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Um Sanatório abandonado...

por Correio da Guarda, em 18.05.15

Sanatório Guarda.jpg

     Hoje ocorre a passagem do 108º aniversário da inauguração do Sanatório Sousa Martins, na Guarda, durante décadas conhecida como “Cidade da Saúde”.

    Esta designação em muito se ficou a dever ao Sanatório que a marcou, indelevelmente, ao longo de décadas, no século passado.

   A Guarda foi uma das cidades mais procuradas de Portugal; a afluência de milhares de pessoas à cidade deixou inúmeros reflexos na sua vida económica, social e cultural. A sua apologia como localidade “eficaz no tratamento da doença” foi feita por distintas figuras da época, pois era “a montanha mágica” junto à Serra.

    Muitas pessoas (provenientes de todo o país e mesmo do estrangeiro) subiam à cidade mais alta de Portugal com o objetivo de usufruírem do clima de montanha, praticando, assim, uma cura livre, não sendo seguidas ou apoiadas em cuidados médicos.

    As deslocações para zonas propícias à terapêutica “de ares”, e a consequente permanência, contribuíram para o aparecimento de hotéis e pensões, dado não haver, de início, as indispensáveis e adequadas unidades de tratamento; situação que desencadeou fortes preocupações nas entidades oficiais da época.

    Em 1881 a Sociedade de Geografia de Lisboa promoveu uma Expedição Científica à Serra da Estrela, sendo integrada, entre outros, pelo médico Sousa Martins Dessa expedição resultou a elaboração de relatórios das várias secções científicas.

Sousa MARTINS - foto Hs.JPG

      A iniciativa teve, igualmente, o mérito, e através dos esforços de Sousa Martins, de chamar a atenção dos meios científicos e clínicos de então para as condições que esta região oferecia para o tratamento da tuberculose.

     Quatro anos depois realizou-se o primeiro Congresso Português sobre Tuberculose onde Lopo de Carvalho (que viria a ser o primeiro Director do Sanatório Sousa Martins, e pai de outro conceituado clínico) discursou sobre os processos profiláticos usados na Guarda.

     Este médico foi um dos mais fervorosos defensores da criação do Sanatório que seria inaugurado a 18 de Maio de 1907, com a presença do rei D. Carlos e da Rainha D. Amélia. A autoria do projeto dos edifícios pertence a Raul Lino.

Pavilhão D.jpg

      O fluxo de tuberculosos superou, largamente, as previsões, fazendo com que os pavilhões do Sanatório Sousa Martins se tornassem insuficientes perante a procura; o Pavilhão 1 (designado também de Lopo de Carvalho, e onde funciona atualmente a sede e administração da ULS da Guarda) teve de ser aumentado um ano depois, duplicando a sua capacidade.

     Um novo pavilhão, que se juntou aos três já existentes, foi inaugurado em 31 de Maio de 1953; com este novo edifício – onde funcionam a Medicina Interna, Obstetrícia, Cardiologia e Pediatria – o Sanatório Sousa Martins ganhou maior dimensão, assumindo-se, ainda mais, como uma “povoação” auto-suficiente, dentro da própria cidade. Este edifício – do qual foram já transferidos a maioria dos serviços, para o novo bloco hospitalar – assinala, no corrente ano, o seu 62º aniversário,

     Após o 25 de Abril de 1974, o Sanatório Sousa Martins entrou na fase final da sua existência. Em Novembro do ano seguinte aquele Sanatório foi integrado no Hospital Distrital da Guarda; após 68 anos de existência, esta instituição de saúde conclui a sua eminente função social.

