Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Rui de Pina na (re)descoberta da cidade…

por Correio da Guarda, em 04.12.25

 

Rui de Pina é uma das personalidades que estão ligadas à história da Guarda, estando o seu nome perpetuado numa das ruas do centro histórico da mais alta cidade de Portugal.

Cronista-Mor do Reino, funções que começou a exercer em 1497, por nomeação de D. Manuel I, Rui de Pina foi também guarda-mor da Torre do Tombo e da Livraria Régia; sete anos antes já D. João II o tinha encarregue de “escrever e assentar os feitos famosos assim como de nossos reinos”.

Este cronista terá nascido cerca de 1440, na Guarda; contudo, e à semelhança do que acontece com outras figuras da nossa história e da nossa literatura, há quem questione a sua naturalidade; neste caso é assinalada uma possível ligação a Montemor-o-Velho, onde casou e viveu o seu pai, Lopo Fernandes de Pina.

Certezas, relativamente aos laços que prendem Rui de Pina (oriundo de família nobre) à Guarda, existem quanto ao seu casamento nesta cidade, à sua residência aqui e ao nascimento do seu filho, Fernão de Pina, nesta secular urbe, a quem destinou alguns dos seus bens; tendo sido um homem abastado, o nosso cronista protagonizou uma enorme influência social na sua época.

Print

Rui de Pina integrou o círculo mais restrito do rei D. João II que o encarregou de várias missões diplomáticas ao Vaticano e a Espanha, nomeadamente na defesa dos interesses de Portugal após a viagem e a descoberta de Cristóvão Colombo; um trabalho que deixa transparecer as preocupações com os limites territoriais que seriam definidos, mais tarde, pelo célebre Tratado de Tordesilhas.

Rui de Pina morreu na Guarda em 1522, provavelmente na sua Quinta de Santiago, localizada na zona onde está o Chafariz d’El Rei, nas proximidades do atual quartel dos Bombeiros Voluntários Egitanienses.

Virgílio Afonso, na “Toponímia Histórica da Guarda”, faz alusão aos vestígios da sepultura do cronista, encontrados na antiga Igreja de Nossa Senhora do Mercado, nesta cidade, que se localizou na extremidade (poente) da hoje denominada Rua Augusto Gil.

Após a sua morte, as funções de Rui Pina seriam prosseguidas pelo seu filho Fernão (natural da Guarda, como atrás se disse), o qual assumiu em 1523 os cargos de guarda-mor da Torre do Tombo e de cronista régio.

Como escreveu José Mota da Romana na sua “Antologia de Escritores da Guarda (século XII a XX)”, o valor “historiográfico deste nosso conterrâneo é polémico e até muito contestado, já desde o século XVI”, havendo ainda quem o acuse de ter utilizado textos de Fernão Lopes. Contudo, como bem sublinha, “o conceito de originalidade ou até de plágio era bem diferente do que temos nos nossos dias com a evolução das teorias literárias”.

Rui de Pina redigiu as Crónicas de D. Sancho I, D. Sancho II, D. Afonso II, D. Afonso III, D. Dinis, D. Afonso V e D. João II.

Através destas duas últimas, sobretudo, o cronista régio que é recordado na toponímia guardense legou-nos um inquestionável contributo para a historiografia da expansão portuguesa e outrossim para o conhecimento do quotidiano do século XV, sustentado num estilo que enquadra a sobriedade e, não raro, uma expressiva dinâmica narrativa.

E as ruas da nossa cidade podem, também elas, conduzir-nos a múltiplas e interessantes narrativas, associadas e figuras e factos…

 

Hélder Sequeira 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:10

Guarda

por Correio da Guarda, em 01.12.25

Cidade NATAL_foto Hélder Sequeira

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:34

Guarda: 826º aniversário

por Correio da Guarda, em 27.11.25

 

A história da Guarda está indissociavelmente ligada ao segundo rei de Portugal que há 826 anos atribuiu carta de foral a esta cidade. Hoje é evocada a outorga desse documento e comemorado o feriado municipal, sendo oportuno conhecermos um pouco da vida deste monarca.

