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António Arede: a Rádio é uma paixão

por Correio da Guarda, em 12.10.21

 

António Arede nasceu para a rádio (por quem continua a nutrir uma grande paixão) na Guarda; precisamente na estação emissora que em 1948 começou a emitir oficialmente na cidade mais alta de Portugal.

A sua atividade radiofónica começou em 1973/74 na Rádio Altitude, tendo passado depois pela Rádio Renascença entre 1975 e 1990. No tempo das rádios-piratas iniciou a colaboração no RCI desde a sua criação, projeto que acompanhou nas diversas fases de expansão até à passagem para as instalações atuais.

Respeitado no meio rádio e do jornalismo pela sua larga experiência e pela sua exigência em termos de rigor e qualidade dos trabalhos que produz, António Arede é igual a si próprio, com inquestionável competência e saber, elevado sentido de humanidade e grande cordialidade.

Do seu percurso profissional destaca-se ainda a passagem pela RDP/Centro (Antena 1) e, mais recentemente pelo grupo Media Capital Rádios - Rádio Clube Português, Rádio Clube e pela M80 Rádio.

Com 65 anos, António Arede continua a fazer e a viver a rádio, sempre com a mesma entrega e paixão, abrindo igualmente porta para outra atividade que o tem entusiasmado, de que fala ao CORREIO DA GUARDA. “Hoje passo música dos anos 80 em todo o lado. Cada noite é um sucesso!...”

António Arede - estúdio da Rádio Altitude .jpg

Quem é o António Arede?

Jornalista, 65 anos de idade, apaixonado pela rádio e comunicação, tendo também a atividade de Dj como complemento.

 

És um apaixonado pela rádio e pelo jornalismo. Quando começou essa vocação?

Em finais de 1973, então pela mão do correspondente da RTP em Viseu, José Ayres, que pelos seus conhecimentos no meio conseguiu a minha entrada como colaborador da Rádio Altitude para a área da animação, na altura locução.

 

Nos tempos do liceu o som e a música envolveram-te em atividades. Que recordações gostarias de deixar aqui?

A criação, em 1973, de um núcleo de rádio no liceu, que transmitia música nos intervalos das aulas, através de um sistema interno de som, com colunas instaladas nos recreios e sala dos professores.

Tratava-se do grupo Geração de 60, que também implementou no liceu um grupo de Teatro e um jornal com o mesmo nome (Geração de 60), que na época era impresso em tipografia.

Ainda fiz parte do grupo de Teatro como ator e mais tarde como sonoplasta, uma vez que sentia queda para essa área.

 

Nessa época a inclinação era mais para a Rádio ou para o Jornalismo?

Na época a inclinação era mais para a área da rádio (animação), visto que o conceito de jornalista de rádio ainda não estava criado, as notícias eram lidas de recortes de jornais por alguém que tivesse a melhor voz.

 

A imprensa não suscitou tanto a tua atenção? Porquê?

Na altura não sentia interessa pela imprensa escrita, também porque nunca pensei vir a ser jornalista, e mesmo como jornalista sempre privilegiei o sector rádio, tirando uma pequena experiência na imprensa (jornal Notícias da Tarde, do Grupo JN) e a Agência de Noticias ANOP.

 

Desde cedo tiveste o teu próprio estúdio, com equipamento diversificado, e já distinto na época. Fala-nos dessa época e do trabalho que foi desenvolvido.

Em 1973 estava mais virado para a locução em rádio…era um mundo para mim; depois com o avançar dos anos, em 1975/76, tornei-me correspondente da Rádio Altitude em Viseu.

Foi a partir daí que desenvolvi as minhas próprias instalações criando um sistema para envio do som para a rádio via telefone com mais qualidade, facto que veio a evidenciar-se mais tarde também com a minha entrada para a Rádio Renascença, em 1976; estação que viria a abraçar através da influência do Antunes Ferreira (da Rádio Altitude) e do José Ayres de Viseu.

António Arede - na Rádio Altitude .jpg

Há algum equipamento, adquirido, que te tenha deixado um entusiamo especial? Gravadores de bobines…?

Tenho ainda alguns gravadores de cassetes da época… uns funcionam, outros não; um pequeno OB (como se chamava na altura) para tratamento do som no envio pelo telefone e uma máquina de bobines, que pouco usava na altura, tirando a TANDBERG de fita, portátil, da Rádio Altitude ou a UHER da Rádio Renascença.

 

Recordas-te dos teus primeiros vinis? Quais eram os cantores ou grupos preferidos?

Tudo o que tocava na altura. Eu comprava muita música de vinil, singles e Lps…todo o dinheiro que os meus pais me davam eu investia em música…ainda hoje possuo uma discoteca de milhares de exemplares em vinil e também agora em Cds

Quanto aos grupos preferidos da época, não posso deixar de referenciar os Beatles, os Rolling Stones, Creedence Clearwater Revival, Led Zeepllin, Pink Floyd,entre outros .

 

 

Ainda conservas os teus primeiros vinis? E cassetes?

Conservo tanto os vinis como as cassetes. Aliás no estúdio de radiodifusão que possuo atualmente, embora seja um estúdio moderno já com equipamento digital, também tem gravadores de cassetes a funcionarem, de onde destaco os velhinhos Marantz profissionais portáteis PM222.

Estúdio de António AREDE.jpg

Por essa altura acompanhavas, com frequência o José Ayres (que além de distinto fotógrafo trabalhava para a RTP). Qual foi a influência dele na tua atividade no campo da comunicação social?

Teve toda a influência. Aliás foi através dele que entrei no mundo da rádio e da comunicação…Foi a sua influência que conseguiu a abertura de portas na Rádio Altitude, a minha porta de entrada na Comunicação Social.

Outro homem muito importante para a minha integração foi o Antunes Ferreira que, desde o primeiro momento, me deu a mão e me ensinou bastante, tendo sido a influência para a minha entrada na Rádio Renascença.

AREDE RADIO RENASCENÇA.jpg

 

Como surgiu, e quando, a tua ligação com a Rádio Altitude?

Como já expliquei a minha ligação com a Rádio Altitude surge em finais de 1973 princípios de 1974… recordo-me que o meu programa que era gravado, começou ainda no tempo da censura.

Na altura a RA tinha dois administradores, o Antunes Ferreira e o Carvalhinho que era quem censurava os textos dos programas, e as notícias que iam ao microfone, pela voz do Vaz Júnior

 

Quais foram os teus primeiros trabalhos informativos para a Rádio Altitude?

Não me recorda já bem do ano, mas talvez em 1976. Eu ficava fascinado com a forma como se trabalhava... as gravações dos RMs (registos magnéticos) na “Ferrograph” (máquina profissional de fita magnética), onde se inseriam sem qualquer critério de importância de alinhamento as gravações a incluir nos noticiários do RA.

FERROGRAPH - foto.jpg

Foi reformada a redação talvez pelo ano de 1977/78 e foi criada uma redação em Viseu. Na altura tomávamos conta das notícias o Helder Sequeira, o Francisco Carvalho, o Emílio Aragonez, o António Jose Teixeira e eu.

Viseu enviava um pequeno noticiário com notícias da região que era inserido no noticiário das 12h30. Como a Rádio emitia em Onda Média, ouvia-se bem na região de Viseu, o que justificou a criação de uma segunda redação.

Eu gravava em minha casa as intervenções dos correspondentes da região de Viseu e inseria nos noticiários da Guarda, com outras noticias de Viseu ....depois a redação da Guarda prosseguia o noticiário

radio altitude - edifício .jpg

Asseguravas a cobertura informativa, quase diária, para os noticiários da Rádio Altitude. Como tinhas estruturada a tua rede de correspondentes e as tuas fontes de informação?

Criei então uma rede, que contemplava um correspondente em cada concelho, embora na prática só intervinham com a sua voz gravada os correspondentes de zonas onde a rádio entrava e era ouvida.

Os correspondentes eram a minha fonte de informação...depois havia a imprensa regional da época e os contactos na polícia e no hospital…tudo era tido em conta.

 

Que equipamentos utilizavas e como era feito o envio para os estúdios na Guarda?

O envio era feito pelo telefone através de um OB, muito rudimentar, construído por mim, embora mais tarde utilizasse o Shure da Rádio Renascença, uma vez que estava a trabalhar também com eles na área da informação.

Aquilo era uma pequena caixinha que se ligava através de duas pinças à caixa do telefone…depois punha-se o gravador em formato de gravação para amplificar a voz e o som lá saia com qualidade, muito diferente do som normal de telefone…(também servia para gravar os correspondentes) porque recebia e enviava pelo mesmo modo …mais tarde vieram os híbridos telefónicos e tudo ficou mais simples

 

Asseguravas também a cobertura do desporto?

Penso também que sim, embora só as notícias…que eram depois escrutinadas pela equipa do desporto do RA, mas não fazia relatos

 

Em Viseu a tua atividade dinamizou várias iniciativas, que tiveram como palco o Rossio e a Feira de São Mateus. O que recordas desse período?

O aniversario do meu programa de rádio no Altitude…o “Tempo de Juventude” que era gravado em Viseu nos estúdios da Electro Carmo, que a empresa criou para eu poder gravar em Viseu as emissões.

Na festa da aniversário que decorreu no Pavilhão da Feira de S Mateus foram envolvidas várias associações de Viseu e contou com teatro, folclore e grupos musicais.

A Rádio Altitude decidiu, então, vir a Viseu nesse dia com o Antunes Ferreira e o Luís Coito para me entregarem pessoalmente nesse espetáculo a medalha dos 25 anos do RA.

 

Quais os/as colegas que recordas dessa época, em Viseu e na Guarda?

