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A Rádio é fascinante...

por Correio da Guarda, em 19.06.25

 

“A rádio terá sempre o seu lugar e o seu papel”. Esta a convicção de João Paulo Diniz, um consagrado nome da rádio portuguesa que hoje sublinhamos neste apontamento.

Lembramos “um homem de liberdade” que “num conluio tão sigiloso como arriscado, lançou a deixa musical na rádio para o arranque do dia mais claro e luminoso da geração sofrida e silenciada a que pertencemos”, como escreveu Júlio Isidro no prefácio à publicação “Cuidado com os Cabelos Brancos”.

João Paulo Diniz, autor desse livro e um “brilhante profissional”, é uma voz da liberdade, tendo com algumas breves palavras evidenciado o papel da rádio num importante momento da história portuguesa; na noite de 24 de abril de 1974 colocou no ar – através dos Emissores Associados de Lisboa – a primeira senha do movimento dos capitães, ao anunciar “faltam 5 minutos para as 23 horas”, seguindo-se a apresentação da música de Paulo de Carvalho, “E depois do adeus”.

“A música foi escolhida inicialmente quando fui abordado pelo capitão Costa Martins, da Força Aérea, e pelo Otelo Saraiva de Carvalho, com quem eu tinha estado na Guiné.” Recordou-nos João Paulo Diniz.

Quando o questionámos se as pessoas têm consciência da importância da rádio e do seu contributo para a revolução e subsequente afirmação da democracia, respondeu-nos: “não sei se têm. Há uma coisa que me custa um pouco. É que tenho a sensação que, de hoje em dia, os jovens sabem muito pouco sobre o que foi o 25 de Abril.”

João Paulo Diniz_foto Bernardo Gomes 

Daí acrescentar-nos ser “extremamente importante sensibilizar toda a população, mas em especial os mais jovens, para a importância” dessa data e de “todas as liberdades que nos permitiu. Liberdade sempre, obviamente, com a máxima responsabilidade. Uma e outra não se separam. É um casamento.”

João Paulo Diniz protagonizou diversos projetos radiofónicos e desenvolveu uma intensa e distinta atividade jornalística, em vários órgãos de informação, mormente na rádio; atividade que evoca e descreve no livro a que aludimos anteriormente.

A sua passagem pela BBC contribuiu, como nos disse recentemente, para reaprender algumas “lições, sobretudo em termos do rigor, da informação, de ter a certeza que a notícia só é dada quando estiver a cem por cento tudo confirmado.”

Hoje, diz João Paulo Diniz, “fazem falta na rádio profissionais de cabelos brancos”, pretendendo dizer com isso que é importante haver neste meio pessoas com “uma experiência mais ampla, maiores conhecimentos”, capazes de transmitir memória; sem esquecer que é fundamental “ensinar aos mais novos como se faz a Rádio e, sobretudo, como não se faz…”.

Na necessária reinvenção da rádio, na sua desejada aproximação com o seu público, na reafirmação do seu perfil identitário e no amplo aproveitamento das suas características e capacidades esses contributos idóneos – pautados por um inquestionável profissionalismo e saber fazer – são relevantes e oportunos.

Aliás, há décadas atrás, o jornalista que hoje evocamos, descentralizava as emissões do programa que conduzia – na emissora pública portuguesa – pelo território nacional; como já destacava também a função social da sonora radiodifusão no interior do país, partindo do exemplo da Rádio Altitude, no decorrer de um colóquio realizado na Guarda em 1990, no âmbito da comemoração do aniversário desta rádio, que a 29 de julho completará 77 anos de emissões oficiais regulares; uma marca informativa e cultural da nossa região e da cidade, que não deve ser esquecida.

João M Almeida, Helder Sequeira  e João Paulo Diniz (RA_1990) 

Na Guarda, em 1990. No colóquio intregrado na comemoração do aniversário da Rádio Altitude. Na foto (esq. para a dir ) João Marques de Almeida, Hélder Sequeira e João Paulo Diniz.

 

A proximidade e a humanização do meio rádio continuam a ser necessárias, pertinentes e fundamentais, pois as pessoas (e tendo em conta os cenários criados pela inteligência artificial e pelos desenvolvimentos ao nível de equipamentos técnicos) não podem ser afastadas do seu processo evolutivo; a Rádio a continua a ter futuro, apesar dos múltiplos condicionalismos e desafios.

Concluindo estas Anotações com palavras de João Paulo Diniz, “a rádio tem realmente uma dimensão extraordinária. É portátil, é leve, é gratuita e é fascinante.” Saibamos perceber, valorizar e apreciar esse fascínio!...

 

Hélder Sequeira

 

in O INTERIOR, 18 junho 2025

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publicado às 17:16

Diocese da Guarda tem novo Bispo

por Correio da Guarda, em 20.12.24

 

D. José Miguel Pereira é o novo Bispo da Guarda, sucedendo a D. Manuel Felício. A nomeação foi hoje anunciada pelo Papa e a ordenação episcopal terá lugar dia 16 de março, pelas 16 horas, na Sé Catedral da Guarda.

O novo prelado, com 53 anos de idade e uma sólida experiência pastoral no Patriarcado de Lisboa, sucede a D. Manuel Felício. A ordenação episcopal terá lugar no dia 16 de março, as 16h00, na nossa Sé Catedral.

D Jose Miguel Pereira_

De acordo com as notas biográficas publicadas no sítio da Diocese da Guarda, o Cónego José Miguel Barata Pereira nasceu em Lisboa a 7 de novembro de 1971.

Frequentou o Pré-Seminário de Lisboa e ingressou no Seminário de Almada, então pertencente ao Patriarcado de Lisboa, e depois no Seminário Maior de Cristo Rei dos Olivais, do Patriarcado de Lisboa. Frequentou a Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, onde obteve a Licenciatura em Teologia, com uma tese intitulada “Ser Igreja, ser na Igreja – Do ser comunhão ao agir vocacional”.

Foi ordenado sacerdote a 29 de junho de 1996 para o clero do Patriarcado de Lisboa. Após a ordenação foi nomeado Prefeito do Seminário Menor de São José de Caparide, em Estoril (1996-1999).

