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Rádio em altitude...

por Correio da Guarda, em 18.01.23

 

O papel da Rádio como meio de comunicação, consciência e memória regional não deve ser esquecido, especialmente quando há uma inquestionável ligação afetiva entre as gentes beirãs e uma emissora – Rádio Altitude (RA) – com uma identidade distinta. Este é um ano particularmente importante numa imprescindível reflexão sobre passado, presente e futuro.

Em 2023 completam-se 75 anos após a inauguração oficial da RA, ainda com o indicativo CS2XT. Também este ano, e concretamente a 1 de fevereiro, passa o septuagésimo quinto aniversário da criação do jornal Bola de Neve. Dois projetos informativos e culturais que surgiram no seio do Sanatório Sousa Martins,

O Boletim Bola de Neve (como se definia inicialmente) surgiu a 1 de fevereiro de 1948, tendo como primeiro diretor o Engº Agrónomo Álvaro Martins da Silva. O periódico contou com a colaboração de diversas e eminentes figuras, nomeadamente Amorim Girão, Damião Peres, Nuno de Montemor, Miguel Torga, Joaquim Veríssimo Serrão, Gen. João de Almeida e Ladislau Patrício, entre outros.

Por outro lado, a atividade radiofónica desenvolvida, a partir de 1947, no Sanatório suscitou a preferência de muitos doentes. A rádio era – e é – um fascínio contagiante, acrescido pelo facto de não ser normal a possibilidade de contactar, de perto, com uma emissora de radiodifusão sonora.

A maior parte dos internados, no Sanatório Sousa Martins, que eram admitidos na rádio, designada de “Altitude”, ocupavam-se quer na manutenção técnica dos equipamentos de emissão ou de estúdio, quer no apoio administrativo ou no arquivo de discos e registos magnéticos. Setor onde se podia verificar uma irrepreensível catalogação; apenas os doentes com melhores condições de saúde, e outras características exigidas, eram escolhidos para efetuarem locução ou apresentação de programas.

O Bola de Neve noticiava, na edição de 1 de abril de 1948, que a Caixa Recreativa do Sanatório Sousa Martins tinha adquirido um aparelho emissor. “Poderemos escutar dos nossos quartos as festas realizadas e deliciarmo-nos com música do nosso agrado direto e recrearmo-nos com crónicas de são oportunismo de propósitos inofensivos. Além de que a organização dos programas distrai e desperta curiosidade, Rádio Altitude é mais um elemento de fraternidade entre os doentes do Sanatório – e, em destaque, uma nova regalia da Caixa Recreativa”.

No longínquo ano de 1948 a Rádio Altitude apresentava-se como “Posto Emissor CS2XT” (mais tarde foi-lhe atribuído o indicativo CSB-21), emitindo no comprimento de onda dos 212,5 m e na frequência de 1495 Kc/s.

Rádio Altitude - Microfone antigo - HS.jpg

Frequência na qual começou a ser emitido o mais antigo programa de rádio dedicado ao mundo automóvel, e outrossim à segurança rodoviária.O “Escape Livre” – iniciado em 13 de fevereiro de 1973 – sendo um espaço emblemático da Rádio Altitude é também um original exemplo de longevidade no panorama da radiodifusão sonora portuguesa.

Idealizado por Luís Celínio, este programa surgiu, curiosamente, num ano em que, face à crise energética verificada nessa época, foram proibidas as provas automobilísticas. Ainda estudante do então Liceu Nacional da Guarda, Luís Celínio era já um fervoroso adepto do desporto automóvel; a idade impedia-o, contudo, de conduzir e mesmo a sua pretensão a um veículo de duas rodas foi, pedagogicamente, convertida a favor de uma máquina de filmar, como prémio pelos bons resultados escolares. Este equipamento, que lhe permitiu o registo de inúmeras provas automobilísticas, acabou por constituir o ponto de partida para alguns projetos na área da comunicação social.

No Liceu da Guarda conheceu outro jovem entusiasta pelos automóveis, Francisco Carvalho, que estivera ligado em Trancoso (onde residia com os pais) a uma rádio-pirata local; para a qual idealizara um programa sobre desporto automóvel a que pretendia atribuir o nome de Escape Livre. O plano não foi concretizado e sugeriu esse nome a Luís Celínio, para o projeto deste, a concretizar na Rádio Altitude.

Após algum tempo, depois dos indispensáveis contactos, com a direção (liderada pelo Dr. Martins de Queirós, igualmente diretor do Sanatório Sousa Martins) e com o encarregado geral da Rádio, o programa começou a ser emitido – em onda média – às terças e quintas-feiras, com uma duração de 13 minutos; dois anos depois passou a ocupar sessenta minutos semanais da emissão da rádio, inicialmente às quartas-feiras (entre as 18 e as 19 horas), depois às quintas-feiras entre as 11 e as 12h e, posteriormente, nesse mesmo dia no horário das 18 às 19 horas.

Certamente que estas e outras memórias vão ser evocadas no próximo mês, aquando da passagem de meio século após a primeira emissão do programa Escape Livre, a partir da cidade da Guarda de onde continua a irradiar semanalmente.

Nestas despretensiosas notas quisemos sublinhar três gratas efemérides e, de forma especial, a longevidade de uma estação de Rádio que não pode esquecer os seus novos desafios e desígnios. Em especial num ano que merece ser evidenciado, enquanto marco importante na história de uma das rádios pioneiras em Portugal. Facto que a Guarda não deve esquecer…

 

Hélder Sequeira

 

in O INTERIOR, 18_jan_2023

 

 

 

 

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publicado às 22:52

Emílio Aragonez: rosto da rádio e jornalismo

por Correio da Guarda, em 21.09.22

 

Emílio Aragonez, que hoje completa 88 anos, foi durante décadas uma das vozes mais populares das emissões radiofónicas feitas, em onda média, a partir da cidade mais alta de Portugal.

 

por Helder Sequeira

Emílio Aragonez _foto HS (2).jpg

Personalidade com profundas ligações à Rádio Altitude, Emílio Aragonez nasceu em 21 de setembro de 1934, em Portalegre. Para a Guarda veio com cinco anos. Posteriormente, face às contingências resultantes da atividade profissional do pai, foi viver para Cascais, Pinhel, Peniche e Seia, após o que ocorreu o regresso definitivo à Guarda.

Com onze anos começou a trabalhar na Ourivesaria Correia, na Guarda. “Fui para lá ganhar 80 escudos por mês e passados dois meses fui aumentado para cem”. As aulas no Liceu ficaram para trás, pois os horários não eram compatíveis com o trabalho; o estudo circunscreveu-se ao período da noite. Emílio Aragonez frequentou o Colégio de S. José, a Escola Comercial e Industrial e a Escola dos Gaiatos, nesta cidade.

