vida económica, social e cultural.

A sua apologia como localidade “eficaz no tratamento da doença” foi feita por distintas figuras, pois era “a montanha mágica” junto à Serra. Muitas pessoas (provenientes de todo o país e mesmo do estrangeiro) subiam à cidade mais alta de Portugal com o objetivo de usufruírem do clima de montanha, praticando, assim, uma cura livre, não sendo seguidas ou apoiadas em cuidados médicos.

As deslocações para zonas propícias à terapêutica “de ares”, e a consequente permanência, contribuíram para o aparecimento de hotéis e pensões. Isto porque não havia, no início, as indispensáveis e adequadas unidades de tratamento; uma situação que originou fortes preocupações nas entidades oficiais.

No primeiro Congresso Português sobre Tuberculose, o médico Lopo de Carvalho tinha já destacado os processos profiláticos usados na Guarda.

Este médico foi um dos mais empenhados defensores da criação do Sanatório guardense (do qual viria a ser o primeiro direto), que seria inaugurado, a 18 de maio de 1907, com a presença do rei D. Carlos e da Rainha D. Amélia.

O fluxo de tuberculosos superou, largamente, as previsões, fazendo com que os pavilhões construídos se tornassem insuficientes perante a procura. O Pavilhão 1 teve de ser aumentado um ano depois, duplicando a sua capacidade.

Um novo pavilhão foi acrescentado, em 1953, aos três já existentes. O Sanatório Sousa Martins ganhou, consequentemente, maior dimensão e capacidade de tratamento dos tuberculosos.

Anotar a vergonhosa realidade dos antigos pavilhões e a passagem dos 115 anos após a inauguração deste Sanatório, não é um mero exercício de memória ritualista. É evidenciar o estado lastimoso em que se encontra o património físico de uma instituição com merecido relevo na história da saúde em Portugal.

Um Santório ligada à solidariedade, à cultura e à história da radiodifusão sonora portuguesa, mercê da emissora aqui criada (Rádio Altitude).

Como já tínhamos escrito, é mais do que tempo para soluções e iniciativas concretas, em prol da reabilitação e aproveitamento desta memória, agonizante, no centro da cidade mais alta de Portugal.

 

Hélder Sequeira

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 08:36

A propósito dos pavilhões do Sanatório…

por Correio da Guarda, em 21.04.22

 

O passado passou. O presente agoniza.” Estas palavras de Miguel Torga podem ser uma legenda adequada para a imagem atual dos emblemáticos pavilhões do antigo Sanatório Sousa Martins.

Recentemente líamos, nas páginas deste jornal [O Interior], que tinha sido equacionada a decisão de transferir os serviços da Unidade Local de Saúde “A Ribeirinha” para o pavilhão D. António de Lencastre (e não Filipa de Lencastre como por vezes aparece nalgumas publicações ou declarações públicas…), após a necessária recuperação e adaptação.

Sanatório da Guarda - Pavilhão D.António de Len

Pavilhão D. António de Lencastre (Sanatório Sousa Martins, Guarda).

 

Esperemos que a ideia não seja mais uma das intenções manifestadas a propósito da recuperação dos degradados edifícios do antigo Sanatório Sousa Martins (SSM), sem concretização objetiva.

Aliás, ao longo de décadas, têm sido apresentadas várias soluções. Recordemos, a propósito o artigo de Martins de Queirós (o último diretor do SSM) publicado em 15 de dezembro de 1986, no jornal Notícias da Guarda, sob o título “A respeito da Saúde na Guarda – carta aberta à Senhora Ministra da Saúde”.

Referindo-se à reconversão do Sanatório, defendia a utilização das infraestruturas daquela unidade de “modo a que, nesta área de 27 hectares, se exercessem todas as disciplinas médico-sanitárias”, pensando esse espaço como “Cidade-Saúde”. O projeto daquele clínico tinha subjacente a sua permanente preocupação pela “procura de soluções para que os Serviços constituíssem fonte de dignificação e prazer para quem os presta e uma esperança reconfortante para quem os recebe”.