Foi Vice-Reitor do Seminário Menor de Nossa Senhora da Graça, em Penafirme (1999-2007). Durante o mesmo período, exerceu o ministério pastoral como colaborador nas Paróquias vizinhas de Nossa Senhora da Luz, em A-dos-Cunhados, e São Miguel, em Vimeiro, pertencentes à Vigararia de Torres Vedras, da qual foi Vigário Forâneo (2006-2007). Foi também Membro eleito do Conselho Presbiteral (1996-1999; 2000-2003; 2009-2012); Professor de Educação Moral Religiosa Católica no Externato de Penafirme (2001-2007); Assistente do Núcleo do Oeste do Corpo Nacional de Escutas (2006-2007); Vice-Reitor do Seminário Maior Cristo Rei dos Olivais (2007-2011); Diretor do Pré-Seminário (2009-2012); Diretor do Setor de Animação Vocacional (2007-2017).

Atualmente é Reitor do Seminário Maior Cristo Rei dos Olivais (desde 2011); Secretário do Secretariado de Ação Pastoral (desde 2007); Responsável pela formação dos Candidatos ao Diaconado Permanente (desde 2007); Membro nato do Conselho Presbiteral (desde 2012); Membro nato do Conselho Pastoral Diocesano (desde 2012); Membro do Capítulo dos Cónegos da Sé Patriarcal (desde 2017).

O novo Bispo da Guarda expressou, na sua mensagem à Diocese, o desejo de caminhar em conjunto com a comunidade e convidou todos à oração mútua. “Rezemos uns pelos outros e todos pela nossa querida Igreja da Guarda. De olhos postos no Jubileu dos 2025 anos da Encarnação e do Natal de Jesus, vivamos o novo ano voltados para a Esperança!”.

Por seu turno, D. Manuel Felício, agora Administrador Apostólico da Diocese, saudou o seu sucessor afirmando que “este é um grande e bom presente de Natal para a nossa Diocese da Guarda. É com grande júbilo que nós o recebemos”

O Patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, destacou a dedicação e as qualidades pastorais do novo Bispo, assegurando que D. José Miguel Pereira será sempre considerado “um filho de Lisboa”.

 

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publicado às 22:36

Aniversário

por Correio da Guarda, em 29.07.24

 

CORREIO DA GUARDA_16 ANOS.jpg

É um título e uma presença diária com dezasseis anos consecutivos. Para os próximos tempos há novos projetos e ideias. Gratos a todos quantos têm acompanhado este percurso. Pode seguir-nos também no Instagram (correioguarda) ou no Facebook em:

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publicado às 13:00

O Dia da Rádio...

por Correio da Guarda, em 13.02.23

Estúdio de Rádio_foto Helder Sequeira .jpg

A data de 13 de fevereiro foi designada em 2011 pelos estados-membros da UNESCO como Dia Internacional do Rádio. No ano seguinte esta escolha seria validada pela Assembleia Geral das Nações Unidas.

A opção por esta data fica a dever-se ao facto de ter sido neste dia, em 1946, que a Rádio das Nações Unidas emitiu, pela primeira vez, um programa em simultâneo para um grupo de seis países.

Por esse ano ocorriam, na Guarda, as primeiras experiências de radiodifusão sonora, as quais estiveram na origem da Rádio Altitude. Evocar esta data é, também, exercer o dever de memória para com o pioneirismo da Guarda no campo da radiodifusão sonora.

Um pioneirismo materializado num projeto definido, oficialmente, em 1948 com as emissões regulares desta emissora; estação que continua a emitir e assinala o septuagésimo quinto aniversário.

Este ano, o dia 13 de fevereiro é celebrado sob o tema "O rádio e a paz", como alerta para a necessidade de um meio de comunicação forte e independente; de forma a sublinhar o seu papel na garantia da paz e da estabilidade.

No Dia Mundial da Rádio a UNESCO destaca as emissoras como pilares para a prevenção de conflitos e construção da paz; na atual conjuntura mundial faz todo o sentido evidenciar a função social da rádio e a responsabilidade de quem lhe dá voz e conteúdo.

O tempo presente continua a ser da rádio! De uma rádio cada vez mais interventivo que saiba construir o futuro. Deverá ser também o tempo de darmos uma nova e objetiva atenção às estações de radiodifusão existentes no interior de Portugal.

Onde muitas rádios foram perdendo o dinamismo inicial, esbatendo a identidade, afastando-se do quadro legislativo que definiu os seus objetivos, assumindo – em tantos casos – uma passiva retransmissão de outros canais.

É também o tempo de serem apoiadas as estações que, apesar das múltiplas dificuldades continuam “no ar” e que, infelizmente, apenas são lembradas no formalismo de datas comemorativas.

Apoiar estas emissoras é um imperativo moral e ato de justiça, pelo seu papel de serviço público que desenvolvem em prol das populações.

A rádio continua a ser indissociável das nossas vidas.

 

Helder Sequeira

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publicado às 00:01

Rádio em altitude...

por Correio da Guarda, em 18.01.23

 

O papel da Rádio como meio de comunicação, consciência e memória regional não deve ser esquecido, especialmente quando há uma inquestionável ligação afetiva entre as gentes beirãs e uma emissora – Rádio Altitude (RA) – com uma identidade distinta. Este é um ano particularmente importante numa imprescindível reflexão sobre passado, presente e futuro.

Em 2023 completam-se 75 anos após a inauguração oficial da RA, ainda com o indicativo CS2XT. Também este ano, e concretamente a 1 de fevereiro, passa o septuagésimo quinto aniversário da criação do jornal Bola de Neve. Dois projetos informativos e culturais que surgiram no seio do Sanatório Sousa Martins,

O Boletim Bola de Neve (como se definia inicialmente) surgiu a 1 de fevereiro de 1948, tendo como primeiro diretor o Engº Agrónomo Álvaro Martins da Silva. O periódico contou com a colaboração de diversas e eminentes figuras, nomeadamente Amorim Girão, Damião Peres, Nuno de Montemor, Miguel Torga, Joaquim Veríssimo Serrão, Gen. João de Almeida e Ladislau Patrício, entre outros.

Por outro lado, a atividade radiofónica desenvolvida, a partir de 1947, no Sanatório suscitou a preferência de muitos doentes. A rádio era – e é – um fascínio contagiante, acrescido pelo facto de não ser normal a possibilidade de contactar, de perto, com uma emissora de radiodifusão sonora.

A maior parte dos internados, no Sanatório Sousa Martins, que eram admitidos na rádio, designada de “Altitude”, ocupavam-se quer na manutenção técnica dos equipamentos de emissão ou de estúdio, quer no apoio administrativo ou no arquivo de discos e registos magnéticos. Setor onde se podia verificar uma irrepreensível catalogação; apenas os doentes com melhores condições de saúde, e outras características exigidas, eram escolhidos para efetuarem locução ou apresentação de programas.