Aos dezoito anos abriu o seu primeiro estabelecimento comercial, na Rua 31 de Janeiro. Três anos depois mudou-se para a Rua do Campo, instalando-se no antigo espaço da Espingardaria Sport, que pertencera a um antigo chefe da Polícia; iniciava-se um ciclo de atividade na área da relojoaria e ótica; contudo, circunstâncias diversas contribuíram, muitos anos depois, para o abandono da vida comercial e empresarial. Ficou, deste modo, aberto o caminho para uma dedicação total ao jornalismo e à rádio.

Desde os dezanove anos que mantinha, aliás, uma permanente paixão pela Rádio Altitude, onde começou a colaborar no início da década de cinquenta. “Foi aberto concurso para pessoas externas ao Sanatório, concorri e fui admitido. Para mim era um desafio. Trabalhava durante o dia e à noite ia para a Rádio, a apresentar discos pedidos, que eram imensos. Contudo isto representava o início da concretização de um sonho, de estar ligado à rádio e à informação”.

Nos primórdios da sua atividade radiofónica teve por companheiros alguns dos internados no Sanatório Sousa Martins. “Havia, naturalmente, muito receio deste contacto com os doentes”, temor a que não escapava a própria cidade. Os tuberculosos eram cuidadosamente evitados pela generalidade da população da cidade, onde, então, se via muita pobreza. “Recordo-me de haver largas dezenas de pessoas que se dirigiam ao Lactário para obterem o leite destinado à alimentação dos filhos; iam buscar a sopa à Cozinha Económica, na altura a funcionar noutras instalações. Aos dias de mercado, sobretudo, apareciam muitos rapazes e raparigas descalços e isso já diz muito sobre a realidade social”.

Nessa época, as emissões da Rádio Altitude eram à noite, tendo depois passado a existir um espaço na hora do almoço. “Comecei também a fazer algumas das emissões desse horário, mas o trabalho mais alargado era aos fins-de-semana, dado que alguns doentes faltavam; havia um que tinha um programa desportivo, outro era responsável por um programa vocacionado para as questões culturais e um outro realizava o “Vento do Norte”, que foi um programa muito polémico”.

Predominavam os programas de discos pedidos, os quais registavam uma permanente avalanche de solicitações, cujo atendimento se ia prolongando por semanas sucessivas. “Eram tantos os pedidos e o espaço tão reduzido que era colocado um disco num dia e outros em programas posteriores. Por vez para se ouvirem quatro dedicatórias tinha de se esperar um mês”, lembrava (numa entrevista que registámos há alguns anos) Emílio Aragonez, mais tarde rendido ao fascínio das reportagens.

Nesse período, e anos subsequentes, havia regras rígidas relativamente às emissões radiofónicas e, como aconteceu até ao 25 de Abril de 1974, a polícia política estava sempre atenta, e atuante. Mesmo assim, Emílio Aragonez desvaloriza essa interferência. “As notícias que eram transmitidas, nos primeiros tempos, eram baseadas nos jornais e estes já tinham passado pela censura”. O que não impediu diversas chamadas de atenção por parte do Administrador ou Diretor da Rádio, e a deslocação, por duas vezes, às instalações de P.I.D.E., contudo sem quaisquer consequências.

Uma delas foi “por causa de um disco que tinha sido transmitido e depois desapareceu; o disco tinha sido gravado em França e era de uma voz portuguesa, já não sei se era do Zeca Afonso ou do Adriano Correia de Oliveira”.

A seguir ao 25 de Abril, a estação viveu momentos de grande agitação e geraram-se tentativas de “tomar o Altitude”. “Alguns dias após a data da revolução cheguei a estar 24 horas sem poder sair da Rádio, por imposição do MFA, onde esteve uma força militar comandada pelo alferes Pardalejo” Ainda hoje não tem uma explicação cabal para esse facto.

Pessoa de improviso fácil, e anotações rápidas, Emílio Aragonez assegurava os diretos da rádio de uma forma atrativa, suscitando o interesse informativo, curiosidade e audição atenta. “Na década de setenta, quando Marcelo Caetano se deslocou a Manteigas, julgo que para inaugurar o edifício da Câmara, houve um atraso de mais de uma hora, em relação ao horário previsto. Como não havia possibilidades de desfazermos a ligação e voltar a retomá-la – os meios eram bem diferentes dos atuais – tive de aguentar a transmissão, recorrendo apenas a duas curtas entrevistas. O resto do tempo falei de Manteigas, da Serra, das potencialidades turísticas e de outras informações e descrições que fui considerando oportunas”.

A Rádio foi, sem reservas, uma grande afeição da sua vida, feita de trabalhos, desencontros, incompreensões silêncios, amarguras e felicidade; vida simultaneamente enraizada em convicções e em princípios, passando ao lado, de eventuais críticas ou atitudes injustificadas.

Ao longo de décadas, deu voz à notícia, trouxe à luz da ribalta questões tantas vezes ignoradas; desencadeou o confronto de opiniões, denunciou injustiças, foi porta-voz de múltiplas aspirações de terras e gentes. “Estive, sempre, na vanguarda da informação, sem nunca hipotecar a minha consciência profissional nem trair os meus princípios”.

Emílio Aragonez assumiu o jornalismo e a rádio sem nunca esquecer a função social subjacente; o que, aliás, foi sempre reconhecido pelos ouvintes, a quem nunca negou a sua presença, e voz, mesmo em situações nas quais motivos de ordem pessoal, o cansaço ou a doença aconselhavam repouso.

“Muitas vezes acabava por dormir na Rádio, nomeadamente quando vinha às tantas da noite de alguma reportagem e tinha de abrir a emissão no dia seguinte”. Quando a cidade acordava envolta em espesso manto de neve “a rádio chegava a abrir mais cedo e era a partir daí que praticamente se comandava a cidade. Era um trabalho de autêntico serviço público, com informações sobre os vários estabelecimentos de ensino, circulação nas estradas, funcionamento dos serviços públicos. Ouvir o Altitude era essencial”.

Sempre atento ao quotidiano, na sua memória circulam, volvidos estes anos, muitas imagens e sons que pertencem aos bastidores da rádio; fora do estúdio de emissão havia lugar a dramas individuais, sofrimentos, dificuldades a superar, batalhas contra o tempo, necessidade de discernir e graduar com rapidez aquilo que era matéria informativa e não mero adereço de projeções institucionais ou pessoais; ocorriam confrontos marcantes no percurso individual e profissional; impressões muitas vezes gravadas de maneira indelével, que não pactuam com o esquecimento.

Emílio ARAGONEZ _homenagem.JPG Emílio Aragonez no dia da homenagem que lhe foi prestada pelo Rotary Club da Guarda. Na foto (esquerda para a direita): António Martinho, Albino Bárbara, António José Teixeira, Emílio Aragonez, Helder Sequeira, Carlos Martins.