Na Guarda o Abel Vergílio, o Vaz Júnior, o António Pinheiro, o Emílio Aragonez, o Antunes Ferreira, o Luís Coito, o Luís Coutinho, o Padre Vergílio Arderius, o Francisco Carvalho e o Helder Sequeira, entre outros.

 

As pessoas identificavam-no no exterior, reconheciam a tua voz? Como era a reação das pessoas?

Tinha uma voz que era agradável, e as pessoas identificam-me pela voz …eu era o magrinho da voz forte

 

O teu percurso na Rádio passa também pela Guarda onde tiveste funções diretivas no Altitude. Era a época das novas estações de rádio e de novos desafios. O que significou para ti esse tempo?

Foi uma grande experiência para mim ter vindo da RDP para a direção da Rádio Altitude, a convite da então Governadora Civil da Guarda, Marília Raimundo e do Helder Sequeira… Na altura ainda funcionava a onda média, mas já tinham o FM, e eu criei duas programações distintas, uma para FM outra para Onda Média.

Vim também a dirigir a informação da rádio, criando uma agenda de serviços para cobertura de acontecimentos, mas os tempos eram outros… havia outras ferramentas…surgiram os primeiros computadores então oferecidos pela Governadora Civil que vieram facilitar em muito a missão.

Os jornalistas escreviam as notícias à mão, mais tarde na máquina de escrever e por fim nos computadores onde se podia guardar tudo…foi a revolução; na técnica também deixamos de gravar em fita para passar a gravar em computador o que simplificou as coisas.

 

Como vias a relação entre a Rádio e a Cidade/Região? Há algum episódio que te tenha marcado?

 

A Rádio Altitude tinha muito prestígio na cidade e na região. A voz do Altitude era respeitada por todos.

As pessoas ligavam para a rádio para dar a conhecer este ou aquele acontecimento…até nos acidentes era para nós que as vezes ligavam primeiro.

 

Para além do Altitude há também uma ligação profissional a outras estações, nomeadamente à Rádio Renascença? Fala-nos dessa atividade e das estações onde ocorreu o teu trabalho como jornalista.

 

Como já referi anteriormente a minha ligação à RR passa pelo Altitude…fui indicado pelo Antunes Ferreira, quando a RR criou a equipa nacional de correspondentes distritais.

A RA era o correspondente na Guarda da Rádio Renascença e eu era o Correspondente de Viseu.

 

Até agora qual foi a tua experiência mais positiva na rádio?

A mais positiva foi o ter de assegurar a direção geral de uma rádio em Viseu (Rádio No Ar) e reformatar toda a programação, criando tipologias de programas de acordo com o publico alvo /ouvintes do segmento rádio.

Ao organizar a equipa, consegui aperceber-me das vocações de cada um e todos foram colocados no lugar certo, executando as funções para as quais estavam vocacionados (animação, jornalismo/noticiários/ reportagem de rua, e entrevista em estúdio), pelo que o resultado final foi fabuloso. A rádio subiu as audiências e começou a faturar em publicidade.

António AREDE no estúdio .jpg

A rádio do passado e do presente: diferenças, semelhanças, desafios?

Eu penso que no meio rádio no passado havia mais criatividade.

Os programas eram de autor, pensados e idealizados com muito cuidado. Escolhia-se criteriosamente a música a passar e os textos para complementar a produção dos conteúdos. Hoje as rádios passaram a ser playlists musicais...e são quase todas iguais nos conteúdos, o que é mau…faltam os programas de autor

 

Hoje é mais fácil o acesso à produção de programas de rádio?

É tudo mais fácil, devido às ferramentas existentes… as novas tecnologias. Hoje pode fazer-se rádio na Web a partir de casa, com pouco equipamento e muita qualidade. A informática veio revolucionar o meio rádio.

 

Atualmente, e sem perderes a tua ligação à música dos anos da tua geração, tens também trabalhado como DJ. Como surge esta faceta?

A atividade de DJ surge numa altura em que entro para o Grupo Media capital rádios, - Rádio Clube Português – Rádio Clube (projeto de rádio informativa) e M80 Rádio. Foi aqui que despertei a vocação de DJ ao ver os colegas de Lisboa a passarem música em festas da Rádio.

Aproveitei a minha passagem por Lisboa e tirei lá o curso de Dj no Centro de Formação para DJs da Pioneer (i4DJ). Tirei dois cursos e hoje passo música dos anos 80 em todo o lado. Cada noite é um sucesso!... Sou requisitado para muitas atuações, tendo os meses quase sempre fechados com datas para tocar, aos fins de semana.

DJ AREDE FOTO.jpg

É um trabalho que gostas de fazer?

Adoro pelo contacto com as pessoas, …depois é o tipo de música que faz mexer toda a gente.

 

Que outras coisas gostas de fazer nos teus tempos livres?

Oiço muito rádios estrangeiras temáticas, para ver as tendências e os estilos, gosto muito de ler, procuro estar ao par das inovações tecnológicas do meio rádio, e ver televisão, noticias, filmes e música. 

 

Como vês hoje a Guarda? Acompanhas o que se passa aqui?

Não estou muito a par do que passa na Guarda atualmente, mas devo confessar que gosto muito das pessoas da Guarda… sempre me trataram muito bem e souberam respeitar o meu valor.

 

Achas que as cidades da Guarda e Viseu estão mais próximas?

Acho que sim, mas no campo político a aproximação devia traduzir-se em cooperações mais alargadas que fomentassem mais valias para ambas as cidades.

 

H.S.

 

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publicado às 23:07

Luísa Coimbra: a menina da Rádio

por Correio da Guarda, em 14.08.21

 

Luísa Coimbra tem na rádio uma das suas paixões. A rádio cruzou-se na sua vida quando tinha 16 anos. Natural de Almofala, (Figueira de Castelo Rodrigo) onde nasceu em 1959, reside na Guarda desde os dois meses de idade.

“Mar de música, mar de gente” e “Sintonia” são alguns dos programas radiofónicos que evoca com saudade, agora que está desligada da rádio, de cuja magia nunca se afastou. Talvez por isso mesmo tenha criado o podcast “Menina da Rádio”, “um projeto pessoal, intimista, para deixar correr os “sentidos” como disse ao CORREIO DA GUARDA.

Nesta conversa fala-nos igualmente da cidade onde, referiu, faltam “novas oportunidades de trabalho”.

 

Luisa Coimbra.jpg

Como surgiu, e quando, a tua ligação com a Rádio?

Aos 16 anos, quando me inscrevi e participei num dos concursos da Rádio Altitude.

 

Foi fácil a adaptação ao ambiente da rádio?

Muito fácil. Jovem como era, tinha a certeza que aquele seria o meu caminho, contrariando embora todos os objetivos sonhados para mim, pelos meus pais.

 

Quais foram os teus primeiros trabalhos e em que programas?

Recordo-me muito bem eram fins-de-semana inteirinhos a passar “Discos Pedidos”, os programas da manhã “Mar de Música, Mar de Gente”, o programa “Sintonia” que me levou até às Produções Sintonia no Porto, na RDP - Rádio Guarda, a aposta na formação no âmbito do Jornalismo e, por último, a Rádio F e os programas da noite.

Luisa Gonçalves .jpg

Quais os/as colegas que recordas dessa época?

Todos sem exceção! Claro que uns marcaram mais do que outros.

Estive nas três estações de Rádio sempre por convite (o que muito me orgulha) sem querem magoar ninguém, lembro com muita saudade o João Lopes, e enfim o velho amigo Emílio Aragonez, a quem devo realmente esta grande paixão pela Rádio.

 

Como era a relação que se estabelecia com os ouvintes?

Íntima, verdadeiramente íntima!

Criei laços que guardo até hoje e que ficarão para sempre, na cumplicidade, no sorriso que transparecia e até nos muitos olhares de admiração/ interrogação, quando com surpresa me encontram ainda hoje na Junta de Freguesia … a pergunta que fica no ar… “Mas, não era a menina, a Luísa da Rádio? “

 

As pessoas identificavam-te no exterior?

Sim claro, vivíamos numa cidade pequena, a Rádio era companhia assídua de muita gente e todos nos conhecíamos.

 

Como era feita a seleção musical para os programas que apresentavas?

Todas as rádios por onde passei dispunham de uma discografia excecional, entre os velhinhos Singles, LPs, depois pelos CDs, procurava com alguma antecedência ir ao encontro dos gostos musicais dos ouvintes e fazer um programa onde acima de tudo estava o interesse por quem estava e ouvia no lado de lá.

 

Como vias a relação entre a Rádio e a Cidade/Região? As pessoas apreciavam a rádio?

Como já disse, creio que a Rádio tinha um grande poder, que é o poder de cativar, de informar e isso creio ter-se conseguido.

Eu pelo menos tenho a sensação de dever cumprido.

 

Tens algum episódio que possa ilustrar essa relação?

Puxando pela memória, recordo-me de alguns diretos feitos para a “Informação”, onde as populações se manifestavam, pela ausência do que consideravam essencial, quer pelos tantos convites que nos faziam e onde pude testemunhar/ vivenciar situações que em pleno Sec. XX, era na Rádio que se faziam ouvir…

Lembro-me por exemplo, num dos últimos trabalhos que fiz na Rádio F, com o meu querido Tó Jó (António Jorge Sepúlveda) de existir uma escola, no nosso concelho, onde a grande luta da professora era manter os meninos na escola, porque os pais exigiam que eles fossem trabalhar, logo pela manhã. Meninos a quem a professora levava o pequeno-almoço, porque sabia que estariam sem comer…

E enfim, tantos outros episódios, relatos de vidas com história…

 

Qual foi a experiência mais positiva na rádio? E a mais negativa?