Martins de Queirós retomou, no mês seguinte, a explanação das suas ideias, no Notícias da Guarda, em artigos como “A Guarda à procura do hospital que lhe é devido” e “Ainda a propósito de Saúde”; neste último texto defende o projeto de um Centro Policlínico a instalar no Pavilhão I, do ex-Sanatório Sousa Martins.

Ainda em dezembro de 1986, Arminda Cepeda (administradora hospitalar), num artigo intitulado “Hospital Distrital da Guarda poderá passar para categoria inferior”, interrogava-se sobre o “que é feito do Plano Diretor para o nosso hospital, plano que previa o seu alargamento e junção de instalações, gizado e concebido há mais de 10 anos e que “jaz” nas gavetas dos gabinetes ministeriais, só porque “não há verbas, enquanto outros hospitais, já de grande porte, se vêem contemplados com obras de ampliação, no mínimo, megalómanas?”…

Decorridos estes anos, todos sabemos como tem sido a evolução do processo da nossa unidade hospitalar e, sobretudo, o sucessivo adiamento de um plano de recuperação e de utilização, adequada, dos antigos pavilhões do Sanatório, mormente dos edifícios D. António de Lencastre e Rainha D. Amélia.

Sanatório da Guarda - Pavilhão D. Amélia - HS.J

Pavilhão Rainha D. Amélia (Sanatório Sousa Martins, Guarda)

 

Daí que se justifique, mais uma vez, sublinhar a importância da preservação do património de uma cidade que esteve na vanguarda da luta contra a tuberculose. Tanto mais que no próximo dia 18 de maio ocorrerá a passagem do centésimo décimo quinto aniversário da inauguração do Sanatório da Guarda, que foi – repetimos – uma das principais instituições de combate e tratamento da tuberculose, em Portugal.

A designação de “Cidade da Saúde”, atribuída à Guarda, em muito se fica a dever à instituição que a marcou indelevelmente, ao longo de sete décadas, no século passado. A Guarda foi, nessa época, uma das cidades mais procuradas do nosso país; a afluência de pessoas deixou inúmeros reflexos na sua vida económica, social e cultural.

A sua apologia como localidade “eficaz no tratamento da doença” foi feita por distintas figuras, pois era “a montanha mágica” junto à Serra. Muitas pessoas (provenientes de todo o país e mesmo do estrangeiro) subiam à cidade mais alta de Portugal com o objetivo de usufruírem do clima de montanha, praticando, assim, uma cura livre, não sendo seguidas ou apoiadas em cuidados médicos.

As deslocações para zonas propícias à terapêutica “de ares”, e a consequente permanência, contribuíram para o aparecimento de hotéis e pensões. Isto porque não havia, no início, as indispensáveis e adequadas unidades de tratamento; uma situação que originou fortes preocupações nas entidades oficiais.

No primeiro Congresso Português sobre Tuberculose, o médico Lopo de Carvalho tinha já destacado os processos profiláticos usados na Guarda. Este médico foi um dos mais empenhados defensores da criação do Sanatório guardense (do qual viria a ser o primeiro direto), que seria inaugurado, a 18 de maio de 1907, com a presença do rei D. Carlos e da Rainha D. Amélia.

O fluxo de tuberculosos superou, largamente, as previsões, fazendo com que os pavilhões construídos se tornassem insuficientes perante a procura. O Pavilhão 1 teve de ser aumentado um ano depois, duplicando a sua capacidade. Um novo pavilhão foi acrescentado, em 1953, aos três já existentes. O Sanatório Sousa Martins ganhou, consequentemente, maior dimensão e capacidade de tratamento dos tuberculosos.

Anotar a vergonhosa realidade dos antigos pavilhões e a passagem dos 115 anos após a inauguração deste Sanatório, não é um mero exercício de memória ritualista. É evidenciar o estado lastimoso em que se encontra o património físico de uma instituição com merecido relevo na história da saúde em Portugal.