 

O nascimento de Emílio Aragonez para a rádio, e a projeção que alcançou através desta popular emissora, ocorreu na época das emissões em onda média, quando a frequência modulada estava longe de ser uma realidade na estação CSB-21, o indicativo atribuído à Rádio da mais alta cidade portuguesa.

A sua voz aquecia as noites guardenses, esbatia a solidão, aumentava progressivamente o auditório, despertando incontidas manifestações de simpatia. “Diziam-me que a minha voz era agradável e depois, também pelo que me é dito, tinha uma maneira muito peculiar de falar. Isto começou, realmente, nos programas da noite, quando a cidade precisava de companhia e a companhia era a rádio. Foram anos, anos e anos com a minha voz a entrar pela casa das pessoas”.

Por outro lado, Emílio Aragonez salientou-nos ter havido um largo período “em que os outros tinham um certo receio de levantar os problemas. Eu dei sempre a cara, mesmo sabendo que iria sofrer dissabores; não só eu como a minha família.” Mas não há lugar a arrependimentos, dizia-nos, há alguns anos, em tom inequívoco. Embora a faceta de jornalista seja a mais conhecida, era um intransigente defensor da música portuguesa, presença constante nos espaços radiofónicos por ele animados, sem cair no gosto medíocre.

A sua aparência descontraída, porventura mesmo descuidada, reflexo da sua peculiar forma de ser e do desprendimento pelos bens materiais, não raro originava humorísticos episódios, partilhados depois nos círculos de colegas e amigos, os quais facilmente lhe reconhecem mais virtudes do que defeitos.

A Rádio Altitude representou para Emílio Aragonez “praticamente uma vida toda. Uma pessoa que entra para ali aos 19 anos e fica lá até aos 68 obviamente que representa tudo”, como nos afirmava, sem hesitações. “Esqueci-me muitas vezes que tinha família, esqueci-me dos amigos e vivia para o Altitude. Era tudo para mim!...”.

Emílio Aragonez é uma memória viva da Guarda – das suas estórias e tradições – igual a si próprio, referência de um tempo cúmplice das ondas hertzianas, quais laços de solidariedade com a cidade e uma vasta região…

Parabéns, Emílio Aragonez!

 

 

 

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publicado às 15:30

RA: uma marca incontornável

por Correio da Guarda, em 29.07.22

 

Assinalando-se hoje, dia 29 de julho, os 74 anos da Rádio Altitude é importante que a Guarda, a região e o país não esqueçam esta marca informativa, incontornável quando se evoca a história da radiodifusão sonora portuguesa.

Rádio Altitude - Microfone antigo - HS.jpg

Desde 1976 que estou ligado à Rádio, muito particularmente a esta emissora. O Altitude foi uma verdadeira escola de rádio e jornalismo, um espaço de aprendizagem prática, de criatividade, de superação constante dos desafios diários. Tudo isto num contexto de excelente e salutar ambiente de trabalho, numa enriquecedora envolvência de diálogo entre as várias gerações presentes na rádio; uma emissora que fez nascer e consolidar amizades, laços afetivos e afirmou gratas memórias.

A polivalência de funções, por que todos passavam, traduziu-se numa maior capacidade de responder às solicitações do dia a dia da rádio, dos ouvintes, da região. De décadas de ligação à RA resultaram os mais diversificados momentos e episódios, reportagens ou entrevistas marcantes, o contacto com tanta gente que a rádio aproximou; ficaram muitas horas em antena ou nos bastidores da estação emissora, um trabalho nem sempre lembrado. Há vozes e rostos que estão indissociavelmente ligados a esta Rádio.

Antunes Ferreira é um desses rostos, hoje evocado nestas breves notas alusivas ao 74ºaniversário da RA; esteve no Sanatório Sousa Martins, como internado, tendo, dentro do espírito da terapia ocupacional praticada naquela unidade, sido convidado para trabalhar na emissora guardense.

Em entrevista que nos concedeu em agosto de 2000, Antunes Ferreira recordava a abertura de um concurso, aquando da passagem do décimo aniversário da RA, para a escolha de alguns elementos destinados a trabalhos de apresentação de programas. "Fiquei classificado em quarto lugar", dizia-nos Antunes Ferreira que, juntamente com mais quatro companheiros, passou a desenvolver a sua atividade na, então, modesta estação de rádio.

Na altura, o suporte humano da Rádio Altitude "era o amadorismo puro. Éramos todos amadores e nas horas disponíveis é que íamos para lá. Nós, os doentes, íamos após a fase do período das curas, que eram de repouso total. Alguns iam trabalhar na locução, outros nos arquivos de discos, outros nos registos." A partir de então desenvolveu "uma colaboração assídua, durante vários anos. Juntamente com outras pessoas, de fora, assim se mantinha o Altitude". Cerca de 1960, o então Diretor do Sanatório Sousa Martins – Dr. Martins de Queirós - que para Antunes Ferreira "era a alma e o coração do Altitude", entendeu e perspetivou a importância daquela rádio como meio de comunicação social.

"Nessa altura começou a haver uma colaboração mais regular de outros elementos. Estava para sair do Sanatório, uma vez que estava curado, e o Dr. Martins de Queirós convidou-me para ficar, como profissional, isto à volta de 1965". Foi também a partir desse ano que começou a haver alguns profissionais. "A minha função não era propriamente de animador de emissão, até porque eu gostava mais da técnica. Dediquei-me mais à técnica". Um trabalho que Antunes Ferreira privilegiou ao longo dos 35 anos que trabalhou na Rádio Altitude.

"O ambiente era muito diferente do atual. Todos nós trabalhávamos mais sobre o joelho, mas poderei dizer que aquilo era uma escola de rádio. Houve muita gente que ali aprendeu e dali saíram para outros emissores; recordo que houve elementos que foram para os emissores associados de Lisboa, outros para o Porto. A Rádio Altitude nos seus primeiros vinte e cinco, trinta anos, funcionou como uma escola de Rádio". Lembrava, com alguma nostalgia, Antunes Ferreira. Havia "muito amadorismo e sobretudo muita vontade e amor àquela casa", uma fórmula que, na sua opinião, foi importante para se consolidar a projeção da Rádio Altitude. "Aqui na região o que mais se ouvia era a RA, não só pelo interesse das notícias, mas também pela música popular que passava, do gosto do nosso povo".

Como nos referiu nessa entrevista, que fomos resgatar ao arquivo, todos os programas deixaram boas recordações a Antunes Ferreira, mas "aqueles espaços que mais vivia, como técnico, eram as transmissões diretas. Eram feitas transmissões diretas desportivas, religiosas, quer de acontecimentos políticos".

A veracidade das notícias, para o povo, dizia-nos Antunes Ferreira, "era confirmada pela RA. Se o Altitude dava qualquer notícia era porque isso tinha mesmo acontecido". Daí que, fez questão em sublinhar, toda a população da Guarda sentia o Altitude como uma coisa deles. Toda a gente achava que tinha um bocadinho na própria Rádio Altitude. Aquela casa era de todos". As despesas eram suportadas pela publicidade, pelos discos pedidos, pelos anúncios de bailes e festas. “Vivia-se com o que se tinha e nada mais”.

