Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Livro sobre o concelho de Pinhel

por Correio da Guarda, em 12.11.25

 

O livro “Pinhel Guarda-Mor do Reino - O Concelho no século XIX”, da autoria de João Marinho dos Santos, vai ser apresentado amanhã no Pequeno Auditório do Museu da Guarda.

A apresentação da obra será feita, pelas 17h30, por José Luís Lima Garcia.

Livro sobre Pinhel

O século XIX foi para os habitantes de Pinhel, um período de vigorosa reclamação identitária, reforçada pela teimosia dos seus representantes políticos no sentido de a grei participar no "progresso" que se ia manifestando em Portugal e noutros países do resto da Europa. Interiorizadas estavam as regiões de Cima-Côa e Riba-Côa, as quais adotaram a estratégia de se abrirem ao exterior, oferecendo os mais importantes produtos de que economicamente dispunham para a troca com outros mercados regionais e nacionais.

João Marinho dos Santos é licenciado em História (1972) e doutorado em Letras (História Moderna e Contemporânea) (1987), pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde é Professor Catedrático jubilado.

Foi Diretor do Instituto de História da Expansão Ultramarina, Delegado da Secretaria de Estado da Cultura para a Zona Centro de Portugal (1990-1994) e Coordenador Científico do Centro de História da Sociedade e da Cultura (2003-2013).

Tem como interesses científicos e temas de investigação a «História dos Descobrimentos e da Expansão Portuguesa» e a cultura como vertente do desenvolvimento local e regional.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:08

O Poço da Cidade

por Correio da Guarda, em 08.09.25

 

Redescobrir a cidade mais alta é um desafio apaixonante para todos quantos gostam e defendem a Guarda, que encerra no seu espaço urbano inúmeros motivos de pesquisa e investigação. E hoje - através de um artigo de Dulce Helena Borges e José d'Encarnação - vamos falar-vos de O Poço da Cidade, que existiu junto à Porta de Estrela (também conhecida por Porta do Sol).

 

Comprou-se o terreno, na mira da construção. Dava mesmo jeito levantar ali um edifício, pela oportunidade da sua localização na cidade. Só que aconteceu depois o que não se esperava: facilmente tudo ali ficava encharcado, mal caía uma chuvada maior; por outro lado, a proximidade às muralhas, património classificado e sujeito a regras, condicionou profundamente o ideado. Já lá vão mais de vinte anos! E o projeto ficou sem efeito.

Recordou-se, então, que por aí, junto a essa Porta do Sol ou da Estrela, à entrada nascente da cidade da Guarda, se situavam outrora as melhores hortas. Ali havia as melhores terras, cresciam as melhores couves e demais produtos hortícolas. Era como que a horta da cidade. O terreno, parecia, ressumbrava.

Print

Havia, porém, por perto construções com ar de nobreza, que não passaram despercebidas, por exemplo, a Virgílio Ferreira, que as referiu num dos seus livros. Também despercebido não passava um letreiro patente numa casa que, em tempos, deve ter sido construída aproveitando a parede da muralha medieval bem junto a uma das portas, a já referida Porta do Sol ou da Estrela. Está localizada extra muralha, logo fora do perímetro da mesma; contudo, se o edifício se encontra ligeiramente descolado da muralha, o portal onde se encontra o lintel com a inscrição é biselado, remetendo assim para uma construção dos séculos XVI ou XVII ou uma reutilização posterior das pedras antigas…

Precede o letreiro assim como que uma espécie de sol com raios. Isso percebe-se: deve ser a representação do sol. Agora, as letras: o que quereriam elas dizer? As pessoas olhavam, achavam curioso, interrogavam-se e… seguiam viagem!

O certo é que, de facto, lê-se claramente ‘pozo da cidade’. José Luís Madeira teve a gentileza – que muito agradecemos – de nos oferecer o respectivo desenho.

No século XVI, poço escrevia se com z. Poderá perguntar-se: «poço da cidade»? Que interesse há aí em identificar tão solenemente o sítio onde está o poço? As pessoas não sabiam? Saber sabiam; contudo, o letreiro assim solene acentua o valor que ele tem; e, por outro lado, identifica muito importante recurso da cidade: a água!

Habituados como – felizmente! – ainda estamos a ter água com um simples abrir de torneira, esquecemos que água ao domicílio só começou, e mui timidamente, pela terceira década do século XX!

Durante muito tempo, o chafariz público com os tanques de lavar roupa acoplados – e, antes dele, as fontes e as nascentes – era o ponto de encontro da vizinhança. Nesse âmbito da importância do poço, chegou-se mesmo a propor, por exemplo, que o topónimo BIRRE, de uma localidade da freguesia de Cascais, devia ter tido origem etimológica na palavra árabe Bir, que significa «poço», fazendo, assim, remontar à época árabe o povoamento desse lugar, nascido em torno de uma nascente pública de chafurdo – que, diga-se de passagem, sem consulta prévia à população, há anos o executivo camarário alienou a um particular.

Sítios e localidades há em cujo nome entra a palavra ‘poço’, a anotar a sua antiguidade ou as lendas a eles associadas:

– Poço da Moura: sítio emblemático do Ecomuseu Natural e Cultural da Serra da Labruja, em Ponte de Lima;

– Poço de Broca das Frádigas, freguesia de Vide, concelho de Seia;

– Caminho do Poço das Casas, em Almancil;

– Poço das Casas, pequena aldeia do concelho de Condeixa-a-Nova, que recebeu o nome de um antigo poço que abastecia os viajantes do percurso Coimbra – Tomar;

– em Lisboa, o Poço do Borratém….

E um pouco por toda a parte: a Rua do Poço, o Caminho do Poço… Inclusive no concelho e no distrito da Guarda: o conhecido Poço do Mestre, em Trancoso; a aldeia de Poço Velho, em Almeida; a Rua do Poço, em Celorico da Beira, designação que remonta ao século XVIII; a freguesia de Poço do Canto, no município de Meda…

Por isso se diz que mudar o topónimo Poço de Boliqueime, no concelho de Loulé, para apenas Boliqueime correspondeu a uma atitude impensada e, porventura, caprichosa. Primeiro, mudou-se para Fonte de Boliqueime; as placas toponímicas da Via do Infante apenas registam Boliqueime. O povo acabou por solicitar que, de novo, fosse Poço, ainda que, na atualidade, seco ele esteja já.

Print

Voltando à cidade da Guarda dir-se-á ainda, para completar o enquadramento deste poço já inexistente e que, porventura, seria por ali perto, mostram-se postais antigos da Porta da Estrela e edifício anexo, lado direito, onde se encontra a inscrição.

 

Dulce Helena Borges

José d'Encarnação

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:06

Muralhas com história

por Correio da Guarda, em 23.07.25

 

Em Sortelha (Sabugal) vai ter lugar, entre 19 e 21 de setembro, a décima terceira edição do evento “Muralhas com História”.

Este ano serão evocadas as vivências do reinado de D. Afonso IV (1325-1357”, cognominado de “O Bravo”.

Trata-se de uma organização da Câmara Municipal do Sabugal que pretende proporcionar uma “viagem ao quotidiano medieval”, complementada com recriação histórica, mercado medieval, acampamento militar, ofícios e vivências, cetraria e animais da quinta, ritmos medievais, artes circenses, torneios de armas a pé e a cavalo, jogos medievais e  animação infantil.

Sortelha - foto Helder Sequeira_

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:01

Oficina de História da Guarda

por Correio da Guarda, em 09.07.25

 

Na Guarda está a decorrer, desde dia 7, até à próxima sexta-feira IX edição da Oficina de História, organizada pelo Centro de Estudos Ibéricos (CEI).

