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Memória dos Lusitanos

por Correio da Guarda, em 01.08.13

 

     A inscrição lusitana em caracteres latinos constitui um dos principais atractivos do Cabeço das Fráguas.

    Localizado a este da freguesia da Benespera, a escassos quilómetros da cidade da Guarda, o Cabeço das Fráguas é um importante sítio arqueológico (datado do séc. V a.C.) e antigo local de culto a divindades lusitanas. No topo da montanha, a 1015 metros de altitude, existe um planalto onde estavam implantadas edificações religiosas, sendo ainda evidentes vestígios de muralhas em todas as portelas do cabeço.

    O percurso ao Cabeço das Fráguas, apenas acessível a pé, foi encenado no passado ano, num interessante, importante e pedagógico projecto da Culturguarda.

     A primeira referência à inscrição rupestre existente numa rocha do Cabeço das Fráguas remonta, segundo alguns investigadores, ao século XVIII, mas anotações feitas pelo pároco de Pousafoles do Bispo sobre uma laje com caracteres indecifráveis.

 

     O texto, estudado na segunda metade do século passado, descreve um sacrifício de tipo suovetaurilia dedicado a várias divindades indígenas. Ao apresentar uma invocação religiosa de língua indígena em alfabeto latino, esta inscrição é considerada um importante testemunho da romanização dos cultos locais.

 

     “OILAM . TREBOPALA ./ INDI . PORCOM . LAE(uel B)BO ./ COMAIAM . ICCONA . LOIM/INNA . OILAM . VSSEAM ./ TREBARVNE . INDI . TAVROM./ IFADEM [...?]/ REVE . TRE [...]”

    "A Trebopala uma ovelha e a Laebo um porco, a Iccona Loiminna uma vaca (vitela?), a Trebaruna uma ovelha de um ano(?) e a Reva Tre-(?) um touro de cobrição”.

 

    Na sequência dos trabalhos arqueológicos que ali decorreram a partir de 2006 (conduzidos pelo Instituto Arqueológico Alemão de Madrid) foi dado novo contributo para um maior conhecimento da inscrição rupestre divulgada em 1943, pela primeira vez, pelo General João de Almeida e publicada, em 1956, pelo arqueólogo guardense Adriano Vasco Rodrigues, a quem se deve, aliás, o despertar da curiosidade por parte da comunidade científica.

    As últimas prospecções foram suscitadas, precisamente, pela existência de referida invocação às divindades e interesse em esclarecer o contexto arqueológico no qual terão decorrido os aludidos actos religiosos, assim como pela necessidade de conhecer melhor aquele recinto fortificado, ao qual se terão deslocado - para celebrarem os seus ritos – as populações das terras em redor, entre o século VIII a.C. e final do século I d.C. Nas imediações do cabeço foram encontradas 20 aras religiosas contemporâneas dos lusitanos, o que se reveste da maior importância já que, por comparação, em toda a província vizinha de Salamanca (Espanha) são conhecidas apenas 18.

    Em 2009, O Instituto Arqueológico Alemão de Madrid desenvolveu, com a colaboração do Museu da Guarda e da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, o projecto de moldagem da inscrição. O molde, processado por especialistas da Universidade Técnica de Berlim, integra, actualmente, a exposição permanente do Museu da Guarda, tendo sido já apresentado na mostra temporária "Religiões da Lusitânia. Loquuntur saxa" do Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa.

    Recorde-se que a primeira apresentação pública deste molde (cópia, à escala natural, do texto epigrafado na rocha) teve lugar há três anos, na exposição "Porcom, Oilam, Taurom |Cabeço das Fráguas, o santuário no seu contexto", realizada no Museu da Guarda. 

 

   Helder Sequeira

 

 

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