Sancho I, segundo rei de Portugal e cognominado como O Povoador, era filho de D. Afonso Henriques e D. Mafalda de Saboia. Nascido em Coimbra, em 11 de novembro de 1154, o herdeiro da coroa bem cedo ficou ligado à vida político-militar do reino português, com uma associação efetiva à governação a partir de 1172.

Dois anos depois, o futuro rei casou com D. Dulce de Aragão (filha da Rainha de Aragão e do Conde de Barcelona), continuando a assumir as responsabilidades decorrentes do seu estatuto real; em 1178 é D. Sancho que comanda uma expedição em território sob domínio muçulmano, incursão que chegou aos arredores de Sevilha.

Com a morte do pai, D. Sancho subiu ao trono em 6 de dezembro de 1185, sendo aclamado três dias depois na cidade de Coimbra. A reorganização do território português e a defesa das localidades junto às ainda indefinidas e instáveis fronteiras com os domínios de Leão e dos muçulmanos (a sul), foram duas das suas primeiras prioridades, que se articularam com a imperiosa necessidade de incrementar o povoamento e defesa das zonas conquistadas.

Assim, promoveu a vinda de colonos estrangeiros, doou terras e fortalezas às ordens militares, criou concelhos e mecanismos de administração pública, fomentou o surto económico e agrícola e concedeu forais a cerca de cinco dezenas de localidades, nomeadamente à Guarda, em 27 de novembro de 1199 (documento que segue o modelo do foral de Salamanca).

Guarda 825 anos-1

Antes desta data (1199), a Guarda confinava-se a uma pequena comunidade “guardada por uma pequena atalaia ou torre – uma guarda – que vigiava a circulação de gentes e bens que percorriam a via colimbriana, o principal eixo de penetração no planalto beirão”, como sustentou Helena da Cruz Coelho. A Guarda assumiu, deste modo, uma posição estratégica de vital importância na defesa da linha fronteiriça da época, protagonizando a centralidade de toda a vasta região envolvente, sobre a qual afirmava a sua influência direta; a sua notoriedade como polo urbano foi reforçada com transferência (entre 1201 ou 1202) da sede do Bispado da Egitânia, cimentando assim o seu estatuto de cidade.

Esta reorganização da jurisdição religiosa apoiou os propósitos régios ao nível do fortalecimento e valorização da zona fronteiriça. Com a conquista de Silves (que viria a perder algum tempo depois) em 1196, D. Sancho passou a intitular-se Rei de Portugal e dos Algarves.

A sua permanência no trono foi atravessada por diversas contendas militares, fomes e pestes, em especial no período entre 1192 e 1210. As lutas com o vizinho reino de Leão e sobretudo os constantes prélios com os almóadas (dinastia marroquina que dominava as terras da Península Ibérica sob alçada muçulmana) ocuparam muitos anos do reinado deste monarca português, que teve ainda de se debater com alguns sérios problemas levantados pelo clero (vejam-se os conflitos com D. Martinho Rodrigues, Bispo do Porto, e também com D. Pedro Soares, Bispo de Coimbra, com os quais se reconciliou no último ano do reinado).

A célebre cantiga de amigo “Muito me tarda / o meu amigo na Guarda”, foi durante muito tempo associada a D. Sancho I que a teria, segundo alguns autores, dedicado a D. Maria Pais Ribeiro (a célebre Ribeirinha, de quem teve seis filhos); os estudos mais recentes afastam-no da sua autoria dessa poesia, embora seja verdade que não foi alheio às necessidades de incremento cultural, como o comprova o apoio dado a alguns elementos do clero que estudaram além-fronteiras. D. Sancho I faleceu em Coimbra em 26 de março de 1211, tendo sido sepultado no Mosteiro de Santa Cruz.