Os trabalhos, que decorrem na sede do CEI, são dirigidos por Rita Costa Gomes, docente de História na Universidade de Towson (EUA).

Este ano a Oficina de História da Guarda (OHG) está a abordar o tema de como programar um podcast sobre História e quais os caminhos possíveis para a sua concretização.

Integrar o estudo das Humanidades, das Ciências Sociais, da Geografia, e da História num esforço de compreensão do passado da cidade da Guarda e da sua região através de uma oficina de escrita e de pesquisa aberta aos cidadãos e profissionais interessados é o objetivo da OHG.

Pretende, por outro lado disponibilizar em plataforma digital conteúdos e instrumentos (leituras, imagens, mapas, textos) que permitam estudar o passado desta cidade numa perspetiva regional, comparativa, e na sua dimensão ibérica.

 

Oficina de História 

Foto: Centro de Estudos Ibéricos 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 10:14

Guarda: misterioso letreiro foi desvendo

por Correio da Guarda, em 03.06.25

 

Sobre porta emparedada do conjunto arquitetónico que envolve o edifício do antigo Convento de S. Francisco (onde esteve instalado o Regimento de Infantaria 12 e agora funciona o Arquivo Distrital) existe um letreiro, enigmático e pouco conhecido até agora. Um recente trabalho de Dulce Helena Borges e José d'Encarnação veio revelar os “segredos” dessa inscrição e, ao mesmo tempo, alertar para a atenção que devemos ter com a nossa História e o nosso património.

O CORREIO DA GUARDA, deixa aqui, este interessante e oportuno estudo (já divulgado no site informativo Duas Linhas), felicitando os autores por mais um valioso contributo para o conhecimento do nosso passado.

 

Na cidade fundada por D. Sancho, após a atribuição de foral em 27 de novembro de 1199, existiram, ao longo dos tempos, vários edifícios de matriz religiosa que, por diversas razões, foram erguidos fora do perímetro amuralhado. Além do Convento de S. Francisco, encontramos, por exemplo, referência à existência de mais cinco igrejas medievais.

Foi esse convento fundado em 1236, no governo do segundo (?) bispo da Guarda, D. Vicente I. Construiu-se, por ser de ordem mendicante e tal como ao tempo era costume, fora da malha urbana, que começava então a ser delimitada pela continuada construção das muralhas, neste caso, no arrabalde sul da cidade medieval.

Há notícia de que as obras de edificação do convento franciscano, feitas a expensas dos moradores da cidade, em 1246 já estavam concluídas. Tinha capacidade para albergar 28 frades e parece ter sido, ao longo de séculos, essa a sua principal ocupação: acolher a comunidade monástica.

Já no que se refere à igreja conventual, sabemos que teve a proteção da fidalguia da Guarda, tendo ali sido sepultada D. Isabel de Pina, filha do cronista-mor do reino, Rui de Pina, e seus descendentes e, ainda, entre outras personalidades, ali repousaram os restos mortais da condessa de Linhares, D. Lopa de Sequeira. Embora D. Isabel de Pina tenha concorrido com verbas para dotar a igreja de melhores condições, tal não invalidou que, alguns anos depois, Filipe II, o Pio, tivesse lançado uma finta de 100$000 réis aos habitantes da cidade e seu termo «para restauro da igreja do Convento de S. Francisco», como se lê no respetivo documento.

Convento de S. Francisco - foto HS _

Aqui se formaram muitos frades ilustres, figuras de grandes virtudes e santidade, de que importa dar destaque àquele que maior fama de santidade adquiriu, o beato Frei Pedro da Guarda, que faleceu no Funchal em 1505, tendo ficado conhecido como “Santo Servo de Jesus”. Sobre este frade, por ter fama de santidade, chegou a ser constituído um tribunal com vista a promover a sua beatificação.

Conta Carlos de Oliveira (Apontamentos para a Monografia da Guarda, Câmara Municipal da Guarda 1940, p. 254) que, em 1568, este convento mendicante foi objeto de reformas e sabe-se também – segundo Carlos Manuel Ferreira Caetano (p. 673 da História da Guarda, publicada o ano passado pela Câmara Municipal) – que, por volta dessa data, foi alvo de uma reconstrução, se não integral, muito próxima disso. José Osório de Castro, por seu turno, escreve – na p. 86 da sua preciosa obra, Diocese e Districto da Guarda: série de apontamentos históricos e tradicionaes sobre as suas antiguidades, algumas observações respeitantes à actualidade e notas referentes à cathedral egitaniense e respectivos prelados, publicada, em 1902, pela Typographia Universal, no Porto – que, em1600, «o convento teve notáveis restaurações, sobretudo na igreja que se fez de novo», segundo os cânones da arquitetura chã.

Depois da extinção das Ordens Religiosas, o Convento de S. Francisco passou a servir de instalação aos aquartelamentos militares da cidade, tendo tido obras de ampliação, entre outras alterações, com a construção, em 1868 e 1869, de uma casa anexa de grandes dimensões. Desde então, outras dependências foram construídas no recinto que outrora terá sido a enorme cerca dos frades.

Assim, no edifício que hoje nos é dado observar estão alojados, desde a década de 80 do século passado (1984), o Arquivo Distrital da Guarda, uma dependência do Ministério das Finanças, a GNR e a Liga dos Combatentes e é, sobretudo, o resultado das múltiplas intervenções arquitetónicas que, ao longo dos séculos, ali foram realizadas.

Uma característica arquitetónica dos conventos é a indispensável presença do claustro. Também aqui ele é observável e, pese embora o mesmo, segundo Carlos Caetano, não ser já o original, mas muito próximo do projeto inicial, apresenta planta retangular com arcadas de arco abatido e dois andares. Ao centro, o tanque com uma fonte de água, cuja estrutura é encimada por esfera armilar. No andar superior da face norte do claustro, identificamos uma cartela em forma de concha, onde está inscrita a data 1734. O edifício conventual desenvolve-se em torno deste claustro e apresenta, no lado norte, a igreja (há décadas sem restauro nem uso), de planta longitudinal, sendo observáveis, no seu interior, estruturas da primitiva igreja medieval.

A fachada principal do edifício do convento está organizada em dois andares. O corpo superior possui um janelão com uma composição visual bem conseguida, com os ornatos talhados em granito pouco exuberantes, que nos remetem para as características da arquitetura chã.

No piso térreo, uma ampla porta com arco abatido introduz-nos na galilé, por onde se acede à igreja e ao interior do convento. Esta fachada principal tem no topo norte um acrescento, muito tardio, ao qual se acede por uma varanda alpendrada, típica de arquitetura residencial vernácula. Ao nível desse piso térreo, e na parede que suporta as escadas desta varanda alpendrada, existe uma porta cega em cujo lintel mal se descortina uma inscrição.

Foto Edifício_  

foto de Dulce Borges

 

Que estará por ali escrito?

À semelhança do que por muitos sítios desse Portugal além acontece, tais inscrições antigas vão-se gastando, mercê da erosão das intempéries, ninguém se preocupou em delas dar conta quando ainda se liam bem e, hoje, quando não sucumbem sob as inclementes pancadas dum qualquer camartelo, ninguém lhes liga importância nem curiosidade tem em saber o que lá está escrito. De facto, nem observando-a de perto desta aqui algo se consegue decifrar!…

Contou-se atrás a história do convento, das suas vicissitudes ao longo dos séculos. E aqui o que se conta? Novidade haverá alguma para acrescentar?

Foto Inscrição_geral 

Foto 4

Fotos: Dulce Borges. A epígrafe está por baixo da sede da Liga dos Combatentes.

