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Um roteiro pelo país real...

por Correio da Guarda, em 22.06.19

Cruzeiro - Fot Helder Sequeira.jpg

     “Ausência e Território: as aldeias da Serra, do Vale e da Meseta” foi o tema proposto para o roteiro fotográfico organizado, no passado sábado e domingo, pelo Centro de Estudos Ibéricos e Fotoclube da Guarda.

    Tratou-se, como foi referido, de um desafio envolto na paixão pela fotografia e orientado para a (re)descoberta de realidades tão próximas e tão longínquas; territórios de solidão, de ausência que foram berço de múltiplos percursos individuais, de sonhos e de aventura…

   Através da fotografia, “uma escrita tão forte porque pode ser lida em todo o mundo sem tradução”, na elucidativa expressão de Sebastião Salgado, os participantes centraram as suas objetivas em pormenores, rostos, arquitetura, artefactos, caminhos, solidão, religiosidade, tradições, paisagens, flora, patrimónios, afetos, ausências, sulcos do tempo, ou caprichos da natureza…

   Iniciativas como esta, se por um lado permitem um registo de realidades transversais às aldeias do interior, desertificado, envelhecido, por outro viabilizam a divulgação de múltiplos valores humanos, sociais e culturais que podem despertar consciências e incentivar esforços conducentes a medidas de valorização e revitalização de tantos lugares de memória.

   As imagens obtidas consubstanciam narrativas e olhares que se ampliam agora nas redes sociais ou em trabalhos fotográficos destinados a futuras exposições e publicações, servindo igualmente de relevante recolha documental.

   Para além disso, o envolvimento de pessoas oriundas de diferenciados locais perspetiva o desejo e o regresso de aprofundar o conhecimento de territórios, alargando esse entusiasmo a círculos pessoais ou profissionais; tanto mais que a hospitalidade beirã, a forma de estar e de ser das nossas gentes, cativa quem nos visita.

   A disponibilidade para esclarecer, orientar, guiar, mostrar o património local, alertar para pormenores arquitetónicos, sublinhar a tipicidade de habitações, a descrição de tradições e episódios intimamente ligados às comunidades locais foi uma nota comum às aldeias visitadas, num roteiro que percecionou outra dimensão do país, uma sólida matriz identitária, nossa.

   Vila Soeiro, Aldeia Viçosa (aldeias do Vale), Avelãs da Ribeira (aldeia da Meseta), Fernão Joanes e Videmonte (aldeias da Serra) balizaram um trajeto rico de imagens e emoções, num território que temos de salvaguardar, valorizar e divulgar, esbatendo ausências e abrindo caminhos para o futuro, através do contributo de todo, num empenho permanente e coletivo, liberto de calendários pessoais ou políticos. (Hélder Sequeira).

 

 

 

 

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publicado às 15:22

Memória de um Sanatório...

por Correio da Guarda, em 18.05.17

 

    “O passado passou. O presente agoniza.” Estas palavras de Miguel Torga são uma legenda adequada para a imagem atual de dois dos emblemáticos pavilhões do antigo Sanatório Sousa Martins.

Sanatório - Pavilhão D. António de Lencastre -

     Neste contexto de elevação da língua e música portuguesa, e após um fim de semana de alegrias e emoções lusas, justifica-se uma breve nota sobre a importância da preservação da memória, e do património, de uma cidade que foi uma eminente âncora de esperança e futuro, na vanguarda da luta pela saúde.

    “A incompreensão do presente nasce fatalmente da ignorância do passado”, dizia o historiador Marc Bloch: daí que, uma vez mais, anotemos uma efeméride e a importância de salvaguardarmos e rentabilizarmos os edifícios de uma instituição que teve projeção nacional e internacional, associando ao facto a mais alta cidade do país.

    Hoje, 18 de Maio, ocorre a passagem do 110º aniversário da inauguração do Sanatório Sousa Martins, que foi uma das principais instituições de combate e tratamento da tuberculose, em Portugal. A designação de “Cidade da Saúde”, atribuída à Guarda, em muito se fica a dever a uma instituição que a marcou indelevelmente, ao longo de sete décadas, no século passado.

   A Guarda foi, nessa época, uma das cidades mais procuradas de Portugal, afluência que deixou inúmeros reflexos na sua vida económica, social e cultural; a sua apologia como localidade “eficaz no tratamento da doença” foi feita por distintas figuras da época, pois era “a montanha mágica” junto à Serra.

