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Notícias da Guarda e região | Reportagem | Crónicas | Entrevistas | Apontamentos | Registos

Foto: JF
O jornalista Fernando Paulouro faleceu esta segunda-feira, 6 de outubro. Natural do Fundão, natural do Fundão, onde nasceu a 31 de janeiro de 1947, Fernando Paulouro desenvolveu uma destacada atividade jornalística e cultural, aliás reconhecida com a atribuição do Prémio Eduardo Lourenço, em 2017.
Este prémio, instituído pelo Centro de Estudos Ibéricos, destina-se a premiar personalidades ou instituições com intervenção relevante no âmbito da cultura, cidadania e cooperação ibéricas. De recordar, e como então noticiámos, que o Júri reconheceu a “projeção cultural e ibérica do jornalista, escritor e cronista e a sua notória vocação cultural e cívica”, desenvolvida ao longo de décadas, no Jornal do Fundão, órgão de referência na história da imprensa nacional, onde foi jornalista, Chefe de Redação e Diretor (após a morte do seu tio, António Paulouro), até 2012.
“Protagonista de um jornalismo fortemente literário, que tantas vezes lhe permitiu contornar a censura pela finura da escrita, Fernando Paulouro das Neves representa muito bem a ligação entre os dois lados da raia ibérica, vividos e defendidos ao longo de uma vida de resistência. Regional, mas sempre com relevância global, mostra que o mundo precisa da reflexão vinda dos pequenos lugares. Partilha as beiras agrestes e a perspetiva que elas transmitem, com o próprio Eduardo Lourenço; em ambos o pensamento não se imagina sem o vento da raia, e a vivência dos locais que o futuro ameaça abandonar, mas que ambos acreditam que se manterão relevantes e até indispensáveis”.
Fernando Paulouro Neves foi chefe de redação do Jornal do Fundão e Diretor. Tem colaboração diversa em jornais e revistas, prefaciou livros de ensaio, poesia e de ficção e participou em obras coletivas sobre questões da realidade transfronteiriça. Escreveu, com Daniel Reis, “A Guerra da Mina e os Mineiros da Panasqueira”, é autor do texto dramático “O Foral: tantos Relatos/Tantas Perguntas”, e de “Era uma vez Cerinéu…”.
Publicou o livro de ficção “Os fantasmas não fazem a barba” e “A materna casa da Poesia – sobre Eugénio de Andrade” (ensaio) e recentemente o conto “Os Olhos do Medo”. Dirigiu e colaborou em variadíssimos suplementos literários, presidiu ao Teatro das Beiras e 2012 faz parte dos corpos sociais da fundação Manuel Cargaleiro.
Como sublinha o Jornal do Fundão, “por várias vezes integrou as estruturas do Sindicato dos Jornalistas e da Comissão da Carteira Profissional de Jornalista. Com uma ligação muito forte à cultura, também presidiu ao Teatro das Beiras e recebeu inúmeras distinções, entre as quais o título de sócio de honra da Sociedade Ibero-Americana de Antropologia Aplicada, o Prémio Gazeta de Mérito do Clube dos Jornalistas ou o Prémio Eduardo Lourenço, atribuído pelo Centro de Estudos Ibéricos. Em 2013, foi-lhe atribuída a Medalha de Ouro da cidade do Fundão. No próximo ano iria presidir à Comissão de Honra das Celebrações dos 80 anos do Jornal do Fundão”.
A Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) distinguiu o jornalista António José Teixeira, na passada quinta-feira, com a Medalha de Honra da Cooperativa.
A medalha foi entregue (no Auditório Maestro Frederico de Freitas, em Lisboa) por José Jorge Letria, Presidente da SPA, como reconhecimento pelo percurso notável do guardense António José Teixeira no jornalismo e pelo contributo para a defesa dos valores da liberdade em Portugal.
Foto: Jaime Serôdio
“A rádio terá sempre o seu lugar e o seu papel”. Esta a convicção de João Paulo Diniz, um consagrado nome da rádio portuguesa que hoje sublinhamos neste apontamento.
Lembramos “um homem de liberdade” que “num conluio tão sigiloso como arriscado, lançou a deixa musical na rádio para o arranque do dia mais claro e luminoso da geração sofrida e silenciada a que pertencemos”, como escreveu Júlio Isidro no prefácio à publicação “Cuidado com os Cabelos Brancos”.
João Paulo Diniz, autor desse livro e um “brilhante profissional”, é uma voz da liberdade, tendo com algumas breves palavras evidenciado o papel da rádio num importante momento da história portuguesa; na noite de 24 de abril de 1974 colocou no ar – através dos Emissores Associados de Lisboa – a primeira senha do movimento dos capitães, ao anunciar “faltam 5 minutos para as 23 horas”, seguindo-se a apresentação da música de Paulo de Carvalho, “E depois do adeus”.
“A música foi escolhida inicialmente quando fui abordado pelo capitão Costa Martins, da Força Aérea, e pelo Otelo Saraiva de Carvalho, com quem eu tinha estado na Guiné.” Recordou-nos João Paulo Diniz.
Quando o questionámos se as pessoas têm consciência da importância da rádio e do seu contributo para a revolução e subsequente afirmação da democracia, respondeu-nos: “não sei se têm. Há uma coisa que me custa um pouco. É que tenho a sensação que, de hoje em dia, os jovens sabem muito pouco sobre o que foi o 25 de Abril.”
Daí acrescentar-nos ser “extremamente importante sensibilizar toda a população, mas em especial os mais jovens, para a importância” dessa data e de “todas as liberdades que nos permitiu. Liberdade sempre, obviamente, com a máxima responsabilidade. Uma e outra não se separam. É um casamento.”
João Paulo Diniz protagonizou diversos projetos radiofónicos e desenvolveu uma intensa e distinta atividade jornalística, em vários órgãos de informação, mormente na rádio; atividade que evoca e descreve no livro a que aludimos anteriormente.
A sua passagem pela BBC contribuiu, como nos disse recentemente, para reaprender algumas “lições, sobretudo em termos do rigor, da informação, de ter a certeza que a notícia só é dada quando estiver a cem por cento tudo confirmado.”