O Bola de Neve noticiava, na edição de 1 de abril de 1948, que a Caixa Recreativa do Sanatório Sousa Martins tinha adquirido um aparelho emissor. “Poderemos escutar dos nossos quartos as festas realizadas e deliciarmo-nos com música do nosso agrado direto e recrearmo-nos com crónicas de são oportunismo de propósitos inofensivos. Além de que a organização dos programas distrai e desperta curiosidade, Rádio Altitude é mais um elemento de fraternidade entre os doentes do Sanatório – e, em destaque, uma nova regalia da Caixa Recreativa”.

No longínquo ano de 1948 a Rádio Altitude apresentava-se como “Posto Emissor CS2XT” (mais tarde foi-lhe atribuído o indicativo CSB-21), emitindo no comprimento de onda dos 212,5 m e na frequência de 1495 Kc/s.

Rádio Altitude - Microfone antigo - HS.jpg

Frequência na qual começou a ser emitido o mais antigo programa de rádio dedicado ao mundo automóvel, e outrossim à segurança rodoviária.O “Escape Livre” – iniciado em 13 de fevereiro de 1973 – sendo um espaço emblemático da Rádio Altitude é também um original exemplo de longevidade no panorama da radiodifusão sonora portuguesa.

Idealizado por Luís Celínio, este programa surgiu, curiosamente, num ano em que, face à crise energética verificada nessa época, foram proibidas as provas automobilísticas. Ainda estudante do então Liceu Nacional da Guarda, Luís Celínio era já um fervoroso adepto do desporto automóvel; a idade impedia-o, contudo, de conduzir e mesmo a sua pretensão a um veículo de duas rodas foi, pedagogicamente, convertida a favor de uma máquina de filmar, como prémio pelos bons resultados escolares. Este equipamento, que lhe permitiu o registo de inúmeras provas automobilísticas, acabou por constituir o ponto de partida para alguns projetos na área da comunicação social.

No Liceu da Guarda conheceu outro jovem entusiasta pelos automóveis, Francisco Carvalho, que estivera ligado em Trancoso (onde residia com os pais) a uma rádio-pirata local; para a qual idealizara um programa sobre desporto automóvel a que pretendia atribuir o nome de Escape Livre. O plano não foi concretizado e sugeriu esse nome a Luís Celínio, para o projeto deste, a concretizar na Rádio Altitude.

Após algum tempo, depois dos indispensáveis contactos, com a direção (liderada pelo Dr. Martins de Queirós, igualmente diretor do Sanatório Sousa Martins) e com o encarregado geral da Rádio, o programa começou a ser emitido – em onda média – às terças e quintas-feiras, com uma duração de 13 minutos; dois anos depois passou a ocupar sessenta minutos semanais da emissão da rádio, inicialmente às quartas-feiras (entre as 18 e as 19 horas), depois às quintas-feiras entre as 11 e as 12h e, posteriormente, nesse mesmo dia no horário das 18 às 19 horas.

Certamente que estas e outras memórias vão ser evocadas no próximo mês, aquando da passagem de meio século após a primeira emissão do programa Escape Livre, a partir da cidade da Guarda de onde continua a irradiar semanalmente.

Nestas despretensiosas notas quisemos sublinhar três gratas efemérides e, de forma especial, a longevidade de uma estação de Rádio que não pode esquecer os seus novos desafios e desígnios. Em especial num ano que merece ser evidenciado, enquanto marco importante na história de uma das rádios pioneiras em Portugal. Facto que a Guarda não deve esquecer…

 

Hélder Sequeira

 

in O INTERIOR, 18_jan_2023

 

 

 

 

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publicado às 22:52

Serra da Estrela: aumentou a área queimada

por Correio da Guarda, em 12.08.22

Serra da Estrela - área queimada 12AG2022.jpg Incêndio ativo e áreas queimadas (até esta hora) no espaço do Parque Natural da Serra da Estrela.

Fonte: Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais (EFFIS)

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publicado às 10:20

Praça

por Correio da Guarda, em 23.07.22

Rei D. Sancho e antiguidades --53.jpg Guarda. Praça Luís de Camões.

 

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publicado às 19:13

José Domingos: rádio, jornalismo e cultura judaica

por Correio da Guarda, em 08.02.22

 

 

Com uma vida dedicada à comunicação social, José Domingos afirma ao CORREIO DA GUARDA que “o jornalista no interior teve e tem, aqui, um papel importante. Ele é o elemento-chave para mostrar e motivar a vitalidade deste interior, lutando contra desvantagens acrescidas”.

Natural da Guarda, onde nasceu em 1954, José Domingos fez o seu percurso académico na Guarda em Coimbra. Para o nosso entrevistado, “o jornalista deve ter um mínimo de cultura e saber onde está, saber escrever e bem falar português”, acreditando ainda em “jornalismo de qualidade em Portugal". Um país onde continua, de forma apaixonada, a estudar e a divulgar a presença da cultura judaica.

 

José Domingos 1 .jpg

Como aconteceu a tua ligação à rádio?

Tudo aconteceu ainda jovem, muito jovem. Era amigo - e sou- pessoal do Emílio Aragonez e do Dr. Joaquim Lopes Craveiro. Frequentava amiúde a ótica Aragonez, onde trabalhava também um antigo colaborador da Rádio Altitude (RA), o Pedro Claro, pessoa bem-humorada e antigo doente do Sanatório.

Certo dia, o Emílio Aragonez e o Dr. Lopes Craveiro, que ali se encontravam frequentemente em amena cavaqueira, acharam por bem sugerir que experimentasse qualquer coisa na RA porque, diziam, "o rapaz até tem uma voz jeitosa".

Andava eu no 7° ano do Liceu. Comecei a ir até à RA; era administrador o Sr. Carvalhinho e o saudoso Alberto Antunes Ferreira o encarregado geral. O diretor era o Dr. Martins Queirós, homem de alta estatura, conhecedor da técnica de "fazer uma rádio" de que foi obreiro o seu emissor Onda Média. Os técnicos eram o Clavier Bernardo Alves e o António Santos.

Comecei por preencher os boletins fase Felicitações com o Luís Matias de Almeida e o Elias Xastre. Por vezes aparecia o António Cardoso. Depois aprendi a mexer nas máquinas, montar equipamentos, fazer gravações, acompanhar as reportagens dentro e fora do estúdio com o António Pinheiro, o Aragonez, por vezes o desporto com o Vítor Santos, o Rebelo de Oliveira e Luís Coutinho. 

