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A propósito dos pavilhões do Sanatório…

por Correio da Guarda, em 21.04.22

 

O passado passou. O presente agoniza.” Estas palavras de Miguel Torga podem ser uma legenda adequada para a imagem atual dos emblemáticos pavilhões do antigo Sanatório Sousa Martins.

Recentemente líamos, nas páginas deste jornal [O Interior], que tinha sido equacionada a decisão de transferir os serviços da Unidade Local de Saúde “A Ribeirinha” para o pavilhão D. António de Lencastre (e não Filipa de Lencastre como por vezes aparece nalgumas publicações ou declarações públicas…), após a necessária recuperação e adaptação.

Sanatório da Guarda - Pavilhão D.António de Len

Pavilhão D. António de Lencastre (Sanatório Sousa Martins, Guarda).

 

Esperemos que a ideia não seja mais uma das intenções manifestadas a propósito da recuperação dos degradados edifícios do antigo Sanatório Sousa Martins (SSM), sem concretização objetiva.

Aliás, ao longo de décadas, têm sido apresentadas várias soluções. Recordemos, a propósito o artigo de Martins de Queirós (o último diretor do SSM) publicado em 15 de dezembro de 1986, no jornal Notícias da Guarda, sob o título “A respeito da Saúde na Guarda – carta aberta à Senhora Ministra da Saúde”.

Referindo-se à reconversão do Sanatório, defendia a utilização das infraestruturas daquela unidade de “modo a que, nesta área de 27 hectares, se exercessem todas as disciplinas médico-sanitárias”, pensando esse espaço como “Cidade-Saúde”. O projeto daquele clínico tinha subjacente a sua permanente preocupação pela “procura de soluções para que os Serviços constituíssem fonte de dignificação e prazer para quem os presta e uma esperança reconfortante para quem os recebe”.

Martins de Queirós retomou, no mês seguinte, a explanação das suas ideias, no Notícias da Guarda, em artigos como “A Guarda à procura do hospital que lhe é devido” e “Ainda a propósito de Saúde”; neste último texto defende o projeto de um Centro Policlínico a instalar no Pavilhão I, do ex-Sanatório Sousa Martins.

Ainda em dezembro de 1986, Arminda Cepeda (administradora hospitalar), num artigo intitulado “Hospital Distrital da Guarda poderá passar para categoria inferior”, interrogava-se sobre o “que é feito do Plano Diretor para o nosso hospital, plano que previa o seu alargamento e junção de instalações, gizado e concebido há mais de 10 anos e que “jaz” nas gavetas dos gabinetes ministeriais, só porque “não há verbas, enquanto outros hospitais, já de grande porte, se vêem contemplados com obras de ampliação, no mínimo, megalómanas?”…

Decorridos estes anos, todos sabemos como tem sido a evolução do processo da nossa unidade hospitalar e, sobretudo, o sucessivo adiamento de um plano de recuperação e de utilização, adequada, dos antigos pavilhões do Sanatório, mormente dos edifícios D. António de Lencastre e Rainha D. Amélia.

Sanatório da Guarda - Pavilhão D. Amélia - HS.J

Pavilhão Rainha D. Amélia (Sanatório Sousa Martins, Guarda)

 

Daí que se justifique, mais uma vez, sublinhar a importância da preservação do património de uma cidade que esteve na vanguarda da luta contra a tuberculose. Tanto mais que no próximo dia 18 de maio ocorrerá a passagem do centésimo décimo quinto aniversário da inauguração do Sanatório da Guarda, que foi – repetimos – uma das principais instituições de combate e tratamento da tuberculose, em Portugal.

A designação de “Cidade da Saúde”, atribuída à Guarda, em muito se fica a dever à instituição que a marcou indelevelmente, ao longo de sete décadas, no século passado. A Guarda foi, nessa época, uma das cidades mais procuradas do nosso país; a afluência de pessoas deixou inúmeros reflexos na sua vida económica, social e cultural.

A sua apologia como localidade “eficaz no tratamento da doença” foi feita por distintas figuras, pois era “a montanha mágica” junto à Serra. Muitas pessoas (provenientes de todo o país e mesmo do estrangeiro) subiam à cidade mais alta de Portugal com o objetivo de usufruírem do clima de montanha, praticando, assim, uma cura livre, não sendo seguidas ou apoiadas em cuidados médicos.

As deslocações para zonas propícias à terapêutica “de ares”, e a consequente permanência, contribuíram para o aparecimento de hotéis e pensões. Isto porque não havia, no início, as indispensáveis e adequadas unidades de tratamento; uma situação que originou fortes preocupações nas entidades oficiais.

No primeiro Congresso Português sobre Tuberculose, o médico Lopo de Carvalho tinha já destacado os processos profiláticos usados na Guarda. Este médico foi um dos mais empenhados defensores da criação do Sanatório guardense (do qual viria a ser o primeiro direto), que seria inaugurado, a 18 de maio de 1907, com a presença do rei D. Carlos e da Rainha D. Amélia.