Hoje, diz João Paulo Diniz, “fazem falta na rádio profissionais de cabelos brancos”, pretendendo dizer com isso que é importante haver neste meio pessoas com “uma experiência mais ampla, maiores conhecimentos”, capazes de transmitir memória; sem esquecer que é fundamental “ensinar aos mais novos como se faz a Rádio e, sobretudo, como não se faz…”.
Na necessária reinvenção da rádio, na sua desejada aproximação com o seu público, na reafirmação do seu perfil identitário e no amplo aproveitamento das suas características e capacidades esses contributos idóneos – pautados por um inquestionável profissionalismo e saber fazer – são relevantes e oportunos.
Aliás, há décadas atrás, o jornalista que hoje evocamos, descentralizava as emissões do programa que conduzia – na emissora pública portuguesa – pelo território nacional; como já destacava também a função social da sonora radiodifusão no interior do país, partindo do exemplo da Rádio Altitude, no decorrer de um colóquio realizado na Guarda em 1990, no âmbito da comemoração do aniversário desta rádio, que a 29 de julho completará 77 anos de emissões oficiais regulares; uma marca informativa e cultural da nossa região e da cidade, que não deve ser esquecida.
Na Guarda, em 1990. No colóquio intregrado na comemoração do aniversário da Rádio Altitude. Na foto (esq. para a dir ) João Marques de Almeida, Hélder Sequeira e João Paulo Diniz.
A proximidade e a humanização do meio rádio continuam a ser necessárias, pertinentes e fundamentais, pois as pessoas (e tendo em conta os cenários criados pela inteligência artificial e pelos desenvolvimentos ao nível de equipamentos técnicos) não podem ser afastadas do seu processo evolutivo; a Rádio a continua a ter futuro, apesar dos múltiplos condicionalismos e desafios.
Concluindo estas Anotações com palavras de João Paulo Diniz, “a rádio tem realmente uma dimensão extraordinária. É portátil, é leve, é gratuita e é fascinante.” Saibamos perceber, valorizar e apreciar esse fascínio!...
Hélder Sequeira
in O INTERIOR, 18 junho 2025
A jornalista Liliana Carona, diretora do Notícias de Gouveia, vai receber na próxima sexta-feira, em Zagreb (Croácia) o prémio internacional de Jornalismo e Literacia Mediática do Festival Vozes.
Este prémio de jornalismo é uma iniciativa da Federação Europeia de Jornalistas (FEJ) em parceria com a Comissão Europeia. Liliana Carona é a única portuguesa premiada, na categoria “Resiliência Local”.
A atribuição deste prémio a Liliana Carona surge com a apresentação da reportagem intitulada “Violência doméstica no distrito: taxas elevadas preocupam agentes locais” e igualmente como resultado do trabalho desenvolvido enquanto mentora e criadora do programa In Press Cool, entre outras iniciativas – daquela jornalista – de promoção da literacia mediática em contexto escolar.

O Vozes é um evento pioneiro que visa reformular a relação com a informação; desde a abordagem da evolução do jornalismo num panorama mediático em rápida mutação até à capacitação dos cidadãos com as ferramentas para navegarem nestas mudanças, proporcionando três dias repletos de centenas de participantes, mais de 70 oradores, sessões com curadoria, workshops interativos, exposições e oportunidades de networking.
Os Prémios Vozes constituem um concurso internacional anual que recompensa ideias inovadoras e agentes de mudança em torno dos temas do jornalismo e da literacia mediática. Um evento itinerante cofinanciado pela Comissão Europeia para celebrar o jornalismo e a literacia mediática na Europa. Este Festival apresenta uma dupla abordagem, uma vez que se debruça sobre a evolução do papel do jornalismo no nosso panorama mediático em rápida mutação, apoiando simultaneamente os cidadãos a avaliarem criticamente a informação e a navegarem na tecnologia de forma significativa.
Os Prémios Vozes reconhecem os trabalhos de jornalistas, professores e defensores da literacia mediática que melhor transmitem os valores e objetivos do Festival Vozes e incluem cinco categorias distintas: Em ascensão: utilização inovadora e ética da Inteligência Artificial no jornalismo; Impacto: reportagem de investigação transfronteiriça; Resiliência local: reportagens locais para as comunidades europeias; Jovens notáveis: jornalistas promissores com menos de 30 anos e Talento emergente: o melhor do jornalismo sobre o clima.
Os prémios atribuídos correspondem às despesas de participação no Festival ‘Vozes’ a decorrer no Museu de Arte Contemporânea em Zagreb, de 28 de fevereiro a 1 de março de 2025. Os vencedores na área do jornalismo são Giacomo Zandonini (Itália), na categoria 'Impacto”; Liliana Carona (Portugal), na categoria “Resiliência local”; Ivana Milosavljević (Sérvia), na categoria “Juventude notável” e Jenny Tsiropoulou (Grécia), na categoria “Talento emergente”.
A propósito do Vozes é referido que “vivemos em um mundo onde a informação é abundante, mas notícias precisas nem sempre são fáceis de encontrar. O Vozes surge para aproximar cidadãos, jornalistas e profissionais dos media”, celebrando “os papéis fundamentais que o jornalismo e o público informado desempenham nas sociedades”, sem esquecer a necessidade de promoção do pensamento crítico em torno da desinformação.
Antes da Croácia, o Vozes começou em Florença em março de 2024; mais de 1.300 participantes assistiram a sessões abordando inteligência artificial e jornalismo, desinformação, segurança de jornalistas, desafios dentro dos modelos económicos dos media, alfabetização mediática, integridade das eleições, parentalidade digital e bem-estar digital, entre outros.
“O festival é uma iniciativa itinerante que percorre diferentes cidades europeias para interagir com diferentes comunidades, ao mesmo tempo que enfatiza a liberdade de imprensa e a cultura mediática como elementos essenciais para o funcionamento das nossas sociedades.” Refere a organização do Vozes.
O jornalismo vive em Portugal uma “crise profunda”, considera Jorge Esteves correspondente da Rádio e Televisão de Portugal na Guarda, e com largos anos de experiência na atividade informativa. A sua ligação à comunicação social começou na rádio, meio que será sempre o único a permitir “estar a ouvir e a absorver a atualidade ao minuto, sem ter de escolher outra coisa que não seja a estação”.