 

Para nos ajudarem estão hoje ao nosso dispor, pela perícia de Alexandre Canha, técnicas fotográficas específicas que, sem necessidade de inoportunas e eventualmente deletérias escovas de limpeza que as letras poderiam estragar, trazem à luz do dia o que há longas décadas se não lia e de cuja mensagem não havia memória. Aí está, pois, o que ora se vê (bem hajas, Alexandre!):

CAZA DA ORDEM 3A q FES PARA SI ANO 1734

Ou seja: «Casa da Ordem 3ª, que fez para si. Ano de 1734».

Duas novidades, portanto, que, do anterior relato não constavam: a Ordem Terceira de S. Francisco ali construiu para si esta casa. E a segunda novidade: a coincidência da data com a que se lê na cartela do claustro. Uma história a refazer, quem sabe!?

E a conclusão necessária: o cuidado a ter com inscrições antigas. Importa não as estragar e, caso estejam bastante deterioradas já, o recurso a quem ainda as saiba ler revela-se fundamental. Quantas lápides sepulcrais das nossas igrejas sujeitas ao contínuo pisoteio dos fiéis não correm mui sério risco de serem, também elas, memórias a morrer?!…

 

Dulce Helena Borges

José d'Encarnação

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:36

Novas publicações apresentadas na Guarda

por Correio da Guarda, em 27.04.25

 

Na Guarda decorreu ontem a apresentação de três livros e uma coletânea, no âmbito das comemorações dos 50 anos de abril, e teve ainda lugar uma homenagem a João José Gomes.

“A Guarda e os 25 de Abril: Memória(s) e Desafios”- coletânea; “Uma Porta para a Liberdade, o Ser e o Agir: breve Biografia de Luís Erse Baeta de Campos”, “Cândido da Conceição Pimenta: O Resistente” e “Augusto José Monteiro Valente, Major-General do Exército Português (1944-2012), Capitão de Abril: Republicano, Cidadão e Historiador” foram as obras apresentadas na sessão que decorreu na ExpoEcclesia, a partir das 16 horas.

LIVROS_

“A Guarda e os 25 de Abril: Memória(s) e Desafios” é apresentada como “pretexto para ouvir vozes de abril na sua diversidade e complexidade. São vozes da Guarda de várias décadas, de idades e formações muito variadas”, sendo salientado que “os que escreveram representam todos os outros, quiseram dizer que estão cá e que a Guarda merece ser pensada, sem ter que aceitar os acasos e os destinos da vida. O destino escreve-se com vontade, verdade, confronto e persistência. A Guarda, sob o manto do cinzentismo”.

“Uma Porta para a Liberdade, o Ser e o Agir: breve Biografia de Luís Erse Baeta de Campos”, de Luísa Campos, evoca o “médico, humanista, democrata e um lutador incansável pela justiça e pela dignidade” que se tornou “uma voz da resistência e de mudança, defendendo valores de liberdade e democracia, mesmo quando isso implicava enfrentar o regime autoritário”.

O livro “Cândido da Conceição Pimenta: O Resistente”, da autoria de Leandro Pragana Pimenta, fala de “um homem cuja vida é profundamente marcada pela resistência antifascista em Portugal”, aludindo a um percurso que não é “apenas uma crónica de sofrimento, mas também um testemunho de profunda humanidade e resiliência”. Cândido Pimenta, como escreve o seu neto, é “um resistente cuja vida é um exemplo eterno da luta pelo que há de mais valioso: a dignidade humana”.

Anabela Nunes Monteiro é autora da publicação “Augusto José Monteiro Valente, Major-General do Exército Português (1944-2012), Capitão de abril: Republicano, Cidadão e Historiador”.

Na introdução é sublinhado que Monteiro Valente se afirmou como “um homem firme nas suas convicções e justo nas suas ações, respeitado e admirado por camaradas e superiores”, cuja “humildade despontava, nunca assumindo atitudes de exaltação pela sua participação na Revolução dos Cravos ou qualquer outro êxito inerente ao seu percurso militar e académico”.

Nos parágrafos iniciais é anotado que Augusto Monteiro Valente “não se limitou a ser apenas um militar distinto. Tornou-se também historiador, investigador atento e cidadão empenhado nas suas causas culturais e sociais”.

Nesta sessão foi ainda feita uma homenagem a João José Gomes, com a exibição de um documentário que incluiu diversos testemunhos sobre esta personalidade guardense, para quem foi sugerida a perpetuação da sua memória através da estatuária citadina.

João Gomes é um nome que bem se pode traduzir por grande e exemplar democrata, homem de vasta cultura e humanidade, advogado brilhante, orador apreciado, socialista distinto; um homem sempre fiel aos valores que constituíram a sua ideologia democrática; tutelou uma enorme atividade política, bateu-se pela liberdade, por princípios e ideias; esteve sempre na linha da frente dos interesses desta cidade, do distrito, do interior.

Em entrevista publicada no primeiro número do quinzenário “Notícias da Guarda” comentava, a propósito das suas funções como Governador Civil que “a maior parte das pessoas vêm para estes lugares para se servirem e terem naturalmente de dizer sim ao Governo. Eu sou capaz de dizer não, se o Governo, para além de certos limites, ofender certos princípios que possam ofender não só a minha dignidade, mas também os interesses da gente da minha terra”. João Gomes faleceu, em Lisboa, a 23 de maio de 2003.

“A liberdade – dizia João Gomes – é sempre a liberdade daquele que pensa de uma maneira diferente do que nós pensamos”. Veja mais informação aqui

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:58

Faleceu Adriano Vasco Rodrigues

por Correio da Guarda, em 22.01.25

 

Adriano Vasco Rodrigues, historiador e ex-Governador Civil da Guarda, faleceu hoje no Porto. Natural da Guarda, onde nasceu a 4 de maio de 1928, Adriano Vasco Rodrigues foi um homem de cultura que desenvolveu a sua atividade nas áreas da história, arqueologia, etnografia e igualmente no ensino; teve ainda uma destacada intervenção na política e na administração pública.

“A Catedral da Guarda na História e na Poesia” (1953), “Prospecções Arqueológicas na Região de Longroiva” (1954), “Subsídios Arqueológicos para a História de Celorico da Beira “(1956), “Monografia artística da cidade da Guarda” (1957), “”Retrospetiva Histórica dos Concelhos de Meda, Longroiva e Marialva (1976), “Celorico da Beira e Linhares: monografia histórica e artística” (1979), “Terras da Meda: Natureza e Cultura” (1983), “Guarda - Pré-História, História e Arte (Monografia)” (2001), e “Salvador de Nascimento: Uma Vida - Um Ideal” (2005) são algumas das suas obras.

Adriano Vasco Rodrigues_fot Hélder Sequeira

Adriano Vasco Rodrigues, que dirigiu a Revista Altitude (editada pela Assembleia Distrital da Guarda), iniciou a sua atividade na docência no ano de 1951, após ter concluído o Curso da Escola do Magistério Primário do Porto, lecionando como professor do ensino primário (designação à época). Cinco anos depois licenciou-se em Ciências Históricas e Filosóficas na Universidade de Coimbra, onde completou também o curso de Ciências Pedagógicas.

Adriano Vasco Rodrigues especializou-se depois em História da Arte Medieval na Universidade de Santiago de Compostela, onde fez o Curso de Língua e Cultura Espanhola. Lecionou no ensino secundário, inicialmente como professor eventual, profissionalizando-se em 1960. Entre 1958 e 1962, deu aulas no ensino superior, no curso de Arqueologia Peninsular no Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Porto.

Em Angola desempenhou, entre 1965 e 1969, as funções de Inspetor Provincial Adjunto da Educação, tendo dinamizado a formação de professores e organizado a secção de Arqueologia do Museu de Angola; em parceria com sua esposa Maria da Assunção Carqueja Rodrigues, produziu a primeira Carta da Pré-História de Angola.