E chegou a altura de, numa tarde de junho, começar a falar ao microfone em estúdio, em direto. Recordo que nesse dia e me enganei a dizer as horas e o primeiro disco que passei foi "Yo y la Rosa" de Hector Cabreira. Fazia-se publicidade ao Omega 300 oferecido pelo Emílio Aragonez.

 

Capa de Disco.jpg

Capa do disco "Yo e la rosa"

 

Quais os trabalhos iniciais da rádio? Os discos pedidos foram uma presença obrigatória?

Como disse, os primeiros trabalhos foram mais de secretariado, preenchendo boletins para o programa das Felicitações. Depois foi mais a aprendizagem. 

Comecei a fazer as Felicitações que eram imagem da Rádio, programa que ligava a RA as pessoas e entre elas mesmo. Era, diga-se, um espelho de uma rádio do povo para o povo, elemento de aproximação, mas também de divulgação das vilas, aldeias e lugarejos e, claro, da música onde se destacava a portuguesa.

Havia também outro programa as 17 horas que começou por ser o "Marque 232 e peça um disco" com publicidade à Toyota. O 232 era o antigo número telefónico da RA.

 

A esta distância como vês a importância e as características dos "discos pedidos"? Como era a audiência?

Entendo que, embora preenchendo uma grande parte da programação da tarde, eram elos íntimos entre as pessoas com a rádio, onde o povo participava na sua rádio através dos discos pedidos, fazia, se assim se pode dizer, o seu programa.

E curioso, era um programa transversal na audiência e uma marca. Os "Discos Pedidos " agarravam as pessoas a rádio até, diga-se, pela vaidade íntima dos ouvintes em escutarem seu nome ou da sua terrinha

 

Quais os colegas com que trabalhavas na altura? E como era o ambiente vivido na rádio?

Era um ambiente familiar. Por tudo, faziam-se convívios, festas, lanches. Lembro os lanches com os bolos da Ti Ritinha, os "Enfarta brutos", as conservas, quando alguém fazia aniversário, os magustos, as sardinhas assadas junto à garagem, os passeios ou excursões, os ralis automóveis onde o Sucena e o Celínio eram os organizadores, com o João Oliveira Lopes.

Trabalhei naquela época com vários colegas, muitos deles que já partiram: Alberto Antunes Ferreira, António Santos, Clavier Bernardo Alves, Elias Xastre, Vitorino Coelho, Luís Matias de Almeida, Joaquim Fonseca, António Pinheiro, Luis Celínio, Manuel Vaz Júnior (a quem chamávamos amigavelmente de "pena parda"), Luis Coito, Luis Coutinho, António Arede, Abílio Curto, Emílio Aragonês, Lopes Craveiro; mas também com o Carlos Martins, Helder Sequeira, Manuel Madeira Grilo (Língua e Linguagem e de que eu era colaborador também), João Gomes (Reflexões Políticas), António José Amaro, Aguinaldo Nave, Joana Paula, Margarida Andrade. Como correspondentes o Manta Luís (Gouveia), Amílcar Chéu e António Lourenço (Foz Côa), Carlos Fidalgo (Trancoso).

Uma pessoa que devo recordar: Manuel Pires Daniel, pessoa calma, culta e sensata, poeta e escritor, natural de Meda, mas residente em Foz Côa.

José Domingos 7.jpg Fausto Coutinho, José Domingos, Helder Sequeira e João Falcão Lucas (da esq. para a direita)

 

Que episódios te deixariam melhores recordações? E piores?

0 falecimento de António Pinheiro e Manuel Vaz Júnior foram momentos dolorosos dada a amizade que nutríamos reciprocamente. Não recordo momentos que me tenham deixado más recordações.

Momentos bons foram muitos. Sobretudo daquele programa que eu tanto amava de que fui um pouco de tudo desde produtor, realizador, locutor, animador, etc.: o clube GIROFLÉ dedicado às crianças, onde criei bases e mobilizei pessoas para a fundação da CERCIG.

Era necessário arranjar dinheiro para o então Centro Educacional e Recuperador de Crianças Inadaptadas da Guarda. Organizei então vários espetáculos com o apoio da Casa Cogumelo (de Eduardo e Filomena Espírito Santo e Armando Gil) e do Cine Teatro da Guarda dirigido por Abílio Curto.

Aqui vieram vários artistas de que destaco José Barata Moura, Paco Bandeira, Frei Vicente da Câmara, Vicente do Nascimento, Odette de Saint Maurice (poetisa e escritora), Orlando Dantés (palhaço), Serip (ilusionista) e outros. Com a Casa Cogumelo organizei Festas de Natal no Cine-Teatro da Guarda e no Auditório do Ex-sanatório Sousa Martins. O Pai Natal chegou a vir de Helicóptero e quem era? O Sr. Humberto, da Câmara Municipal.

Todas as crianças tinham seus brinquedos e lembranças, o seu lanche convívio e iogurtes com apoio de empresas da Guarda e outras nacionais como a Yoplait e Regina. Além disso promovi peditórios e campanhas, sobretudo no Natal, para angariação de géneros alimentícios, roupas, brinquedos para ajuda aos mais necessitados. Os "sócios" do GIROFLÉ tinham um cartão identificativo que lhes dava descontos em casas comerciais que aderiram e publicitavam seus produtos, mas o exclusivo era a Casa Cogumelo.

Foram os melhores tempos de alegria que tive na Rádio. Quando, por motivos profissionais, deixei a Altitude, o GIROFLÉ...acabou. 

Outro momento marcante que vivi na RA foi o espetáculo único, singular que em 1975, se realizou na Guarda com a participação de Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Francisco Fanhais e Fausto. Outro programa de que guardo boas recordações era o "Rádio e Informação" realizado por mim na Guarda e o António Arede. Tinha música, informação, recreação, novidades. Mas na generalidade foram bons momentos de rádio, camaradagem e convívio.

 

O Giroflé foi um programa para crianças, emblemático. Como surgiu e que impacto teve?

Como atrás disse, o GIROFLÉ foi um pouco de mim. A este programa me dediquei de alma e coração.

Se bem que havia uma lacuna na programação dirigida a crianças, o GIROFLÉ começou na sequência de uma ação de angariação de géneros para os mais necessitados que organizei creio que no programa da tarde. Surgiu então a ideia do programa a que inicialmente aderiram Abílio Curto e Margarida Andrade. Acabei por ficar sozinho. Mas consegui colocar as crianças a apresentar o seu programa em direto. Era lindo vê-los chegar até às Rádio antes das 18 horas de sexta-feira, a hora do programa. Uma "passarada" como dizia o meu saudoso amigo e ex-professor Manuel Madeira Grilo.