Jorge Esteves nasceu (em 1965) no Ninho do Açôr, concelho de Castelo Branco, mas cresceu na Covilhã, onde acabou por ingressar na Universidade da Beira Interior. Em 2004, com a junção da RDP e da RTP numa única empresa, foi convidado a exercer as funções de jornalista e de coordenador da delegação comum da rádio e da televisão públicas que a Rádio e Televisão de Portugal decidiu criar na cidade da Guarda; frequentou a Licenciatura em Comunicação Social na UBI e completou vários cursos profissionais de Jornalismo em áreas como o Direito, Proteção Civil, Medicina Legal e Segurança Interna.

Como surgiu a tua entrada para a rádio e para o jornalismo?
Por uma situação fortuita, na altura em que frequentava o Curso de Matemática/Informática na UBI, e quando comecei a sentir que não tinha afinidades com a área onde ingressei “por engano”, comecei a colaborar diariamente nas emissões ainda “piratas” da Rádio Clube da Covilhã, como locutor e também como “uma espécie de jornalista”.
Passei a dedicar mais tempo à Rádio do que ao curso superior e acabei por ser convidado a integrar profissionalmente a equipa inicial da RDP/Centro-Rádio Covilhã, delegação que a empresa Radiodifusão Portuguesa, detentora do Serviço Público de Rádio decidiu abrir na cidade beirã.
Com o fim das Rádios Locais da RDP e a criação em 1993, de uma rede de correspondentes nacionais, com presença em vários distritos do país, acabei por ser convidado a assumir as funções na Guarda, a partir das instalações do antigo Emissor Regional e posteriormente da RDP/Centro-Rádio Guarda. Funções que em 1996 passei a acumular com as de Jornalista/Correspondente da SIC Televisão, a partir da Delegação criada na Universidade da Beira Interior.
Em 2004, com a fusão entre a RDP e a RTP acabei por ser convidado como quadro da nova empresa Rádio e Televisão de Portugal a exercer as funções de Jornalista Coordenador da Delegação Comum da Rádio e Televisão públicas, que o Grupo RTP decidiu criar no distrito da Guarda, cessando aí a colaboração com a SIC.
O que te fascinava mais na rádio, nessa altura?
A proximidade com o público e o território da Beira Interior, região onde por opção pessoal, profissional e familiar decidi manter-me.
Também me motivava muito a possibilidade de levar à dimensão nacional e internacional e também junto dos centros e instâncias do Poder, a voz e os anseios desta população, ainda muito amarrada e agarrada às teses da “Interioridade”…
Nas dificuldades técnicas e geográficas que enfrentava diariamente no terreno, encontrei sempre motivação extra para procurar ou inventar soluções.
Achas que a tua geração vivia a rádio de uma forma diferente do que acontece atualmente?
Substancialmente diferente, muito pela falta meios técnicos, de formas de fazer chegar os sons e a reportagem completa ao estúdio, de fazer pesquisa de informação ou conseguir contactar fontes. Era o tempo em que eu andava sempre com uma lista telefónica, do tipo “Páginas Amarelas” no carro, para conseguir até perceber em que zona era uma determinada aldeia ou freguesia, ou poder fazer um contacto para um Posto Público, para conseguir alguma informação útil.
Também o facto da maior parte das Rádios Nacionais não ter profissionais ou colaboradores espalhados pelo país, fazia com que fora da Grande Lisboa e do Grande Porto, em toda a parte restante do território nacional, as Rádios só falassem de alguma coisa da região, se fosse uma tragédia de grande impacto…E lembro que durante muitos anos, era só a região da Guarda que tinha a sua própria estação de rádio local, a Altitude.
E como conciliavas o trabalho entre a Rádio e a Televisão?
Em regra, as duas funções são exercidas em complementaridade, dando para fazer diretos seguidos ou edições diferenciadas para cada um dos meios. Sendo que em situações mais complexas, vai havendo a possibilidade de desdobrar equipas, recorrendo a colegas das delegações vizinhas, que ajudam a cumprir a missão.

Quando deixaste a SIC, e o teu trabalho passou a ser na rádio e na televisão públicas, houve mudanças significativas?
Posso dizer que acabou por acontecer numa altura crítica para a SIC, que até aí e logo desde a sua criação como Televisão Independente, era “A Televisão”…
A RTP estava nessa altura muito refém de algum conservadorismo e obsoletismo, e perturbada pelo fulgurante surgimento dos privados.
A TVI, antes do fenómeno Big Brother, ainda era conhecida como a Televisão da Igreja e a SIC, de Pinto Balsemão e Emídio Rangel, já tinha trilhado o caminho de conquistar públicos através de uma programação moderna e popular, produzindo ao mesmo tempo e de forma separada, uma informação irreverente e independente dos poderes, como Contra-Poder ao lado do cidadão.
Só que o facto da SIC ter abdicado do tal programa Big Brother para a TVI, veio a revolucionar as audiências, fazendo com que se entrasse num total desgoverno, com confusão de critérios entre programas e noticiários, com o sensacionalismo a tomar o lugar do rigor.
Foi a oportunidade para a RTP se reorientar, como Estação de Referência, deixando as duas Estações privadas nessa luta inglória pelas audiências e pela sua quota de mercado.
Foi esse o facto, que me permitiu ficar na condição de representante da Rádio e Televisão de Portugal na Guarda, com a mesma tranquilidade e autonomia profissional que tinha antes, como quadro da RDP e colaborador da SIC na região.
Como vês a evolução que se verificou, ao nível dos media, desde os teus primeiros anos de atividade nesta área?
A nível técnico, foi uma verdadeira revolução; com os telemóveis, os meios de direto através das redes de dados, as possibilidades de enviar ficheiros ou fazer pesquisas on-line, a quase fazerem esquecer o tempo em que se tinha de procurar um telefone fixo, para conseguir enviar um som através do encosto do gravador, ao bocal do aparelho.
Quanto à qualidade de Informação rigorosa disponível, já não vejo um cenário tão positivo…
A luta pelas audiências a todo o custo, e a confusão de públicos mal formados que não estão preparados para selecionar Órgãos de Comunicação Social credíveis; e pior ainda, para separarem o que leem, ouvem ou veem nas Redes Sociais, daquilo que é uma informação rigorosa, produzida e comunicada com critérios de ética e deontologia jornalística.