Positivas todas...não tenho experiências negativas!

 

Os condicionalismos técnicos impediam a criatividade? 

Não gosto de dizer no “meu tempo”, porque o meu tempo é hoje, mas tenho para mim, que naquele período, tive tudo, em todas as Rádios e a criatividade surgia de forma natural.

Sempre me adaptei de forma fácil, aliás o meu gosto pela Rádio era tanto, que não havia impedimento algumJ, aliás conto em jeito de brincadeira um episódio que me aconteceu no primeiro dia, na minha estreia radiofónica.

Estava no estúdio na Rádio Altitude, ocupadíssima entre discos e publicidade e esqueci-me de fechar o microfone, quando irrompe pelo estúdio o saudoso Antunes Ferreira, que me diz “menina, menina tem o microfone aberto e só se ouve “Ai minha nossa senhora!… “

Bom, se fosse hoje, o desabafo seria outro com certeza… (risos)

foto Luisa Gonçalves .jpg

Quais as principais diferenças que notas entre a rádio de ontem e de hoje, nomeadamente ao nível dos estúdios e programação?

Estou longe da Rádio já algum tempo, por isso creio que apenas do que possa falar seja do que ouço e assim sendo, creio que se abusa demasiado das “play list”.

Julgo que a Rádio ainda hoje é, ou pelo menos para mim é, comunicação e não creio que hoje exista, pelo menos da forma como eu, e muitos outros como eu, a vivemos. 

 

Hoje é mais fácil fazer rádio?

Creio que hoje, é menos empolgante fazer Rádio.

São horas e horas de música...mas claro que existem exceções e os bons comunicadores continuam a existir!

 

Depois da rádio, como foi o teu percurso profissional?

Deixei a Rádio por opção, mudei de cidade, mudei de vida.

Hoje, e já há algum tempo, sou funcionária da Junta de freguesia da Guarda.

 

Após o teu regresso à Guarda houve novo contacto com a rádio?

Existiu sim, muito superficial.

 

Há algum tempo atrás iniciaste um podcast, sobre rádio. Como surgiu essa ideia e qual o principal objetivo?

Surgiu porque os meus filhos me conhecem como ninguém, sabem desta minha paixão e o Tiago, (filho do meio) que se move muito bem nesta área criou o “Menina da Rádio” que é tão só um passatempo que me transporta para “esses dias da Rádio” …

 

Como tem sido a reação das pessoas?

Creio que gostam, gostam de me ouvir.

E a mim a cima de tudo dá-me imenso prazer em fazer, em partilhar.

 

Gostavas de regressar ao trabalho numa rádio? E com que projeto?

A Rádio vai sempre fazer parte de mim… foram 20 anos, a fazer Rádio e claramente sim! Porque não, as noites da Rádio?

 

Achas que a história da Rádio, em Portugal, passa também pela Guarda?

Sem dúvida, ou não existisse a nossa velhinha Rádio Altitude com todo o seu saber, com toda a sua história da qual eu também faço parte.

 

Como vês hoje a Guarda?

Uma cidade “nova “, em expansão e quero acreditar com potencial para criar novos projetos e novos futuros.

 

O que falta na cidade?

Essencialmente novas oportunidades de trabalho.

 

Como gostas de ocupar os teus tempos livres?

Escrevendo, lendo e aprendendo e acima de tudo partilhando uma boa conversa, com bons amigos, como agora, o que naturalmente agradeço.

 

 

 

 

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publicado às 12:00

Francisco Carvalho: na Guarda da Rádio

por Correio da Guarda, em 30.06.21

 

 

Em 1973 Francisco Carvalho entrou para a Rádio Altitude (RA) e, desde então, tornou-se uma voz inconfundível da atividade radiofónica construída a partir da mais alta cidade de Portugal.

Juntamente com Luís Celínio, produziu a partir desse ano o programa “Escape Livre” o programa de com mais longevidade em Portugal. Francisco Carvalho entrou para os quadros da Rádio Altitude em 1978, “primeiro como animador de emissão e depois como jornalista”.

Saiu da RA 1990, “para integrar a equipa fundadora da Rádio F”, onde trabalhou quatro anos, após o que ocorreu o regresso à Rádio Altitude, onde esteve até há algumas semanas atrás.

Iniciado que está um novo ciclo na sua vida, não vai por de parte a sua voz, num tempo onde cabe também espaço para a escrita e memórias, como disse ao CORREIO DA GUARDA.

Sobre a cidade onde continua a residir, Francisco Carvalho considera que é preciso “menos invejas e mais gente empreendedora”, acrescentando que, na região, “houve uma evolução desorganizada. Tem faltado planeamento e visão de futuro. Diria que na grande maioria dos casos falta aos autarcas preparação adequada para o exercício dos cargos.”

F carvalho 2.jpg

Como e quando ocorreu a tua entrada para a rádio?

Como profissional aconteceu por mero acaso.

Tinha regressado de Lisboa, onde estudei no ISLA, e na altura dava aulas de geografia na Escola Secundária Afonso de Albuquerque quando fui convidado para fazer algumas horas de locução, como se dizia na altura.

Comecei, naturalmente, pelos discos pedidos que naquela altura preenchiam grande parte da programação.

Depois fui passando aos poucos para a informação e para os noticiários regionais.

 

Que nomes recordas dessa época?

Alguns dos que me convidaram e incentivaram na altura.

Antunes Ferreira, Emílio Aragonez, Luís Coutinho, Virgílio Ardérius, Luís Coito e José Domingos, entre outros.

Francisco Carvalho - 1984.jpg

Na Redação da Rádio Altitude, com Emílio Aragonez, início da década de oitenta

 

Nessa época o que havia de diferente na programação da(s) rádio(os)?

Era tudo muito diferente!

A informação era de certa forma “artesanal", feita sobretudo por colaboradores que iam à rádio algumas horas por dia fazer os noticiários e o resto da programação que era, em maioria, preenchida com discos pedidos.

Lembro que naquela época (década de 70) ainda não tinha acontecido o “boom" das rádios locais e não havia jornalistas profissionais no mercado – nem sequer possibilidade de os contratar porque o quadro da rádio só comportava três profissionais: o encarregado-geral, um locutor e um administrativo).

Hoje há mais gente profissional, mais rigor e o telefone foi substituído pelo computador.

 

Que música ou músicas estiveram/estão na tua preferência?

Pink Floyd, Genesis, Queen, Bruce Springsteen John Legend, Joe Cocker, Alicia Keyes, entre outros.

Por muitos motivos – e não apenas pela música – valeu a pena ter vivido intensamente os anos 80. Nunca mais haverá uma década assim (digo eu !!)

Edifício da Rádio Altitude -1982.jpg

Continuas a ouvir mais música ou notícias?

Música de vez em quando. Notícias sempre.

 

Quando começou a tua ligação ao jornalismo?

Como já disse, fui incentivado por alguns colegas mais velhos que na altura faziam a informação regional.

Aos poucos fui deixando a música e comecei a escrever e a apresentar noticiários

 

Qual foi notícia sobre a cidade que mais prazer te deu em transmitires aos ouvintes? E a pior?

No primeiro caso talvez tenha sido o anúncio da presidência aberta de Mário Soares na Guarda – que tive oportunidade de entrevistar em Belém, juntamente com o António José Teixeira.

Achei que poderia ser uma grande oportunidade para a Guarda começar a aparecer no mapa com o mediatismo de uma visita presidencial de vários dias.

As piores notícias tiveram naturalmente a ver com a morte de pessoas.

Por dever de ofício acorri a vários acidentes no antigo IP5 e cada vez que lá fui raramente trouxe boas histórias para contar. Tantas mortes que podiam ter sido evitadas se tivessem construído logo a auto estrada!

O grande acidente ferroviário de Alcafache (Mangualde) que cobri também a nível nacional (RR), com a ajuda do Carlos Martins, foi outro acontecimento que me marcou bastante assim como, mais recentemente, os incêndios de 2017 que fizeram várias vítimas mortais no distrito.

 

Que diferenças notas ao nível do jornalismo em Portugal, confrontando o passado com o presente?

Agora é mais rigoroso e interventivo.

Há profissionais muito mais qualificados e as novas ferramentas tecnológicas que temos à disposição também ajudam muito.

F carvalho.jpg

Hoje o jornalista passa demasiado tempo na redação?

Talvez sim. Mas é preciso dizer que em relação por exemplo à investigação, com os meios disponíveis em redações geralmente pequenas, não há grande possibilidade de ter um ou dois jornalistas dedicados em exclusividade.

No resto acho que poderia haver mais sensibilidade para procurar histórias que interessem à generalidade das pessoas.

Mas lá está, se somos imprescindíveis na redação ou no estúdio não podemos estar noutras tarefas.

Francisco Carvalho - RA 2.jpg

O Desporto foi uma das áreas da tua preferência? Porquê?

Pratiquei desporto no liceu e essa área sempre me interessou, mais do que a política por exemplo.

Primeiro foi o automobilismo por via do programa Escape Livre – chegámos a ir ao rally de Monte Carlo e às 24 horas de Le Mans – e depois comecei a interessar-me mais pelo futebol.

 

Tiveste, também, uma colaboração com a imprensa desportiva. Fala-nos desse período?

Foi na altura em que a saudosa Associação Cultural e Desportiva da Guarda era um dos postais da cidade e o clube mais importante do distrito, com participações regulares no então Campeonato Nacional da Segunda Divisão.

Para além dos trabalhos para a rádio comecei nessa altura uma colaboração com o jornal O Jogo, com comentários e reportagens sempre que a equipa jogava em casa.