Entre 1969 a 1974, foi reitor e organizador do Liceu-Piloto Garcia de Orta. Nos anos seguintes assumiu funções em cargos de destaque na administração pública e política, tendo sido deputado independente da Assembleia da República pelo CDS-PP (1976-1982), Governador Civil da Guarda (1982-1983) e Diretor-Geral do Ensino Particular e Cooperativo (1983-1986).

Em 1988, assumiu, por concurso internacional, o cargo de Diretor da Schola Europaea, na Bélgica, organismo da União Europeia, onde esteve em 1996.

Na Universidade Portucalense, a partir de 1997, desenvolveu pesquisas e cursos livres nas áreas de Arte Africana, Numismática, História das Religiões e Antiguidades.

Foi distinguido, em 1994, pela Câmara Municipal do Porto que lhe atribuiu a Medalha de Ouro; em 1996 o Presidente da República, Jorge Sampaio, atribuiu-lhe a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique. Em 2009, no decorrer da jornada de homenagem que lhe foi prestada na Guarda foi-lhe entregue a medalha de mérito pelo Instituto Politécnico e a Medalha de Ouro da Cidade, pela Câmara Municipal.

O funeral de Adriano Vasco Rodrigues terá lugar na sexta-feira (24 de janeiro), pelas 10h30, estando o corpo em câmara ardente a partir das 11 horas de amanhã na Igreja de Cristo Rei, Porto.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:48

Guarda: 825 anos

por Correio da Guarda, em 27.11.24

 

A história da Guarda está indissociavelmente ligada ao segundo rei de Portugal que há 825 anos atribuiu carta de foral a esta cidade. Hoje é evocada a outorga desse documento e comemorado o feriado municipal, sendo oportuno conhecermos um pouco da vida deste monarca.

Sancho I, segundo rei de Portugal e cognominado como O Povoador, era filho de D. Afonso Henriques e D. Mafalda de Saboia. Nascido em Coimbra, em 11 de novembro de 1154, o herdeiro da coroa bem cedo ficou ligado à vida político-militar do reino português, com uma associação efetiva à governação a partir de 1172.

Dois anos depois, o futuro rei casou com D. Dulce de Aragão (filha da Rainha de Aragão e do Conde de Barcelona), continuando a assumir as responsabilidades decorrentes do seu estatuto real; em 1178 é D. Sancho que comanda uma expedição em território sob domínio muçulmano, incursão que chegou aos arredores de Sevilha.

Com a morte do pai, D. Sancho subiu ao trono em 6 de dezembro de 1185, sendo aclamado três dias depois na cidade de Coimbra. A reorganização do território português e a defesa das localidades junto às ainda indefinidas e instáveis fronteiras com os domínios de Leão e dos muçulmanos (a sul), foram duas das suas primeiras prioridades, que se articularam com a imperiosa necessidade de incrementar o povoamento e defesa das zonas conquistadas.

Assim, promoveu a vinda de colonos estrangeiros, doou terras e fortalezas às ordens militares, criou concelhos e mecanismos de administração pública, fomentou o surto económico e agrícola e concedeu forais a cerca de cinco dezenas de localidades, nomeadamente à Guarda, em 27 de novembro de 1199 (documento que segue o modelo do foral de Salamanca).

Guarda 825 anos-1

Antes desta data (1199), a Guarda confinava-se a uma pequena comunidade “guardada por uma pequena atalaia ou torre – uma guarda – que vigiava a circulação de gentes e bens que percorriam a via colimbriana, o principal eixo de penetração no planalto beirão”, como sustentou Helena da Cruz Coelho. A Guarda assumiu, deste modo, uma posição estratégica de vital importância na defesa da linha fronteiriça da época, protagonizando a centralidade de toda a vasta região envolvente, sobre a qual afirmava a sua influência direta; a sua notoriedade como polo urbano foi reforçada com transferência (entre 1201 ou 1202) da sede do Bispado da Egitânia, cimentando assim o seu estatuto de cidade.

Esta reorganização da jurisdição religiosa apoiou os propósitos régios ao nível do fortalecimento e valorização da zona fronteiriça. Com a conquista de Silves (que viria a perder algum tempo depois) em 1196, D. Sancho passou a intitular-se Rei de Portugal e dos Algarves.

A sua permanência no trono foi atravessada por diversas contendas militares, fomes e pestes, em especial no período entre 1192 e 1210. As lutas com o vizinho reino de Leão e sobretudo os constantes prélios com os almóadas (dinastia marroquina que dominava as terras da Península Ibérica sob alçada muçulmana) ocuparam muitos anos do reinado deste monarca português, que teve ainda de se debater com alguns sérios problemas levantados pelo clero (vejam-se os conflitos com D. Martinho Rodrigues, Bispo do Porto, e também com D. Pedro Soares, Bispo de Coimbra, com os quais se reconciliou no último ano do reinado).

A célebre cantiga de amigo “Muito me tarda / o meu amigo na Guarda”, foi durante muito tempo associada a D. Sancho I que a teria, segundo alguns autores, dedicado a D. Maria Pais Ribeiro (a célebre Ribeirinha, de quem teve seis filhos); os estudos mais recentes afastam-no da sua autoria dessa poesia, embora seja verdade que não foi alheio às necessidades de incremento cultural, como o comprova o apoio dado a alguns elementos do clero que estudaram além-fronteiras. D. Sancho I faleceu em Coimbra em 26 de março de 1211, tendo sido sepultado no Mosteiro de Santa Cruz.

Em dia de feriado municipal não poderíamos deixar de lembrar o segundo rei de Portugal. De referir que, tradicionalmente, e após o abandono da data de 3 de maio, o feriado municipal da Guarda era comemorado a 26 de novembro, evocando assim o nascimento, oficial, da cidade. A divergência sobre a data de atribuição da carta de foral foi expressa, pela primeira vez, num artigo (de Manuel Luís dos Santos) publicado, em 1985, no jornal "Notícias da Guarda".

A partir dessa altura alargou-se o interesse pelo estudo da questão e não faltaram argumentos sobre a prevalência de 26 de novembro; por outro lado, a favor do dia 27 deste mesmo mês os argumentos manifestaram igualmente a sua solidez.

De facto, o documento medieval da outorga da carta de foral refere que "foi feita esta carta em Coimbra no dia Quinto antes das Calendas de Dezembro de 1237, no ano do nosso reinado." Assim, e como foi sustentado pelos investigadores que defenderam a nova data, o dia V antes das Calendas de Dezembro é o dia 27 de novembro de 1237, o que convertido à data cristã (menos 38 anos) cai sobre o ano de 1199.

A data de 27 de novembro acabou, assim, por ser institucionalizada, há alguns anos atrás, como feriado municipal, que deve ser vivido e sentido por todos os guardenses.

Parabéns, Guarda!

                                                                                                                  Hélder Sequeira

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 00:01

Desprezo pelo património...

por Correio da Guarda, em 23.09.24

 

Carlos Caetano, historiador e investigador na área de História da Arte, afirmava-nos recentemente (em entrevista ao Correio da Guarda) que “o património tem sido vítima da indiferença de quase todos (autoridades civis e eclesiásticas incluídas) mas também do snobismo cultural de muitos eruditos, que só têm tido olhos para as chamadas obras-primas”. Acrescentava, depois que “o património é um lastro urbanístico e construtivo (e imaterial também) que tem que ser visto na sua globalidade, o que nunca foi feito – nem na Guarda nem, entre nós, praticamente em lado nenhum, infelizmente”.