Hoje essas crianças cresceram, já são pais e alguns mesmo avós e é reconfortante abordarem-me por vezes e recordarem o GIROFLÉ.  Mas a grande realização foi a CERCIG. Quero aqui sublinhar a sempre pronta ajuda e colaboração dos também fundadores daquela organização de que destaco Alcino Bispo, D. Lisdália, António Melo, Júlio Antunes e ainda do Centro de Assistência Social da Guarda e das irmãs da instituição e educadoras de infância, sobretudo Olívia Rodrigues, Teresa Cardoso, Cristina Correia, a Lurdes e outras.

 

Que achas do trabalho do jornalista em terras do interior do país? Há mais dificuldades ou desafios diferentes?

O jornalismo tem grandes tradições no interior desde já muito. Panfletos, boletins, magazines, jornais e até rádio como é o caso da Altitude da Guarda surgiram como emanações da sociedade, uns com matriz religiosa, outros política, outros social.

Claro que não há Comunicação Social sem jornalistas e estes mesmo com raízes no interior projetaram-se a nível nacional e internacional, mas beberam aqui a sua essência. Jornais como A Guarda, Amigo da Verdade, Jornal do Fundão, Notícias da Covilhã, são órgãos que desde tempos recuados se afirmaram como referência na sua dimensão.

O jornalista no interior teve e tem, aqui, um papel importante. Ele é o elemento-chave para mostrar e motivar a vitalidade deste interior, lutando contra desvantagens acrescidas, desde os meios de trabalho, a economia e suporte, as comunicações sobretudo com órgãos da administração central que, no caso das suas representações regionais, só com autorização da tutela podem pronunciar-se.

Para ultrapassar as dificuldades, o jornalista no interior tem de ser atento, perspicaz, ser bom auditor e simultaneamente provocador, criar uma rede de fontes fidedignas e posicionar-se na neutralidade, quero dizer, isento. A pressão social quer política quer económica, sempre teve tendência para limitar a função do jornalista e no interior ainda mais por se tratar de um território com menos gente e como consequência um conhecimento mais próximo com os agentes dos diversos sectores e daí a tal pressão onde muitas vezes ocorre o "se não és por mim és contra mim".

Se bem que este facto ainda exista, o jornalista tem hoje outros meios ao dispor pois que a técnica evoluiu em todos os sectores – jornais, rádio, TV , bloggers, redes sociais – , criaram-se gabinetes de imprensa ou imagem muitos deles com jornalistas ou equiparados.

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Alguns anos depois de teres entrado para a Rádio Altitude ocorreu a tua ligação a agência de notícias ANOP. O que representou para ti esse novo trabalho, e como surgiu?

Entrei para a ANOP- Agência Noticiosa Portuguesa em 1977 e no quadro em 1 de julho de 1978.

Para mim foi uma mudança radical em termos profissionais e adoção de regras. A ANOP ia abrir uma delegação na Guarda, dirigida pelo malogrado vê amigo Armando de Sousa Fontes. Um dia à tarde estava eu a fazer a emissão na RA apareceu nos estúdios o Fontes a perguntar por mim. Eu não o conhecia pessoalmente então a não ser por referências no jornal O Século e Diário Popular.

Fez-me então a proposta de ir para a ANOP por indicação de João Tito de Morais, presidente vida Agência Noticiosa que eu conhecia via o pai, Tito de Morais que foi Presidente da Assembleia da República e este através do também ex-Presidente do Parlamento, Teófilo Carvalho dos Santos, natural de Almeida.  Deixei então a Rádio Altitude mantendo ainda o GIROFLÉ até a minha integração no quadro da ANOP.

A Agência tinha regras de redação estritas, era o único órgão de comunicação social que tinha Livro de Estilo. Estive em Lisboa, Coimbra (onde trabalhei com Marinho Pinto e Fausto Correia), depois Porto e depois regressei à Guarda. Entretanto o Armando Fontes regressou à sede por razões de saúde e fiquei sozinho na Delegação da Rua Pedro Álvares Cabral. Tinha a meu cargo a zona da Beira Interior e parte do distrito de Viseu. Criei uma rede de correspondentes.

Foi, entretanto, designado delegado o Mimoso de Freitas e eu voltei a Lisboa e daqui fui a Israel, Timor, Madrid e Brasil. Foi uma ausência prolongada da Guarda. Voltei a Lisboa e vim substituir o Mimoso de Freitas, que, entretanto, se reformara. Mas mesmo neste período ainda estive noutros locais deixando temporariamente os correspondentes ligados a Coimbra ou Lisboa. Foi uma caminhada grande.

 

Que balanço fazes do trabalho na ANOP e mais tarde Lusa?

Confesso que, como diz o povo, "ia a todas" em busca da notícia, visitando autarcas, serviços públicos e privados, associações empresariais, instituições sociais e religiosas, etc.

A ANOP e a LUSA conseguiriam ser referência e com imagem em toda a região

Olhando para trás, foi um trabalho positivo, com altos e baixos naturalmente, nunca tive desmentidos, ouvi sempre as partes em caso de conflito, participei em várias iniciativas (integrei a Comissão Organizadora das primeiras Jornadas da Beira Interior, por exemplo), não utilizava as fontes e depois as deixava sem criar laços de amizade, ou seja, construí amizades, fui interventivo na área social e cultural, sobretudo nos Bombeiros.

José Domingos 8.jpg   

José Domingos com o pintor guardense Luis Rebello

 

Qual o acontecimento, notícia, que mais te marcou enquanto jornalista da agência?

Foram vários os acontecimentos. O que mais me marcou foi o acidente Ferroviário de Alcafache onde fui jornalista, bombeiro, socorrista...tudo, perante um espetáculo dantesco, de morte.

Outro foi o julgamento do caso de alegada violação na Guarda, com a destruição e violência que gerou e onde levei com uma bala de raspão à porta do Hotel Turismo onde fui socorrido pelo Dr. Raul Gil Saraiva; também o julgamento do caso Raia Seca não tanto pelos factos, mas pelos nomes dos arguidos e suas alcunhas que faziam rir.

Curioso trabalho que fiz foi nos Foios, Sabugal, onde a população se revoltou contra o pároco, este levou (há quem diga que comeu) as hóstias e o sacrário ficou vazio; o pároco deixou os Foios e as missas eram celebradas pelo povo, por um dos seus membros com mais respeito. Faleceu na ocasião um familiar de um padre e o funeral foi civil. O assunto só foi resolvido com a visita do Bispo da Guarda, D. António dos Santos.