Aquando dessa, entrevista, iniciado que fora um novo ciclo na vida da rádio, Antunes Ferreira, questionado sobre o que pensava do futuro da emissora disse: "Houve sempre uma coisa que sempre pedi: era que fosse o Altitude a ver-me desaparecer a mim [faleceu em novembro de 2008] e eu não ver desaparecer o Rádio Altitude. É isso que continuo a pedir."

E certamente que será essa continuidade da Rádio, assumida como voz da região, plural, interventiva, moderna, criativa, próxima das realidades que os guardenses desejam; sem esquecerem o seu historial de emissora solidária, associada a tantos nomes, um dos quais aqui evocado. Antunes Ferreira foi, durante largos anos um dos principais rostos da estação, trabalhador incansável, amigo, intransigente defensor dos verdadeiros interesses da sua estação emissora, cuja solidez económica soube sempre salvaguardar, mesmo nos períodos mais difíceis.

A Rádio continua a ter futuro; este passa pela perceção dos novos desafios, pela qualidade de conteúdos, pela presença em várias plataformas, pela reinvenção quotidiana, pela diferenciação programática com uma matriz da região que não anula, de forma alguma, uma presença global.

 

Hélder Sequeira

 

 

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publicado às 00:05

Rádio Altitude: 73º aniversário

por Correio da Guarda, em 29.07.21

Edifício da Rádio Altitude - Foto HS.jpg

A Rádio Altitude comemora hoje, dia 29 de julho, o 73º aniversário do início oficial das suas emissões.

Esta é uma emissora de muitas vozes e rostos, de sonhos, de diferenciados contributos, afetos, ideias, de originalidades, de presença e solidariedade. A sua génese, longevidade, o percurso ímpar e a matriz beirã conferem-lhe um estatuto especial.

Recorde-se, e como tivemos já a oportunidade de escrever no livro “O Dever da Memória – Uma Rádio no Sanatório da Montanha”, que esta emissora tem interessantes particularidades, originadas no seio das experiências radiofónicas vividas no Sanatório Sousa Martins (Guarda), cerca de 1946.

Nessa altura, as rudimentares emissões circunscreviam-se ao pavilhão onde estava concentrado o grupo de doentes pioneiros deste projeto; com a posterior utilização de novo emissor a aventura radiofónica foi ganhando, progressivamente, maior dimensão.

A 21 de outubro de 1947, Ladislau Patrício (cunhado do poeta Augusto Gil), o segundo diretor do Sanatório, assinou o primeiro regulamento desta emissora, documento onde estavam definidas orientações objetivas sobre o seu funcionamento.

Em finais desse mesmo ano as emissões da Rádio Altitude eram já escutadas na malha urbana da Guarda, cidade que seguiu, com entusiasmo, o início oficial das emissões regulares, ocorrido a 29 de julho de 1948; um ano depois (1949) foi-lhe atribuído o indicativo CSB 21 (emitindo no comprimento de onda de 212 metros e na frequência de 1496 quilociclos por segundo), identidade difundida por várias décadas a partir do alto da serra, “eterna como o sol que alumia o mundo”, na expressão de Nuno de Montemor.

Este escritor guardense fez parte do grupo inicial de ouvintes da rádio; sobre a estação emissora da cidade mais alta de Portugal deixou, aliás, as suas impressões nas páginas de outro projeto informativo/formativo do Sanatório: o jornal Bola de Neve.

Os programas (no ano de 1948) eram, então, emitidos em horários muito circunscritos; aos domingos entre as 17 e as 19 horas e nos restantes dias oscilavam entre as 18h30/19h30 e depois entre as 21 e as 22 horas; nessa altura apenas aos sábados havia emissões no período da manhã, entre as 11h30 e as 12h30. O primeiro aniversário da Rádio, em 1949, foi assinalado com “emissões especiais e extraordinárias”. A imprensa local, destacando o papel e a importância da emissora, salientava a necessidade de ser aumentada a potência “de forma a ouvirem-se as suas emissões em todo o distrito da Guarda”.

O emissor inicial era propriedade da Caixa Recreativa (CR) do Internados no Sanatório Sousa Martins e mais tarde (com a extinção da CR) passou para a titularidade do Centro Educacional e Recuperador da unidade hospitalar vocacionada para o tratamento da tuberculose. Através da criação do Centro Educacional e Recuperador dos Internados no Sanatório Sousa Martins (CERISSM) pretendeu-se auxiliar os doentes, especialmente no que dizia respeito “à sua promoção social e ocupação dos tempos livres”.

No seio dos sanatórios portugueses surgiram, aliás, interessantes projetos radiofónicos – como sejam a Rádio Pólo Norte, no Sanatório do Caramulo e a Rádio Pinóquio, no Sanatório das Penhas da Saúde (Covilhã), para referirmos apenas os mais próximos da Guarda.

O CERISSM foi uma autêntica instituição de solidariedade; para além de viabilizar a afirmação e implantação da Rádio Altitude desenvolveu uma vasta obra assistencial, sobretudo sob o impulso do médico Martins de Queirós, o quarto e último diretor do Sanatório da Guarda.

Em 1961, mediante autorização oficial, a RA passou a ter como suporte económico-financeiro as receitas publicitárias que em muito contribuiriam para o auxílio dos doentes mais carenciados. As emissões evoluíram, ao longo das primeiras décadas em função das disponibilidades técnicas, dos recursos humanos e financeiros, mas encontrando sempre no, crescente auditório, uma grande simpatia e um apoio incondicional.

Emílio Aragonez no Estúdio da RA - decada de 70-

A Rádio Altitude rapidamente alargou a sua área de influência, cativou colaborações, ultrapassou dificuldades, assumiu desafios, enriqueceu a sua programação, protagonizou criatividade, inovou e afirmou decisivas linhas de intervenção formativa e cultural.

Até 1980, a Rádio Altitude emitiu em onda média na frequência de 1495 Khz (abrangendo não só o distrito da Guarda, mas igualmente os distritos de Viseu e Castelo Branco e algumas das suas áreas limítrofes); nesse ano a sintonia da RA passou a ser feita no quadrante dos 1584 Khz.

Rádio Altitude (1978), Guarda, Portugal.jpg

Depois de 1986, e com a liberalização do espectro radioelétrico, passou também a operar as suas emissões em frequência modulada (FM), em 107.7 Mhz, que seria alterada (em 1991) para os 90.9 Mhz, na qual continua a emitir.

No ano de 1998, e depois de ter sido determinada a extinção do Centro Educacional e Recuperador dos Internados no Sanatório Sousa Martins, foi decidida a realização de uma consulta pública, com vista à “transmissão da universalidade designada Rádio Altitude”, considerada a “única estrutura em funcionamento do ex-CERISSM”.