Facilita-se assim um terreno fértil, para as tão propaladas Fake-News…
Como está hoje o jornalismo em Portugal? Achas que há uma crise no jornalismo e na comunicação social?
Uma crise muito profunda, pelas razões explanadas na resposta anterior.
As primeiras vítimas acabam por ser os profissionais mais íntegros, que deixam de ter condições para exercer a profissão com independência e condições básicas de estabilidade profissional; as seguintes são o público, que deixa de ser servido com a qualidade que só o rigor jornalístico garante.
Consideras que os meios nacionais, mormente aqueles com quem trabalhas, dão a devida e permanente atenção ao que se passa no interior? Há falta de recursos humanos e técnicos?
Os recursos técnicos e humanos nunca serão os desejáveis, mas a postura com que o profissional e o órgão de Comunicação Social se posicionam no território, pode fazer a diferença.
Pela nossa parte, o território poderá sempre contar com uma presença que não será nunca “só prá desgraça”!...
No contexto informativo, e face ao trabalho que tens desenvolvido, como vês a importância do programa “Portugal em Direto”?
É o noticiário do país, em toda a sua extensão, de Norte a Sul, do Litoral ao Interior, e nas suas duas modalidades, de Rádio e Televisão. Para informar os residentes em Portugal, mas também os emigrantes lá fora, sobre o que se passa neste cantinho.
Na Antena 1 e RDP Internacional das 13:15 às 14h, e na RTP 1 e Internacional das 17.30 às 19h. Hora de Portugal continental e ambos de segunda a sexta.

Quais os trabalhos ou acontecimentos que te deixaram, até agora, melhores recordações? E as piores?
As piores, obviamente os incêndios e as suas consequências, e também os sustos e perigos a que nos obrigam no seu acompanhamento.
Além de todos os tipos de acidentes que provocam mortes ou ferimentos graves, ou ainda grandes prejuízos ambientais, e aos quais também não podemos deixar de garantir cobertura.
Consideras que na atualidade o jornalista, e sobretudo os que trabalham no interior do país, têm que “filtrar” com maior cuidado as fontes de informação?
A proximidade, por vezes traz problemas acrescidos na separação de funções entre a fonte e o jornalista.
A necessidade de triar a informação verificando a veracidade do que a fonte nos está a passar, considero que é tão evidente aqui, como em qualquer parte do mundo. O facto de numa qualquer matéria informativa, haver sempre partes interessadas, obriga o jornalista a atuar permanentemente com o devido profissionalismo, de forma a não deixar que o interesse público seja lesado, ou que uma parte mais indefesa se torne numa vítima.
Quais são os principais problemas com que debatem os jornalistas que trabalham no interior do país? As dificuldades são maiores?
Nos chamados territórios de Baixa Densidade, os problemas como a baixa expressão do público e de um meio empresarial que garanta um bom mercado publicitário, aumenta a dependência económica dos Órgãos de comunicação Social, de instituições como as autarquias ou os organismos desconcentrados da Administração Pública. E por arrastamento também as opções e a liberdade editorial.
O teu profundo conhecimento da região tem sido útil para as tuas reportagens ou diretos?
Claro que as mais de três décadas de serviço e os milhares de quilómetros percorridos, para os milhares de reportagens feitas neste território, fazem ter um conhecimento dos locais e pessoas que ajuda muito à agenda informativa e de contactos. E também facilita muito a comunicação em direto, sem recurso a cábulas ou notas escritas…
As agendas políticas condicionam a informação?
As agendas políticas fazem parte da informação. Deixarmo-nos condicionar por elas, ou servir-nos delas para alimentar os conteúdos, depende só da nossa postura perante elas.
Como vês o atual panorama da imprensa regional? A imprensa regional tem vindo a perder a influência? Corre riscos de desaparecer?
A forma de se adaptar e de se reinventar perante as novas realidades é que vai ditar o seu futuro. O setor do Multimédia e das Multiplataformas traz um novo potencial também para os órgãos regionais.
A proximidade será sempre uma vantagem a aproveitar, na relação com os públicos e os factos noticiosos.
E a Rádio? Como vês o presente e o futuro, no contexto regional e local?
A Rádio será sempre o único meio que nos permite estar a ouvir e a absorver a atualidade ao minuto, sem ter de escolher outra coisa que não seja a Estação, e podendo estar a desenvolver qualquer outra atividade, sem a perturbar. Em relação ao futuro, a resposta já a dei, anteriormente.
Há algum trabalho especial que gostasses de realizar, sobre a região onde tens desenvolvido a tua atividade jornalística?
Trabalhando com a independência, autonomia e liberdade com que me é permitido desempenhar as minhas funções, diria que só estou limitado pelas realidades que fazem com que alguns projetos continuem adiados e muitas potencialidades se mantenham por aproveitar.
Ou seja, é isso que faz com que haja reportagens que gostava de fazer e assim sendo, ainda não fiz…
E quanto a projetos pessoais, em contexto da comunicação social?
Muito sinceramente, na fase da vida profissional em que me encontro, não tenho outros projetos que não sejam, chegar à reforma com dignidade, ajudar quem me suceda a ficar com parte do meu conhecimento sobre este território, e eventualmente se houver algum interesse ou reconhecimento de utilidade na outra parte, retribuir à Rádio Clube da Covilhã, com a mesma colaboração abnegada com que iniciei todo este percurso, aquilo que foi uma carreira profissional com que nunca tinha sonhado antes.
H.S. /Correio da Guarda
Madalena Ferreira é um rosto conhecido da informação televisiva, mas também uma voz da rádio, uma jornalista que continua a privilegiar “o gosto pela descoberta e o prazer de levar ao público(s) o produto de muito e grato trabalho.” Isto apesar de reconhecer que, atualmente, existe um “jornalismo institucional, de agenda. Dos políticos e das direções dos meios de comunicação social.” Como disse ao CORREIO da GUARDA.
“Na falta de recursos faz-se jornalismo ao telefone, de bancada e perdeu-se muito a ida ao terreno”, o que para esta jornalista é um retrocesso. Por outro lado, e na sua forma de estar e de ser, não hesita em acrescentar que “sem independência financeira não há liberdade. Venha quem vier.”
