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Ernesto Pereira

por Correio da Guarda, em 23.07.15

 

     Na toponímia guardense continuam ausentes nomes que deixaram marcas indeléveis na cidade. É o caso de Ernesto Pereira.

    Jornalista, advogado e jurista, Ernesto Pereira – nascido na Guarda a 9 de Fevereiro de 1903 – deixou múltiplos, quanto dispersos, testemunhos das suas observações, análises, de uma inteligência lúcida e brilhante, de um trabalho determinado em prol do desenvolvimento da cidade.

     Embora o seu espólio não seja substancial, legou-nos textos de excelente recorte literário, a par de outros onde emergem as suas convicções, a postura moral, uma personalidade forte, uma cultura vasta.

    Licenciado em Direito, a paixão pelo jornalismo cresceu progressivamente, e em paralelo, com a sua dedicação à causa da Guarda; no início de 1926, fundou o jornal a Actualidade, projeto que prosseguiu um ano depois em Pinhel, onde se radicou por motivos de ordem profissional.

     Naquela cidade integrou a Comissão Orientadora da Frente Única Republicana, empenhando-se, por outro lado, na revitalização da corporação dos Bombeiros Voluntários. Fundou, na cidade falcão, o Colégio, do qual não pôde ser Diretor porque o Ministério da tutela o considerava da oposição ao sistema político vigente.

    Como por várias vezes deixou claro, o causídico guardense não era pessoa para desistir perante as contrariedades. “Por mil vezes que a pedra se despenhe, voltarei, com muitos esforços, canseiras e sacrifícios, a empurrá-la. E nunca desistirei – porque nunca desiste o homem verdadeiramente digno desse nome”; uma predisposição que demonstrava também na barra do Tribunal, independentemente da complexidade dos processos, servindo-se das suas qualidades oratórias, em tantas ocasiões postas ao serviço de casos que sabia, à partida, dificilmente seriam remunerados.

    Num processo julgado no Tribunal da Guarda, em que eram acusados alguns estudantes por desrespeito a um agente da autoridade, Ernesto Pereira assumiu a defesa dos jovens, sem indagar ou avaliar as possibilidades económicas dos mesmos; tendo-se, dirigindo ao Juiz, sustentou que “tão digna é a toga que V. Exª usa como a capa negra de um estudante”.

     Depois de uma passagem, profissional, pelo Porto voltou à Guarda onde, a partir de 1942, foi editor da Revista Altitude. Lutou pela criação do Museu da Guarda onde viria a assumir funções diretivas.

    Empossado no cargo de Presidente da Câmara Municipal da Guarda em 1946, empenhou-se, desde logo, na construção do Hotel de Turismo, na linha dos argumentos que há muito vinha divulgando acerca da urgência de a cidade se desenvolver do ponto de vista turístico. Por certo seria a pensar nos potenciais visitantes que, junto da Direcção Geral da Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses, defendeu a “justa regalia de que a Guarda sempre gozou por poder dispor de uma carruagem directa Guarda/Lisboa – regalia que certamente não lhe será negada”.

    Os problemas urbanísticos estiveram, igualmente, no rol das preocupações do edil guardense. A localização do Colégio Feminino, o novo Cine Teatro, a regularização do Bairro do Bonfim (e da entrada da cidade por esse lado), a abertura dos arruamentos de acesso à Sé, bem como a urbanização da Guarda-Gare foram assuntos devidamente equacionados junto das entidades por quem passava a sua resolução.

No ano seguinte foi nomeado Governador Civil da Guarda, cargo no decorrer do qual procurou afirmar o distrito e incrementar o seu desenvolvimento através de eixos rodoviários e ferroviários; neste último plano, para além das atenções que dedicou às linhas da Beira Alta e Beira Baixa, defendeu a “necessidade urgente de prolongar até Barca de Alva a marcha do comboio diário que sai do Porto, cerca das 15.55 até ao Tua (...). Levar tal comboio até Barca de Alva representa um valioso benefício para as populações do Douro, tanto do lado da Beira e distrito da Guarda, como do lado de Trás-os-Montes e distrito de Bragança”.