 

Como vês hoje o jornalismo em Portugal?

O jornalismo em Portugal evoluiu bem todos os sectores e novas formas de jornalismo surgiram assim como vás fontes, algumas perigosas por não credíveis principalmente nas redes sociais.

Eu comecei por uma máquina de escrever e uma folha, o "linguado" como lhe chamávamos, também com regras de linhas e batidas, depois o corfac, o telex e mais tarde os computadores. Não havia telemóveis, os gravadores eram grandes, hoje são por vezes minúsculos. 

A revolução informática e novas tecnologias de informação conferiram novas realidades em que, no caso da imprensa escrita, migrou para o digital em detrimento do suporte papel.  O aparecimento de vários canais TV e estações de rádio dão ao espectador uma variada possibilidade de escolha.

O jornalismo tem de adaptar-se às novas realidades. O mercado de emprego é restrito na área da Comunicação Social e as escolas continuam a formar potenciais jornalistas. E porquê? A crise económica tem impacto nos órgãos de comunicação social e muitos, sobretudo no Interior, lutam com enormes dificuldades de sobrevivência. Por outro lado, acho que o jornalista deve ter um mínimo de cultura e saber onde está, saber escrever e bem falar português para não se ouvirem calinadas como as que vemos e ouvimos por vezes.

Essa cultura pode ser nas áreas social, económica, geográfica, política, jurídica etc. Isto ajuda ao jornalista identificar-se com o meio em que se insere. Contudo acredito no jornalismo de qualidade em Portugal

 

Em simultâneo com a atividade jornalística teve lugar a atenção para com as questões judaicas, mormente para as marcas dos judeus neste território do interior. Fala-nos desta atividade.

É antiga a minha ligação a assuntos judaicos. A minha família vem de raiz judaica. Ainda no Liceu, embora pouco se falasse de Judeus a não ser sobre Inquisição e não muito e praticamente nada sobre o Holocausto, eu comecei a investigar. Era "cliente" habitual da Biblioteca Municipal ou da Biblioteca do Liceu e mesmo da Gulbenkian.

Mas o meu interesse efetivo começou sobretudo a partir de 1978 quando pela primeira vez visitei Israel onde passei núpcias.

Em alguns locais visitados escutei um português antigo, não o Ladino, e falei mesmo com pessoas que o falavam sobretudo na Galiléia, em Tiberíades , Rosh Pinah e Safed. Eram descendentes de portugueses que um dia fugiram as garras da Inquisição, á tortura e ou morte.

Isto despertou-me interesse. Contudo meu primo, o historiador Adriano Vasco Rodrigues e também Carlos Oliveira nos seus "Apontamentos para a Monografia da Guarda" já tinham abordado a presença dos Judeus na Guarda. Também Lopes Correia, em Trancoso e mais recente, José Guerrinha, em Gouveia.

Eu nasci na Judiaria. Ali fui criado pelos meus avós. O conhecimento das marcas nos umbrais das portas e seu significado eram conhecidas e eu bebi nesse conhecimento empírico das pessoas. Por outro lado, também meus avós me transmitiram esse conhecimento. De regresso desenvolvi estudos, organizei colóquios, mostras e a exposição itinerante " Crianças de Todo Mundo Pintam Jerusalém", patente no Museu da Guarda, entre outras.

Decidi então criar a Associação de Amizade Portugal-Israel (AAPI). Convidei Adriano Vasco Rodrigues, Sam Levy, Álvaro Estevão, Madeira Grilo, Itzhak Sarfaty (conselheiro da Embaixada de Israel em Lisboa, recém-criada), José Luis Nunes (deputado do PS, já falecido) para comigo assinarem a ata de constituição da AAPI e fazer-se o registo notarial que paguei de meu bolso. Os Estatutos foram feitos pelo Dr. Inácio Vilar.

Antes porém, em 1980, organizei na Guarda com Shifra Horn o Encontro Europeu de Jovens Judeus com representações de Portugal, Espanha, França, Bélgica e Inglaterra. Entretanto, vários Embaixadores de Israel com quem trabalhei próximo visitaram a Guarda e região com frequência, designadamente o primeiro Embaixador de Israel em Portugal, Ephraim Eldar, o seu sucessor Dov Halevy Milman, Gideon Ben-Ami, o conselheiro Itzak Sarfaty, entre outros. Realizaram-se vários encontros e conferências uma das quais com o professor Reis Torgal que encheu o salão dos antigos Paços do Concelho onde foi focada a participação dos cristãos-novos na Revolução de 1640.

Seguiu-se depois 17 fevereiro 1982 a assinatura do Acordo de Geminação entre os Municípios de Guarda presidido por Abílio Curto e Safed, presidido por Aaron Nahmias. Foi uma iniciativa minha que propus à Câmara Municipal da Guarda que prontamente aceitou a proposta. 

Este foi também o primeiro Acordo de Geminação ou de cidades irmãs entre Portugal e Israel. Esta iniciativa teve incidência no intercâmbio de experiências, turismo, cultura, sobretudo. E de facto a Guarda foi então pioneira no Turismo Judaico que ao longo dos anos aumentou até este surto de pandemia.

Razões várias basearam este acordo: ambas cidades são as mais altas nos respetivos países, o facto de Safed ser cidade de acolhimento de judeus portugueses sobretudo da Guarda e região em tempo de perseguições, expulsão e conversão forçada dos judeus e de Inquisição. Em Safed é possível escutar o português antigo ou arcaico, Ladino e memórias de judeus portugueses que aqui construíram a linda Sinagoga Abuhav, um dos ícones de Safed, em funcionamento. É a cidade dos Cabalistas. Sugiro a leitura do relato da visita de Frei Pantaleão que testemunha a presença da comunidade judaica portuguesa. 

O primeiro grupo de israelitas teve a minha colaboração com Jordan (Yarden) Horn como guia, tendo eu sido o guia em Portugal e principalmente na Guarda e região. Recordo ainda a recepção no Hotel Turismo da Guarda onde Abílio Curto esteve presente. Aliás este Hotel chegou a ficar lotado de turistas de Israel, por várias centenas de vezes. Era seu administrador o Sr. Nogueira. 