Mais tarde, a convite do Fernando Paulouro, iniciei uma colaboração com o Jornal do Fundão na altura em que começaram a editar um suplemento semanal de desporto.

O meu trabalho era coordenar e editar o trabalho de uma série de correspondentes desportivos que faziam o resumo dos jogos do campeonato distrital de futebol.

Sem as tecnologias que temos hoje era um funcionário do jornal que ao domingo à noite vinha do Fundão recolher o material à Guarda!

 

A recolha dos resultados desportivos era muito diferente do que acontece na atualidade. Era um trabalho difícil?

Não era fácil. Quando os campos de futebol não tinham telefone (e geralmente não tinham…) era preciso encontrar uma pessoa de confiança que ligava para a redação a dar o resultado final do jogo, ou então tínhamos de ligar para o café mais próximo!

 

Que confronto fazes entre o panorama desportivo de algumas décadas atrás e o de hoje?

Apesar de todas as limitações antigamente julgo que era mais saudável. Hoje já não tenho paciência para ver grande parte dos programas televisivos sobre futebol.

Pouco se discute o jogo e o que interessa são as polémicas.

Já nem falo dos critérios jornalísticos e das regras deontológicas!

Francisco Carvalho - RA .jpg

O que te levou a optares pela Guarda, em termos profissionais?

Não foi uma questão de opção foi uma questão de oportunidade.

 

Atualmente tomarias a mesma opção?

Se tivesse alternativa pensaria duas vezes.

 

O que pensas da evolução da Guarda, cidade e região, ao longo da tua vida de jornalista?

Houve uma evolução desorganizada. Tem faltado planeamento e visão de futuro.

Diria que na grande maioria dos casos falta aos autarcas preparação adequada para o exercício dos cargos.

Isto não vai lá só com os cartões partidários!

E também é evidente que os governos de Lisboa estão-se nas tintas para o resto do país.

 

O que falta na Guarda?

Menos invejas e mais gente empreendedora.

O problema é que somos cada vez menos!...

 

Achas que as pessoas conhecem ou valorizam a dimensão radiofónica que a Guarda teve, sobretudo antes do alargamento do espetro radioelétrico?

De uma vez por todas a cidade – e os decisores –  tem de saber valorizar essa importância. Cada vez que passo pelos pavilhões em ruínas do antigo sanatório não deixo de pensar que bem ali ficaria o museu da saúde e da rádio.

A Guarda tem a rádio local mais antiga do país e uma história importante para contar concentrada no atual Parque da Saúde.

 

A história da rádio, na Guarda, está ainda por fazer?

Já foi feita em boa parte graças também ao autor deste blogue (Hélder Sequeira). Mas sim, ainda há gente pouco informada sobre a importância da rádio no passado e no presente da cidade e da região.

Afinal temos a rádio local mais antiga do país e isso tem de ser valorizado, até para não deixar cair no esquecimento os pioneiros da Rádio Altitude com Martins Queirós, à cabeça.

 

Tens projetos em mente para este novo ciclo da tua vida?

Continuar a aproveitar a voz que Deus me deu, escrever, viajar e começar a organizar o baú das memórias.

 

 

 

 

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João Amaro: pensar e viver a Rádio

por Correio da Guarda, em 12.05.21

 

“As rádios locais continuam a ter futuro. Não deixando de se ancorar nas raízes que estiveram na sua génese, as rádios têm de se reinventar todos os dias, inovando sem perderem o essencial do seu carácter.”

Afirmou-nos João Amaro, um dos fundadores da Rádio Antena Livre de Gouveia (1984) e presidente da Assembleia Geral da Cooperativa de Radiodifusão que tem a titularidade do alvará da referida emissora.

João Amaro é hoje Presidente da Junta de Freguesia registando na sua atividade autárquica e política a passagem pelas funções de assessor do Presidente da Câmara Municipal de Gouveia (1986-2001) e de Chefe de Gabinete do Governador Civil da Guarda (2009-2011).

Antes da sua entrada para a vida política e autárquica, o nosso interlocutor de hoje, desenvolveu uma intensa e relevante atividade na área da comunicação social. Foi Chefe de Redação do extinto jornal “Voz de Gouveia” (1979-1982), delegado concelhio da ANOP e Agência LUSA (1980-1986); correspondente e colaborador de vários órgãos da comunicação social, regional e nacional, como o Jornal de Notícias, Jornal do Fundão, Rádio Altitude e Notícias da Guarda.

Contudo, a Rádio continua a merecer o seu entusiamo, evocando memórias, companheiros e considerando que os momentos mais difíceis “são apenas meros registos comparados com a felicidade que a rádio nos proporcionou.”

 

 

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Como começou a Rádio Antena Livre?

A Rádio Antena Livre de Gouveia foi um "sonho tornado realidade" por um grupo de jovens gouveenses, unidos pela paixão da rádio e tudo o que ela podia proporcionar: dos novos gostos e opções musicais à divulgação dos acontecimentos locais, do simples prazer de comunicar à necessidade de proporcionar uma maior e melhor informação das nossas realidades; no fundo, projectar Gouveia e a região através de um genuíno projecto de afirmação de cidadania, naquela que foi considerada, há quase 40 anos, uma das maiores aventuras levadas a efeito pela juventude gouveense.

Neste sentido, as motivações não terão sido muito diferentes daquelas que mobilizaram e estimularam o aparecimento de iniciativas semelhantes que se multiplicaram por esse País fora, numa época e num tempo marcado pelo aparecimento das chamadas "rádios piratas".

Já agora, a talhe de foice, permita-se-me esta oportunidade para fazer alusão e prestar a devida homenagem àqueles que, em 1984, juntamente comigo, foram o grupo fundador da nossa, então, “rádio pirata” (alguns deles infelizmente já desaparecidos): o José Carlos Saraiva, o Costa Simões, o António Sario, o Luís Figueiredo o Nuno Santos, o Carlos Bicker, Manta Luís, obreiros de uma das pioneiras rádios locais no nosso distrito e que tinha por máxima “a onda livre da nossa terra”.

 

Quais as principais dificuldades que encontraram?

A principal dificuldade, mas talvez a mais estimulante, era a de se saber que a actividade de radiodifusão, na altura, era proibida a outros operadores que não fossem os "institucionais" há muito autorizados e instalados no espectro radioeléctrico. E como facilmente se adivinha, não há nada mais estimulante para a saudável irreverência da juventude do que fazer jus ao velho adágio de que "o fruto proibido é o mais apetecido"...

Digamos que a luta pela legalização da actividade da radiodifusão de âmbito local, durante quase cinco anos, foi a "dificuldade" que mais nos mobilizou, na altura.

De resto, são fáceis de supor os constrangimentos dos primórdios duma aventura que começa em moldes "artesanais": o primeiro emissor, de apenas 5 Watts de potência, é de fabrico caseiro, as emissões, experimentais, são feitas de forma "ambulante": numa furgoneta onde é instalado o emissor, alimentado a baterias, bem como o leitor de cassetes (os programas eram pré-gravados), entre demais aparelhos, hoje emitindo daqui, amanhã de acolá, tudo no intuito de fugir à fiscalização dos "tenebrosos" Serviços Radioeléctricos.

Quando a actividade  -  por força das centenas de estações do mesmo género e da mesma  génese que se foram implantando por todo o País  -  apesar de proibida, passou a ser tolerada, a Antena Livre de Gouveia conheceu dois ou três lugares provisórios onde começou a fazer as suas emissões em directo, até que  -  com a legalização das Rádios locais, em 1989  -  assentou definitivamente  a sua actividade num espaço cedido pelo Município no Mercado Municipal e adaptado, para o efeito, graças a muito esforço e trabalho de muitos voluntários.

Obviamente que o apetrechamento técnico, para quem não dispunha de recursos financeiros - as únicas receitas provinham duma informal "liga de amigos da rádio" e do magro mercado da publicidade - foi a outra dor de cabeça permanente, já que pelo exercício da actividade ninguém era remunerado, todos trabalhavam "pro bono", todos colaboravam por "amor à arte".

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Como foi a reação dos ouvintes ao projeto da Rádio?

Reação fantástica, como era previsível. Passar a ouvir na telefonia, assim de repente, vozes conhecidas que falavam do concelho de Gouveia, das coisas que aí aconteciam, dos desejos que queríamos que acontecessem, dar a vez e a voz a gente da comunidade, do artesão e do operário, ao sindicalista ao autarca, aos dirigentes associativos, às colectividades, criou um ambiente de audiência de tanta proximidade que eu até costumo dizer, por graça, que mais do que ouvintes, a rádio tinha "militantes".

E não imaginam a satisfação que me dava, ao sair de casa, ouvir os rádios da vizinhança sintonizados na "Livre", entrar no café e ouvir a mesma sintonia, em cada rua, cada bairro, cada lugar...

 

A programação manteve uma estrutura fixa ou foi ganhando novos contributos?

Depois da fase "rebelde", com a criação da Cooperativa que viria corporiza e enquadrar a atividade, com a legalização e instalação definitiva, o processo de afirmação e consolidação da Rádio obrigou ao cumprimento de determinados parâmetros, a começar por uma orientadora grelha de programação que desse coerência ao projeto.

Ou seja, a rádio deixou de ser o programa do João, da Rosa ou do António para passar a ter, apesar das especificidades de cada um, um fio condutor, uma oferta original, mas com compreensível uniformidade.

Foi, portanto, necessário adequar a atividade aos novos desafios que se lhe impunham, para além do seu enquadramento numa nova tipologia de gestão.