    Ao longo do período em que desempenhou a as funções de Governador Civil, o relacionamento com as autoridades espanholas da província de Salamanca inscreveu-se nas suas prioridades de atuação, procurando incrementar contactos oficiais e pessoais, certo de que seria um excelente fórmula para resolver muitas questões resultantes da convivência fronteiriça.

    Na cidade, o seu círculo íntimo de amigos integrava o Dr. João de Almeida e o Dr. João Gomes (advogado, democrata convicto, opositor ao regime e que foi, como é do domínio público, uma das mais prestigiadas e consideradas personalidades políticas guardenses).

    Em 1952, Ernesto Pereira deixou a Guarda para tomar posse como Juiz Conselheiro do Tribunal de Contas, passando a residir em Lisboa, onde, com frequência, recebia os amigos mais chegados, como António Andrade, Ladislau Patrício, e José Domingues Paulo (uma das grandes amizades dos seus últimos anos).

     O seu irmão Abel Pereira (conhecido jornalista do Diário Popular) era outra das presenças, frequentes, na sua casa, onde viria a falecer em 23 de Julho de 1966.

    A figura deste guardense não se pode analisar fora do contexto da sua época, e desarticulada de um conjunto de determinantes pessoais e familiares. Ernesto Pereira é, sem dúvida, um nome grande da Guarda, cidade onde deixou obra feita ou definida; os regulares contactos ou o convívio com personalidades politicamente posicionadas, não significaram, necessariamente, o partilhar de ideias e objetivos, sobretudo quando se tinha um rigoroso conceito de amizade e um espírito de permanente defesa da liberdade de expressão e pensamento.

     Era um homem que procurou sempre a verdade, “essa doce miragem que perpetuamente fascina”, como escreveu em 1926.

    A cidade de Pinhel tem o seu nome consagrado na toponímia local. A Guarda, por seu lado, continua a esquecer uma das suas figuras carismáticas do passado século (como advogado, como jornalista, como autarca, como Governador, como Juiz)…

 

Ernesto Pereira - Guarda - HELDER SEQUEIRA.jpg

 

 

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publicado às 09:00

Homenagem a João Gomes

por Correio da Guarda, em 02.10.09

 

A Câmara Municipal da Guarda vai homenagear, no próximo dia 5 de Outubro, o Dr. João Gomes, ex-Governador Civil do Distrito e conhecido opositor ao regime político que vigorou até Abril de 1974.
Considerado uma referência de cidadania, de defesa de ideais e intervenção política e um verdadeiro homem da Guarda, João Gomes foi um advogado prestigiado e um grande defensor do distrito da Guarda e da Beira Serra, terminologia que gostava de usar, sobretudo no programa radiofónico “Reflexões Políticas”, que apresentou, durante alguns anos, na Rádio Altitude.
De assinalar que a homenagem terá lugar no dia em que se comemoram os 99 anos da Implantação da República; o programa elaborado integrará uma romagem ao Cemitério Municipal da Guarda, pelas 11h30, e o lançamento do livro intitulado “João José Gomes – Homem do pensamento e da cultura / Homem da palavra e da acção”.
A apresentação desta obra, inserida na colecção “Gentes da Guarda”, ocorrerá pelas 14h30, na Sala da Assembleia Municipal.
Justificava-se plenamente, como já defendemos por várias vezes, o registo perene de João Gomes na toponímia guardense. Será um acto de justiça!
 