    Recorde-se que o antigo Sanatório Sousa Martins, na Guarda, foi classificado como conjunto de interesse público, através de portaria da portaria 39/2014, do Secretário de Estado da Cultura; nela é referido que a classificação do antigo Sanatório reflete os critérios relativos ao “carácter matricial do bem, ao génio do respetivo criador, ao seu interesse como testemunho notável de vivências ou factos históricos, ao seu valor estético, técnico e material intrínseco, à sua conceção arquitetónica, urbanística e paisagística, à sua extensão e ao que nela se reflete do ponto de vista de memória coletiva, e às circunstâncias suscetíveis de acarretarem diminuição ou perda da perenidade ou da integridade do bem”.

ZONA Sanatório.jpg

     Certo é que os antigos e emblemáticos pavilhões do Sanatório Sousa Martins são hoje elucidativa expressão de abandono e degradação.

Pavilhão D. António de Lencastre - foto Helder S

 

Pavilhão A Lencastre - Sanatório-7-2014 (20).JPG

 

Pavilhão A Lencastre - Sanatório-7-2014 (8).JPG

 

Pavilhão A Lencastre - Sanatório-7-2014 (31).JPG

 

     Esperemos que estas breves notas suscitem, nos responsáveis e decisores, um atenta reflexão, que reforce a necessária determinação em salvaguardar a memória e um património ímpar da cidade mais alta de Portugal. É lamentável este estado de abandono a que foi votada a estrutura física de uma das mais proeminentes instituições da Guarda do século XX. (Helder Sequeira)

 

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Ainda o Museu do Sanatório Sousa Martins...

por Correio da Guarda, em 27.07.09

            

           Em anterior post alertámos para o perigo de desaparecimento de peças e material diverso que pertenceu ao antigo Sanatório Sousa Martins. As obras em curso no Parque da Saúde implicam a necessidade de destruir espaços que, até agora, serviam de “arrecadação” de muito desse espólio, onde, naturalmente, haveria algum recheio sem interesse.

Contudo, e fazendo fé naquilo que o semanário “O Interior” noticiava na sua última edição, muito do recheio quer da antiga padaria (onde se guardava diversificado material e que foi já derrubada por exigência das obras de ampliação da ULS), quer de alguns pavilhões foi já vendido a …sucateiros. Houve a garantia, do responsável máximo pela Unidade Local de Saúde “que tudo o que tem interesse museológico será salvaguardado”…Quem aferiu esse interesse?...
E o material da antiga lavandaria (com peças já raras ao nível dos equipamentos existentes em serviços desta natureza) vai ser alienado também com a justificação de falta de espaço?... Não haveria, na cidade ou arredores, espaço que albergasse temporariamente o material agora vendido de forma a poder haver uma selecção criteriosa do seu potencial interesse museológico e documental? Foi feito algum registo fotográfico?
A salvaguarda da memória citadina não é, de forma alguma, incompatível com o progresso e com a desejada modernização da principal unidade de saúde do distrito; e esta não é uma posição apenas de hoje; tem sido defendida ao longo dos anos…
Ainda a propósito deste assunto, registamos, a oportuna (mais uma!) referência que Américo Rodrigues fez no seu Café Mondego, e que aqui deixamos com (como é usual dizer-se) a devida vénia.
 Perante a convicção, quase desarmante, de Fernando Girão, de que a sucata que a Unidade Local de Saúde está a vender, embora proveniente do antigo Sanatório, não tem valor museológico, cabe perguntar:
 - qual é o técnico de museologia que acompanha o processo?
 – no caso de não haver técnico -o mais provável- tem Fernando Girão a noção de que pode ele considerar sucata - coisas sem importância e, até, lixo- peças de alto valor museológico???
- sabe Fernando Girão classificar os objectos que encontra (museológico versus lixo) e determinar o seu valor, por exemplo, documental?
Finalmente, para além do valor museológico (uma obsessão, talvez porque já se perderam coisas em demasia) há outros valores. Os processos dos internados, por exemplo, podem dar origem a trabalhos de cariz sociológico. E um punhado de radiografias pode ser -outro exemplo- o pretexto para uma instalação artística (…)”.
In “Café Mondego”
26 de Julho 2009

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