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Hora TMG

por Correio da Guarda, em 17.02.11

 

     A recente visita, à Guarda, da Ministra da Cultura foi, mais do que oportunidade ou pretexto de anúncio de intenções governamentais, uma manifesta e inequívoca declaração de apreço pelo obra desenvolvida no e pelo TMG.

     Para alguns, embalados pelas rimas de um lirismo caseiro ultrapassado, as declarações da titular da pasta da Cultura terão constituído uma autêntica surpresa, logo agora num contexto onde o politicamente correcto se conjugava com o verbo repudiar...

     Outros terão cedido a reflectir, pelo menos temporariamente, no que disse Gabriela Canavilhas relativamente à Guarda da cultura, onde a Biblioteca Municipal evoca o nome de um eminente pensador e escritor português; onde o Centro de Estudos Ibéricos se destaca na cooperação transfronteiriça e no desenvolvimento de iniciativas em várias áreas do saber; onde o TMG se consolidou como instituição reconhecida dentro e fora das fronteiras geográficas portuguesas, num lúcido entendimento que a Guarda se tem de afirmar pela Cultura.

     Aliás, em finais da década de 80, do passado século (e mesmo muito antes, noutros textos seus) Pinharanda Gomes falava da “região cultural da Guarda”, afirmando esta cidade como “o vértice de um triângulo cujos outros vértices são Coimbra e Salamanca. Por isso que somos o coração da Lusitânia Interior, capital das Beiras. Unimos o interior ao litoral, o Alentejo a Trás-os-Montes”.

     Hoje, se atentarmos um pouco na leitura dos indicadores disponíveis, vemos que, nesse vértice, o TMG exerce uma acção centrípeta de públicos dessas regiões, colocando a Guarda no mapa dos principais eventos culturais ou nos circuitos dos mais consagrados artistas, desde a música ao teatro, passando pela pintura, dança, escultura, escrita ou ciência. É a hora da Guarda.

     Pelo menos estes ponteiros do tempo citadino seguem o sentido correcto, malgrado os sons desafinados e repetitivos produzidos por quem vê a cultura como um incómodo…estes são os críticos permanentes, incapazes de olharem para além das barreiras do individualismo, da mediocridade e da conveniência, argumentando sempre pela negativa, seja porque se fez, seja porque nada aconteceu. Eternos descontentes...Alguns vão mesmo mais longe, desprezando as mais elementares regras cívicas e morais, alimentando o doentio espírito derrotista ou outras conhecidas “qualidades”.

     A Guarda precisa é do contrário, sobretudo do empenho, da determinação, da consciência crítica daqueles que aqui vivem e trabalham, das suas ideias e contributos, do reconhecimento do seu valor; a colaboração dos que (originários da região ou a ela ligados por laços afectivos) residam noutros locais será sempre bem-vinda; mas não tenhamos ilusões quanto à eficácia ou continuidade de iniciativas a partir do exterior. O grande impulso tem de partir de todos quantos vivem e sentem esta terra, esta região, e coloquem o interesse colectivo em primeiro plano.

     O recente encontro sob o lema do que algumas personalidades podem (podiam) fazer pela Guarda reeditou ideias antigas, demonstrou mesmo algum desconhecimento por parte de figuras ilustres, distanciou-se de uma discussão abrangente e da afirmação de compromissos pessoais e institucionais. Julgamos que ficou, de facto, apenas por um encontro, de poucos...

     O debate deve ser suscitado, desde já, internamente, questionando qual a estratégia mais adequada a um desenvolvimento global do, ainda, distrito da Guarda; unindo, acertando e planificando atempadamente a realização de eventos com matriz regional e capazes de constituírem atracção (como acontece com vários) de visitantes (tantas vezes confrontados com sobreposições de iniciativas); fomentando uma interacção turística/cultural entre os vários concelhos (por exemplo, porque razão as autarquias da região, quando promovem iniciativas dedicadas à infância ou terceira idade não procuram conciliar esses projectos com as actividades calendarizadas pelo TMG ou por outras instituições de perfil cultural?); proporcionando a divulgação de serviços/instituições/empresas que se têm distinguido pelo seu trabalho, qualidade e inovação (vejam-se alguns casos na áreas das novas tecnologias de sucesso nacional); valorizando as potencialidades rurais e o rico património histórico de arquitectura militar ou religiosa; fomentando/apoiando a investigação e a edição de trabalhos (anotemos a extraordinária aceitação que mereceram algumas edições aqui lançadas, como foi o caso de duas – recentes – na área da música); criando condições para que os jovens possam radicar-se no interior e desenvolvam aqui os seus projectos profissionais; desenvolvendo um autêntico trabalho em rede, entre outras atitudes que, pela limitação de espaço, não iremos enumerar.

      O sucesso das instituições, das empresas e das pessoas será também o sucesso da Guarda, de uma terra culta, ilustrada, moderna, qualificada que não perca as suas tradições ancestrais de hospitalidade.

      O TMG, e retomando a ideia inicial, tem marcado o tempo da Guarda, constituindo “um dos bons exemplos do nosso país relativamente à política cultural” e assumindo-se como “uma instituição voltada para o território, para a região, para o país, fazendo a ponte transfronteiriça com outros equipamentos de dimensão semelhante”, como afirmou a Ministra da Cultura, aquando da visita, na passada semana, a esta estrutura guardense.

     Nessa altura aludiu ao programa de financiamento aos Teatros Municipais, onde se enquadrar o TMG, o qual foi entretanto apresentado na passada terça-feira, no Centro Cultural de Belém (em Lisboa); na ocasião foi dado a conhecer o novo Fundo para Internacionalização Portuguesa (FICP) e a Rede Portuguesa de Teatro Municipais (RPTM).

     Abrem-se, assim, novas perspectivas de financiamento para o Teatro Municipal da Guarda (apoios há muito reivindicados pelo seu Director) que, naturalmente, vão permitir o caminho de uma maior projecção, da qual muito beneficiará a cidade e a zona geográfica envolvente.

     É fundamental que se fale dos bons exemplos, da qualidade, do sucesso e do contributo para o desenvolvimento da cidade mais alta de Portugal, sem complexos, tibiezas ou refugiando-nos em motivos estéreis, alheios às questões importantes.

    É urgente acertar a hora da Guarda!

 

(Helder Sequeira, in "O Interior", 17.Fev.2011)

 

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