 

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publicado às 00:15

Dois nomes, duas personalidades ...

por Correio da Guarda, em 25.05.09

 

A nossa cidade perdeu há seis anos atrás, no dia 23 de Maio, duas personalidades que, em nossa opinião, merecem um lugar de destaque na galeria das figuras ilustres da Guarda.
Os Drs João Gomes e Martins de Queirós, ainda que diferenciados na sua postura, actividade profissional e ideologia, souberam servir e dignificar a Guarda, tendo deixado fortes marcas da sua intervenção social.
O primeiro, figura incontornável na luta pela liberdade e democracia no distrito da Guarda, homem culto e socialista convicto, advogado brilhante, orador apreciado, tutelou uma enorme actividade política, bateu-se por princípios e ideias, esteve sempre na linha da frente dos interesses desta cidade, do distrito.
Mesmo quando exerceu as funções de Governador Civil do Distrito, João Gomes não hesitava em discordar – quando a sua consciência e o seu amor pela Guarda assim o exigiam – com as directrizes políticas ou opções estratégicas que na sua opinião não eram as melhores para a sua região.
Martins de Queirós, o quarto e último director do Sanatório Sousa Martins, deixou fortes traços da sua acção naquela conhecida (nacional e internacionalmente) estância de saúde, cujo 102º aniversário da inauguração ocorreu na passada segunda-feira, 18 de Maio; materializou a solidariedade com os doentes de fracos recursos económicos, através da afirmação do Centro Educacional e Recuperador dos Internados, associação que estabeleceu a ponte com a comunidade envolvente e outrossim com múltiplos percursos profissionais, dos quais, aliás, a própria cidade beneficiou.
A sua maior herança foi, talvez, a estação de radiodifusão sonora que, a partir de 1954, ajudou a robustecer e a projectar-se de forma inequívoca, na região e no país; estação que continua a emitir da Guarda, a honrar o seu largo historial e o esforço dos seus pioneiros.
Martins de Queirós por diversas vezes – nomeadamente na imprensa local – apresentou a sua ideia sobre o Parque da Saúde da Guarda; as conjunturas não foram, infelizmente, favoráveis à certificação da validade e oportunidade dos seus projectos.
A morte levou, na mesma data, dois homens com percursos distintos mas que convergiram na paixão pela Guarda, pelos “povos da Beira Serra”, como João Gomes, nas suas “Reflexões Políticas” (aos microfones da rádio que nasceu no Sanatório) gostava de denominar os destinatários das suas prelecções. Muitos, certamente, recordam ainda essas empolgadas quanto esclarecidas intervenções.
Honrar a memória destes dois homens passa por reflectir sobre o seu exemplo e pelo contributo que em planos diferentes – como já disse – deram à cidade onde viveram e trabalharam; cidade onde tarda uma mais que justa consagração na sua toponímia.
No confronto com alguns nomes atribuídos a artérias citadinas, resultantes da ligeireza da escolha, falta de imaginação ou da aconselhada e necessária ponderação para novas designações, João Gomes e Martins de Queirós têm uma vida, uma acção, um exemplo que falam por si sem necessidade de muita prosa para sustentar argumentos.
Em seis anos já houve tempo suficiente para perpetuar os seus nomes na toponímia guardense…
 
                                                                                     Helder Sequeira
                                                                                      in "O Interior", 21.05.09
 
 

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publicado às 21:49

João Gomes: cidadão da Guarda

por Correio da Guarda, em 02.09.08

 

Há cinco anos, a cidade pededeu uma personalidade que merece um lugar de destaque na galeria dos Homens da Guarda.
O Dr. João Gomes figura incontornável da luta pela liberdade e democracia no distrito da Guarda, homem culto e socialista convicto, advogado brilhante, orador apreciado, tutelou uma enorme actividade política, bateu-se por princípios e ideias, esteve sempre na linha da frente dos interesses desta cidade, do distrito.
 Mesmo quando exerceu as funções de Governador Civil do Distrito não hesitava em discordar – quando a sua consciência e o seu amor pela Guarda assim o exigiam – com directrizes políticas ou opções estratégicas que na sua opinião não eram as melhores para a sua região.
Honrar a sua memória passa por reflectir sobre o seu exemplo e pelo contributo em prol da causa da cidade. E esta, decorridos estes anos, não o tem esquecido? Será que, entre outras possíveis iniciativas, não tem pleno cabimento, a evocação do Dr. João Gomes através da toponímia guardense?...Perguntar não ofende.
 

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publicado às 23:18


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