A visita foi depois retribuída com uma deslocação à Guarda de uma delegação de Safed integrada pelo Presidente do Município de Safed, Aaron Nahmias e o vice-Presidente e conselheiro, Samuel Arouch.  Delegação da Guarda que se deslocou a Safed: Abílio Curto (Presidente da Câmara da Guarda), Deolindo dos Santos (em representação da Assembleia Municipal da Guarda), José Domingos (Secretário-Geral da Associação de Amizade Portugal - Israel) e Almiro Lopes (representante dos serviços técnicos e administrativos do Município da Guarda).

Seguiram-se outras geminações: Celorico da Beira com Affula, Tomar com Hadera, Belmonte com Rosh Pinah, Fogueira da Foz com Ashdod.

Na Guarda organizei em 1981, com o Dr Adriano Vasco Rodrigues o "Primeiro Encontro para a História das Beiras e dos Judeus Peninsulares". Estiveram presentes vários estudiosos e professores universitários de Coimbra, Braga, Lisboa e Évora. As Atas foram publicadas na Revista Altitude, propriedade da Junta e depois Assembleia Distrital da Guarda de que eu era um dos responsáveis. Seguiram-se idênticas iniciativas em Trancoso, Gouveia, Santarém, Lisboa, Torre de Moncorvo, Castelo de Vide, entre outros locais. Face à minha ausência da Guarda a Associação de Amizade Portugal-Israel foi transferida para Lisboa.

Quero sublinhar, aqui e agora, o apoio sempre prestado pela Câmara Municipal da Guarda, presidida por Abílio Curto. Depois nada ou praticamente nada se fez sendo apenas de realçar a sinalização dos cruciformes das casas da antiga Judiaria particularmente e elaboração do respetivo catálogo de autoria da malograda professora da Universidade de Évora, Carmen Ballesteros. E a Guarda foi e contínua a serem ultrapassada nesta área.

José Domingos 2.jpg

As geminações da guarda com cidades israelitas tiveram a tua intervenção. O que representa para ti essa aproximação entre Portugal e Israel? Esses contactos foram frutíferos?

Para mim significa um reencontro. Os Judeus tiveram um papel importante desde o nascimento de Portugal onde já viviam e coabitavam com os muçulmanos. O primeiro Rabi-mor de Portugal e do Rei Afonso Henriques foi Yahia Ben Yahia que lutou vão lado do rei e teve papel importante na conquista de Lisboa e Santarém 

Os Judeus e mais tarde os cristãos-novos foram dinamizadores da economia, artes e ofícios, ciências, política, literatura e artes, imprensa etc. Os Judeus já estavam na Guarda quando em 1199 lhe foi atribuído o Foral. Vejam- se os "Costumes da Guarda" tão referenciados por historiadores entre os quais Alexandre Herculano.

Mas também em outras cidades e vilas da região e do país. A Inquisição ou Santo Ofício que de "santo" só tinha o nome provocou uma fuga elevada e o abandono da terra natal e os Judeus batizados á força passaram a ser conhecidos por cristãos-novos. Cidades como a Guarda ou Pinhel por exemplo nunca mais recuperam. As perseguições inquisitoriais motivaram essa fuga, frequentemente com novas identidades já que os nomes judeus não vieram permitidos.

E foram construir outras pátrias "com seus saberes e cabedais" no dizer do padre António Vieira, ele também perseguido. Foi o caso do território do hoje Israel, sobretudo na Galileia onde se situa Safed. Ora essas geminações tiveram resultados sobretudo no Turismo Cultural Judaico.

Houve contactos comerciais na Guarda com a empresa Menitrade sobre painéis solares de que Israel é expoente máximo e os primeiros painéis instalados na Guarda eram israelitas. Mas foi o turismo o principal beneficiado com as geminações e um pouco também a cultura. Estive também envolvido na geminação com a cidade espanhola de Béjar, onde existiu uma importante Comunidade Judaica ligada aos têxteis e lanifícios.

 

Achas que a presença judaica na Guarda devia ser mais estudada e divulgada? Esse legado é suficientemente conhecido?

Creio que sim apesar de existirem já alguns estudos. A presença Judaica na Guarda primeiro deveria ser conhecida pelos guardenses para que valorizassem o seu património.

Era importante que não se fizessem aberrações e não se cobrissem inscrições com cimento ou cabos elétricos ou de telefone.

Considero que esse legado é já um pouco conhecido. Vários grupos, famílias, individuais, vêm a Guarda em busca desse património, mas considero que deveria ser mais divulgado. Não há um panfleto ou desdobrável sobre a Judiaria que eu sinalizei em 1980 no sítio das "Quatro Quinas" com uma placa feita por Alberto Carreto. Mas, francamente, o estado em que se encontra a zona da Judiaria que não é só a zona adjacente à Igreja de São Vicente, é reprovável. Não é cativante. Mas há lugares que deveriam ser transformados bem Centro de Interpretação Judaica como é o caso da antiga Sinagoga ou Sinagogas. Neste particular a Guarda foi ultrapassada por outras terras.

Eu que sou da Guarda reconheço que todos sabem de tudo e depois choram sobre o leite derramado. É o caso das Casas de Memória Judaica ou Centros Interpretativos ou museus que surgiram em Belmonte (as peças expostas no Museu Judaico foram depositadas por Adriano Vasco Rodrigues e pelo José Domingos, aquando da sua abertura em 2005), Trancoso (onde fui o ideólogo com o ex-Presidente da Câmara de Trancoso, Júlio Sarmento e para onde ofereci vários objetos de família, livros religiosos , candelabros), Sabugal, recentemente Gouveia mas também Castelo Branco, Torre de Moncorvo, Bragança, Carção, Vila Nova de Paiva e, imponente, Vilar Formoso.

E a Guarda? Os outros lucram com as visitas e iniciativas culturais relativas a presença Judaica, dos cristãos-novos e mais recentemente, em 1940, os refugiados Judeus quer por aqui passaram depois de entrarem em Vilar Formoso, sobretudo os salvos por Aristides de Sousa Mendes, Cônsul de Portugal em Bordéus (França) em plena Segunda Guerra Mundial. E na Guarda?

Ainda foi assinado no tempo do ex-Presidente do Município da Guarda, Joaquim Valente, com pompa, um protocolo para ser instalado no Solar Teles Vasconcelos um memorial sobre e dedicado a esses refugiados assim como a obra do Cônsul Aristides de Sousa Mendes. Houve lanche e tudo, discursos que apenas por aí se ficaram.

Jose Domingos 5.jpg

O que tens feito nos últimos anos em termos de preservação desse património?

Acabei de doar peças minhas, pessoais, para integrarem o Centro de Estudos Judaicos Adriano Vasco Rodrigues e Maria da Assunção Carqueija, meus primos, em Torre de Moncorvo. 