Natural de Trancoso, Carlos Caetano conhece muito bem a realidade distrital, onde tem desenvolvido uma variada e meticulosa investigação que lhe confirma a evidência. “O distrito e a diocese da Guarda detêm um património de uma valia inestimável, que se manifesta em obras de todo o tipo e em muito grande parte desconhecidas e ignoradas ou então desvalorizadas pelos historiadores”. Aludindo ao “extraordinário património religioso, militar e civil que o passado nos legou”, confessa que é difícil fazer escolhas ou distinções, mas lembra todo um “património urbanístico sensacional de cidades, vilas e aldeias do distrito, constituído por inúmeros conjuntos urbanos fabulosos e sempre esquecidos – conjuntos urbanos cuja valia urge reconhecer e conservar na sua dignidade e na sua harmonia tão ferida ou ameaçada, às vezes por intervenções feitas com as melhores intenções…”.

A ação urgente e pragmática das entidades que tutelam o património é um dos sublinhados que faz nessa entrevista, onde defende que “a curto, médio e longo prazo, há que intervir também a nível educativo, de uma forma informal ou sistemática, visando uma efetiva educação artística com uma forte componente patrimonial – um desígnio pedagógico dos mais prementes e dos mais difíceis de alcançar.

No decorrer das investigações efetuadas, na nossa zona, tem tido várias surpresas, face a importantes peças do nosso património, de “uma valia inestimável, que se manifesta em obras de todo o tipo e em muito grande parte desconhecidas e ignoradas ou então desvalorizadas pelos historiadores e até por alguns eruditos locais. Destaquem-se os fragmentos de marcos miliários reciclados para novas funções: para poiais dos cântaros no chafariz de Cavadoude ou para servir de pia de água benta na igreja do Codesseiro. Surpresa absoluta, as magníficas traves mudéjares de início do século XVI que sobreviveram do forro quinhentista (hoje perdido) desta mesma igreja. Outra surpresa absoluta foi o conjunto extraordinário de igrejas leonesas que sobrevivem na Raia (Castelo Rodrigo, Escarigo, Mata de Lobos…), com características morfológicas únicas.”

Outra surpresa, destacou ainda, prende-se com “a abundância e a valia extraordinária de escultura pré-barroca, manifestada em relevos e em imagens de vulto, alguma dela atribuída a mestres alemães e sobretudo flamengos quinhentistas, alguns já identificados”; outrossim os dois “chafarizes extraordinários da Vela, presentemente remontados no terreiro fronteiro ao Lar da Misericórdia local, que faziam parte do conjunto que integrava o chafariz de Santo André, colocado na Alameda homónima da Guarda ainda na primeira metade do século passado. Ora, todo este conjunto de chafarizes, verdadeiramente monumental, fazia parte de um jardim barroco que há-de ter sido sumptuoso e que integrava mesmo uma extraordinária e raríssima “casa de fresco” que chegou até nós e que é a única que conhecemos na Beira Alta. Quanto às esculturas dos chafarizes da Vela, pela erudição, pelas pretensões, pela singularidade da sua iconografia e pelo refinamento da factura, parece poderem ser atribuídas aos grandes mestres que criaram e modelaram o Escadório do Bom Jesus de Braga, como espero mostrar em lugar próprio.

Pavilhão António Lencastre_Sanatório_foto HS_ .

O nosso património não pode ser arrumado para um canto, esperando melhores momentos ou aguardando predisposições pessoais e políticas, sob a oportunidade de agendas eleitorais, sempre com argumentos financeiros subjacentes no contraponto com outras necessidades prioritárias.

Claro que resolver problemas equacionados como prioridade para a comunidade regional não significa haver impedimento de, paralelamente, as entidades ou instituições responsáveis se empenharem na procura das melhores soluções e da sua concretização. Veja-se, a título de exemplo, o que tem sucedido com o património construído do Sanatório Sousa Martins; um progressivo, constrangedor e reprovável adiamento da salvaguarda dos antigos e emblemáticos pavilhões que integravam aquela reputada unidade de tratamento da tuberculose. E sim, o Sanatório Sousa Martins foi um ex-libris da Guarda, e não os seus pavilhões individualmente considerados, como ouvíamos recentemente pela voz de quem tem obrigação de conhecer, minimamente, a história do Sanatório da Guarda…

Ao longo das últimas cinco décadas houve muitas propostas e soluções apresentadas; assim não é por falta de diagnóstico, mas de tratamento, que a “saúde” dos pavilhões Rainha D. Amélia e D. António de Lencastre (na foto) não mereceu a mais que justa, premente e justificada atenção.

É contra esta indiferença – como era realçado no início deste apontamento de hoje – que temos de agir, sem tibiezas, em prol da salvaguarda e promoção do nosso património, globalmente entendido; numa atuação inequívoca, assente num espírito de diálogo crítico e construtivo, recusando o anonimato, mas privilegiando a frontalidade e seriedade. É fundamental que deixemos de ser “socialmente, uma coletividade pacífica de revoltados” nas expressivas palavras de Miguel Torga.

Saibamos valorizar o nosso património, conhecer o passado para melhor compreendermos e vivermos o presente, garantindo o seu legado para o futuro.

 

Hélder Sequeira

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:02

 

O património tem sido vítima da indiferença de quase todos (autoridades civis e eclesiásticas incluídas) mas também do snobismo cultural de muitos eruditos, que só têm tido olhos para as chamadas obras-primas”. A afirmação é de Carlos Caetano, historiador e investigador na área de História da Arte, para quem “o património é um lastro urbanístico e construtivo (e imaterial também) que tem que ser visto na sua globalidade, o que nunca foi feito – nem na Guarda nem, entre nós, praticamente em lado nenhum, infelizmente”.

Natural de Trancoso, Carlos Manuel Ferreira Caetano é Licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; Mestre em História da Arte pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (2001), com a dissertação A Ribeira de Lisboa na Época da Expansão Portuguesa (Séculos XV a XVIII) Doutor em História da Arte, especialidade História da Arte Moderna – Arquitectura e Urbanismo, pela mesma Faculdade (2012), com a dissertação As Casas da Câmara dos Concelhos Portugueses e a Monumentalização do Poder Local (Séculos XIV a XVIII).. Membro de vários centros de investigação e de diversas instituições culturais, integra também o Departamento de Património, Cultura e Turismo do Secretariado de Cultura e Comunicação da Diocese da Guarda.

Ao CORREIO da GUARDA, Carlos Caetano declarou que “o distrito e a diocese da Guarda detêm um património de uma valia inestimável, que se manifesta em obras de todo o tipo e em muito grande parte desconhecidas e ignoradas ou então desvalorizadas pelos historiadores”.

CARLOS CAETANO _fot HS_.JPG

Como surgiu o gosto pela História e pela História da Arte?

Fui criado numa aldeia, numa família muito alargada, num tempo sem televisão, onde as memórias do passado eram convocadas constantemente, nomeadamente nos serões. Na minha família essas memórias remontavam a 1810 e à III Invasão Francesa, mas em nossa casa tinham o ponto alto nas exéquias do Presidente Sidónio Pais na Sé de Viseu algures em Dezembro de 1918, cerimónia em que o meu pai participara, enquanto soldado raso do Regimento local, tal como participaria nas Campanhas da Monarquia do Norte (1919), pois o regimento do meu pai era afecto à causa de Paiva Couceiro. Claro que adorava ouvir contar estas histórias, que hão-de ter alimentado o meu gosto pela História, embora no Liceu fosse um aluno de História pouco mais que medíocre e o Curso de História (Fac. de Letras de Lisboa, 1976-1981) tivesse sido uma segunda opção.