Em dia de feriado municipal não poderíamos deixar de lembrar o segundo rei de Portugal. De referir que, tradicionalmente, e após o abandono da data de 3 de maio, o feriado municipal da Guarda era comemorado a 26 de novembro, evocando assim o nascimento, oficial, da cidade. A divergência sobre a data de atribuição da carta de foral foi expressa, pela primeira vez, num artigo (de Manuel Luís dos Santos) publicado, em 1985, no jornal "Notícias da Guarda".

Guarda__

A partir dessa altura alargou-se o interesse pelo estudo da questão e não faltaram argumentos sobre a prevalência de 26 de novembro; por outro lado, a favor do dia 27 deste mesmo mês os argumentos manifestaram igualmente a sua solidez.

De facto, o documento medieval da outorga da carta de foral refere que "foi feita esta carta em Coimbra no dia Quinto antes das Calendas de Dezembro de 1237, no ano do nosso reinado." Assim, e como foi sustentado pelos investigadores que defenderam a nova data, o dia V antes das Calendas de Dezembro é o dia 27 de novembro de 1237, o que convertido à data cristã (menos 38 anos) cai sobre o ano de 1199.

A data de 27 de novembro acabou, assim, por ser institucionalizada, há alguns anos atrás, como feriado municipal. O programa comemorativo deste 826º aniversário pode ser consultado aqui.

Parabéns, Guarda!

                                                                                                                                                                                                                                Hélder Sequeira

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 00:34

Joaquim Chamisso: um poeta singular

por Correio da Guarda, em 20.11.25

 

Vivemos num território plurifacetado onde se cruzaram civilizações e múltiplos caminhos da nossa história, da qual ficaram marcos perenes, edificados ou retidos na nossa memória coletiva.

As nossas terras possuem uma vasta riqueza monumental, artística e cultural que importa salvaguardar, estudar e promover. Há vastas vias a percorrer, e nunca será demais o empenho pessoal e coletivo na afirmação da nossa identidade.

Contudo, é nas gentes deste interior que encontramos uma grande riqueza, com maior ou menor expressividade no nosso território geográfico ou de afetos; com recorte diferenciado na galeria humana de uma região que não tem tido a devida justiça perante o trabalho aqui desenvolvido, pela resiliência dos seus habitantes, pelos exemplos de fidelidade à terra mátria, na expressão de Pinharanda Gomes.

As nossas aldeias não oferecem apenas a sua singularidade, a arquitetura tradicional, os ciclos festivos, as atividades ligadas à sua vivência, as suas tradições; guardam também a memória dos seus naturais, que por este ou aquele motivo se evidenciaram.

É o caso da localidade de Vale de Estrela (anteriormente designada Porcas) onde nasceu um poeta singular: Joaquim Chamisso; ele verteu nos seus versos o amor à terra natal. “Porcas onde eu nasci, / Aldeia minha adorada, / C’o Chamisso aqui nascido / Ficas mais valorizada”.

Joaquim Chamisso_

Um dos contributos para o conhecimento deste poeta popular, nascido em 1886, foi dado com o trabalho publicado, em 1984, pelos professores António Correia, Alice Ribeiro, Duarte Menezes e António Correia (na altura na Escola Secundária da Sé), com a recolha dos versos de Joaquim Chamisso. Esta recolha foi feita a partir de “ecos repercutidos nos vetustos muros da fortaleza, no arco da Torre, no largo do Governo Civil, no claustro do Tribunal e, mais afogados em cascata ruidosa, no velho Café Mondego, no pátio da Polícia, junto às árvores do Sanatório – para ele “A Casa da Tosse” – e até nas valetas da rua pública (…)”.

Assim era escrito no prólogo da referida publicação sobre Joaquim Chamisso que “falava em verso, tinha na sua ignorância a sabedoria profética do provir e no seu filosofar inculto, sentia a cultura viver e pulsar (…)”.