O fluxo de tuberculosos superou, largamente, as previsões, fazendo com que os pavilhões construídos se tornassem insuficientes perante a procura. O Pavilhão 1 teve de ser aumentado um ano depois, duplicando a sua capacidade. Um novo pavilhão foi acrescentado, em 1953, aos três já existentes. O Sanatório Sousa Martins ganhou, consequentemente, maior dimensão e capacidade de tratamento dos tuberculosos.

Anotar a vergonhosa realidade dos antigos pavilhões e a passagem dos 115 anos após a inauguração deste Sanatório, não é um mero exercício de memória ritualista. É evidenciar o estado lastimoso em que se encontra o património físico de uma instituição com merecido relevo na história da saúde em Portugal.

Um Santório ligada à solidariedade, à cultura e à história da radiodifusão sonora portuguesa, mercê da emissora aqui criada (Rádio Altitude). É mais do que tempo para soluções e iniciativas concretas, em prol da reabilitação e aproveitamento desta memória, agonizante, no centro da cidade mais alta de Portugal. 

in O INTERIOR, 20|04|2022

 

Helder Sequeira

correio.da.guarda@gmail.com

 

 

 

 

 

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publicado às 21:20

Um hermeneuta da cultura

por Correio da Guarda, em 01.08.19

 

     O ensaísta, filósofo e historiador Jesué Pinharanda Gomes, falecido no passado dia 27 de julho, foi considerado na nota difundida pela Presidência da República como "um dos nomes mais destacados no estudo e divulgação do pensamento português" e “trabalhador incansável, um homem de convicções profundas.

    Pinharanda Gomes (nascido em Quadrazais, Sabugal), figura incontornável da cultura portuguesa, foi tudo isso e muito mais; foi “um exemplo vivo de um estudioso desinteressado, sem prebendas nem honras institucionais, fazendo do estudo erudito uma vocação de vida”, como escreveu Miguel Real.

    Literariamente falando, Pinharanda Gomes era natural da Guarda, embora realizado em Lisboa, como nos referiu; foi na cidade mais alta de Portugal que lançou as primeiras raízes. A sua fidelidade à “mátria” foi constante, exemplar, de uma grandeza própria de personalidades de enorme saber, mas simultaneamente simples, humanas e profundamente solidárias com a sua terra de origem.

    No conjunto vasto de títulos publicados por Pinharanda Gomes avultam três áreas: os contributos na História da Filosofia; as monografias da história da Igreja e os estudos regionais. Defensor convicto, e incansável, do nosso património histórico-cultural assumiu igualmente a salvaguarda dos valores humanos, mormente desta zona raiana.

PINHARANDA GOMES - HS.jpg

    Em entrevista que nos concedeu, há alguns anos atrás, para a Revista “Praça Velha”, declarava-se “um hermeneuta da cultura” pois procurava “interpretar os seres, os factos e as coisas do âmbito cultural, sobretudo do pensamento, mas de modo a preenchê-las” com o seu próprio significado. O seu vasto labor não se circunscreveu, contudo, às edições conhecidas, pois “há uma atividade que não vem muito a público e que diz respeito às centenas de verbetes” que redigiu para Dicionários e Enciclopédias, quase sempre assinados, ou com as letras P.G.

    Desde 1981, e após a realização do I Encontro de Comunicação Social da Beira Interior, promovido, na Guarda, pela Rádio Altitude que os meus contactos com Pinharanda Gomes foram regulares, acentuados com a colaboração por ele dada ao quinzenário Notícias da Guarda. Aliás – é justo e oportuno realçar – foi sempre um inquestionável defensor da imprensa regional, sublinhando sempre o seu importante papel informativo e cultural.

    Recordemos que em 1983 publicou “Memórias de Riba Coa e da Beira Serra – A Imprensa da Guarda”, obra através da qual quis evocar os “homens e mulheres que, desde meados do século XIX, fizeram os jornais no distrito da Guarda, pioneiro da imprensa política regional e da imprensa católica nacional”. Na nota introdutória desse livro, Pinharanda Gomes afirmava que a “progressão cronológica do aparecimento de jornais, a tipologia diferenciada, as alternâncias ideológicas, são quadros vivos mesmo agora que, de muitos deles, já não temos senão raros exemplares”. Leitor atento da imprensa regional, mormente da Guarda, Pinharanda Gomes bem pode ser considerado um paladino dos jornais editados no país real. A imprensa tem o dever da memória, assim como a Rádio da sua Guarda, onde interveio, no plano cultural, em finais da década de 50 do passado século.

    Nestas breves notas, mais do que discorrer pela obra, vastíssima, de Pinharanda Gomes importa relembrar o mestre, o homem de cultura atento ao que se passava na região onde nasceu; correspondendo sempre aos convites formulados para aqui transmitir o seu saber, partilhar a sua experiência, incentivar o estudo.

