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Rádio e Inteligência Artificial

por Correio da Guarda, em 22.03.24

 

A rádio continua a ter um papel fundamental na informação regional e, com distinta flexibilidade, na aproximação às pessoas; seja no meio urbano ou rural. Como já escrevemos noutra ocasião, essa proximidade dever ser incrementada cada vez mais, possibilitando uma constante auscultação de anseios, registando as perspetivas sociais, económicas e políticas, dando voz às pessoas, ampliando a informação, levantando novas questões e problemas; importa que a rádio (e a imprensa) não se circunscreva às agendas informativas institucionais.

Sabemos que o atual cenário, em vários planos, é de apreensão e de difíceis desafios para a comunicação social regional e, obviamente, para rádio em particular face ao crescendo de exigências legais. Aliás é estranho, ou talvez não, que na recente campanha eleitoral pouco ou nada se tenha ouvido sobre a crise que afeta a comunicação social; crise que alguns analistas consideram se possa repercutir na significativa redução do número de profissionais que trabalham nas rádios, mercê da implementação progressiva da inteligência artificial (IA) nas emissões diárias.

Rádio e Inteligência Artificial_.jpg

A Inteligência Artificial apresenta novos caminhos para mais eficiência e múltiplas vantagens ao nível da melhoria da programação e interação com os ouvintes; para além da automação das emissões radiofónicas a IA apresenta-se como forte apoio para produção de notícias, definição da sequência musical e de um conteúdo programático convidativo e diferenciado. Através de algoritmos e modelos automatizados a IA tem a capacidade de proceder à análise de uma enorme quantidade de informação, identificando padrões e desencadeando, consequentemente, procedimentos adequados.

O acompanhamento constante das atualizações e publicações nas redes sociais pode ser efetuado de uma forma rápida, detetando tendências e assinalando notícias e temáticas que podem interessar aos ouvintes, despertando assim a sua atenção. Através de software adequado podem ser produzidas mensagens para as redes sociais assim como conteúdos destinados a plataformas digitais que ampliam o trabalho da estação emissora. Como escreveu Cristiano Stuani, a IA “pode utilizar-se para produzir textos e conteúdos para as redes sociais, personalizar anúncios e analisar dados de audiência, ampliando o alcance da marca e oferecendo publicidade mais relevante e efetiva para os anunciantes”.

No último ano a Inteligência Artificial tem vindo a aumentar a sua presença e influência no mundo da rádio. Na Alemanha está já a funcionar, no âmbito de um projeto da Antenne Deutschland (AD), o canal Absolut Radio AI, que pode ser escutado em DAB +, sendo 100% produto da Inteligência Artificial. Com o recurso à tecnologia designada por Radio.Cloud é elaborada toda a programação, inserida a voz e definidos os intervalos musicais ou publicitários, apostando num auditório da faixa etária entre os 14 e 49 anos. O “animador de emissão” tem o nome de kAI. A diretora de programação da AD, Tina Zacher, afirmou a uma publicação da especialidade que as IA não irá substituir, nos próximos anos, os radialistas, mas “pode simplificar tarefas repetitivas, dando mais tempo para os profissionais da rádio serem criativos”.

O debate em torno das implicações da Inteligência Artificial no meio rádio é atual e necessário, bem como a necessidade de um melhor conhecimento da diversidade de aplicações disponíveis; ao nível da automação, utilização de voz, criação de cópias de conteúdos, novas fórmulas de atração de ouvintes. Acresce ainda a análise e clarificação das questões éticas, do impacto no emprego, da salvaguarda de direitos de autor e direitos conexos, da distinção de vozes criadas pela Inteligência Artificial.

Na área da indústria de equipamentos para radiodifusão não tem faltado quem argumente que o uso abusivo da Inteligência Artificial poderá criar situações indesejáveis; para outros ajudará a personalizar os conteúdos das emissões de rádio, a automatizar tarefas repetitivas e a melhorar a qualidade geral da programação. Sustentam, ainda, que a Inteligência Artificial pode viabilizar economia de tempo para as emissoras, ao assegurar conteúdos para os períodos da noite e madrugada, criando rapidamente podcasts e outros materiais de áudio online para sites. Aliás, ao nível da produção de podcasts, há empresas que perspetivam já para o corrente ano a disponibilização de tecnologia capaz de possibilitar a sua audição, por parte do público, na língua que pretendam. Naturalmente com as vantagens daí decorrentes e na expetativa de ampliação das mensagens publicitárias.

A utilização da inteligência artificial em novos equipamentos, produtos, serviços e inovações abre, assim, uma discussão ao nível político e ético, entre outras esferas de intervenção. Especialistas, nesta matéria, fizeram já notar a existência de questões legais sobre os direitos de propriedade e autoria de conteúdos criado por Inteligência Artificial; alertando também para a clarificação da forma como as emissoras podem proteger, legalmente, os conteúdos próprios.