Natural da aldeia de Barracão (Guarda), onde nasceu há 53 anos, Madalena Ferreira estudou jornalismo na Guarda e Direito em Coimbra, sempre a trabalhar. Na Rádio Altitude, na Radio F, Diário de Notícias, 24 horas, Rádio Clube Português, Jornal de Notícias, TSF e SIC onde permanece há 17 anos. Recentemente fez estágio e exame à Ordem dos Advogados “com vontade de exercer a profissão, o que acontece vai para ano e meio”, referiu ao CORREIO DA GUARDA. Nesta entrevista falou-nos dos trabalhos que a marcaram e outrossim de um inédito episódio ocorrido no decorrer da sua vida profissional, como jornalista.

Como surgiu a entrada para o jornalismo? Foi o jornalismo que a escolheu, como já comentou?
Realmente foi porque eu nunca tinha cogitado fazer esse caminho. Nunca até o Emílio Aragonês acompanhado do Dr. Lopes Craveiro me desafiar a fazer os testes para entrar na Rádio Altitude.
Pouco tempo antes, lembro-me de ouvir quer o Emílio Aragonês, quer o Francisco Carvalho e pensar na profissão deles como algo longínquo e inalcançável até. De maneira que o convite apareceu rodeado de alguma incredibilidade da minha parte.
Por um lado, era muito jovem, tinha apenas 17 anos e por outro, como é que alguém experimentado se tinha lembrado de uma miúda sem provas dadas ou, pelo menos, sem dar qualquer sinal de talento ou vocação, pensei eu à época.
Esteve também ligada à Rádio (e continua a estar). Como ocorreu essa ligação e que memórias mais gratas guarda dessa época?
Esta questão está muito ligada à anterior porque a entrada na Rádio foi o início de um percurso de descobertas. Até sobre mim própria.
E ainda bem que bem que aconteceu porque pouco tempo depois de entrar na Altitude seguir apaixonei-me realmente pela Rádio. Não tanto pela música que ainda passei algum tempo, mas pela informação.
Recordo-me que numa noite eleitoral, precisamente o Hélder Sequeira deixou-me acompanhar e trabalhar um bocadinho na dinâmica da chegada de resultados eleitorais e a sua transmissão imediata aos ouvintes.
Foi para mim extraordinário perceber a magia de chegar primeiro, isto é, a magia de estar em cima do acontecimento e informar quem nos seguia como ficava o tecido eleitoral no concelho, no distrito e no país.
Acho que foi aí que decidi que aquela seria a minha vida. Podia ter corrido mal no sentido em que, muitas vezes, o que queremos não é que o que vivemos, mas realmente para mim foi o princípio de grandes coisas. Abriu-se um mundo de conhecimento que nem sabia que apreciava tanto.
Nessa altura a inclinação era mais para a rádio ou para a imprensa escrita?
A escrita na Imprensa vem muito depois. Tem outras características e até aqui fiz um caminho de aprendizagem. Com imensa alegria e vontade permanente de aperfeiçoar o registo que difere bastante do radiofónico. Neste último caso escreve-se quase como se fala e na imprensa não pode ser.
Como vê a evolução que se verificou, ao nível dos media, desde os seus primeiros anos de atividade nesta área?
A mudança foi gigante. Não falo para já do que virá com a inteligência artificial, mas a internet foi a maior revolução contemporânea e com ela mudou como comunicamos.
A televisão pública deixou de ser única, vieram as privadas e a imagem passou a existir nos jornais e nas rádios com as plataformas online. Até a nível local as páginas online levam a Guarda ao cabo do mundo. Pelo caminho perderam-se algumas coisas porque o dinheiro ou a falta dele comanda o resto.
Na falta de recursos faz-se jornalismo ao telefone, de bancada e perdeu-se muito a ida ao terreno. Isso é para mim o maior retrocesso.
Como está hoje o jornalismo em Portugal? Há uma crise no jornalismo e na comunicação social?
Claramente. Não há pedradas no charco. Há jornalismo institucional, de agenda. Dos políticos e das direções dos meios de comunicação social. E mais não digo.
Falta jornalismo de investigação?
Sim. Também por falta de recursos, mas porque interessa pouco a quem manda.
Sendo uma observadora privilegiada por viver aqui no interior, o que acha do atual panorama da imprensa regional? A imprensa regional tem vindo a perder a influência? Corre riscos de desaparecer?
Já respondi de algum modo, mas reitero que o panorama não é animador. Não há tecido produtivo que faça publicidade e assegure receitas.
Pode parecer um detalhe, mas para mim é essencial para manter a independência dos órgãos de informação. Não sendo assim, continuamos impávidos e serenos a ver financiamento ilegal por parte dos municípios disfarçadas de publicidade institucional.
É um filme de terror. Ver como tudo o resto fica condicionado e comprometido. Sem independência financeira não há liberdade. Venha quem vier.
Quais são os principais problemas com que debatem os jornalistas que trabalham no interior do país? As dificuldades são maiores?
Isto anda tudo ligada como dizia o poeta. Sem órgãos de informação que andem pelos seus próprios pés, sem vencimentos decentes, não se vive, sobrevive-se.
Salvam-se os jornalistas que trabalham para órgãos nacionais, mesmo assim não são todos. Veja-se o exemplo recente da crise na Global Média que atirou os correspondentes ao chão. Quem vivia apenas dessa colaboração viu o seu presente ferido de morte e o futuro necessariamente ameaçado.
Tenho colegas a viver autênticos pesadelos. Este mundo não é uma “seara nova” nem tão pouco um porto seguro.
Quais os melhores momentos da sua atividade jornalística?
Os incêndios de Pedrógão Grande em 2017 pela resiliência que foi preciso ter diante do drama de tantas famílias.
A jornada Mundial da Juventude do ano passado por ser testemunha da apologia dos movimentos ecuménicos na mais tenra idade e sempre que fiz investigação SIC, reportagens especiais e Grande Reportagem.

Os prémios também souberam bem, mas nunca tanto como o gosto pela descoberta e o prazer de levar ao público(s) o produto de muito e grato trabalho.
A sua detenção, praticamente no decorrer de um noticiário radiofónico, foi, para além de inédito, um momento diferenciador e negativo? Acha que esse ato foi um atentado à atividade jornalística e à liberdade de imprensa?