Um Santório ligada à solidariedade, à cultura e à história da radiodifusão sonora portuguesa, mercê da emissora aqui criada (Rádio Altitude). É mais do que tempo para soluções e iniciativas concretas, em prol da reabilitação e aproveitamento desta memória, agonizante, no centro da cidade mais alta de Portugal. 

in O INTERIOR, 20|04|2022

 

Helder Sequeira

correio.da.guarda@gmail.com

 

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:20

Dia Mundial da Tuberculose

por Correio da Guarda, em 24.03.22

 

O Dia Mundial da Tuberculose é hoje (24 de Março) assinalado, sob o tema "Investir para acabar com a tuberculose. Salvar Vidas".

Este dia comemora a data em que Robert Koch, no ano de 1882, anunciou a descoberta do Mycobacterium tuberculosis, o bacilo que causa a tuberculose (TB).

Apesar de ser uma doença evitável e curável a TB “permanece como um importante problema de Saúde Pública"-

Radiografia - T.jpg

Recorde-se que o Sanatório Sousa Martins, inaugurado na Guarda em 18 de Maio de 1907, foi uma das principais unidades de saúde de Portugal no combate contra a tuberculose.

A designação de “Cidade da Saúde”, atribuída à Guarda, em muito se fica a dever a uma instituição que a marcou indelevelmente, ao longo de sete décadas, no século passado. Embora a situação geográfica e as especificidades climatéricas associadas tenham granjeado à Guarda esse epíteto, a construção do Sanatório Sousa Martins certificou e rentabilizou as condições naturais da cidade para o tratamento da tuberculose, doença que vitimou, em Portugal, largos milhares de pessoas.

A Guarda foi, nessa época, uma das cidades mais procuradas de Portugal, afluência que deixou inúmeros reflexos na sua vida económica, social e cultural. A apologia da Guarda como localidade “eficaz no tratamento da doença” foi feita por distintas figuras da época. Esta cidade começou a ser “a montanha mágica” junto à Serra, envolta ainda na bruma da atração e do desconhecido, palco frequente do magnífico cenário originado pela neve, que bem se podia transpor para o quadro descrito por Thomas Mann, no seu conhecido romance. Muitas pessoas vinham para a Guarda com o objetivo de usufruírem do clima de montanha, praticando, assim, uma cura livre, não sendo seguidas ou apoiadas em cuidados médicos. As deslocações para zonas propícias à terapêutica “de ares”, e consequente permanência, contribuíram para o aparecimento de hotéis e pensões, dado não haver, de início, as indispensáveis e adequadas unidades de tratamento.

 Esta situação desencadeou fortes preocupações nas entidades oficiais da época. Em 20 de Outubro de 1897, o Governador Civil da Guarda, José Osório de Gama e Castro, tornou público um Edital/Regulamento relativo às “Providências Prophiláticas contra o contágio da Tuberculose”. O referido regulamento ditava normas concretas para os “donos ou gerentes das hospedarias,” bem como para aos proprietários de casas alugadas, onde não podiam ser recolhidos “promiscuamente indivíduos sãos e doentes”.

Em 1895, realizou-se o primeiro Congresso Português sobre Tuberculose, dirigido por Augusto Rocha. Nesse congresso, Lopo de Carvalho (que viria a ser o primeiro Director do Sanatório Sousa Martins), já uma eminente figura da Medicina, discursou sobre os processos profiláticos usados na Guarda. Lopo de Carvalho foi um dos mais fervorosos defensores da criação do Sanatório – de que, aliás, viria a ser o primeiro diretor – o que aconteceu por decisão da Rainha D. Amélia, Presidente da Assistência Nacional aos Tuberculosos (ANT), instituição criada em 26 de Dezembro de 1899.

 A história da luta contra a tuberculose, em Portugal, cruza-se, assim, com a história da Guarda; um registo que deixamos a propósito da comemoração do Dia Mundial da Tuberculose.