O gosto pela História da Arte há-de ter tido a mesma origem, pois já de pequenino gostava de coisas e paisagens (naturais e urbanas) bonitas. Em todo o caso, sou dos que acham que História da Arte é, antes de mais e sobretudo, História, pura e dura.

 

O património, nomeadamente monumental, do seu concelho – e da região – contribuiu para se apaixonar pela História da Arte?

Claro que sim, a começar pelo mais próximo: a terra da minha mãe (Granja), que sendo lindíssima, detém uma das mais belas igrejas do Concelho de Trancoso, passando pelas aldeias das redondezas (que ainda hoje me encantam) e sobretudo pela extrema categoria urbanística e arquitetónica de Trancoso. A bravura arquitetónica do seu castelo e das suas muralhas, em particular, ainda hoje me comove. No topo, como sempre, as magnificências urbanas e arquitetónicas da Guarda, uma das cidades mais belas de Portugal onde vim a primeira vez em junho de 1964, para fazer o Exame de Admissão ao Liceu... Como vê, motivações para viver, admirar (e estudar) este património nunca me faltaram…

 

O que destaca, no nosso distrito, em termos patrimoniais e artísticos?

Seria muito difícil escolher, entre o extraordinário património religioso, militar e civil que o passado nos legou. Sé da Guarda, Convento de Santa Maria de Aguiar, igreja de Almendra; Castelo de Trancoso ou fortaleza de Almeida, solares como o dos Távoras em Souropires (Pinhel) ou como o dos Brasis de Torre do Terrenho (Trancoso) – ou magníficas casas medievais, quinhentistas e de épocas posteriores como as que ainda se encontram um pouco por todo o distrito.

Enfim, tantos e tantos monumentos da maior categoria arquitetónica espalhados por todo distrito! Mas tão ou mais importante que este património arquitetónico é o património urbanístico sensacional de cidades, vilas e aldeias do distrito, constituído por inúmeros conjuntos urbanos fabulosos e sempre esquecidos – conjuntos urbanos cuja valia urge reconhecer e conservar na sua dignidade e na sua harmonia tão ferida ou ameaçada, às vezes por intervenções feitas com as melhores intenções…

 

Acha que o turismo cultural e o turismo religioso estão a merecer a atenção devida?

Devo dizer que no turismo distingo e abomino o turismo de massas, que não só está a descaracterizar o miolo das nossas principais cidades (o centro de Lisboa é hoje uma sombra do que era ainda há vinte anos) como brevemente se arrisca a tornar a nossa vida num inferno a todos os níveis, nisso replicando algo do que foram os efeitos perniciosos das chamadas “drogas da Índia” no século XVI.

Para lá destes efeitos tão gravosos, cumpre lembrar sempre o aviso profético do grande historiador Vitorino Magalhães Godinho, nas palavras do qual “o turismo mata os lugares históricos”,(cito de cor).

Claro que o turismo cultural tem todo o sentido – e o religioso também. Este alimentou milenarmente, em contexto pagão e em contexto cristão, as peregrinações e as romagens cíclicas aos lugares santos. Se hoje as romarias regionais não têm a expressão que tinham, tem, porém, todo o sentido visitar e organizar visitas culturais a sítios e monumentos de inegável interesse patrimonial e religioso.

O Departamento do Património, Comunicação e Turismo da Diocese da Guarda prevê a realização de roteiros turístico-religiosos, com guiões e visitas guiadas por sítios e espaços religiosos (santuários, igrejas e capelas) de grande valor patrimonial, agrupados temática, morfológica ou geograficamente. O objetivo é identificar, conservar, partilhar, dar a conhecer, viver e mesmo revivificar um património religioso valiosíssimo e em muito grande medida desconhecido, desvalorizado e ameaçado.

 

Tem dedicado particular atenção ao património religioso, nomeadamente na área da Diocese da Guarda. Este património está devidamente salvaguardado e divulgado? O que é urgente e necessário.

O património religioso partilha com o património laico os mesmos condicionalismos e os mesmos problemas em matéria de conservação, reconhecimento e divulgação. Uma abordagem e uma gestão sensata e realista do património deve ter, porém, em conta que o património se constrói e se destrói naturalmente; que vive e que morre; que se faz-se e se desfaz ao sabor dos tempos e das épocas e da vontade e dos desígnios dos homens, numa dinâmica histórica inelutável e fatal em que “ceci tuera cela” (“isto matará aquilo”), nas palavras tão penetrantes de Zola.

O património vive e renova-se, cumprindo-nos conservar o passado, mas também enriquecer esse património com obras e intervenções contemporâneas muito qualificadas – e na Guarda há felizmente exemplos excecionais de renovação, nomeadamente em matéria de arquitetura e de arte sacras. Isto dito, a nossa herança patrimonial está singularmente ameaçada, não só pela passagem do tempo, que tudo leva, mas também pela intervenção desajustada (às vezes com as melhores intenções) daqueles que têm a seu cargo o seu bom uso, a sua proteção e a sua conservação. Como a generalidade deste património não é reconhecido enquanto tal, não só não está protegido como não é dado a estudar nem a conhecer.

Urgente é intervir junto das entidades que o tutelam, no sentido da sua proteção e da sua boa conservação. A curto, médio e longo prazo, há que intervir também a nível educativo, de uma forma informal ou sistemática, visando uma efetiva educação artística com uma forte componente patrimonial – um desígnio pedagógico dos mais prementes e dos mais difíceis de alcançar.

 

As intervenções – que conhece – feitas em edifícios, igrejas e monumentos têm sido as mais adequadas? Quais os principais erros que tem notado?

Também neste aspeto o património religioso partilha a mesma situação que o património laico: um e outro são vítimas de intervenções muito mal aconselhadas e de resultados catastróficos.

O erro mais gritante vivido atualmente em todo o Distrito (mas também em todo o país, Terreiro do Paço incluído, e já na própria Espanha) é o da remoção dos rebocos dos edifícios históricos, isto é, daqueles que comprovadamente eram rebocados e caiados, ao serviço da moda da “pedra à vista” (ou, na Baixa Pombalina e por todo o Sul do território, do “tijolo ou tijoleira à vista”), assim se descaracterizando tanto os edifícios históricos como os edifícios vernáculos.

Esta moda é particularmente gravosa no interior das igrejas de origem medieval, pois a remoção dos rebocos históricos implica a destruição das pinturas quinhentistas (ou anteriores), ocultas sob camadas e camadas de cal, mas que comprovadamente decoravam as velhas igrejas, pois outrora era mais barato ter um retábulo, uma cortina ou uma imagem pintadas que de madeira, de tecido caro ou de vulto, respetivamente. Prova disto é a constante descoberta de pintura mural nas nossas velhas igrejas, durante as obras de conservação presentemente levadas a cabo nas nossas igrejas um pouco por todo o lado.

 

Nas suas deslocações pela região tem encontrado surpresas ou achados que constituam uma inquestionável mais-valia para o património regional/nacional?

Sim, o distrito e a diocese da Guarda detêm um património de uma valia inestimável, que se manifesta em obras de todo o tipo e em muito grande parte desconhecidas e ignoradas ou então desvalorizadas pelos historiadores e até por alguns eruditos locais. Destaquem-se os fragmentos de marcos miliários reciclados para novas funções: para poiais dos cântaros no chafariz de Cavadoude ou para servir de pia de água benta na igreja do Codesseiro. Surpresa absoluta, as magníficas traves mudéjares de início do século XVI que sobreviveram do forro quinhentista (hoje perdido) desta mesma igreja. Outra surpresa absoluta foi o conjunto extraordinário de igrejas leonesas que sobrevivem na Raia (Castelo Rodrigo, Escarigo, Mata de Lobos…), com características morfológicas únicas. Outra surpresa ainda - para lá da pintura mural, cuja descoberta se processa dia a dia – é a da abundância e a valia extraordinária de escultura pré-barroca, manifestada em relevos e em imagens de vulto, alguma dela atribuída a mestres alemães e sobretudo flamengos quinhentistas, alguns já identificados: imagens de vulto e relevos do mestre flamengo Arnao de Carvalho, de 1524, reciclados e adaptados no retábulo-mor barroco da igreja de Escalhão, como exemplo maior.