Estou também a desenvolver estudos sobre a presença Judaica em Torres Novas, fiz com o Dr Alberto Martinho um estudo e levantamento das marcas judaicas, entenda-se cruciformes, no Concelho de Seia depois editado em livro que já esgotou a primeira edição patrocinada pelo Município senense. Estou  apostado no estudo da presença Judaica em Viseu e Meda. Queria fazer também uma publicação na Guarda que espero concretizar, generalista sobre os Judeus no Concelho da Guarda.

Desde que se registe, estude, publique, divulgue os resultados vem a seguir de certeza. 

 

Quais os centros ou locais que aconselhas no interior para uma visita ao património ou tradições judaicas?

Desde logo a Guarda, Trancoso (que na minha opinião tem das mais belas judiarias a par de Castelo Branco Belmonte, Gouveia, Santa Marinha-Seia, Covilhã, Foz Côa, Torre de Moncorvo, Penamacor, Castelo Rodrigo, Linhares da Beira, Monsanto, Pinhel, Celorico da Beira, Fornos de Algodres, a norte Bragança, Vilarinho dos Galegos, Carção, Mogadouro, Freixo de Espada à Cinta, Lagoaça, Vila Flor, Alfândega da Fé, Miranda do Douro, Vimioso, entre outras e a sul sobretudo Castelo de Vide, Marvão, Tomar, Extremoz

 

A pandemia interrompeu os circuitos turísticos que estavam a ser implementados com a presença de visitantes israelitas?

Sim, a pandemia interrompeu praticamente e numa percentagem elevada que estimo em mais de 95 por cento, a vinda de visitantes israelitas e não só, porque a Herança Judaica é já procurada por muitos brasileiros, franceses, espanhóis, argentinos, norte-americanos, e outras nacionalidades.

 

Que papel atribuis às autarquias na dinamização e divulgação do património histórico-cultural e preservação dos sinais da presença judaica?

As Autarquias e seus quadros técnicos ou os gabinetes que contratam são os mais importantes na preservação da Herança Judaica. Deveria haver sensibilidade idêntica a Trancoso ou Castelo de Vide na preservação e divulgação das Judiarias.

Confesso que me considero pioneiro neste domínio a partir da Guarda. Valorizar significa reabilitar e reabilitar significa conservar e não construir aberrações ou intervenções torpes justificadas com a "marca" do nosso tempo. Se temos casas do século XVI ou XVII ou XVIII foi porque foram preservadas, conservadas. Preservar também significa dar vida ao espaço

A divulgação deve ser também uma das prioridades. Existe ou existia, sei lá, a Rede de Judiarias de Portugal que tinha esse propósito. Não se ouve falar sequer dela.

 

José Domingos 4 .jpg

Que projetos tens em curso? E para o futuro? 

Como atrás disse, realizar os estudos e investigação sobre Judeus e cristãos-novos em algumas localidades e publicar o livro sobre personalidades judaicas ou cristãs-novas sobre rostos pouco conhecidos como Antonio Carvajal, judeu do Fundão que recebeu de Cromwell a permissão para que os judeus se fixassem em Londres e construíssem a sua Sinagoga; comunidade esta que é das mais importantes e representativas do mundo.

Gostaria de ver vê impulsionar a construção de um Centro de Interpretação da Cultura Judaica na Guarda. Não sou de desistir.

 

Como vês hoje a guarda e o distrito? E o que desejas para esta região?

A Guarda de hoje é completamente diferente da cidadezinha do passado. Cresceu urbanisticamente, de forma desordenada, projetou-se no Mundo como um centro de cultura a que se deve muito a alguns dos seus naturais, entre os quais Américo Rodrigues, pela sua centralidade e infraestruturas viárias, rodo e ferroviárias, um local ótimo para o investimento nas áreas da logística e empreendedorismo, um centro de saber e fazer através do Instituto Politécnico nas suas valências de escolas superiores de Educação, Tecnologia e Gestão e de Saúde.

Tem potencialidades para de facto ser uma Cidade da Saúde em vez de assistirmos por vezes a esvaziamentos e guerrinhas.

A Guarda deve afirmar-se pela diferença positiva apesar de ser uma cidade de serviços e comercio essencialmente.

O seu tecido empresarial deve apostar nas pequenas e medias empresas e naturalmente nas de maior dimensão se bem que, como foi no caso vida Delphi, quando fechou arrastou o desemprego, existe esse perigo, mas são riscos da atual economia.

Acredito no Interior e na região e sua dinamização. Mas isto se houver cooperação efetiva das autarquias em projetos conjuntos de desenvolvimento e não haver políticas de capelinhas.

O Governo deve olhar para o interior com outros olhos e outros objetivos. O interior tem mais potencialidades do que o Lítio. A discriminação positiva deve favorecer o investimento. As portagens, o preço da energia, os transportes, os fatores de produção e até a água são caros.

O interior e a região da Guarda têm potencialidades únicas nos domínios da Cultura, Desporto, Localização empresarial, Ambiente, Turismo de qualidade. Aqui se situam as Aldeias Históricas de Portugal, há magníficos Centros Históricos, paisagens únicas, gastronomia tradicional rica, o vinho Generoso ou Fino que depois é em Gaia vem tornar-se em Vinho do Porto, Estâncias Termais, tradições singulares como a Capeia Raiana.

Temos a Serra-mãe, a Estrela bela com ou sem neve, mas também a Marofa, a Malcata, os vales do Mondego, Zêzere, Côa, Alva, a norte o Douro Vinhateiro e, a sul, a Estrela e seu afamado queijo, produtos agropecuários e vinhos de qualidade que ombreiam com os melhores do Mundo, ali ao lado fica a Espanha, mas...falta gente! É necessário e urgente a captação de pessoas, sobretudo jovens que desenvolvam com suas ideias e obra essas potencialidades onde a saúde é um dos vetores principais.

Acredito no Interior e na região da Guarda.

 

CORREIO DA GUARDA

 

 

 

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publicado às 18:30

Castelo de Sortelha

por Correio da Guarda, em 11.12.21

Castelo de Sortelha - Sabugal - HS.jpg

 

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Anta

por Correio da Guarda, em 26.10.20

Anta - Pêra do Moço - HS.jpg

Anta de Pêra do Moço (Guarda). Junto à EN 221, entre os cruzamentos para Martianes e Guilhafonso, perto da povoação de Pêra do Moço. Anta erguida em pleno Neo-Calcolítico.

 

 

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