 

Hélder Sequeira

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 08:30

A propósito de percursos geológicos urbanos...

por Correio da Guarda, em 19.01.22

 

O interior, enquanto território, é particularmente enfatizado em períodos de ambiente eleitoral, no decorrer dos quais são lançadas expetativas e reeditadas promessas.

As suas características e potencialidades são, repetidamente, evidenciadas, mas os sublinhados feitos esmorecem rapidamente com o avanço no calendário dos decisores. Há exceções, mas ficam subtraídas no confronto com a análise e implementação global de projetos anunciados, ou na morosidade do seu desejado desenvolvimento.

Têm sido vários os contributos – vertidos em textos e publicações – em distintas áreas de intervenção e saber que apontaram ideias, caminhos, planos, soluções para a rentabilização e promoção das nossas multifacetadas realidades.

Desde logo para a identidade e perfil da mais alta cidade de Portugal, lembrada pela sua história, pelos seus monumentos, por instituições marcantes no seu desenvolvimento, pela pureza do seu ar, pelo clima ou por personalidades a ela ligadas, que se distinguiram/distinguem na ciência, literatura, arte ou pensamento.

Contudo, muito pouco se tem falado na geologia da Guarda e no campo de conhecimentos que se abre nesta matéria e pode/deve ser mais um relevante meio de atrair as atenções sobre a cidade e região. Daí que seja oportuno, e justo, falarmos do artigo publicado por Elsa Salzedas no último número da revista “Praça Velha”, editada pela autarquia guardense.

Começando por lembrar que a Geomorfologia “foi, desde sempre, um elemento de destaque na região da Guarda, tendo condicionado a sua localização e o povoamento que foi sendo feito a partir da zona de maior altitude”, a autora elucida que “ao explicar-se aos cidadãos a geologia num contexto urbano, pretende-se valorizar a pedra, a partir do conhecimento científico e destacar a sua enorme importância para a natureza e para a humanidade”.

Rochas e Catedral da Guarda - fot Helder Sequeira.

Elsa Salzedas argumenta que “a rocha local é um bem extremamente valioso, não só do ponto de vista científico, mas ainda arquitetónico, económico e histórico”.

Com conhecimento e objetividade, a articulista interpela-nos se esta “dura” realidade tem sido devidamente valorizada. A resposta não é difícil…Não temos dado a importância devida ao nosso granito, suporte de uma perene identidade, marca de um território.

“A Guarda é – escreve Elsa Salzedas – uma enorme pedreira de granito, de onde se extraiu a pedra utilizada nas construções antigas e recentes, nos monumentos medievais, barrocos e modernos, nos edifícios públicos, no castelo, nas muralhas, em estátuas, em pavimentos, etc.”. Deixa, seguidamente, uma interessante e exequível proposta que deverá merecer a devida atenção por parte das entidades e serviços em cuja área de influência se enquadre esta ideia; ou seja a definição de vários percursos geológicos urbanos que “seduzissem todos os cidadãos, pela partilha do conhecimento simples, mas com rigor científico, levando-os a amar a sua região e a admirar a evolução da utilização do granito ao longo dos estilos arquitetónicos, numa abordagem integrada e holística”.

Deseja-se, assim, que (escreve a concluir o seu artigo) o cidadão seja despertado e levado a “amar mais e proteger esta região, das mais exclusivas do país, sentindo-se fortemente identificado e orgulhoso com o seu território”.

Este orgulho no espaço geográfico onde vivemos, alicerçado num permanente empenho da valorização das nossas terras e suas especificidades, é fundamental para o desenvolvimento de uma intervenção cívica, para uma postura de eficaz crítica construtiva e espírito reivindicativo, balizado pelo interesse coletivo.

A proposta atrás referida é mais um interessante caminho para partirmos à (re)descoberta da cidade, conciliando-a com outros roteiros citadinos em torno de referências/ligações com ilustres figuras da literatura, da arte, da ciência, religião, vida militar, saúde e solidariedade social; será um encontro com a Guarda culta, de que falava J. Pinharanda Gomes num dos seus livros, esclarecendo que “a culta é de certo modo oculta, porque a imediateidade quotidiana nos inibe de viajar para além do visível”.