Noutras perspetivas de análise, e sobre a problemática relativa à substituição dos animadores de emissão pela IA, é manifestada a opinião de que a Inteligência Artificial deve ser utilizada como ferramenta de ajuda à melhoria do fluxo de trabalho diário de apresentadores, programadores e jornalistas. Assim, é sublinhado que nesta matéria o grande benefício da IA, neste contexto, é assegurar as notícias locais e a identidade da emissora fora do horário normal de trabalho, quando ninguém está presencialmente; como sejam os períodos da noite ou em turnos de fim de semana. Daí que nomes conhecidos do mundo da indústria da rádio considerem que as aplicações de Inteligência Artificial, usadas pelas emissoras, vão preencher lacunas ao nível dos recursos humanos, não implicando a sua substituição; reforçam a vantagem de serem criados segmentos especiais em horários onde a presença do animador não está assegurada ou é inviável. Veja-se a realidade de tantas emissoras locais, mormente as sedeadas no interior de Portugal.

Espaços da programação onde podem pontuar as notícias locais, informação sobre as temperaturas e a previsão meteorológica ou, através de sistemas informáticos específicos, serem gerados podcasts sobre desporto, espetáculos culturais, tradições locais/regionais, roteiros turísticos, agenda de festividades.

Do outro lado no Atlântico, nos EUA, o RadioGPT (software com inteligência artificial vocacionado para a automatização das emissões de rádio) evoluiu já para um novo nível com o Futuri AudioAI, produzido pela Futuri Media, oferecendo uma presença em direto ao longo das 24 horas e durante todos da semana; garantindo, igualmente (e entre outras vantagens), a criação automática de podcasts e notícias para partilha.

A discussão sobre a importância, vantagens e perigos da Inteligência Artificial deve merecer a nossa melhor atenção. Embora se deva ter em conta que a IA pode ser um precioso auxílio dos profissionais da rádio (a par de uma ajuda importante na estratégia de conquista de novos públicos, da fidelização de ouvintes), não podemos esquecer a essência da Rádio.

A humanização deste meio de comunicação é fundamental e as pessoas não podem ser afastadas do processo evolutivo da Rádio, que continua a ter futuro, apesar dos múltiplos condicionalismos e desafios.

 

Hélder Sequeira

 

in O INTERIOR, 20mar2024

 

 

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publicado às 08:30

Descodificar a realidade...

por Correio da Guarda, em 20.03.20

 

Estamos a viver um tempo de incerteza, angústia e de novas experiências, mas também de afirmação de valores solidários face a uma ameaça real, inquietante, mortífera.

Há algumas semanas atrás, enquanto a presença do Covid 19 não se manifestava ainda em território nacional, alguns meios de comunicação enveredaram por um lamentável histerismo e ânsia de registo de casos, em vez de optarem por uma atitude pedagógica que servisse de alerta para os previsíveis cenários, suscitasse uma análise atenta das medidas a implementar, reduzisse a propagação do alarmismo.

Essa exagerada obsessão conduziu, desde logo, a uma inflamação noticiosa, arrastada, consequentemente, para as redes sociais; nestas, cresceu, diariamente, o número de especialistas em coisa nenhuma, debitando alarvidade e protagonizando dúbios e inconfessáveis aproveitamentos de uma realidade que merece uma abordagem diferenciada, serena, adequada.

A sensatez, o rigor e o equilíbrio informativo são fundamentais nesta como noutras situações de instabilidade, ameaça e perigo em que a credibilidade e objetividade das notícias devem constituir uma permanente preocupação de quem está nos media com verdadeiro sentido ético, deontológico e profissional.

Atitude que estabeleça uma fronteira precisa das falsas notícias veiculadas pelas redes sociais onde se ampliam a mesquinhez, a má formação, os ódios, a insolência, a preocupante falta de formação moral e cultural de muitas pessoas, tantas vezes escondidas atrás de um perfil falso; claro que há igualmente (e até em maior percentagem) posturas corretas, indicações insuspeitas, exemplos louváveis, iniciativas oportunas às quais, perante a quantidade de informação e comentários nem sempre é dada a atenção devida.

Redes Sociais -.jpg

Neste contexto de proliferação de falsas notícias é fundamental que os tradicionais meios de comunicação sublinhem a sua importante social e assumam, também nessas plataformas digitais, o seu papel de forma que o público os veja como referência informativa, credível.

É justo referir que no contexto local e regional tem existido essa preocupação, reconhecida pelo público mais atento aos textos produzidos. Contudo, as fake news, não sendo um fenómeno novo, nunca assumiram, como hoje, um contágio tão devastador que atinge mesmos os grandes e conceituados meios de comunicação; a natural tendência em dar em “primeira mão” uma notícia, antecipando-se à sua concorrência mais direta, leva à difusão de informação errónea…

Não é por acaso que tem vindo a aumentar por parte de instituições de ensino a preocupação em desenvolverem iniciativas destinadas a um melhor conhecimento dos mecanismos de informação e desinformação nas plataformas digitais, assim como a permitirem o uso de aplicações que viabilizam a validação da informação e descodificação das notícias falsas.

Assim, em situações como a que estamos a atravessar, com consequências ainda imprevisíveis, os media tradicionais lidam com dificuldades e responsabilidades acrescidas, tanto mais quanto por parte das estruturas/entidades nacionais nem sempre a gestão da comunicação tem sido a melhor, de forma a facilitar a recolha de dados precisos.

Sendo certo que a atual pandemia deve ser objeto de fundamentada preocupação, e suscitar as medidas e cuidados que exige, o alarmismo social deverá ser evitado. A comunicação social tem um papel importante a desempenhar, servindo esta experiência para se reformularem procedimentos e estratégias. (Hélder Sequeira)

in O Interior, 19|03|2020

 

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publicado às 21:55


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