Por isso, também, a necessidade que houve de profissionalizar algumas áreas, nomeadamente a informação e a parte da manutenção técnica, sem se perder o cariz original do trabalho voluntário, com muitos “amadores” a desempenharem um papel muito profissional.

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Quais os programas que tiveram mais audição?

Eu não queria ser juiz em causa própria (risos), mas o programa "Domingo Livre", um programa em directo, de 3 horas, aos domingos de manhã, de entrevistas, debates, inquéritos de rua e cobertura de acontecimentos, aberto à participação dos ouvintes, pontuado e amenizado com uma criteriosa seleção de música portuguesa e que eu, o Manta Luís e a Maria José Trabulo idealizámos e conduzimos ao longo de mais de 20 anos foi – perdoe-se nos a presunção – paradigmático.

E não sei até que ponto não teria sido o programa mais longevo da radiodifusão portuguesa... De resto havia muitos e bons programas, das mais diversas temáticas, bem concebidos e realizados e, por isso, sempre de audição garantida.

 

A área cultural era também uma preocupação por parte da equipa da Rádio?

Sem dúvida. Nem faria sentido uma rádio local não dar ênfase e cobertura a uma área que se revelava fundamental, que mais não fosse pela atividade desenvolvida pelo vasto universo associativo do concelho de Gouveia que contava com quatro Ranchos Folclóricos federados, seis conceituadas Bandas Filarmónicas e escolas de música, grupos corais, grupos de teatro, etc., etc., para já não falar da oferta cultural  desenvolvida pelo Município através da Biblioteca Municipal Vergílio Ferreira, do Museu Abel Manta, das exposições das Galerias João Abel Manta, do Teatro-Cine, entre outros.

 

Quais as melhores e as piores memórias?

O anúncio da aprovação do nosso projeto - quando estavam duas candidaturas a concorrer à única frequência disponível para o concelho de Gouveia - e a obtenção do competente alvará para o exercício da radiodifusão foi, estou certo, a maior das alegrias que guardo deste longo percurso.

Muitas outras recordações, de bons momentos, se não dessem um bom livro de memórias, dariam seguramente “pano” para um bom e alegre anedotário da rádio...

Memórias más, confesso, não há. As angústias financeiras com que nos habituámos a viver ou aquele vendaval que nos levou as antenas ou a trovoada que nos queimou uma válvula e nos deixou sem emissão por uns dias, faz parte..., são apenas meros registos comparados com a felicidade que a rádio nos proporcionou.

 

Há diferenças na Rádio que é feita atualmente? O que mudou mais radicalmente?

Se houve sector em que a evolução e inovação técnica e tecnológica mais rapidamente se notou, o da radiodifusão foi um deles.

Tudo aconteceu num ápice: dos pré-gravados da cassete e do cartucho, aos diretos com o vinil, substituído pelo CD e este pelo mini-disc e, depois, todos pelo digital, do mp3 até à informatização total do processo de produção e emissão.

A internet e as emissões on line passaram a ser uma nova potencialidade no mundo dos velhos e e novos operadores de radiodifusão. Tudo isto de há quarenta anos para cá e...parece que foi ontem…

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As rádios locais continuam a ter futuro?

Essa mesma pergunta já se fez aquando do aparecimento da televisão. Essa pergunta já se fez quando as exigências deste nicho de mercado, muito denso e competitivo, na natural separação do trigo do joio, obrigou ao encerramento ou à venda de muitas estações locais. Essa pergunta continua a fazer-se e quero acreditar que a resposta será sempre sim, apesar dos muitos constrangimentos.

Sim, as rádios locais continuam a ter futuro. Não deixando de se ancorar nas raízes que estiveram na sua génese, as rádios têm de se reinventar todos os dias, inovando sem perderem o essencial do seu carácter, pensar mais em redes de parcerias sem abdicar da natural e saudável concorrência a que a atividade obriga, primar por mais originalidade dentro da sua própria autenticidade, fugindo ao “mais do mesmo” que começa a ser tão comum no panorama da comunicação social.

No fundo, continuando a comprovar a velha máxima, perfeitamente insubstituível, de que “a rádio conta, a televisão mostra e o Jornal explica”.

 

 

 

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Uma vida nas ondas da rádio

por Correio da Guarda, em 27.04.21

 

José Luís Dias nasceu em Buffalo (EUA) em 1962 tendo vindo para a Guarda dez anos depois. Foi nesta cidade que fez as primeiras amizades e se entusiamou pela eletrónica, consolidando a sua paixão pela rádio e pelas comunicações. O Bonfim, na Guarda, é o seu bairro citadino de eleição, até pelo facto de aí ter vivido até 1986.

Fundador da Rádio Beira Alta (Seia), esteve também na génese da Rádio Cidade Oppidana (que emitiu na Guarda, no quadro das rádios livres) e colaborou com a Rádio Altitude, Rádio Clube de Monsanto e Rádio Mangualde.

 

Como surgiu a Rádio na tua vida?

É uma historia interessante; ainda criança, vivia nos Estados Unidos, fazia, com os meus amigos, muitos passeios de bicicleta e em várias ocasiões ia para as proximidades do local onde estavam as antenas emissoras de duas grandes rádios da cidade onde nasci: a WKBW, com 50 KW e a WGR com 10 KW (ambas em Onda Média)...

Uma boa meia dúzia de torres e um edificio monumental... espreitávamos pelas janelas e viam-se alguns dos equipamentos... fascinou-me esta visão da tecnologia.

Mais tarde, já em Portugal, enquanto frequentava a escola primária, bem antes da "Revolução dos Cravos", a minha professora de então resolveu levar-nos a duas visitas de estudo: em primeiro lugar, ao edifício da Emissora Nacional (hoje a RTP-Guarda), onde fomos recebidos pelo encarregado das instalações, que nos mostrou um estúdio com uma mesa de som bastante antiquada e depois os dois emissores (era um Collins de 1 KW e um Gates de 10KW)... Algumas semanas depois, foi a visita à Rádio Altitude... Aí, sim, se eu já tinha um fascino pela rádio e a sua tecnologia, foi o "click" definitivo.

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Como foram as primeiras experiências radiofónicas?

Possívelmente como a de todos os que fazemos ou fizemos rádio, na altura: umas experiências, num estúdio improvisado e equipamentos muito rudimentarers e amadores... eu, que já tinha queda para a electrónica, "engendrei" mais algumas coisas... Entre elas, um pequeno emissor de FM que emitia umas centenas de metros e um emissor de Onda Média, a válvulas, com peças reutilizadas de radios antigos...

 

E quando surgiu o primeiro contacto com a Rádio Altitude, e de que forma?

Como já referi, o primeiro contacto com a Rádio Altitude foi durante uma visita de estudo que decorreu ainda nos meus anos de escola primária; um primeiro contacto fascinante, considero-me feliz por ter acontecido, entrando no edifício, sendo-nos mostrado tudo, inclusivé, o emissor... Fascinou-me ver como se fazia rádio ao vivo, a rádio com gente dentro, ver o que já ouvia em casa quase diariamente.

 

Que marca te deixou a Rádio Altitude? Influenciou o teu percurso radiofónico?

Uma marca definitiva, forte, impulsionadora, foi na Rádio Altitude que, em 1978, aos 16 anos, pela "mão" daquele que considero o meu mentor, Emilio Aragonez, comecei a fazer rádio "a sério", foi o "Espaço Jovem", integrado na emissão da noite das 6ªs feiras, o "Intercâmbio 6".

Foi-me ensinado a trabalhar com equipamento de radiodifusão, a ter uma conversa natural e fluída com os ouvintes, a colocar a voz correctamente entre discos (sim, rodava discos, sabia fazer o "pre list"e "cue"), a respeitar quem nos ouve e, sobretudo, a manter os olhos bem abertos em relação aos níveis de áudio... não havia processamento, o único remédio era mesmo não deixar saturar os níveis, o "VUímetro” da consola não passava para o vermelho... algo que, ainda hoje, respeito.

 

Como surgiu o projeto da Rádio Beira Alta?

O projecto Rádio Beira Alta surge desse gosto pela rádio, por um lado, pelo facto de eu não ter sido integrado na Rádio Altitude, apesar dos esforços, o que, se tivesse acontecido, poderia ter alterado todo um projecto de vida... Também porque em Seia (e em praticamente todo o país) não havia nenhuma rádio e as existentes (A RA e a Emissora das Beiras (Caramulo)) não terem um sinal capaz, ainda não se falava de "rádio livre".

A génese da rádio ainda foi na Guarda, onde vivi até 1986; fui juntando meios rudimentares (2 gira-discos de categoria caseira, antigos, um gravador de cassetes e um painel com uns quantos botões e interruptores), mas no Verão, quando vinha de férias até Seia, lá acarretava tudo e fazia com que a RBA emitisse em Onda Média e FM, com esses meios rudimentares... a minha familia materna é daqui, a casa (onde moro e onde a Rádio esteve a emitir até ao seu fecho em 2003) está situada no alto da encosta, em Aldeia da Serra, local ideal para colocar antenas e obter um grande alcance.

O hábito manteve-se, entretanto mais meios foram sendo adquiridos (para o meu estúdio na Guarda e o estúdio daqui), até que em 1986, tudo se juntou...

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O que significou para ti o fim desse projeto?

O fim do projecto RBA foi triste, tendo em conta as circunstâncias; em 2003, a realidade social e economica do concelho e da região já era alarmante, tendo em conta o fecho das fábricas de lanifícios, onde milhares tinham o seu "ganha-pão" e, por consequência, a diminuição brutal da actividade economica, elevado índice de desemprego e a respectiva perda de mercado publicitário...