Haja determinação, planificação responsável, cooperação, rentabilização dos recursos humanos e financeiros, aposta nas capacidades existentes e estratégias claras para incrementar o estudo e a divulgação da cidade e do território onde se insere.

Uma desejada evolução que terá de contar com a predisposição e disponibilidade de todos, que sintam e vivam a região, pois não haverá novas realidades se continuarmos “socialmente, uma coletividade pacífica de revoltados”, na elucidativa expressão de Miguel Torga.

Sejamos, pois, firmes como rochas (lembrando a conhecida divisa ostentada por uma antiga unidade militar que aqui esteve sedeada) na defesa, estudo, desenvolvimento e promoção da(s) nossa(s) terra(s).

 

Hélder Sequeira

(in O Interior, 19|jan|2022)

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:43

Janeiro sem álcool

por Correio da Guarda, em 11.01.22

 

 

APEF_31_Dias_Sem_Álcool.jpg

A Associação Portuguesa para o Estudo do Fígado (APEF) está a promover uma ação nacional de consciencialização para a doença hepática alcoólica, uma consequência que advém do elevado consumo de álcool.

A iniciativa sob o mote “31 Dias Sem Álcool”  surge no âmbito do desafio “Janeiro Sem Álcool”, e decorre neste primeiro mês do ano, nas redes sociais da associação, com o objetivo de alertar a população para os danos relacionados com o álcool.

“Com esta ação pretendemos ajudar as pessoas a adquirir um estilo de vida mais saudável durante o ano que agora começa. É importante que a população adulta pense nos seus comportamentos a nível social e nas consequências que os mesmos trazem para a sua saúde; e que alerte os seus jovens para os riscos do consumo de bebidas alcoólicas. A verdade é que é possível viver sem álcool não invalidando que as pessoas não se possam divertir, relaxar ou socializar", afirma José Presa, presidente da APEF.

A iniciativa “Janeiro Sem Álcool” ocorre em simultâneo em vários países, desde 2013. Em Portugal é a primeira vez que a campanha é promovida.

Segundo dados do relatório do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), de 2019, que considera indivíduos a partir dos 15 anos, o consumo de álcool por parte dos jovens portugueses é elevado, uma vez que, em 2019, 84,5 por cento dos inquiridos, com 18 anos, 70,1 por cento, com 16 anos, e 37 por cento, com 14 anos, afirmou ter ingerido bebidas alcoólicas nos últimos 12 meses.

O estudo demonstra também que o consumo de álcool é mais elevado por parte dos homens, com 19,4 litros de puro álcool per capita por ano, do que das mulheres, que consomem 5,6 litros.

A Associação Portuguesa para o Estudo do Fígado (APEF) é uma associação científica, sem fins lucrativos, que congrega profissionais do setor da saúde que se interessem pelas doenças do fígado e das vias biliares. Mais informações aqui

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:49

A doente do quarto 23

por Correio da Guarda, em 16.12.21

 

O tempo presente, os cenários da atual pandemia, a realidade hospitalar, o papel dos profissionais de saúde e a passagem do 138º aniversário de nascimento de Ladislau Patrício suscitaram a releitura de “A Doente do quarto 23”.

Uma peça de teatro onde, como sublinhou Antonieta Garcia, “perpassa um agudíssimo sentido do valor da vida humana, do absurdo da sua condição”, colocando o autor “do lado dos que não desistem, não se contentam, dos que questionam esperançadamente o tema da cura”. É certo que o terceiro diretor do Sanatório Sousa Martins enquadra esta obra no contexto da época, mas nem por isso deixa de ter ideias e verdades que estão ainda hoje válidas, atuais.