Outra surpresa são os dois chafarizes extraordinários da Vela, presentemente remontados no terreiro fronteiro ao Lar da Misericórdia local, que faziam parte do conjunto que integrava o chafariz de Santo André, colocado na Alameda homónima da Guarda ainda na primeira metade do séc. passado. Ora, todo este conjunto de chafarizes, verdadeiramente monumental, fazia parte de um jardim barroco que há-de ter sido sumptuoso e que integrava mesmo uma extraordinária e raríssima “casa de fresco” que chegou até nós e que é a única que conhecemos na Beira Alta. Quanto às esculturas dos chafarizes da Vela, pela erudição, pelas pretensões, pela singularidade da sua iconografia e pelo refinamento da factura, parece poderem ser atribuídas aos grandes mestres que criaram e modelaram o Escadório do Bom Jesus de Braga, como espero mostrar em lugar próprio.

 

Acha que há abandono ou esquecimento do nosso património, nas suas várias vertentes? Os cidadãos do distrito estão indiferentes em relação ao património?

Há abandono e esquecimento, sim – e muito, e muito grave! O património tem sido vítima da indiferença de quase todos (autoridades civis e eclesiásticas incluídas) mas também do snobismo cultural de muitos eruditos, que só têm tido olhos para as chamadas obras-primas. Ora o património é um lastro urbanístico e construtivo (e imaterial também) que tem que ser visto na sua globalidade, o que nunca foi feito – nem na Guarda nem, entre nós, praticamente em lado nenhum, infelizmente. Deve dizer-se, porém que estão a surgir iniciativas muito válidas na Guarda – a cargo da Câmara Municipal e da Diocese – para combater e começar a romper esta situação tão gravosa para o nosso património cultural.

 

Falta investigação, no nosso distrito, sobre o património cultural? E os apoios à investigação existem ou são suficientes?

Falta: em matéria de património, o território do distrito continua a ser em muito grande parte uma “terra incógnita”. Aqui ou lá fora, os apoios à investigação são sempre precários, pois não há dinheiro para tudo. Porém, os investigadores integrados têm ao seu dispor apoios institucionais de âmbito nacional.

Claro que as autoridades civis e eclesiásticas da Guarda e da região devem apoiar projetos de investigação de âmbito regional e local, nomeadamente com apoio logístico aos investigadores e até mediante o apoio à edição das suas publicações relacionadas com o património do distrito e da diocese – mas deve dizer-se que entre nós também há já exemplos de boas práticas nesta matéria.

CARLOS CAETANO_foto Hélder Sequeira _.JPG

Considera que poderia haver uma ligação mais estreita entre as academias e o interior, ao nível da investigação sobre cultura, arte e património? O que sugere?

Considero, embora tenha que reconhecer que há já excelente trabalho feito nesta matéria, nomeadamente em disciplinas como a Arqueologia. Mas em matéria de património artístico está quase tudo por fazer.

Da minha parte, convidei já um pequeno grupo de professores da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e outros amigos para visitarem parte do distrito (para começar, a parte que presentemente conheço melhor), dando a conhecer aspetos muito relevantes do nosso património cultural, mas visando também o desejável desenvolvimento de projetos de investigação sobre aspetos muito relevantes – e inéditos – deste mesmo património.

 

Recentemente tem guiado algumas visitas culturais ao património religioso do concelho da Guarda. Como surgiram estas visitas e que importância lhes atribui?

As duas vistas que guiei, a Videmonte e a Aldeia Viçosa, foram promovidas pelos serviços culturais da Câmara Municipal da Guarda (Museu da Guarda) e pelas respetivas Juntas de Freguesia. Estas visitas têm uma incidência no património global e não só no religioso, embora este tenha um destaque muito grande como é compreensível e natural num território cristianizado pelo menos há já 1500 anos.

As visitas surgiram na sequência do levantamento do património construído das freguesias rurais do concelho que estou a fazer a convite da CMG. A importância das visitas é aquela que os participantes e a CMG lhe atribuírem. Por mim pretendo apenas mostrar e ajudar a ver uma aldeia como uma aldeia, uma casa como uma casa, uma igreja como uma igreja, isto é, cada uma destas realidades patrimoniais nas suas lógicas urbanísticas e construtivas, nas suas funcionalidades e na sua coerência essencial – e isto não é comum fazer-se e por vezes pode não ser nada fácil fazer-se.

Pretendo ver e ver em conjunto com os participantes cada realidade patrimonial enquanto tal, no que é e no que não é, sem quaisquer preocupações nem pretensões eruditas ou estilísticas, até porque nestas visitas não falo para estudantes de História da Arte. Neste sentido, nestas visitas guiadas a História da Arte fica no bolso e só salta cá para fora quando é preciso, para ajudar a perceber melhor o monumento que temos pela frente, pois sou dos que acham que uma aldeia, uma casa, um fontanário, um lavadouro são marcos e monumentos próprios de cada “eco-sistema” cultural, de cada complexo “histórico-geográfico” particular – para usarmos a categoria criada por Vitorino Magalhãs Godinho, que sem querer, acabo por citar pela segunda vez… Sinceramente penso que as visitas ganham por eu poder contextualizar as mais diversas componentes patrimoniais patentes em cada aldeia, o que me é muito fácil de fazer pois nasci e fui criado numa aldeia num tempo histórico (hoje desaparecido) em que a velha civilização rural ainda estava viva, no seu pleno vigor.

Por outro lado, como venho de fora do Concelho, penso que posso proporcionar um olhar “fresco” sobre o seu património, aldeia a aldeia, com o encantamento próprio de quem o descobre e o vê praticamente pela primeira vez. Penso que as visitas também ganham por eu procurar ver as aldeias, as paróquias e o seu património arquitetónico e artístico, em rede, isto é, sempre em articulação com o que se passa(va) a nível local, regional, nacional e até internacional. Com efeito, estas localidades, enquanto sede de paróquias multisseculares, integram uma rede gigantesca de paróquias que, ao contrário do que tantas vezes se pensa, não acaba em Vilar Formoso nem sequer nos Pirenéus… O “isolamento” destas aldeias ou desta região, de que tanto se fala, nunca verdadeiramente existiu no passado, pois até às primeiras décadas do século XIX esta região era muito mais aberta do que possamos pensar.

Com efeito estas aldeias desde a Idade Média que incorporavam uma rede de concelhos e de paróquias muito consolidada e muito eficaz, pois abarcava todo o território do Reino. Em contexto nacional – e internacional - as ideias e as formas circulavam; a espiritualidade e a liturgia partilhavam-se; as iconografias e as obras de arte também – e esta circulação contínua e milenar (tantas vezes ignorada ou desvalorizada por nós) contribuiu muito fortemente para modelar a nossa maneira nacional, local, regional e local de viver, de pensar, de rezar – e claro, de modelar e de defender militar e arquitetonicamente ou de sacralizar o espaço natural.

É sobre tudo isto que gosto de falar, e é isto que gosto de procurar, de descobrir e de ver (e de dar a ver) em verdadeira comunhão com os participantes nas visitas guiadas. Como se pode concluir, com objetivos destes, o Românico, o Barroco, ou categorias estilísticas afins, acabam muitas vezes por ser pouco relevantes durante as visitas, apesar de toda a importância que efetivamente tenham (e têm).