   Muitas pessoas (provenientes de todo o país e mesmo do estrangeiro) subiam à cidade mais alta de Portugal com o objetivo de usufruírem do clima de montanha, praticando, assim, uma cura livre, não sendo seguidas ou apoiadas em cuidados médicos. As deslocações para zonas propícias à terapêutica “de ares”, e a consequente permanência, contribuíram para o aparecimento de hotéis e pensões, dado não haver, de início, as indispensáveis e adequadas unidades de tratamento; situação que desencadeou fortes preocupações nas entidades oficiais da época.

    Já no primeiro Congresso Português sobre Tuberculose, Lopo de Carvalho (que viria a ser o primeiro Director do Sanatório Sousa Martins, e pai de outro conceituado clínico) destacou os processos profiláticos usados na Guarda; este médico foi um dos mais fervorosos defensores da criação do Sanatório que seria inaugurado a 18 de Maio de 1907 – completam-se hoje 110 anos – com a presença do rei D. Carlos e da Rainha D. Amélia.

   O fluxo de tuberculosos superou, largamente, as previsões, fazendo com que os pavilhões do Sanatório Sousa Martins (a autoria do projeto dos edifícios pertence a Raul Lino) se tornassem insuficientes perante a procura; o Pavilhão 1 (designado também de Lopo de Carvalho, onde está atualmente instalada a administração da ULS da Guarda) teve de ser aumentado um ano depois, duplicando a sua capacidade.

    Um novo pavilhão, que se juntou aos três já existentes, foi inaugurado em 31 de Maio de 1953; com este novo edifício (que ladeia a atual Avenida Rainha D. Amélia) o Sanatório Sousa Martins ganhou maior dimensão e capacidade de tratamento dos doentes.

    Anotar a passagem dos 110 anos após a inauguração do Sanatório Sousa Martins não é cair em exercício de memória ritualista mas sublinhar o estado em que se encontra o património físico de uma instituição, indissociável da História da Medicina Portuguesa, da solidariedade social, da cultura (pelos projetos que criou e desenvolveu) e da radiodifusão sonora portuguesa.

    É já tempo de novo tempo para ações concretas em prol da reabilitação e aproveitamento desta memória, agonizante, da Guarda do século passado...

 

                                                                                                                Hélder Sequeira

 

    (in O Interior, 18 Maio 2017)

 

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publicado às 07:45

Porta...

por Correio da Guarda, em 07.04.17

Porta - HS 1.jpg

 

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publicado às 07:53

Paredes do passado...

por Correio da Guarda, em 04.09.15

Paredes do passado...HS.jpg

 

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publicado às 22:12

Praça Velha: memória...

por Correio da Guarda, em 18.03.14

 

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publicado às 23:51

A propósito de Toponímia...

por Correio da Guarda, em 17.11.12

 

     O fórum sobre toponímia da Guarda, recentemente realizado nesta cidade, evidenciou, de forma objetiva, o muito que há a fazer no âmbito desta temática, bem como a diversidade de estudos por ela suscitados.

     Se, por um lado, a investigação que pode ser desencadeada permitirá um enriquecimento cultural e o reforço da identidade citadina, por outro, uma atenção permanente irá referenciar situações que exigem uma adequada e correta intervenção.

     Independentemente das conjunturas ou das agendas político-partidárias deve mover-nos uma Guarda da memória, a preocupação por uma cidade que preserve a sua história, dignifique os seus valores, honre os seus pergaminhos mas saiba construir pontes sólidas para o futuro, fidelizando simpatias, paixões, conquistando novos visitantes e residentes.

     “As cidades são como os homens; têm ou não carácter – e a tê-lo importa preservá-lo”, como escreveu Eugénio de Andrade. A Guarda é muito mais que o património edificado; é memória, é somatório de vidas, experiências, é (deve ser) um pulsar coletivo. A Guarda, ciclicamente, tem-se esquecido de si; as pessoas têm esquecido a Guarda.

     É imperativo de consciência e cidadania assumir-se uma consciência critica, uma intervenção constante em prol do nosso espaço coletivo, de referência e de vivências.

     “O passado é, por definição, um dado que coisa alguma pode modificar. Mas o conhecimento do passado é coisa em progresso, que ininterruptamente se transforma e se aperfeiçoa” e, como acrescentava Marc Bloc, “a incompreensão do presente nasce fatalmente da ignorância do passado”.