“A Doente do quarto 23” foi um dos mais divulgados trabalhos de Ladislau Patrício, tendo esta peça sido também representada em Goa. No panfleto de divulgação, este médico era apresentado como eminente tisiólogo português” e, após ser mencionado como diretor de um dos melhores sanatórios de Portugal, destacavam-no como “como cientista de nomeada, de fama internacional na sua especialidade”, assim como “figura prestigiosa no mundo das letras”; “A doente do quarto 23 é uma jovem meiga e formosa, atingida pela tuberculose na flor da idade. Filha e neta de tuberculosos, o implacável bacilo de Koch não a poupa por sua vez”.

Mas quem foi Ladislau Patrício? Um guardense ilustre, médico distinto, apreciado escritor, um acérrimo defensor da sua terra, das qualidades das suas gentes, das suas riquezas históricas e culturais.

Ladislau Fernando Patrício nasceu na Guarda, a 7 de dezembro de 1883. Após concluir os estudos nesta cidade foi para Coimbra, onde conviveu “fraternalmente com alunos das diversas Faculdades, alguns dos quais se distinguiram mais tarde, pela vida fora, no campo das ciências, das artes, das letras e da política”, nomeadamente António Sardinha, Alfredo Pimenta, Hipólito Raposo, Alfredo Monsaraz, Cândido Guerreiro, Ramada Curto, João de Barros, entre outros.

Antes de terminar a formação conducente à obtenção da licenciatura em Medicina, Ladislau Patrício prestava já cuidados médicos – como ele próprio revelou – tendo “praticado no Sanatório” em 1907, aquando da entrada em funcionamento desta unidade de tratamento da tuberculose. Em 1909 foi opositor a um concurso para exercer as funções de médico municipal em Loulé, cargo para o qual foi nomeado em 2 de setembro desse ano.

Com a implantação da República, este clínico teve uma fugaz passagem pela vida política; em 1910 aparece como Vice-Presidente da Comissão Executiva do Centro Republicano da Guarda, presidida por seu cunhado, o poeta Augusto Gil. Em 1911 esteve à frente dos destinos do município guardense, mas foi breve a sua permanência como autarca.

Augusto Gil, juntamente com o matemático Mira Fernandes (também cunhado de Ladislau Patrício), tentou convencer o médico guardense a fixar-se em Lisboa, para aí desenvolver a sua vida profissional; contudo nunca o conseguiu demover da ideia de permanecer na localidade que o viu nascer.

O registo biográfico de Ladislau Patrício inclui ainda a referência à passagem pelo Liceu Nacional da Guarda, onde lecionou a partir de 1911. Entre 1917 e 1919 dirigiu o Sanatório Militar de S. Fiel, em Louriçal do Campo (Castelo Branco), atividade da qual deixou interessantes indicações num relatório que publicou, em 1920, sob o título “A Assistência em Portugal aos feridos da guerra por tuberculose”.

Em 1922, a convite do médico Amândio Paul, passou a trabalhar (como subdiretor) no Sanatório Sousa Martins, dirigido nessa época por aquele clínico, a quem viria a suceder, em 1932; nessas funções permaneceu até 7 de dezembro de 1953. Os sanatórios constituíram, aliás como aconteceu com os Dispensários, um dos pilares essenciais da luta contra a tuberculose

Na vida de Ladislau Patrício sobressai, de facto, um “autêntico sacerdócio pela Guarda e pelos doentes do Sanatório”, onde, como é sabido, se encontravam doentes de todas as condições sociais e económicas; provenientes de das mais diversas origens geográficas. A sua atividade clínica estendeu-se igualmente ao Hospital Francisco dos Prazeres, tendo presidindo à Liga de Amigos daquela unidade de saúde; trabalhou ainda na Delegação de Saúde da Guarda e no Lactário desta cidade, após a morte do Dr. António Proença

No ano de 1939, Ladislau Patrício foi eleito vogal da Ordem dos Médicos, estrutura profissional que teve como primeiro bastonário o Prof. Elísio de Moura. Na sequência de uma proposta do médico guardense foi criada, no âmbito da Ordem, a especialidade de Tisiologia, “com o acordo unânime dos membros do Conselho Geral”. Especialidade cuja criação tivemos o ensejo de evocar, no passado ano, no Congresso Português de Pneumologia.