A estação emissora entrou assim, com a sua aquisição por parte da Radialtitude–Sociedade de Comunicação da Guarda, num capítulo novo da sua existência, mantendo a ligação física ao antigo espaço sanatorial (tem os seus estúdios no edifício, onde está ainda hoje, desde o ano de 1953), mas desenvolvendo, desde então, todo um projeto de modernização e linhas programáticas pensadas em função das exigências da sociedade hodierna.

Contudo, não se pode olvidar que esta é uma rádio distinta, de memórias, vivências, amizades, dedicação, de serviço público, de criatividade, de formação; hoje uma rádio global, de futuro.

As emissões radiofónicas passam nos nossos dias, em larga medida, pelo meio digital, num recurso cada vez mais ligado às modernas aplicações e tecnologias. A rádio, a sua forma de estar e responder evoluiu e, felizmente, acaba por estar ainda mais perto, envolvendo o nosso quotidiano; a sua presença pode ser avaliada como plena confirmação de que o meio rádio não pereceu perante o digital e as novas tecnologias. A rádio encontrou novos pilares de sustentabilidade e de maior interação com o seu público.

A generalidade dos equipamentos que usamos no dia-a-dia, desde logo o telemóvel, o tablet ou outras expressões da materialização do progresso tecnológico, facilitam-nos e proporcionam o encontro com a rádio, mas para além das emissões em direto não se podem esquecer as vantagens proporcionadas pelo podcast. Neste contexto, para além de evidenciarmos que esta é uma das novas virtualidades exploradas pela rádio, convém anotar a mudança de paradigma do perfil da rádio local.

Ainda neste ponto, não será despropositado afirmar que a Rádio Altitude nunca esteve confinada a um figurino de rádio local. Recordemos que, enquanto existiram as emissões em onda média (até finais da década de 90 do século passado) – e mercê das condições de rentabilização do seu emissor, face à localização geográfica – o raio de abrangência englobou zonas muito diferenciadas e mais ou menos distantes desta cidade.

Posteriormente, e uma vez mais potencializando as vantagens de emitir a partir da cidade mais alta do país, a rádio projetou as suas emissões muito para além das fronteiras estipuladas nas páginas dos diplomas regulamentadores da atividade radiofónica; ou seja, a identificação como rádio local nunca foi a mais justa, e a dimensão de regional será, em qualquer análise, sempre mais adequada quando se escreve sobre a história da radiodifusão.

Hoje, para além do estatuto conseguido por mérito próprio – e pela sua ímpar longevidade, enquanto rádio que se afirmou a partir do denominado interior do país – a RA atingiu uma nova escala, mercê da realidade tecnológica. Mesmo assim, a Rádio continua a ter um relevante papel como consciência regional; tem, decorrente da sua função social, uma missão importante na gestão da mudança de mentalidades, do esclarecimento do público, do confronto de ideias e da salvaguarda da memória.

Esta função social da rádio deve continuar a prevalecer, mesmo face ao desenvolvimento das tecnologias da informação. A pluralidade de novos canais de informação criou cenários completamente novos, onde se torna fundamental uma atitude de inequívoco profissionalismo, objetivos claros, estratégias adequadas e uma atenção permanente aos desafios tecnológicos.

Esgotados muitos dos modelos tradicionais e modificados os graus de exigência por parte dos ouvintes, torna-se necessário aferir constantemente os projetos e acentuar o espírito criativo, empreendedor.

Os desafios da Rádio são imensos; hoje não é apenas no plano das ondas hertzianas que tem de ser posicionada a proposta radiofónica; a rádio tem de assegurar uma estratégia rigorosa e clara no vasto horizonte da emissão online.

O fortalecimento da sua presença será sustentado, em larga medida, pela atenção à realidade social, económica, cultural e política da região onde a Rádio está sediada. As pessoas, para além do entretenimento ou companhia que a rádio lhes proporciona, querem boas condições de audição, uma informação rápida, em cima da hora ou do acontecimento de proximidade; querem igualmente um interlocutor atento, objetivo e credível, uma rádio com gente dentro, de entrega a um serviço público, solidário, afetivo. Uma rádio que questione, esclareça, atue pedagogicamente, aponte erros, noticie triunfos, sinta e transmita o pulsar da região, chame a si novos públicos.

Sabemos que não é um trabalho fácil, mas o êxito constrói-se com competência, perseverança, humildade, diálogo, criatividade e sentido de responsabilidade.

logo ra.jpg

Ao sublinharmos, hoje, os 73 anos da Rádio Altitude estamos também a evocar e homenagear os múltiplos os contributos pessoais e coletivos que guindaram a RA a uma posição de destaque no panorama radiofónico português e, diríamos, mesmo europeu (pelas décadas de emissões contínuas, pela sua originalidade, subsistência e consciência da sua função social).

Esta é uma marca informativa e cultural da nossa região e da cidade que não a deve esquecer, antes valorizar pela sua história, pelo seu papel, pela sua presença quotidiana. A Rádio será aquilo que quiserem os seus profissionais, se os sonhos forem arrojados, consistentes, capazes de garantirem uma apaixonante continuidade e deixarem uma marca polifacetada e perene.

Parabéns à Rádio Altitude!

                                                                                                                           Hélder Sequeira 

 

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publicado às 00:01

Uma vida nas ondas da rádio

por Correio da Guarda, em 27.04.21

 

José Luís Dias nasceu em Buffalo (EUA) em 1962 tendo vindo para a Guarda dez anos depois. Foi nesta cidade que fez as primeiras amizades e se entusiamou pela eletrónica, consolidando a sua paixão pela rádio e pelas comunicações. O Bonfim, na Guarda, é o seu bairro citadino de eleição, até pelo facto de aí ter vivido até 1986.

Fundador da Rádio Beira Alta (Seia), esteve também na génese da Rádio Cidade Oppidana (que emitiu na Guarda, no quadro das rádios livres) e colaborou com a Rádio Altitude, Rádio Clube de Monsanto e Rádio Mangualde.

 

Como surgiu a Rádio na tua vida?

É uma historia interessante; ainda criança, vivia nos Estados Unidos, fazia, com os meus amigos, muitos passeios de bicicleta e em várias ocasiões ia para as proximidades do local onde estavam as antenas emissoras de duas grandes rádios da cidade onde nasci: a WKBW, com 50 KW e a WGR com 10 KW (ambas em Onda Média)...

Uma boa meia dúzia de torres e um edificio monumental... espreitávamos pelas janelas e viam-se alguns dos equipamentos... fascinou-me esta visão da tecnologia.