Vale de Estrela_  (1)HS

Em 2003, num texto que integrava a publicação “Guarda – a memória das coisas”, Separata da Revista Praça Velha, António Correia escrevia que “a veia poética de Joaquim Chamisso não terá a força nem a expressividade dos versos de Aleixo, também poeta popular, mas de qualquer modo, estremece nos seus versos uma grandeza contida que indicia uma personagem forte, audaz, valente e destemida”.

O articulista (que foi um dos docentes intervenientes na recolha de poemas anteriormente mencionada) acrescentava depois haver “neste versejador uma vontade indómita; uma revolta incurável, uma inesperada humanidade, uma escandalosa e inusitada consciência moral, bem como uma prospetiva e imprevisível esperança quando denuncia os poderosos”: “Chamai tudo o que quiserdes/Sois uma gente atrasada; / Dizei tudo o que quiserdes; para mim não valeis nada”. Ou ainda, “Idiota me chamais; / Nada vedes, nada sabeis; / Idiota, que vos digo / Tudo quanto mereceis”.

A cidade mais alta de Portugal merecia, da sua parte um grande afeto. “Guarda, eu quero-te tanto / És a minha amada; / Tens gente que eu detesto, / Mas, por mim és adorada”; na Guarda não esquecia que lhe dedicava atenção. “Dr. Lopo de Carvalho / Homem de grande valor/ Também tu te destacaste / No meio dos outros doutores”; “O Senhor Dr. Antero /Tem um grande coração: /Alguns dentes me tirou / Sem me levar um tostão. (…) Homem bom e muito simples / Nunca devia morrer; / Devia ficar no mundo / Para sempre bem fazer”.

Isto num contraste com “Outros grandes exploradores / Que a terra há-de comer / Até se esquecem no mundo / Que um dia hão-de morrer”.

Joaquim Chamisso faleceu na Vela (no então Albergue Distrital) em outubro de 1965. “Em Vale de Estrela eu nasci / E à Vela vou morrer; /Gostava de morrer na terra / Mas isso não pode ser…”.

J CHAMISSO_ 

Desenho de Mário Carvalho

O poeta pode e deve ser mais um importante elemento de valorização da freguesia de Vale de Estrela, libertando Joaquim Chamisso “da poeira do esquecimento”, como em 1994 já defendiam os docentes que efetuaram a meritória recolha de versos que se desdobram em autobiografia, em referências familiares, alusões à cidade e à região da Guarda, em elogios a personalidades, na sátira e crítica social.

É importante que não se quebre o fio da memória, de forma a tecermos novos projetos, lançando pontes para um melhor conhecimento das nossas gentes e terras, numa profícua e interventiva rede de cultura e tradição.

Hélder Sequeira

in O Interior | 19_11_2025

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 00:02

Memórias...

por Correio da Guarda, em 19.11.25

Balança e batatas_ 5256-2

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:12

Rota das Faias

por Correio da Guarda, em 17.11.25

FAIAS_HS_ _1962-2 

Manteigas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 00:02

Memória dos jornais da República

por Correio da Guarda, em 17.10.25

 

 

Em Famalicão da Serra vai estar patente, a partir do próximo domingo, 19 de outubro, uma exposição itinerante subordinada ao tema “Viva a República Portugueza – primeiras páginas dos jornais da Guarda”. “Estes registos dão a conhecer as mudanças, tensões e o entusiasmo republicano que marcaram a época, mostrando como os jornais da Guarda ecoavam e influenciavam o cenário político nacional. Composta por 26 painéis, a mostra convida o visitante a uma viagem no tempo.” Como é referido numa nota informativa divulgada pelo Museu da Guarda que organiza esta exposição”.

O distrito da Guarda, recorde-se, foi pioneiro da imprensa, tendo aqui surgido também alguns dos mais expressivos jornais religiosos e políticos. Com postura diferenciada, os jornais desta região tiveram um importante papel na promoção das ideias políticas, mormente do ideário republicano, constituindo a sua leitura um (re)encontro com a realidade de tempos e lugares.