Acho que o episódio ganhou uma dimensão de maior impacto porque foi a primeira detenção de um jornalista pós 25 de abril. Aconteceu a pretexto da violação do segredo de justiça, mas soou como se fosse uma detenção por delito de opinião. Ainda mais porque já se falava à boca pequena que Abílio Curto podia ser detido a qualquer momento por suspeitas de corrupção. E esse acabaria por ser o argumento decisivo do recurso interposto pelo Ministério Público (o mesmo organismo que mandou deter, mas com outro protagonista) para o Tribunal da Relação de Coimbra e que ditou a minha absolvição. Muita gente não saberá, mas o Procurador António Tomás entendeu que eu não deveria ter dado a notícia da acusação porque os visados ainda não tinham sido notificados, mas foi uma falsa questão.
Primeiro porque a acusação é pública e em segundo lugar, a sua divulgação já não perturbava a investigação. Por outro lado, eu não assaltei o tribunal para ter contacto com o processo e à luz do Código de processo penal da época, essas eram todas causas de exclusão de ilicitude. A meu ver houve um excesso de zelo e essa tese também era a do então PGR, Dr. Cunha Rodrigues. Depois o assunto foi de tal maneira mediatizado que, conjugado com outras forças, acabei por ser poupada de uma estadia breve na cadeia da Guarda. Mas foi por pouco. Pouco tempo depois, a lei foi alterada, e, o acesso dos jornalistas aos processos ficou dependente de uma malha ainda mais fina.
Julgo que o caso abalou a opinião pública, porque, na perceção mais popular dos acontecimentos havia um político a contas com a justiça quando a jornalista é que pagava as favas. Cheguei a ser julgada primeiro que o então presidente da Câmara da Guarda. Claro que depois tudo ficou no lugar: Abílio Curto foi condenado e preso e eu fui absolvida.
E a entrada para a televisão quando e como ocorreu? Foi um desafio diferente?
Diferente e também inesperada. Assinei contrato em 15/10/2007, fez agora 17 anos. Muito embora já andasse a ensaiar desde maio. Estava bastante insegura quando aceitei o desafio porque nunca tinha feito e televisão e, por mais que as linhas orientadoras do jornalismo sejam padronizadas, a televisão tem as suas especificidades. De maneira que não sabia se seria capaz.
Trabalhei muito, pesquisei muito como se fazia, vi exemplos dos melhores e pouco a pouco fiz o eu caminho. Para terem uma ideia só passados 7 anos é que consegui enfrentar as câmaras com naturalidade. Mas aprendi imenso e fiz até algum trabalho disruptivo se comparado com o que outros correspondentes tinham feito até aí. E acho que de algum modo demonstrei que é possível combater o centralismo informativo a partir do trabalho que se faz nas regiões do interior do país.

A experiência anteriormente adquirida na rádio e na imprensa foi importante para os trabalhos que tem feito, ao longo dos anos, na televisão?
Sim claro. Primeiro porque a linguagem da rádio é muito próxima da que é usada em televisão. Não é por acaso que muitos dos profissionais que foram fundadores da SIC em 1992 provinham da Rádio. A experiência na imprensa ajudou a cimentar a minha posição porque a leveza da linguagem com a profundidade das histórias que se contam são bons pontos de partida.
Qual foi a reportagem que mais a marcou?
Não foi uma. Foi uma sucessão de reportagens nos incêndios de Pedrógão Grande. Estive 5 semanas sem folgas e logo depois entrei de férias. Nos primeiros dez dias não consegui descansar. A agitação era tão grande, as marcas eram tão profundas que aquela narrativa não me saía da cabeça. Foi muito duro.
O seu trabalho em televisão foi já por várias vezes distinguido. O que significa para si este reconhecimento?
Seria talvez tema de conversa dos netos ao serão se tivesse filhos. Como não tenho acho que vão diluir-se na espuma dos dias e dos anos. Claro que o reconhecimento é bonito, mas recebo cada prémio como se fosse o elogio dos telespetadores que gostaram dos trabalhos, mas que nunca puderam dizer-me pessoalmente.
Na sua atividade jornalística alguma vez se sentiu ameaçada ou em situações de risco?
Ameaçada já fui várias vezes. Até quando estava na Rádio. Em risco sempre que relatamos a força dos incêndios ou entramos por caminhos que abalam interesses instalados. Foi assim por exemplo quando fiz uma Investigação SIC sobre os importadores de combustível de marca branca e expus todo o esquema nacional de quem ganhava e devia milhões ao Estado.
Um dos seus projetos da sua juventude era a advocacia, que já concretizou. O jornalismo pesou mais quando teve de escolher ou foi um plano delineado conscientemente?
Planos eu? Não. Até se diz que quando fazemos planos, o diabo vem e leva-os. Pois, realmente eu sempre dizia em casa que queria ser advogada e até quase ao final do liceu a minha ideia era essa. Mas como já contei, o convite para a Rádio mudou a trajetória. E, mudou, porque eu não sou de virar as costas a um bom desafio. É mais forte do que eu. Porém nunca abandonei o direito. Na minha cabeça essa vontade de aprender sobre a área continuava latente nos meus pensamentos. Tanto que cursei direito a trabalhar e o que aprendi foi muito útil à minha vida de jornalista. Em casos como os homicídios e fuga do Pedro Dias em reportagens de investigação.
Acha que o jornalismo a ajudou na sua “paixão” pelo Direito?
São duas paixões na verdade e as duas alimentaram-se uma à outra.
Como concilia, atualmente, a informação e advocacia?
Não é fácil. Em primeiro lugar tenho de ter em atenção que não pode haver confusões. Quando faço notícia não aceito procuração ou se tenho procuração em dado caso não posso fazer reportagem. Pode parecer simples, mas a gestão é delicada. Um dia haverá que fazer a opção por uma das carreiras.
Houve algum projeto que idealizou e não concretizou ainda? A sua vida vai dar-lhe o mote para um livro?
Credo. Eu não tenho essa importância. Tenho sim entre mãos um livro sobre um caso real de violência doméstica há 50 anos. O crime não foi tratado como violência doméstica, mas como homicídio qualificado. Morreu uma mulher por motivos fúteis evidentemente, mas ficam vários filhos cuja percurso espero ter a capacidade de relatar. Vamos ver quando.