Mais tarde, já em Portugal, enquanto frequentava a escola primária, bem antes da "Revolução dos Cravos", a minha professora de então resolveu levar-nos a duas visitas de estudo: em primeiro lugar, ao edifício da Emissora Nacional (hoje a RTP-Guarda), onde fomos recebidos pelo encarregado das instalações, que nos mostrou um estúdio com uma mesa de som bastante antiquada e depois os dois emissores (era um Collins de 1 KW e um Gates de 10KW)... Algumas semanas depois, foi a visita à Rádio Altitude... Aí, sim, se eu já tinha um fascino pela rádio e a sua tecnologia, foi o "click" definitivo.

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Como foram as primeiras experiências radiofónicas?

Possívelmente como a de todos os que fazemos ou fizemos rádio, na altura: umas experiências, num estúdio improvisado e equipamentos muito rudimentarers e amadores... eu, que já tinha queda para a electrónica, "engendrei" mais algumas coisas... Entre elas, um pequeno emissor de FM que emitia umas centenas de metros e um emissor de Onda Média, a válvulas, com peças reutilizadas de radios antigos...

 

E quando surgiu o primeiro contacto com a Rádio Altitude, e de que forma?

Como já referi, o primeiro contacto com a Rádio Altitude foi durante uma visita de estudo que decorreu ainda nos meus anos de escola primária; um primeiro contacto fascinante, considero-me feliz por ter acontecido, entrando no edifício, sendo-nos mostrado tudo, inclusivé, o emissor... Fascinou-me ver como se fazia rádio ao vivo, a rádio com gente dentro, ver o que já ouvia em casa quase diariamente.

 

Que marca te deixou a Rádio Altitude? Influenciou o teu percurso radiofónico?

Uma marca definitiva, forte, impulsionadora, foi na Rádio Altitude que, em 1978, aos 16 anos, pela "mão" daquele que considero o meu mentor, Emilio Aragonez, comecei a fazer rádio "a sério", foi o "Espaço Jovem", integrado na emissão da noite das 6ªs feiras, o "Intercâmbio 6".

Foi-me ensinado a trabalhar com equipamento de radiodifusão, a ter uma conversa natural e fluída com os ouvintes, a colocar a voz correctamente entre discos (sim, rodava discos, sabia fazer o "pre list"e "cue"), a respeitar quem nos ouve e, sobretudo, a manter os olhos bem abertos em relação aos níveis de áudio... não havia processamento, o único remédio era mesmo não deixar saturar os níveis, o "VUímetro” da consola não passava para o vermelho... algo que, ainda hoje, respeito.

 

Como surgiu o projeto da Rádio Beira Alta?

O projecto Rádio Beira Alta surge desse gosto pela rádio, por um lado, pelo facto de eu não ter sido integrado na Rádio Altitude, apesar dos esforços, o que, se tivesse acontecido, poderia ter alterado todo um projecto de vida... Também porque em Seia (e em praticamente todo o país) não havia nenhuma rádio e as existentes (A RA e a Emissora das Beiras (Caramulo)) não terem um sinal capaz, ainda não se falava de "rádio livre".

A génese da rádio ainda foi na Guarda, onde vivi até 1986; fui juntando meios rudimentares (2 gira-discos de categoria caseira, antigos, um gravador de cassetes e um painel com uns quantos botões e interruptores), mas no Verão, quando vinha de férias até Seia, lá acarretava tudo e fazia com que a RBA emitisse em Onda Média e FM, com esses meios rudimentares... a minha familia materna é daqui, a casa (onde moro e onde a Rádio esteve a emitir até ao seu fecho em 2003) está situada no alto da encosta, em Aldeia da Serra, local ideal para colocar antenas e obter um grande alcance.

O hábito manteve-se, entretanto mais meios foram sendo adquiridos (para o meu estúdio na Guarda e o estúdio daqui), até que em 1986, tudo se juntou...

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O que significou para ti o fim desse projeto?

O fim do projecto RBA foi triste, tendo em conta as circunstâncias; em 2003, a realidade social e economica do concelho e da região já era alarmante, tendo em conta o fecho das fábricas de lanifícios, onde milhares tinham o seu "ganha-pão" e, por consequência, a diminuição brutal da actividade economica, elevado índice de desemprego e a respectiva perda de mercado publicitário...

A rádio já estava a manter-se com dinheiros particulares, não era sustentável por muito mais tempo... Depois, o "embróglio" administrativo e legislativo que prejudicou a renovação do alvara... O fecho foi ordenado pela ANACOM em 30 de Junho, a RBA deixou de emitir... Mas não desapareceu... 18 anos depois, tudo existe, ainda, e funcional: os estúdios, os equipamentos, os arquivos musicais... Até a pequena torre onde estão ainda as antenas...

 

O que se seguiu, em termos radiofónicos?

Uma onda de sorte: soube, por dois amigos e ex-colaboradores, que a Rádio Mangualde, fruto de uma remodelação e entrada de uma nova direcção, estava no processo de admissão de colaboradores a tempo inteiro, enviei o meu currículo e fui chamado para uma entrevista...

Estavamos no dia 15 de Agosto de 2003, fui chamado à rádio, éramos 7 candidatos às diversas posições, os directores conversaram comigo, já era conhecido de alguns deles, coloquei as minhas condições e ficaram de me contactar posteriormente para me transmitirem a sua decisão.

Mal tinha chegado a casa, estava o telefone a tocar: eram eles, pensavam que ainda estava em Mangualde, voltei à rádio e fui convocado a estar presente no dia seguinte pelas 7 da manhã para começar a aprender o funcionamento. Para mim era tudo novo: um estúdio já sem gira-discos, sem gravadores, mas com um computador e um software de emissão... Tive apenas três dias para encaixar a "novidade" e depois disso... seguiram-se quase 10 anos nos 107.1, nas manhãs, mas também noutras tarefas, a cooperativa aproveitou-se do meu "know-how" para melhorar a casa e manter a manutenção dos equipamentos, inclusivé, cheguei a reparar o emissor, afectado por uma descarga atmosférica... infelizmente, também por motivos económicos (corria o ano de 2013) a rádio teve, também, o seu fim... Em 2014, fui contactado por um antigo colaborador da RBA, o Filipe Borges, que tinha celebrado um contrato com a cooperativa da Antena Livre (Gouveia), sabendo da minha situação e sabendo bem das minhas qualidades, convidou-me a fazer parte da equipa de arranque do novo projecto, não só para fazer rádio mas para o ajudar a coordenar toda a casa, no geral.

Aceitei o desafio e em Junho de 2014 já estava no ar a "nova" Antena Livre" e uma nova filosofia para a rádio: estúdios repartidos por vários concelhos, os meus, da RBA, tornaram-se no “Centro de Produção de Seia”...  infelzmente, não se pode realizar o alemejado e prometido contrato, tendo eu saído no final de um ano de colaboração, em Agosto de 2015... Considero esta data aquela em que “pendeurei em definitvo os auscultadores”.