Jornais da República_GUARDA

Como escreveu J. Pinharanda Gomes, o mundo da imprensa regional é “feito de insólitos achados, de experiências para nós, hoje, inimagináveis. Reflete ele o estado social e cultural de uma região num dado tempo. A progressão cronológica do aparecimento dos jornais, a tipologia diferenciada, as alternâncias ideológicas, são quadros vivos mesmo agora que, de muitos deles não temos senão raros exemplares (…)”. De facto, houve períodos em que não foi acautelada a preservação dos mais significativos títulos da imprensa regional e concelhia, resultando daí um hiato intransponível no acesso ao seu completo conhecimento.

A história da imprensa distrital merece um aprofundado estudo, que dê sequência a alguns valiosos e meritórios trabalhos já existentes. Estaremos, com essa atitude, a honrar os esforços, o entusiasmo, o saber e o contributo de quantos editaram e mantiveram jornais locais e regionais, colocando-os ao serviço da democracia e da liberdade.

Assim, é uma atitude de justiça e de interesse cultural olhar para a imprensa que serviu de meio de divulgação dos princípios republicanos, de forma a ficarmos elucidados sobre as conceções políticas defendidas, realidades sociais e económicas, o modo como foi recebido o novo regime, após o derrube da Monarquia; importa trazer ao conhecimento das gerações atuais os nomes de personalidades (esquecidas ou ignoradas, em tantos casos) que lutaram fervorosa e apaixonadamente pelos seus ideais políticos.

Servir “dedicadamente a causa pública” era um propósito comum manifestado pelos redatores da imprensa republicana, e reafirmado, tantas vezes, após o 5 de outubro de 1910. “Não temos hoje após a vitória (…) ambições que excedam as craveiras dos nossos apoucados méritos”, lia-se no jornal “A Fraternidade”, para cujo corpo diretivo e redatorial “a mais ardente aspiração” estava “satisfeita com a proclamação” da República”.

“A imprensa ruge e canta”, escrevia José Augusto de Castro em “O Combate”, um dos mais expressivos títulos republicanos da Guarda, jornal que se batia “Pela Justiça. Pela Verdade. Pela Equidade”, sem baixar as armas, para não haver surpresas.

Contudo, os avisos feitos a partir desta tribuna, como aliás de outras, eram dirigidos igualmente para o interior das estruturas políticas. “Passada a hora da primeira vitória, entoado o primeiro cântico de triunfo, impõe-se-nos recomeçar a nossa acção em combate ao mal, à dor, à iniquidade. Proclamar a República não quer dizer extinguir a iniquidade, mas apenas avançar um passo no caminho que conduz à sua extinção. O mal existe em todas as formas de governo conhecidas, de modo que só depois de todas as formas de governo extintas se extinguirá o mal. O alto dever cívico, intelectual e moral do homem, o mais alto, consiste em trabalhar para que as formas de governo se vão aperfeiçoando, simplificando, resumindo, extinguindo”, sustentava “O Combate”.

Nos jornais de matriz republicana, publicados antes e depois da data que marcou um novo ciclo na história política portuguesa, encontramos textos de grande lucidez e reflexões apaixonadas, a par de uma preciosa informação sobre o pulsar da vida local, sobre o papel interventivo de muitas personalidades, sobre as estratégias dos grupos que detinham ou pretendiam o poder, sobre as divergências pessoais ou de grupos.

Da leitura e do estudo, crítico, destes jornais poderemos evoluir para um conhecimento mais completo de um período em que o mapa político e institucional do distrito da Guarda era palco de grande efervescência e outrossim de mudanças. Protagonizaram a intervenção republicana, cruzando argumentos e palavras na imprensa regional, as mais diversificadas figuras, oriundas de distintos meios sociais, culturais ou profissionais. Eram atores de uma interessante polivalência, como se pode deduzir através destes jornais.