Quanto a projetos, eu acho que ainda não fico por aqui, mas essa é uma conversa que vou adiar para um futuro próximo.
Que conselho daria aos jovens que queiram seguir a atividade jornalística, mormente no interior?
O conselho que tenho, e vale o que vale, não segue geografias. Se optarem por essa nobre profissão, saibam que não podem ter medo nem ser subservientes.
Da Guarda vê a região e o mundo? E o que vê de diferenciador na cidade mais alta?
Não. Na Guarda vemos algumas coisas, mas não vemos o mundo. Até porque eu sigo muito aquela ideia do Saramago de que para ver a ilha é preciso sair da ilha. Agora ser correspondente da SIC na Guarda já me permitir sair deste território e observar outras coisas que a seguir podem ser comparadas com os padrões que temos aqui. E isso é enriquecedor. Toda a experiência conjugada é que faz de nós seres informados e críticos.
Poderia dizer muitas coisas sobre a Guarda. Da boa quietude à quietude a mais. Mas olho para a Guarda como lugar onde sempre gosto de regressar. Isso para mim é que é o traço diferenciador. Por razões óbvias. Raízes e referências são fundamentais para nunca esquecermos de onde viemos.
Os desafios que se colocam atualmente à comunicação social, mormente às estações de rádio, são imensos. Desde logo os resultantes da drástica redução das receitas e da insuficiência financeira.
Quando centramos a nossa atenção no interior do país a realidade é ainda mais preocupante e os cenários que se desenham para o futuro não são animadores.
Uma certa euforia em torno das plataformas digitais, as crises económicas, o desinvestimento publicitário por parte das empresas bem como do pequeno e médio comércio, a necessidade de reapetrechamento técnico, a redução do número de profissionais e a aplicação de estratégias editoriais erradas conduziram a uma situação dramática.

Como tem sido sublinhado, a escassez de recursos financeiros vai agravando, progressivamente, a vida dos órgãos de informação. Aliás é significativo o número de estações emissoras que desapareceram ou foram absorvidas por grandes grupos, convertendo-as em simples retransmissores. Veja-se os mais recentes casos da Rádio Clube de Monsanto ou da Emissora das Beiras (que a 13 de maio tinha assinalado o seu 85º aniversário e foi vendida à sociedade detentora da Rádio Observador).
O desaparecimento destas "marcas" não deixa de ser trágico, contrariando o espírito que esteve subjacente à legalização das rádios locais e à preocupação em servirem as suas comunidades; incrementando a informação, o debate, a valorização do seu património e costumes, a salvaguarda do pluralismo, a defesa da democracia, o exercício responsável do jornalismo.
Como disse António Borga, Presidente da Casa da Imprensa, no V Congresso dos Jornalistas, “o jornalismo não é um negócio. O jornalismo é uma atividade de utilidade social e interesse público”.
Na mesma linha, e na mensagem dirigida na altura aos jornalistas portugueses, esteve a Vice-Presidente da Comissão Europeia ao considerar que a “informação é um bem público, cabendo às democracias proteger os jornalistas”. Por outro lado, defendeu que é necessário “encontrar soluções a nível europeu e internacional” para a crise do jornalismo, acrescentando a necessidade de serem e incentivar investimentos públicos, que “respeitem a independência e o pluralismo” da atividade.
A própria classe jornalística não rejeita a autocrítica e a análise serena da questão dos financiamentos. O que pode passar, como tem sido defendido, por um papel mais interventivo do estado no sentido da salvaguarda do jornalismo, de um jornalismo pautado pela seriedade, ética, deontologia e qualidade. E a qualidade dos conteúdos informativos aliada à independência e isenção é fundamental para a reaproximação dos públicos que, é importante anotar, não podem ter uma atitude de indiferença perante os media.
O apoio passa, desde logo, por se assumirem com leitores e ouvintes regulares, ativos e críticos, sem se acomodarem na passividade do dia a dia ou se uniformizarem no domínio do anonimato.
Será com o empenho e contributo de todos – jornalistas, instituições, estado, cidadãos, empresas – que o cenário hoje existente poderá ser alterado. Acentuando também a informação de proximidade, uma mais ampla cobertura do que mais diz e interessa às comunidades locais e regionais. E isto não pode nem deve ser esquecido!
Hélder Sequeira
O Secretariado Diocesano da Cultura e Comunicação (SDCC) vai assinalar hoje o 120º aniversário do jornal A Guarda.
“120 anos de homens e letras - A Guarda e os seus construtores” é a designação do seminário que sublinhará a efeméride, decorrendo a partir das 15 horas na Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, Guarda.
O programa integra uma intervenção do Bispo da Diocese da Guarda, D. Manuel Felício, seguindo-se a contextualização desta iniciativa por Dulce Helena Borges, coordenadora do Secretariado Diocesano da Cultura e Comunicação.
“A imprensa religiosa em Portugal” é o tema da comunicação a apresentar por Fernando Sousa e Anabela Matias irá intervir com uma apresentação intitulada “Sanches de Carvalho, um humanista para o nosso tempo".
“O papel das mulheres num jornal centenário: o caso do jornal A Guarda” é o título da intervenção de Liliana Carona que antecederá a comunicação de Henrique Santos que incidirá sobre “A revista Horizonte, fonte de cultura ao tempo de Sanches de Carvalho”.

Para Dulce Helena Borges, “o Secretariado Diocesano da Cultura e Comunicação não poderia deixar de assinalar os 120 anos do jornal A Guarda e o pioneirismo do distrito em termos da imprensa regional e, sobretudo, da imprensa católica”.
A responsável pelo SDCC referiu ainda, a propósito deste seminário que “a importância deste semanário nunca se circunscreveu ao território da diocese, e marca a história da imprensa religiosa portuguesa”.
Este seminário é aberto a todas as pessoas interessadas, tendo entrada livre.
No Espaço ExpoEcclesia, na Guarda, será inaugurada hoje, pelas às 18 horas, uma exposição, intitulada “Jornais Centenários do Brasil e de Portugal: Um Legado Cultural”.
A exposição integra-se no programa comemorativo dos 120 anos do jornal A Guarda.