   A melhor homenagem que lhe poderemos fazer será, sem dúvida, conhecer e divulgar a sua obra onde sobejam inúmeras indicações para diferenciadas e interessantes linhas de investigação e conhecimento, em vários campos do saber; perpetuando assim a sua memória. (Hélder Sequeira)

 

     In O Interior, 1|08|2019

 

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publicado às 23:58

Uma casa com tradição

por Correio da Guarda, em 16.07.15

 

     A Casa Espigado, fundada em 1916, é um dos estabelecimentos comerciais mais emblemáticas da Guarda, com particular expressividade no campo do artesanato. Uma faceta que, independentemente dos tempos e das circunstâncias, continua a manter, mercê do empenho do atual proprietário.

     É uma pequena quanto simbólica loja – existente na Rua da Torre, Guarda – criada no século passado por Joaquim Rodrigues Espigado; nome que não sobressaiu apenas no sector comercial guardense mas projetou-se também, de forma eminente, no campo do voluntariado; foi um dos mais destacados Comandantes que passaram pela Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários Egitanienses.

    No longínquo ano de 1916, em plena primeira Grande Guerra, Joaquim Espigado implementou, naquela conhecida artéria citadina, a arte da funilaria, iniciando uma considerável produção de objetos e utensílios manufaturados em folha-de-flandres – chapa fina de ferro estanhado, com resistência elevada à corrosão – e chapa zincada. Candeias, almotolias, regadores, baldes, caldeiros, alguidares ou seja tudo o que o lavrador precisava ali era feito; artefactos para a recolha de leite e manufatura do queijo, para a ordenha do gado ou amanho das terras.

     Os destinatários destes produtos, ali manufaturados, eram, principalmente, os agricultores do concelho da Guarda; na Casa Espigado adquiriam desde copos para as noras que asseguravam a rega dos campos, a regadores, caldeiros para a comida do gado, ferradas, francelas e cinchos, utensílios indispensáveis à feitura do queijo; na oficina desta loja citadina foram igualmente produzidas muitos milhares de potes para azeite, funis, medidas para o vinho, candeias e lanternas de iluminação. A cobrirem as paredes interiores ainda hoje podemos ver exemplares dos vários objetos produzidos.

    Nessa época, o trabalho era essencialmente artesanal, com o recurso a uma fieira (máquina utilizada para efetuar as molduras e virar os fundos dos objetos), bigornas (peças de ferro nas quais se batiam as peças a executar), maços (martelos em madeira cuja utilização impedia que ficassem mossas na folha das peças) e ferros de soldar a carvão, feitos pelo proprietário da casa. Nos trabalhos de funilaria e latoaria eram, entre outras ferramentas, igualmente utilizados tesouras (para cortar a folha de flandres ou a chapa zincada), alicates (que serviam para apoiar o trabalho e virar, consoante a necessidade, os materiais), ponteiros (necessários na abertura de orifícios), compasso (no desenho dos moldes circulares), riscador (ponteiro de aço para riscar os moldes), martelo de bolear (o qual dava ao trabalho um aspeto côncavo) e a quinadeira (máquina utilizada para a feitura de quinas).

    As modificações nas tradicionais relações comerciais – resultantes, entre outros fatores, do desenvolvimento industrial e tecnológico – operaram profundas mudanças nos hábitos dos consumidores, seduzidos pelos produtos vendidos nos grandes espaços comerciais.

    Durante muito tempo a comercialização das peças era feita no próprio estabelecimento mas os seus proprietário também participava em feiras e mercados. Há alguns anos atrás, e na recolha de informação para um pequeno livro sobre esta casa comercial, Júlio Espigado (já falecido), filho do fundador, recordava que chegaram “a fazer potes para azeite, com capacidade para 800 litros; parte da confeção foi feita na rua porque não era possível dentro da loja”.

    Ao longo dos anos a venda das vasilhas (com capacidade de cinco, dez e vinte litros), para fins diversos, funcionava como uma espécie de indicador dos bons ou maus anos agrícolas. “Quando se vendiam mais era sinal que o trabalho dos agricultores se traduzira numa boa produção, em boas colheitas”. Igualmente nos anos de Verão mais rigoroso era notória a procura de utensílios para a rega (os regadores, por exemplo), enquanto na época das vindimas aumentava a venda de medidas, funis e cântaros; já com o aproximar do Outono e Inverno as gentes do campo procuravam, com mais regularidade, lanternas, candeias, braseiras e escalfetas (caixa em cujo interior se colocavam brasas, estando o tampo coberto de pequenas réguas de madeira, nas quais se apoiavam os pés, para aquecerem).

    As tradicionais “leiteiras” e as “medidas” eram outros dos produtos com bastante procura na Casa Espigado, quer para as pessoas que distribuíam o leite pela cidade, quer mesmo para uso doméstico. As mulheres que transportavam o leite, nesses recipientes, andavam de porta em porta e era “com as medidas de litro e meio litro que batiam à porta” dos clientes.

Rua da Guarda - HS.jpg

      A partir de 1974, e após a saída de três artífices, a estratégia passou pela comercialização e venda de outros produtos, nomeadamente cobres, ferros forjados, fogões de aquecimento e pulverizadores.

    Hoje, apesar das dificuldades e conjunturas, esta casa comercial continua a ser uma marca citadina na Guarda da tradição, que importa salvaguardar e valorizar. H.S.

     In O Interior, 16-7-2015

 

 

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publicado às 21:11


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