A rádio já estava a manter-se com dinheiros particulares, não era sustentável por muito mais tempo... Depois, o "embróglio" administrativo e legislativo que prejudicou a renovação do alvara... O fecho foi ordenado pela ANACOM em 30 de Junho, a RBA deixou de emitir... Mas não desapareceu... 18 anos depois, tudo existe, ainda, e funcional: os estúdios, os equipamentos, os arquivos musicais... Até a pequena torre onde estão ainda as antenas...

 

O que se seguiu, em termos radiofónicos?

Uma onda de sorte: soube, por dois amigos e ex-colaboradores, que a Rádio Mangualde, fruto de uma remodelação e entrada de uma nova direcção, estava no processo de admissão de colaboradores a tempo inteiro, enviei o meu currículo e fui chamado para uma entrevista...

Estavamos no dia 15 de Agosto de 2003, fui chamado à rádio, éramos 7 candidatos às diversas posições, os directores conversaram comigo, já era conhecido de alguns deles, coloquei as minhas condições e ficaram de me contactar posteriormente para me transmitirem a sua decisão.

Mal tinha chegado a casa, estava o telefone a tocar: eram eles, pensavam que ainda estava em Mangualde, voltei à rádio e fui convocado a estar presente no dia seguinte pelas 7 da manhã para começar a aprender o funcionamento. Para mim era tudo novo: um estúdio já sem gira-discos, sem gravadores, mas com um computador e um software de emissão... Tive apenas três dias para encaixar a "novidade" e depois disso... seguiram-se quase 10 anos nos 107.1, nas manhãs, mas também noutras tarefas, a cooperativa aproveitou-se do meu "know-how" para melhorar a casa e manter a manutenção dos equipamentos, inclusivé, cheguei a reparar o emissor, afectado por uma descarga atmosférica... infelizmente, também por motivos económicos (corria o ano de 2013) a rádio teve, também, o seu fim... Em 2014, fui contactado por um antigo colaborador da RBA, o Filipe Borges, que tinha celebrado um contrato com a cooperativa da Antena Livre (Gouveia), sabendo da minha situação e sabendo bem das minhas qualidades, convidou-me a fazer parte da equipa de arranque do novo projecto, não só para fazer rádio mas para o ajudar a coordenar toda a casa, no geral.

Aceitei o desafio e em Junho de 2014 já estava no ar a "nova" Antena Livre" e uma nova filosofia para a rádio: estúdios repartidos por vários concelhos, os meus, da RBA, tornaram-se no “Centro de Produção de Seia”...  infelzmente, não se pode realizar o alemejado e prometido contrato, tendo eu saído no final de um ano de colaboração, em Agosto de 2015... Considero esta data aquela em que “pendeurei em definitvo os auscultadores”.

Felizmente, a minha passagem deixou marcas, muito do que lá se faz, ainda hoje, é a continuidade das ideias implementadas durante a minha passagem .

 

Qual o programa que foi mais importante para ti?

Tenho vários que podem muito bem situar-se nessa categoria: o primeiro de todos, "Espaço Jovem" (ainda na Altitude), depois, ja na RBA mas também com emissão nas "Radios Livres" Radio Clube de Monsanto, Radio Cidade Oppidana e Rádio Elmo, o "Stereonoite", as emissões da manhã, na RBA, na Rádio Magualde e na Antena Livre e, o programa que tem a minha preferência, não só pela longevidade mas também pelo conteúdo musical que possui, "nascido" na RBA em 1983, depois levado por mim para a Rádio Mangualde e, depois, ainda antes de integrar a Antena Livre, para 3 emissoras de rádio (hoje são 11 FMs e 2 na internet), o "Filhos da Noite".

 

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É difícil fazer rádio no interior?

É. O interior é cada vez mais desertifacado, esquecido pelo governo central e penalizadado economicamente, não existem, logo à partida, muitas rádios para nos integrarmos profissionalmente... e nas que existem, os meios financeiros são escassos, longe vão os tempos da "carolice" que criaram esses projectos... por outro, devido ao envelhecimento das populações residentes, temos de fazer rádio para elas, muitas rádios não possuem arquivo suficiente de música desses tempos e algum desse material é proveniente da Internet, em arquivos de som com qualidade duvidosa, ou não têm ninguém para os passar... digo sempre.

Tive a felicidade de ter começado numa rádio que tem esses arquivos, ter trabalhado com eles, ter tido uma rádio que adquiriu arquivos semelhantes e ao longo destes anos me tenho servido desses arquivos para as minhas emissões, "obrigando-me" a conhecer as historias de quem canta, das canções, dos discos em si, porque quem ouve, nessas idades, quer mais do que música, quer companhia; as rádios locais são muitas vezes a sua única companhia, o locutor é, inúmeras vezes, a extensão da sua família.

 

Que desafios se colocam, atualmente, às rádios locais?

Imensos, direi mesmo, terríveis, pesados, alguns escusadamente impostos... O maior de todos é mercado publicitário, a sua maior é muitas vezes a única fonte de receitas, mesmo com rádios a fecharem, o mercado que fica não se direciona às que se mantém no ar... outro factor, talentos, sem finanças saudáveis, não há dinheiro para salários, logo, as vozes das rádios muitas vezes limitam-se a serem de gentes locais, não assalaridas ou um ou outro assalariado, mas mal pago (salário mínimo em quase todos os casos).

Os piores e mais temidos são os direitos a pagar: a "investida louca" das organizações que cobram os tão mal legislados "Direitos Conexos", usando-se de táticas de "bullying" para imporem as suas regras, igualmente da autoridade que nem devia existir (ERC) pelas mordormias pagas a quem detém cargos e executa funções que poderiam bem melhor, e mais economicamente, serem desempenhadas pela ANACOM.

Portugal não pode dar-se ao luxo de ter duas entidades com “quase” as mesmas funçõe... e, sem dúvida, a própria legislação da rádio, tantas vezes alterada, já, que impede a liberdade de decisão a quem dirige os projectos, obrigando a 24 horas de emissão, com o respectivo desgaste de equipamentos e avolumar de consumos de energia, as quotas de música portuguesa e a complicação da sua formatação (sub-quotas definidas, que obrigam a uma actualização constante dos dados), isto para não falar de que muita dessa musica é de facto "intragável" para a idade de quem ouve; por fim, a mudança de atitude das novas gerações, consumidoras de "playlists" pre-formatadas na Internet, numa pen ou cartão memória, sem intervalos, sem noticias, sem publicidades, afastando-as das realidades, tornado-as mais pobres na aquisiçao de informação daquilo que lhes rodeia... tudo somado, uma montanha de dificuldades... mas a "resilência" de quem dirige as rádios tem procurado resistir a todas estas contrariadades, com sucesso... até agora...

 

A rádio tem futuro?

Sim, tem, as novas tecnologias vão permitir melhorar qualitativamente a forma como se ouve rádio, sim, esse único meio gratuito e universal de difundir música, informação e cultura.

As "velhinhas" Onda Longa, Média e Curta podem ser renovadas com a utilização da tecnologia "DRM", aliando as qualidades destas frequências, de grande alcance, particularmente à noite, bem maior que o FM, permitindo uma escuta de qualidade FM em ondas que, até agora, têm um som de inferior qualidade motivado mais pelos regulamentos internacionais em vigor do que a tecnologia actual... por outro lado, a Internet, um meio não universal e "pago", mas que abre a janela das rádios ao mundo, com interação, em alguns casos, vários canais de rádio e, já em muito, aquilo que já se denomina de "radiovisão", aliando o vídeo ao áudio, neste caso, rádio.

 

Quais os teus atuais projetos?

De momento, o único grande projecto que mantenho com dedicação é um programa de duas horas, semanal, "Filhos da Noite", emitido em 10 rádios FM e duas rádios na Internet, mas que procuro ainda expandir, de distribuição gratuita, o seu conteúdo é de música dos anos 60, 70 e 80, não portuguesa por opção, mas inclui tudo aquilo que, não sendo inglês, também passou pela rádio nessa altura - gandes canções italianas, francesas, alemãs, holandesas - e, durante os meses de Abril e Maio, o destaque vai para o Eurovisão da Canção, desde inícios até meados dos anos 80.

Pela dedicação que tenho aos arquivos de música do passado, continuo a frequentar feiras de antiguidades e usados para continuar a adicionar material musical para o programa porque na Internet não se arranja e, se existe, tem fraca qualidade, sendo o disco o melhor suporte musical. Também, dar assitência em regime de “freelancer” a rádios que me solicitem apoio e o uso dos meus conhementos para resolver problemas (de momento, são os casos da Rádio Imagem e Antena Livre), por fim, no meu trabalho actual, na Fundação Aurora Borges, uma IPSS, em Santa Marinha (Seia), para além de outras tarefas que desempenho, a continuação da dedicação dada à produção de conteúdos de video das reportagens efectuadas para o Jornal de Santa Marinha e a continuidade do programa de rádio “A Voz da Solidariedade”, produzido semanalmente na própria Fundação, em estúdio construido para o efeito e onde tenho a responsabilidade da sonoplastia.

 

O que representa para ti a Guarda?

Tudo! É a minha terra adoptiva, a cidade que me acolheu, onde tive os meus primeiros amigos, onde frequentei o ensino e aprendi tudo o que sei de electrónica, onde se formou e consolidou o meu amor pela radiodifusão e pelas comunicações, onde ainda hoje volto sempre que posso nem que seja para ir à padaria do Bonfim (meu bairro do coração) comprar o meu pão espanhol e, sempre, quando regresso, cai uma lágrima de emoção à chegada, assim como cai outra, quando a deixo...