Felizmente, a minha passagem deixou marcas, muito do que lá se faz, ainda hoje, é a continuidade das ideias implementadas durante a minha passagem .

 

Qual o programa que foi mais importante para ti?

Tenho vários que podem muito bem situar-se nessa categoria: o primeiro de todos, "Espaço Jovem" (ainda na Altitude), depois, ja na RBA mas também com emissão nas "Radios Livres" Radio Clube de Monsanto, Radio Cidade Oppidana e Rádio Elmo, o "Stereonoite", as emissões da manhã, na RBA, na Rádio Magualde e na Antena Livre e, o programa que tem a minha preferência, não só pela longevidade mas também pelo conteúdo musical que possui, "nascido" na RBA em 1983, depois levado por mim para a Rádio Mangualde e, depois, ainda antes de integrar a Antena Livre, para 3 emissoras de rádio (hoje são 11 FMs e 2 na internet), o "Filhos da Noite".

 

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É difícil fazer rádio no interior?

É. O interior é cada vez mais desertifacado, esquecido pelo governo central e penalizadado economicamente, não existem, logo à partida, muitas rádios para nos integrarmos profissionalmente... e nas que existem, os meios financeiros são escassos, longe vão os tempos da "carolice" que criaram esses projectos... por outro, devido ao envelhecimento das populações residentes, temos de fazer rádio para elas, muitas rádios não possuem arquivo suficiente de música desses tempos e algum desse material é proveniente da Internet, em arquivos de som com qualidade duvidosa, ou não têm ninguém para os passar... digo sempre.

Tive a felicidade de ter começado numa rádio que tem esses arquivos, ter trabalhado com eles, ter tido uma rádio que adquiriu arquivos semelhantes e ao longo destes anos me tenho servido desses arquivos para as minhas emissões, "obrigando-me" a conhecer as historias de quem canta, das canções, dos discos em si, porque quem ouve, nessas idades, quer mais do que música, quer companhia; as rádios locais são muitas vezes a sua única companhia, o locutor é, inúmeras vezes, a extensão da sua família.

 

Que desafios se colocam, atualmente, às rádios locais?

Imensos, direi mesmo, terríveis, pesados, alguns escusadamente impostos... O maior de todos é mercado publicitário, a sua maior é muitas vezes a única fonte de receitas, mesmo com rádios a fecharem, o mercado que fica não se direciona às que se mantém no ar... outro factor, talentos, sem finanças saudáveis, não há dinheiro para salários, logo, as vozes das rádios muitas vezes limitam-se a serem de gentes locais, não assalaridas ou um ou outro assalariado, mas mal pago (salário mínimo em quase todos os casos).

Os piores e mais temidos são os direitos a pagar: a "investida louca" das organizações que cobram os tão mal legislados "Direitos Conexos", usando-se de táticas de "bullying" para imporem as suas regras, igualmente da autoridade que nem devia existir (ERC) pelas mordormias pagas a quem detém cargos e executa funções que poderiam bem melhor, e mais economicamente, serem desempenhadas pela ANACOM.

Portugal não pode dar-se ao luxo de ter duas entidades com “quase” as mesmas funçõe... e, sem dúvida, a própria legislação da rádio, tantas vezes alterada, já, que impede a liberdade de decisão a quem dirige os projectos, obrigando a 24 horas de emissão, com o respectivo desgaste de equipamentos e avolumar de consumos de energia, as quotas de música portuguesa e a complicação da sua formatação (sub-quotas definidas, que obrigam a uma actualização constante dos dados), isto para não falar de que muita dessa musica é de facto "intragável" para a idade de quem ouve; por fim, a mudança de atitude das novas gerações, consumidoras de "playlists" pre-formatadas na Internet, numa pen ou cartão memória, sem intervalos, sem noticias, sem publicidades, afastando-as das realidades, tornado-as mais pobres na aquisiçao de informação daquilo que lhes rodeia... tudo somado, uma montanha de dificuldades... mas a "resilência" de quem dirige as rádios tem procurado resistir a todas estas contrariadades, com sucesso... até agora...

 

A rádio tem futuro?

Sim, tem, as novas tecnologias vão permitir melhorar qualitativamente a forma como se ouve rádio, sim, esse único meio gratuito e universal de difundir música, informação e cultura.

As "velhinhas" Onda Longa, Média e Curta podem ser renovadas com a utilização da tecnologia "DRM", aliando as qualidades destas frequências, de grande alcance, particularmente à noite, bem maior que o FM, permitindo uma escuta de qualidade FM em ondas que, até agora, têm um som de inferior qualidade motivado mais pelos regulamentos internacionais em vigor do que a tecnologia actual... por outro lado, a Internet, um meio não universal e "pago", mas que abre a janela das rádios ao mundo, com interação, em alguns casos, vários canais de rádio e, já em muito, aquilo que já se denomina de "radiovisão", aliando o vídeo ao áudio, neste caso, rádio.

 

Quais os teus atuais projetos?

De momento, o único grande projecto que mantenho com dedicação é um programa de duas horas, semanal, "Filhos da Noite", emitido em 10 rádios FM e duas rádios na Internet, mas que procuro ainda expandir, de distribuição gratuita, o seu conteúdo é de música dos anos 60, 70 e 80, não portuguesa por opção, mas inclui tudo aquilo que, não sendo inglês, também passou pela rádio nessa altura - gandes canções italianas, francesas, alemãs, holandesas - e, durante os meses de Abril e Maio, o destaque vai para o Eurovisão da Canção, desde inícios até meados dos anos 80.

Pela dedicação que tenho aos arquivos de música do passado, continuo a frequentar feiras de antiguidades e usados para continuar a adicionar material musical para o programa porque na Internet não se arranja e, se existe, tem fraca qualidade, sendo o disco o melhor suporte musical. Também, dar assitência em regime de “freelancer” a rádios que me solicitem apoio e o uso dos meus conhementos para resolver problemas (de momento, são os casos da Rádio Imagem e Antena Livre), por fim, no meu trabalho actual, na Fundação Aurora Borges, uma IPSS, em Santa Marinha (Seia), para além de outras tarefas que desempenho, a continuação da dedicação dada à produção de conteúdos de video das reportagens efectuadas para o Jornal de Santa Marinha e a continuidade do programa de rádio “A Voz da Solidariedade”, produzido semanalmente na própria Fundação, em estúdio construido para o efeito e onde tenho a responsabilidade da sonoplastia.

 

O que representa para ti a Guarda?

Tudo! É a minha terra adoptiva, a cidade que me acolheu, onde tive os meus primeiros amigos, onde frequentei o ensino e aprendi tudo o que sei de electrónica, onde se formou e consolidou o meu amor pela radiodifusão e pelas comunicações, onde ainda hoje volto sempre que posso nem que seja para ir à padaria do Bonfim (meu bairro do coração) comprar o meu pão espanhol e, sempre, quando regresso, cai uma lágrima de emoção à chegada, assim como cai outra, quando a deixo...