Na Biblioteca Municipal Vergílio Ferreira, em Gouveia, vai ser inaugurada no dia 9 de março, pelas 15 horas, a exposição “Jornais Centenários de Portugal e do Brasil: Um legado cultural”.
Esta iniciativa pretende assinalar a passagem do 110º aniversário do “Notícias da Gouveia” e os 50 anos do 25 de abril. Trata-se de uma rara coleção de 56 jornais centenários de Portugal e do Brasil, publicados ininterruptamente desde 1835 e 1825, os quais testemunham a história do jornalismo, da imprensa e da língua portuguesa, bem como a evolução cruzada dos dois países no contexto da formação política, ideológica, social, económica, cultural e científica do mundo desde o século XIX até aos dias atuais.
Em Portugal, esta exposição esteve já patente já esteve no distrito de Évora, no Porto, em Aveiro e em Lisboa), tendo também decorrido no Brasil (Pernambuco) e no Parlamento Europeu (Bruxelas).
No mesmo dia, e após a inauguração da exposição, terá lugar um debate subordinado ao tema “Desertos de notícias. Desertos de Liberdade?”
O estudo dos desertos de notícias, coordenado pelo investigador Pedro Jerónimo da LabCom (Universidade da Beira Interior), aponta que 25% dos concelhos em Portugal não tem qualquer órgão de comunicação, e que mais de 50% estão em algum nível de risco, ou seja, que se podem tornar num deserto de notícias.
O jornal Notícias de Gouveia (NG), fundado a 12 de fevereiro de 1914, apresenta neste seu aniversário novas rubricas, além da renovação do programa de literacia mediática, que oferece a assinatura a estudantes do agrupamento local escolar.

Durante os primeiros três anos da sua existência o NG intitulou-se Semanário Evolucionista, na linha das confissões políticas que animavam os seus fundadores. Até ao número 17, a redação e a administração situavam-se na Rua do Ouvinho, sendo proprietário João Pinto de Sousa e diretor Afonso Xavier de Oliveira Fonseca.
Sucedeu-lhe, no cargo, José de Almeida Motta, que passou a ser o novo proprietário e reconhecido fundador do Notícias de Gouveia, a partir da publicação no13, a 7 de maio de 1914. Em 1916, José de Almeida Motta abandonou a designação de Semanário Evolucionista e o jornal passou a proclamar-se “Defensor dos Interesses da Região”. Mais tarde, viria a assumir funções, Carlos Gomes de Almeida Motta, seu filho, nomeado subdiretor em maio de 1954 e mais tarde diretor em junho de 1970.
Em outubro de 1995, o jornal passou para a titularidade da Associação de Beneficência Popular de Gouveia (ABPG), tendo Carlos Gomes de Almeida Motta sido substituído, no cargo de diretor, por Hercílio Azevedo Ribeiro. Em julho de 2007, por força de imperativos de ordem legal firmados na nova legislação que veio regular o sector, alterou a sua periodicidade de semanal para trimensal Atualmente o jornal é dirigido por Liliana Carona.
A exposição “Jornais Centenários de Portugal e do Brasil: Um legado cultural” poderá ser visitada na Biblioteca Municipal Vergílio Ferreira (Gouveia) no seu horário de funcionamento. A entrada é livre.
Os desafios que se colocam atualmente à comunicação social, mormente às estações de rádio, são imensos. Desde logo os resultantes de drástica redução das receitas e da insuficiência financeira.
Quando centramos a nossa atenção no interior do país a realidade é ainda mais preocupante e os cenários que se desenham para o futuro não são animadores.
Uma certa euforia em torno das plataformas digitais, as crises económicas, o desinvestimento publicitário por parte das empresas bem como do pequeno e médio comércio, a necessidade de reapetrechamento técnico, a redução do número de profissionais e a aplicação de estratégias editoriais erradas conduziram a uma situação dramática.

Como tem sido sublinhado, a escassez de recursos financeiros vai agravando, progressivamente, a vida dos órgãos de informação. Aliás é significativo o número de estações emissoras que desapareceram ou foram absorvidas por grandes grupos, convertendo-as em simples retransmissores.
O que não deixa de ser trágico, contrariando o espírito que esteve subjacente à legalização das rádios locais e à preocupação em servirem as suas comunidades; incrementando a informação, o debate, a valorização do seu património e costumes, a salvaguarda do pluralismo, a defesa da democracia, o exercício responsável do jornalismo.
Foram sendo, ao longo dos últimos anos adiadas soluções como ainda na passada quinta-feira dizia o Presidente da República na sessão de abertura do V Congresso dos Jornalistas. É na perceção da realidade atual que a comunicação social, o jornalismo tem de ter o foco.
Como disse António Borga, Presidente da Casa da Imprensa, no início do V Congresso dos Jornalistas, a decorrer por estes dias, “o jornalismo não é um negócio. O jornalismo é uma atividade de utilidade social e interesse público”.
Na mesma linha, e na mensagem dirigida aos jornalistas portugueses, esteve a Vice-Presidente da Comissão Europeia ao considerar que a “informação é um bem público, cabendo às democracias proteger os jornalistas”. Por outro lado, defendeu que é necessário “encontrar soluções a nível europeu e internacional” para a crise do jornalismo, acrescentando a necessidade de serem e incentivar investimentos públicos, que “respeitem a independência e o pluralismo” da atividade.
A própria classe jornalística não rejeita a autocrítica e a análise serena da questão dos financiamentos. O que pode passar, como tem sido defendido, por um papel mais interventivo do estado no sentido da salvaguarda do jornalismo, de um jornalismo pautado pela seriedade, ética, deontologia e qualidade.
E a qualidade dos conteúdos informativos aliada à independência e isenção é fundamental para a reaproximação dos públicos que, é importante notar, não podem ter uma atitude de indiferença perante os media.
O apoio passa, desde logo, por se assumirem com leitores e ouvintes regulares, ativos e críticos, sem se acomodarem na passividade do dia a dia ou se uniformizarem no domínio do anonimato.
Será com o empenho e contributo de todos – jornalistas, instituições, estado, cidadãos, empresas – que o cenário hoje existente poderá ser alterado. Acentuando também a informação de proximidade, uma mais ampla cobertura do que mais diz e interessa às comunidades locais e regionais.
E isto não pode ser esquecido.
Hélder Sequeira
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