 

 

 

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Ismael Marcos: um beirão no Alentejo

por Correio da Guarda, em 23.04.21

 

Ismael Marcos desenvolveu ao logo de algumas décadas a sua atividade profissional na Guarda, na área da comunicação. Inicialmente na rádio e depois na televisão, acompanhou o pulsar da região beirã, através de múltiplos trabalhos.

Hoje a sua atenção centra-se noutros territórios do país; mas nas suas memórias está a sempre a Guarda, como aliás expressou ao CORREIO DA GUARDA.

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Onde está a desenvolver, atualmente, o seu trabalho?

Neste momento estou na delegação da RTP em Évora numa área de cobertura que vai de Portalegre a Ourique e Mértola

Porquê a opção por Évora?

Na altura era uma região que me fascinava e foi também juntar o útil ao agradável, pois o meu filho mais velho entrou esse ano2015 na universidade de Évora 

Que comparação ou diferenças acentua entre a Guarda e a cidade onde vive atualmente?

São cidades completamente diferentes, em todos os aspetos, desde a própria geografia delas à construção, à preservação, etc. ..

Guarda boas memórias da sua passagem pela Rádio? O que gostou mais de fazer?

Claro que guardo excelentes memórias da minha passagem pela Rádio Altitude, desde a aprendizagem à própria camaradagem e penso que também deixei algum contributo com os conhecimentos que trazia de outra grande casa que é a Rádio Renascença.

Tenho boas memórias dos diretos que fazia com o Emílio Aragonês, aos fim-de-semana, das diversas câmaras municipais.

O trabalho na televisão marcou um novo ciclo na sua vida?

Sim o trabalho em televisão é um trabalho mais desafiante muito diferente da rádio, na televisão temos que estar lá, não podemos fazer à distância, temos que tratar não só do som mas também da imagem, preparados para qualquer situação e qualquer tema, desde a sociedade à política, passando pelo desporto etc.

Como estou numa delegação tenho a vantagem da polivalência, ou seja desde a captação da imagem à edição da peça e depois ao envio prontinha para emissão tudo é feito por mim.

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Que episódios positivos ou negativos regista do seu trabalho, em televisão?

São muitos os episódios positivos, que passam desde o conhecimento de pessoas novas e diferentes diariamente, assim como locais, às várias deslocações ao estrangeiro, cobertura de eleições em todo o território nacional, voltas a Portugal em bicicleta e muito mais…

Notas negativas, aquelas que inerentes à concorrência, as nossas chefias se vêm obrigadas a nos pedirem coisas que por vezes não tem qualquer interesse (basicamente as secas que muitas vezes apanhámos quer seja por exemplo à porta de um tribunal ou à porta de uma prisão, muitas vezes à chuva e ao frio ou ao calor tórrido do Alentejo)

Qual o evento que mais gostou de acompanhar?

Sem dúvida a cobertura dos jogos paraolímpicos em Pequim 2008

O seu futuro vai cruzar-se ainda com a Guarda?

Nunca podemos dizer desta água não beberei, mas não me importava, são as minhas raízes.

A Guarda tem potencialidades para um maior desenvolvimento? Qual a sua maior riqueza?

A Guarda tem todas as potencialidades, desde as pessoas que são trabalhadoras e empreendedoras, à própria localização geográfica da cidade, as vias de acesso e comunicação; tem todas as potencialidades para ser uma grande cidade e uma grande região, assim haja sinergias e vontade política!...

Tem pensado algum projeto pessoal que queira implementar?

Para já projetos...e com a pandemia à nossa volta, é viver o dia a dia!...

 

 

 

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João Ferreira: memórias da Rádio e da Guarda

por Correio da Guarda, em 20.04.21

 

João Ferreira saiu da Guarda com 18 anos, mas a cidade continua a ser uma referência para ele. Segue à distância a vida e os acontecimentos citadinos, nomeadamente através das redes sociais, dos jornais e dos contactos com os amigos, “que deixei há 35 anos”.

Na sua memória continuam “os tempos da adolescência, com os cursos de fotografia, diaporama, teatro, xadrez, etc, elaborados no extinto FAOJ, nas instalações da Praça Velha; bem como a passagem para a Associação dos Jogos Tradicionais e do Lazer e os levantamentos fotográficos de fim de semana dos torneios de jogos tradicionais e as respetivas noites no laboratório para revelação e impressão dos filmes; das Festas da Cidade na cabine da Rádio Altitude e na noite da RA receber em casa a vedeta Marco Paulo para pagamento do cachet do espetáculo; as noites no Centro Cultural com alguns trabalhos de sonoplastia para o Grupo de Teatro Aquilo”.

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Contudo é a Rádio Altitude que prevalece no topo das suas memórias, desde logo pela ligação familiar a um dos nomes incontornáveis daquela estação emissora: Antunes Ferreira, seu pai.

Há três grandes motivos me fazem seguir a Rádio Altitude, recorrentemente: o meu Pai, os amigos e conhecidos que ficaram ou seguiram, como eu, outros destinos e a própria Cidade da Guarda e as suas novas.”

Ao Correio da Guarda disse que “ainda garoto acompanhava o Antunes Ferreira para a Rádio; era uma aventura poder mexer nos discos, admirar as capas dos Singles e LP´s com imagens que, na altura, eram o equivalente a uma visita a um museu de arte moderna e, ainda que agora pareça estranho, conhecer cara a cara os autores/cantores dos registos fonográficos. Como compensação, podia ouvir qualquer música que me despertasse atenção, quer pela capa do disco, quer pelo título ou até porque podia ouvir tudo o que me despertasse a atenção”.

Do rés-do-chão da casa da Rádio evoca o tempo que passava “no meio do cheiro de uma cola de vidro, blocos de folhas de papel amarelas, excedentes de divisórias de radiografias do, na altura, Sanatório Sousa Martins e recortes de Jornais nacionais. À frente desse método quase artesanal de “fazer” notícias, o Sr. Manuel Vaz Júnior” pegava em mim, punha nas minhas mãos uma pesada tesoura, pincel de cola e ensinava-me os primeiros passos de “adjunto de redactor”...

Como nos referiu, a ele deve “o hábito de ler um jornal de ponta a ponta e encontrar uma notícia na necrologia ou nas farmácias de serviço. Quem passou por lá saberá do que escrevo”.

Do pai, Antunes Ferreira, ganhou o hábito de ler. “Desde muito novo que o via ler, de jornais a livros, e quando ganhei o conhecimento que por letras se podia viajar para qualquer lado fiquei viciado na capacidade de adquirir qualquer conhecimento com esse simples exercício que sempre me acompanhou.”

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Com o tempo foi-se envolvendo na atividade da Rádio. “As gravações de programas, a colocação de microfones, o arquivo de fichas de registo dos temas da discoteca, a arrumação dos discos, as transmissões exteriores como a exaustiva tarefa de busca para ponto de telefone e respetiva ligação do cabo de rede, as longas noites de eleições e as chamadas telefónicas para os pontos eleitorais com os resultados à boca das urnas, as tardes de domingo com as chamadas para os Campos de Futebol ou cafés próximos, a gravação dos primeiros programas noturnos, enfim... um pouco da história da Rádio Altitude dos anos 70 e 80 que passava por todos os colaboradores porque era um curso abrangente a quem, na maioria dos casos, estava ali por carolice e gosto”.

João Ferreira lembra ainda os tempos em que foi “arquivista, dos discos e respetivas fichas, cobrador de anunciantes, sonoplasta de inúmeros de programas, realizador e co-autor de programas, inauguração do novo Estúdio de Gravação, Hi-Tec para a época, onde aprendi a lidar com a tecnologia mais recente de sonoplastia de Rádio”.

Nas imagens sobre o tempo passado nesta emissora guardense tem ainda presente o trabalho que desenvolveu “com programas de autores e co-autoria, com Luís Celínio (Escape Livre), Hélder Sequeira (Passado e Presente), Albino Bárbara, Jorge Barreto Xavier, Martins das Neves, etc.”

Sobre o seu pai sublinha que foi sempre uma referência “quer como a pessoa que definiu o carácter e exemplo a seguir, quer como exemplo profissional. Sempre o vi primar pela justiça, equidade, humildade, profissionalismo e independência.

Recordo com orgulho as palavras escritas por um grande profissional que por lá passou e cedo a vida levou, numa dedicatória registada na primeira edição da Constituição da República de 1976: “Ao amigo Antunes Ferreira, fazendo votos que faça cumprir o Artº 37º ”... Sempre cumpriu e garantiu que fosse cumprido.”

Instado a comentar alguns episódios vividos na rádio, João Ferreira disse que tinha dezenas deles. “Mas recordo principalmente nos pós-25 de Abril de 1974, ir com o meu pai para a RA e deparar ao cimo das escadas do primeiro piso, com uma G3 encostada e o respetivo titular a descansar na sala que mais tarde seria a biblioteca. Perante a minha interrogação o meu pai terá dito algo como:Aquele soldado está ali para nos defender”. Eu retorqui: “Mas a arma está ali, longe dele!”, ao que o meu respondeu: “ele sabe que eu já cheguei e nesta altura, como ninguém nos fará mal, foi descansar um pouco.” Dormi todo o PREC descansado!

João Ferreira 2.jpg

João Ferreira (sócio-gerente de empresa do ramo mobiliário e colchoaria, após ter passado à reserva no Exército, onde esteve cerca de 13 anos) vive, atualmente, entre Lisboa e Aroeira, “hábito que ganhei graças à pandemia e passei a repartir o meu tempo entre a habitação normal em dias de trabalho pleno e à casa de férias para os períodos de lazer e de confinamento.”