 

 

 

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Rádio

por Correio da Guarda, em 17.02.15

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publicado às 23:10

Rádios no Museu Natural da Electricidade

por Correio da Guarda, em 25.08.14

 

     “Rádios do Século XX – Onda Média e Frequência Modulada” é o tema da exposição que, até 11 de Outubro, está patente no Museu Natural da Electricidade, em Seia.

     Esta mostra reúne objetos museológicos do percurso histórico da rádio nas primeiras sete décadas do século passado.

    “A ligação da rádio a este espaço museológico é evidente, pois na região da Serra da Estrela, a difusão da rádio só foi possível em virtude da entrada em funcionamento, em 1909, da Central Hidroelétrica da Senhora do Desterro, hoje Museu Natural da Eletricidade”, salientou uma nota informativa da Câmara Municipal de Seia.

    De referir que o Museu Natural da Eletricidade se encontra a funcionar desde 2011 no edifício da antiga Central Hidroelétrica.

 

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publicado às 18:48

Rádios do século XX

por Correio da Guarda, em 11.04.14

     No Museu da Electricidade (ME), em Seia, está patente, desde hoje e até 11 de Outubro, a exposição “Rádios do Século XX – Onda Média e Frequência Modulada”.

     Esta exposição pretende dar a conhecer a evolução estética e tecnológica dos aparelhos de rádio, nas primeiras sete décadas do século passado.

     Ainiciativa  do ME tem a colaboração do Museu dos Rádios Antigos, de Vila Nova de Tazém.

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publicado às 23:57

Rádio Altitude: 64º aniversário

por Correio da Guarda, em 29.07.12

 

     O Altitude é uma das mais antigas estações emissoras portuguesas, emitindo, regularmente, há 64 anos, a partir dos estúdios na cidade da Guarda.

     Embora o registo oficial das emissões tenha ocorrido a 29 de Julho de 1948, a actividade do Rádio Altitude surgiu, no seio do Sanatório Sousa Martins, cerca de 1946.

     Na altura, as rudimentares emissões circunscreviam-se ao pavilhão onde estava concentrado o grupo de doentes pioneiros deste projecto e só com a construção de novo emissor foi ganhando dimensão a aventura radiofónica.

     Sabe-se que, no ano seguinte, o então director daquela unidade de saúde, o médico e escritor Ladislau Patrício (cunhado do poeta Augusto Gil) assinou o primeiro regulamento da referida estação emissora, onde estavam definidas orientações muito objectivas sobre a sua actividade.

     Em finais de 1947 as emissões já eram escutadas na cidade que seguiu, com particular entusiasmo, o início oficial das emissões regulares assinalado, com alguma pompa e circunstância, a 29 de Julho de 1948; um ano depois foi atribuído o indicativo CSB 21 ao Radio Altitude.

     A propriedade do primeiro emissor pertenceu, inicialmente, à Caixa Recreativa do Internados no Sanatório Sousa Martins e, mais tarde, com a sua extinção, ao Centro Educacional e Recuperador da unidade hospitalar vocacionada para o tratamento da tuberculose.

    Com a criação do Centro Educacional e Recuperador dos Internados no Sanatório Sousa Martins (CERISSM) pretendeu-se auxiliar os doentes, especialmente no que dizia respeito “à sua promoção social e ocupação dos tempos livres”.

     Aliás, foi no seio dos sanatórios que surgiram interessantes projectos radiofónicos – como seja a Rádio Pólo Norte, no Sanatório do Caramulo, e a Rádio Pinóquio, no Sanatório das Penhas da Saúde, Covilhã, para referirmos os mais próximos.

     O CERISSM foi uma autêntica instituição de solidariedade; para além de viabilizar a afirmação e implantação da Rádio Altitude desenvolveu uma vasta obra assistencial, sob o impulso do médico Martins de Queirós, o quarto e último director do Sanatório da Guarda.

     Em 1961, mediante autorização oficial, o RA passou a ter como suporte económico-financeiro as receitas publicitárias que em muito contribuiriam para o auxílio dos doentes mais carenciados. As emissões evoluíram, ao longo das primeiras décadas em função das disponibilidades técnicas, dos recursos humanos e financeiros mas encontrando sempre no, crescente auditório, uma grande simpatia e um apoio incondicional.

     Até 1980 o Rádio Altitude emitiu na frequência de 1495 Khz, em onda média (abrangendo não só o distrito da Guarda mas igualmente os distritos de Viseu e Castelo Branco e algumas das suas áreas limítrofes), altura em que a sua sintonia passou a ser feita no quadrante dos 1584 khz. Após 1986, e com a liberalização do espectro radioeléctrico passou também a desenvolver as suas emissões em frequência modulada, em 107.7 Mhz, a qual foi alterada, em 1991, para os 90.9 Mhz.

     Em 1998,e depois de ter sido determinada a extinção do Centro Educacional e Recuperador dos Internados no Sanatório Sousa Martins, foi decidida a realização de uma consulta pública, com vista à “transmissão da universalidade designada Rádio Altitude”, considerada a “única estrutura em funcionamento do ex-CERISSM”.

     A estação emissora entrou assim, com a sua aquisição por parte da Radialtitude–Sociedade de Comunicação da Guarda, num capítulo novo da sua existência, mantendo a ligação física ao antigo espaço sanatorial.

     O Rádio Altitude – que assinala hoje o seu 64º aniversário – possui um historial ímpar que importa reter, e divulgar, contribuindo, assim, para aumentar a cadeia de afectos, originada em finais da década de quarenta do passado século.

     Hoje, o RA vive uma fase, perfeitamente distinta, consentânea com o papel da Rádio no século XXI e outrossim com as novas tecnologias, novos suportes, novos desafios e as inúmeras potencialidades proporcionadas pela Internet. A sua área de influência não se limita aos tradicionais contornos geográficos resultantes da potência do seu emissor e das condições de propagação mas estende-se ao mundo, num confronto que, é justo realçar, afere de forma digna a qualidade do trabalho aqui desenvolvido.

     O passado e o património do Rádio Altitude fazem parte das múltiplas memórias da Guarda, assumindo-se como elos indissociáveis da história da Cidade da Saúde. Valorizar o presente, reflectir sobre a importância social desta emissora, será um bom incentivo para quantos ali trabalham e dão continuidade a uma matriz radiofónica, de inquestionável originalidade e longevidade.

     Num contexto de redobrados desafios e responsabilidades, que não pode ser iludido sob qualquer capa mágica mas antes deve merecer a resposta adequada, importa manter o rumo, preservar uma identidade, garantir o futuro.

     Parabéns Rádio Altitude! (HS)

 

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publicado às 07:00

Memórias da Rádio - 2

por Correio da Guarda, em 27.07.12

 

 

 

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publicado às 18:45


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