Ladislau PATRÍCIO - Médico .png

 

No Sanatório Sousa Martins sabemo-lo empenhado em apoiar, em finais da década de quarenta, a radiodifusão sonora; o primeiro regulamento da Rádio Altitude (1947), estação que nasceu naquele espaço sanatorial, tem a chancela de Ladislau Patrício,

Um dos seus principais sonhos concretizou-se em 31 de maio de 1953, com a inauguração do Pavilhão Novo do Sanatório Sousa Martins (paralelo à atual Avenida Rainha D. Amélia), um “edifício gigantesco com 250 metros de comprido e com 350 leitos destinados exclusivamente a doentes pobres”; meses depois completou 70 anos, “atingindo assim o limite de idade oficial como delegado de Saúde e diretor do Sanatório. Em finais de fevereiro de 1955 Ladislau Patrício foi viver para Lisboa; aí escolhido para Presidente do Conselho Regional da Casa das Beiras, função que viria mais tarde abandonar, a seu pedido.

Ladislau Patrício, que faleceu na noite de Natal de 1967, é um dos nomes consagrados na galeria de médicos-escritores, tendo manifestado bem cedo a sua faceta de homem de cultura. No Sanatório Sousa Martins apoiou projetos com indiscutível alcance cultural e social; veja-se o caso do jornal “Bola de Neve” e da Rádio Altitude.

O “Bacilo de Kock e o Homem” é uma das suas obras, de cariz científico mais divulgadas, a qual se integra na Biblioteca Cosmos, dirigida por Bento de Jesus Caraça; “Altitude: o espírito na Medicina” é outro dos mais significativos trabalhos de Ladislau Patrício, reunindo impressões, “vivas reações dum temperamento perante determinada série de factos”, onde o autor deixa vincado que o médico, para além das suas funções técnicas, “tem uma missão espiritual a cumprir. A sua atitude na vida, e sobretudo no tratamento dos doentes, deverá ser a do sábio que procura a verdade e a do artista que cultiva a ilusão”. Ladislau Patrício escreveu ainda “Teatro Sem Actores” “Casa Maldita” e “O Mundo das Pequenas Coisas”, para além da peça a que aludimos no início, merecedora de ser, de novo, levada à cena.

Lembrar o nome de Ladislau Patrício (que integra a toponímia da Guarda e de Lisboa) é um inquestionável ato de justiça, pelo seu exemplo, pela sua dedicação aos doentes, pela postura intransigente na defesa dos cuidados de saúde e do progresso da mais alta cidade de Portugal.

Hélder Sequeira

 

In "O Interior", 16/12/2021

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:20

Urgências...

por Correio da Guarda, em 30.11.21

AVISO.jpg

Este aviso, que foi colocado nas Urgências do Hospital Sousa Martins, na Guarda, deve merecer a atenção e grande preocupação de todos nós, residentes ou não na área de influência desta unidade de saúde.

São conhecidas as carências de profissionais, em diversas valências; insuficiências e necessidades cíclica e repetidamente acentuadas; alheamento do poder central, ainda que amortecido de quando em vez por uma outra promessa fugaz. De promessas, adiamento da resolução dos problemas, desconsideração por quantos aqui vivem e trabalham estamos todos fartos.

Este, não só pela forma como pelo conteúdo, é um sinal de um alarme já numa graduação muito elevada! E não esqueçamos que este é um tempo de muitas diferenças, de pandemias, de resiliências…tempo de não poder adoecer!...

Espera-se a Urgência adequada para que não continue a ser recorrente uma insuficiência de meios e condições num Hospital cuja relevante ação e resposta à região onde está inserido deve ser lembrada e reforçada.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:48


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2014
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2013
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2012
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2011
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2010
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2009
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2008
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D

Contacto:

correio.da.guarda@gmail.com