     Através da toponímia podemos abrir portas para o conhecimento do passado, do passado desta cidade. Deste modo, poderemos interrogar-nos acerca da atenção que é dada à toponímia guardense, às simples placas que condensam em si informação preciosa.

     Qual é o seu grau de conservação? Qual é o grau de legibilidade para os transeuntes? Algumas das placas existentes nas ruas da nossa cidade dão uma resposta inequívoca. É certo que a partir de alguns casos não se deve concluir o estado da larga maioria das placas toponímicas da Guarda mas, ainda assim, são imagens lamentáveis e injustificáveis; até porque, na maior parte dos casos, um pouco de atenção e uma intervenção rápida resolveriam estas questões sem delongas e praticamente sem gastos.

     Uma passagem, atenta, pelas ruas da nossa cidade, permitirá outras interrogações: estão identificadas todas as ruas, mesmo tendo já designação toponímica? E os tipos de placas são idênticos na mesma rua?

     Alargando o espaço, será que na mesma zona é utilizado o mesmo tipo de placas? Tem havido cuidados com a conservação e apresentação das placas toponímicas da Guarda?

     A atribuição de nomes a determinadas ruas ou espaço suscita alguma incompreensão; quer pela classificação atribuída, quer pela inadequação ao espaço que se pretende envolver. O leitor facilmente identificará estes casos…

     Verificamos também, na nossa cidade, que não tem havido critérios uniformes de colocação das placas, aplicando-as no local mais propício, ou fácil na ocasião, sem preocupações – pelo menos claras – de boa visualização ou leitura. Tanto se têm aplicado ao nível dos passeios como à altura de um primeiro andar.

    Sem pretendermos ser exaustivos, uma outra questão: as placas elucidam-nos ou dão-nos uma referência temporal quanto às personalidades que levam o seu nome?

     Claro que não poderemos, também, esquecer as alterações toponímicas introduzidas ao longo do tempo. Como escreveu Pinharanda Gomes, “na Guarda, e no decurso do nosso século [vinte], tem-se cometido, repetidas vezes, aleatórias modificações de toponímicos, dificultando ainda mais as tarefas dos que, por exemplo, dedicados a pesquisas arqueológicas, poderiam atacar desde logo o sítio exato, caso a memória do nome se mantivesse”.

     Um dos casos mais evidentes é a Rua Francisco de Passos que continua a ser designada, pela generalidade dos guardenses, como Rua Direita. O seu nome evoca o Governador Civil da Guarda que desempenhou funções entre 11 de Junho de 1926 e 25 de Agosto do ano seguinte. Esta rua, recorde-se, constituiu a principal ligação da urbe medieval, unindo a cidadela do Torreão (também conhecida por Torre Velha da fortaleza, edificada provavelmente no século XII) à Alcáçova existente junto às portas da Covilhã (na zona em frente da Escola de Santa Clara).

     As alterações toponímicas poderiam ser minimizadas caso fosse inserida a anterior designação, como aliás acontece noutras cidades, sobretudo com um significativo passado histórico. “Restaurar é restituir. A restituição da toponímia é um ato de honestidade cultural, de devolução do património à comunidade, de abandono de opções adventícias, por vezes decorrentes das situações políticas, e, por fim, de entrega aos arqueólogos e aos historiadores, de uma nova fonte documental para historiografia a fazer”, tal como bem observou Pinharanda Gomes.

     A toponímia da Guarda é um vasto campo para estudo e investigação e pode levar-nos à (re)descoberta de múltiplas facetas do seu passado, validado por mais de oito séculos de história, enquanto urbe.

     É importante que sejam implementadas correções imediatas, em muitos casos, e definidas novas estratégias, que podem passar (ao nível das novas ou futuras urbanizações) pelo apoio das novas tecnologias.

    Saibamos, pois, assumir a nossa responsabilidade coletiva, privilegiando todos os contributos idóneos em favor dos reais e verdadeiros interesses da cidade, de modo a que não se apague o espírito e a magia da Guarda.

 

Helder Sequeira

in "O Interior"

15|Nov|2012

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publicado às 11:00

Guarda: memórias

por Correio da Guarda, em 09.08.12

 

 

 

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publicado às 08:26


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