 

As Casas da Câmara dos Concelhos Portugueses e a Monumentalização do Poder Local (Séculos XIV a XVIII)” é um dos seus trabalhos académicos que irá ser publicado… Fale-nos deste projeto…

Era a minha tese de doutoramento, defendida já em 2012 e que por motivos vários (sobretudo pelo seu tamanho descomunal) ainda não consegui publicar. Nesta tese procurei identificar, recensear, documentar e estudar as casas da câmara (nome outrora dado entre nós aos paços do concelho) de todos os velhos concelhos portugueses do chamado Antigo Regime, dois terços dos quais foram extintos depois da implantação do Liberalismo. Foi um projeto de investigação muito intensivo de quatro anos, dos quais dois foram na Torre do Tombo, onde encontrei documentação muito importante sobre as Beiras e a Guarda em particular.

Nos dois anos seguintes fiz uma “Volta a Portugal” intensiva que me levou a praticamente todos os concelhos extintos do Portugal das Épocas Medieval e Moderna. A estes seguiram-se quatro anos de redação, mas devo dizer e reconhecer que este projeto desmesurado, de 937+991 páginas (em qualquer país do mundo seria feito por três ou quatro equipas alargadas e bem equipadas, cada uma para sua região…), só foi possível porque teve um apoio substancial da antiga DGAE do Ministério da Educação (sou professor do 2.º Ciclo do E. Básico).

O objetivo foi conhecer as casas da câmara enquanto objeto arquitetónico, mas também enquanto cenário de um poder local multissecular, desde as origens destas casas ou paços, algures no século XIV, até ao fim do Antigo Regime (1834). No fundo foram 500 anos de arquitetura concelhia num universo de cerca de 850 antigos concelhos espalhados pelo país todo, Açores e Madeira incluídos, pois esta arquitetura concelhia constitui um corpus patrimonial gigantesco, qualificado, sumamente coerente e de uma valia arquitetónica e histórica extraordinária. Com efeito, as casas da câmara dos antigos concelhos portugueses têm tanta importância histórica e “documental” como os forais de todos os antigos concelhos, pelo que a futura historiografia dos concelhos portugueses (não gosto do termo “municipalismo”, em bom rigor inaplicável relativamente aos concelhos das épocas Medieval e Moderna), nunca mais passará ao lado do extraordinário testemunho histórico constituído por este monumental corpus arquitetónicos.

 

Quais os trabalhos que tem atualmente em curso e quais os próximos projetos, a curto e médio prazo?

Presentemente colaboro com a Câmara Municipal da Guarda, para quem estou a fazer o levantamento do património construído das freguesias rurais do concelho, de que já falei acima. Decorrente deste levantamento, que me tem surpreendido pela sua quantidade e pela sua qualidade, como já disse, está prevista a realização de algumas visitas guiadas a outras aldeias do Concelho.

Colaboro também com o Departamento do Património, Comunicação e Turismo da Diocese, estando prevista a organização de roteiros turístico-religiosos na Diocese, também já referidos. Sempre na Beira Alta, colaboro também com a associação cultural transfronteiriça RIBACVDANA, sediada em Figueira de Castelo Rodrigo.

A curto e médio prazo tenho a publicação urgente da minha tese (o editor está sempre a apertar, mas é uma tarefa muito exigente pois, dadas as dimensões imensas do formato “tese”, houve que reduzir, adaptar e cortar, cortar, cortar, para a tornar publicável…) e a publicação de um livro para a Câmara Municipal de Pinhel, quase pronto, suscitado pelas comemorações dos 250 anos de elevação desta antiga vila a cidade e pela criação da respetiva Diocese, mas atrasado por conta da pandemia. Mais a Sul, tenho em projeto a monografia de uma belíssima casa da câmara de um concelho da região de Lisboa.

Depois destas publicações, e ressalvando os compromissos já assumidos e algumas colaborações pontuais, conto “encerrar a atividade” de investigador e dedicar-me à pintura, pois adoro pintar (afinal, eu fui direitinho do Liceu da Guarda para a Escola Superior de Belas Artes de Lisboa…), o que já não faço há 25 anos.

 

Como vê a Guarda e o distrito em termos culturais? O que falta e o que poderia ser feito?

Acompanho muito mal a vida cultural da Guarda e do distrito, pois vivo em Lisboa, mas sei que hoje existem equipamentos culturais excelentes, creio que em todos os concelhos do distrito. Sei também que existem algumas actividades culturais importantes. Assim, no passado Primeiro de Maio tive oportunidade de assistir à estreia absoluta da ópera Felizmente há Luar, de Alexandre Delgado, no TMG, uma iniciativa que temos que aplaudir da forma mais efusiva (apesar das inconsistências músico-dramatúrgicas desta primeira versão da ópera).

Parece-me, porém, que a vida cultural na Guarda e no seu distrito sofre de três problemas principais:

1- Falta de estruturas de produção cultural local, sobretudo a nível das chamadas artes performativas, teatro e música em particular. É inconcebível que os espaços culturais modernos que se espalharam por todo o distrito não sediem ou acolham em permanência estruturas de produção cultural, sobretudo teatro e música, minimamente consolidadas, sejam elas amadoras ou profissionais.

2 - Falta de atividades culturais mais frequentes nomeadamente em matéria de teatro e de música erudita, com o consequente défice de formação e de renovação de públicos.

3 - Falta de colaboração dos concelhos do distrito, uns com os outros, (também) em matéria cultural, o que a meu ver é absolutamente incompreensível, nomeadamente por implicar um enorme desperdício e esbanjamento dos recursos e dos investimentos feitos localmente, concelho a concelho. Não há sentido que as exposições mais importantes não circulem pelo maior número possível de concelhos do distrito; não há sentido que os diversos concelhos não se unam para financiar a formação, organização, gestão e financiamento de uma companhia de teatro inter-concelhia, de padrões profissionais mínimos (sim, eu sei: a CM de Lisboa não tem nenhuma, mas em Lisboa há companhias de teatro para – quase – todos os gostos…), de modo a poder exibir-se por todos os concelhos do distrito. Acho que faz falta a criação de uma companhia “distrital” de teatro, profissional, despretensiosa e verdadeiramente popular, isto é, nos antípodas dos elitismos e dos vanguardismos e dos pseudo-vanguardismos correntes, de que sofrem tantos “programadores” e “directores artísticos” que hoje tutelam estruturas nacionais, regionais e até locais de produção artística, com nítido prejuízo dos públicos locais, que não têm que alimentar nem ficar reféns do snobismo provinciano, nem do ego, nem do umbiguismo inflamado de “agentes artísticos” sedentos de afirmação e sempre atrás da última moda, só porque sim.

Enfim, de que é que estamos à espera para criarmos planos inter-concelhios, que envolvam o maior número possível de concelhos, para a realização regular de concertos populares de música (clássica e outra) ou de sessões populares de cinema, a apresentar nas cidades e no maior número possível de vilas e aldeias do distrito, ampliando, consolidando e aperfeiçoando as experiências que já se têm feito, ou que estão presentemente em curso, nestas áreas?

 

HS/Correio da Guarda

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:53


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Arquivo

  1. 2026
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2025
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2024
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2023
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2022
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2021
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2020
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2019
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2018
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2017
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2016
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2015
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2014
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2013
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2012
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2011
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2010
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2009
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D
  235. 2008
  236. J
  237. F
  238. M
  239. A
  240. M
  241. J
  242. J
  243. A
  244. S
  245. O
  246. N
  247. D

Contacto:

correio.da.guarda@gmail.com