Partiu da Guarda para Lisboa em 1985 para cursar Direito; contudo, ao fim de quatro anos ingressou no Exército, “onde fiz o Curso de Sargentos e pausei, na altura sem prever, “ad eternum” a finalização do Curso de Direito, onde ainda fiz mais 2 anos já no novo milénio.”

Continua empenhado no estudo da História do Armamento do Exército Português e mantém a “paixão pela fotografia, apesar de muitas vezes, por inerência à atividade na área do turismo, deixe a mochila da máquina fotográfica em casa e use o telemóvel, com o défice óbvio.

 

 

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publicado às 19:00

Dia Mundial do Rádio 2021

por Correio da Guarda, em 13.02.21

 

Dia Mundial da Rádio 2021.png

Hoje assinala-se o Dia Mundial do Rádio. “Mais do que nunca, precisamos desse meio humanista universal, vetor da liberdade. Sem o rádio, o direito à informação e à liberdade de expressão e, com eles, as liberdades fundamentais seriam fragilizadas(...)". Assinala Audrey Azoulay, Diretora-Geral da UNESCO.

Recorde-se que o 13 de fevereiro foi designado em 2011 pelos estados membros da UNESCO, e adotado em 2012 pela Assembleia Geral das Nações Unidas, como Dia Internacional do Rádio. A escolha do 13 de fevereiro fica a dever-se ao facto de ter sido neste dia que o Rádio das Nações Unidas emitiu pela primeira vez, em 1946, um programa em simultâneo para um grupo de seis países.

Radio - vintage - Foto Helder Sequeira.jpg

A  celebração do décimo aniversário do Dia Mundial do Rádio é subordinada ao tema “Novo Mundo, Novo Rádio”, realçando a capacidade de adaptação deste meio às transformações sociais e tecnológicas, bem como na sua flexibilidade para responder às solicitações hodiernas dos seus ouvintes.

Uma temática que se desdobra, a propósito deste dia, nos subtemas “Evolução” (sublinhando a mudança da nossa realidade e evolução do rádio), “Inovação” (a propósito da transformação operada para que o Rádio aproveite e rentabilize os recursos oferecidos pelas novas tecnologias, inovando no sentido de consolidar a sua presença quotidiana e assegurar melhores condições de acesso às emissões) e “Conexão” (evidenciando o seu papel de meio rápido e eficaz de contacto, de agente informativo e formativo).

O Rádio tem sido o meio de comunicação social que atinge elevadas audiências e consegue estar presentes em zonas onde outros canais de informação não chegam, por diversificadas razões.

Dia Mundial da Rádio 2021  - foto Helder Sequeira

E nesta época de pandemia, isolamento, restrições várias, o rádio ajuda-nos a desconfinar, encarando o presente e o futuro com novo vigor; criando adaptações para um tempo diferente.

Jaime Marques de Almeida, jornalista com uma longa e ativa carreira radiofónica, escreveu que “este é o tempo de não nos tocarmos. Mas a Rádio toca-nos! Este é o tempo de tantas fronteiras afectivas. Mas a Rádio abraça-nos! Este é o tempo de todos os afastamentos. Mas a Rádio envolve-nos!”

Acrescentaremos que este continua a ser o tempo do rádio! Do rádio cada vez mais interventivo, com futuro.

O rádio é indissociável das nossas vidas.

(Hélder Sequeira)

 

 

 

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publicado às 00:05

Rádio Altitude: prevenção altera programas

por Correio da Guarda, em 15.03.20

Estúdio da Rádio Altitude.jpgFoto: RA

 

A Rádio Altitude decidiu suprimir, até 12 de abril, todas as presenças em estúdio de convidados, entrevistados, comentadores, cronistas, intervenientes em rubricas ou programas temáticos e outros colaboradores externos.

Como explicou o diretor daquela estação emissora, Rui Isidro, “é uma medida de contenção da propagação do novo coronavírus SARS-CoV-2, tomada num pressuposto de responsabilização social e num momento em a Organização Mundial de Saúde decreta a situação de pandemia e Portugal entra em estado de alerta.”

Na informação divulgada pela Rádio Altitude, o diretor acrescenta que “para lá de outros procedimentos adotados internamente pelos profissionais da estação (reforço da higienização de zonas e equipamentos de trabalho; redistribuição de espaços e fixação de turnos; cancelamento da cobertura presencial de acontecimentos onde possa haver concentração de pessoas para além do razoável nas atuais circunstâncias), todas as participações de colaboradores passam a ser efetuadas por via telefónica ou outro meio que não exija a presença nos estúdios.”

Com esta decisão a emissora evita a “deslocação dos quase 60 cidadãos – dos mais diversos quadrantes profissionais, sociais e etários – que ajudam a fazer esta Rádio”, acrescentou Rui Isidro.

Assim, a Rádio Altitude irá proceder à suspensão temporária ou à adaptação de formatos de programas e rubricas, mantendo-se sem alterações os programas que têm produção autónoma dos seus autores, bem como outros cuja gravação não necessita de ser presencial.

 

 

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publicado às 00:28

Espaço de memória e diálogo...

por Correio da Guarda, em 21.02.20

 

A denominada imprensa regional tem, no nosso país, uma expressão muito particular. No passado século, ao longo do território nacional, floresceram os mais variados títulos que deram voz a múltiplas posturas e cuja influência deixou traços indeléveis na historiografia regional.

Muitos desses jornais evoluíram, como sabemos, em função das conjunturas políticas, sociais e económicas; os seus exemplares constituem, inquestionavelmente, importantes documentos para o estudo do perfil de cada região, das mentalidades, das instituições e das vivências.

Os jornais, se por um lado representam um rico espólio cultural são, por outro, um auxiliar precioso na investigação que se pretenda efetuar, em vários domínios, acerca da região em que foram editados ou à qual circunscreveram a sua cobertura, independentemente da periodicidade.

Imprensa Regional.jpg

A imprensa regional tem, por mérito próprio, um lugar de destaque na cultura portuguesa, constituindo um baluarte da forma de estar e de ser, das nossas gentes, das nossas terras; foi – e os jornais do interior assim o comprovam — um eminente elo de ligação com aqueles que residiam noutras regiões e com os nossos compatriotas radicados na Europa ou noutros continentes, mantendo ainda essa presença alargada hoje, sobretudo, através das plataformas digitais.

Trabalhar com profissionalismo e serenidade na imprensa regional não se pode dizer que, mesmo nos dias de hoje, seja tarefa fácil; só quem conhece e sente os seus problemas, o entusiasmo do ciclo do nascer e morrer de cada edição pode apreender verdadeiramente a vivência e peculiar dos jornais, barómetros permanentes dos factos e conjunturas das zonas em que são editados, outrossim um motor de energias e esperanças.

A imprensa regional tem sabido afrontar o seu destino, as suas vicissitudes, alimentando o direito à informação, desempenhando a sua função social. O número de publicações periódicas tem oscilado, mas a região da Guarda não perdeu, felizmente, a sua rica tradição jornalística e registou uma notória evolução gráfica e qualitativa da imprensa.

O distrito da Guarda, como bem evidenciou J. Pinharanda Gomes, foi “pioneiro da imprensa política regional e da imprensa católica nacional” continuando, no presente, a honrar a tradição no campo da comunicação social, tendo trilhado, em muitos casos, novas perspetivas e horizontes, como é o caso deste semanário que completa 20 anos de edições ininterruptas.

A história da imprensa e da cultura cruza-se com dos equipamentos tipográficos pois em tantas situações foi acertado “o passo espiritual pela celeridade mecânica” que se refletiu também noutros sectores da vida económica e social.

Como tem acontecido com outras parcelas do nosso património, o esquecimento atingiu as velhas peças das antigas tipografias, elementos primordiais para o conhecimento da evolução operada no sector gráfico.

Nesta região existem (por enquanto e se não houver atitudes/medidas de preservação e salvaguarda) testemunhos desse percurso, de uma época em que as máquinas de impressão não tinham o auxílio da energia elétrica, a composição era manual e as zincogravuras eram indispensáveis para ilustração dos textos. Estamos perante realidades tão próximas e simultaneamente tão distantes; espaços onde se cruzaram saberes, arte, experiências múltiplas, vidas, entusiasmos, dificuldades, episódios ímpares de que brotaram as mais diversas publicações ou trabalhos gráficos.

Continuamos alheios a um património que corre o risco de se perder irremediavelmente, face à marcha célere do progresso, da evolução técnica, do redimensionamento dos mercados ou das novas exigências empresariais e comerciais.

Num período em que as muitas atenções estão centradas no processo de candidatura da Guarda a Capital Europeia da Cultura não seria totalmente despropositado equacionar a criação, nesta cidade, de um espaço de memória e diálogo, interpretativo, dedicado às Artes Gráficas (capaz de contribuir para salvaguarda, estudo e divulgação do espólio das tipografias de uma região foi rica em títulos de imprensa local) e à Comunicação Social (pois se houve pioneirismo na Imprensa não devemos, de forma alguma esquecer a radiodifusão sonora, mormente a Rádio Altitude cujas primeiras ondas hertzianas remontam ao longínquo ano de 1946).

É imperioso alertar/sensibilizar a comunidade, as instituições e entidades para que sejam desencadeadas as necessárias estratégias de forma a não se perderem os insubstituíveis valores existentes, assegurando o seu e conhecimento pelas gerações do presente e do futuro, facilitando e incentivando o seu estudo, honrando a imprensa e a rádio, intervindo culturalmente. (Hélder Sequeira)

 

In "O Interior", 20|02|2020

 

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publicado às 07:42


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