Até nomes tradicionalmente associados a áreas muito específicas foram agentes ativos na defesa da República; veja-se, a título de exemplo, Augusto Gil (que dirigiu A Actualidade), nome respeitado como poeta, mas também como republicano.

Os aguerridos e frontais “diálogos” entre títulos da imprensa regional, a criação e desaparecimento de outros, a linguagem e o desassombro de muitos dos textos publicados ou imaginação colocada para suprir lacunas editoriais ou vicissitudes relacionadas com a impressão constituem suficientes motivos para (re)lermos estes jornais, parcela ímpar do nosso património cultural e regional.

Esta exposição constitui, sem dúvida, um desafio a conhecermos melhor os jornais publicados sob a República, ultrapassando assim um mero ato de “comemorativismo ritualista”.

 

Helder Sequeira

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 08:30

Incêndio em antigo pavilhão do Sanatório

por Correio da Guarda, em 16.10.25

 

O Pavilhão Rainha D. Amélia, do antigo Sanatório Sousa Martins, na Guarda, foi parcialmente consumido pelas chamas ao início da madrugada. O incêndio foi combatido pelos Bombeiros Voluntários da Guarda, Celorico da Beira, Gonçalo, Belmonte e Famalicão da Serra.

 

fogo-sanatorio  

Foto: Gustavo Brás /jornal Todas as Beiras

 

Ao longo das últimas décadas, por diversas vezes e em diferentes ocasiões nos referimos ao estado de degradação dos antigos pavilhões do Sanatório Sousa Martins…e aos riscos daí decorrentes: possíveis, derrocadas, incêndio, danos pessoais, etc… Hoje ocorreu, pela madrugada, um incêndio no pavilhão Rainha D. Amélia, uma das emblemáticas estruturas do antigo Sanatório da Guarda.

Ainda no passado dia 18 de maio, aquando da passagem do centésimo décimo oitavo aniversário da inauguração do Sanatório Sousa Martins sublinhámos  a eminente ação assistencial que ele teve na cidade mais alta de Portugal.

A inauguração (inicialmente prevista para 28 de abril e depois para 11 de maio) dos três pavilhões que integravam o Sanatório teve lugar a 18 de maio de 1907, com a presença do rei D. Carlos e da Rainha D. Amélia. O Sanatório Sousa Martins foi uma das principais instituições de combate e tratamento da tuberculose em Portugal. A designação de “Cidade da Saúde” atribuída à Guarda em muito se fica a dever à instituição que a marcou, indelevelmente, no século passado.

Pavilhão Rainha D. Amélia na década de 50 - DR

A Guarda foi, nessa época, uma das cidades mais procuradas do nosso país, tendo a elevada afluência de pessoas deixado inúmeros reflexos na sua vida económica, social e cultural.

A apologia desta cidade como centro urbano “eficaz no tratamento da doença” foi feita por distintas figuras, pois era “a montanha mágica” junto à Serra. Muitas pessoas (provenientes de todo o país e mesmo do estrangeiro) rumaram à cidade mais alta de Portugal com o objetivo de usufruírem do seu clima, praticando, assim, uma cura livre; não sendo seguidas ou apoiadas em cuidados médicos.

As deslocações para zonas propícias à terapêutica “de ares”, e a consequente permanência, contribuíram para o aparecimento de hotéis e pensões; isto porque não havia, no início, as indispensáveis e adequadas unidades de tratamento; situação que originou fortes preocupações sanitárias às entidades oficiais.

No primeiro Congresso Português sobre Tuberculose, o médico Lopo de Carvalho destacou os processos profiláticos usados na Guarda; este clínico foi um dos mais empenhados defensores da criação do Sanatório guardense, do qual viria a ser o primeiro diretor.

O fluxo de tuberculosos que vieram para o Sanatório guardense superou, largamente, as previsões, fazendo com que os pavilhões construídos se tornassem insuficientes perante a enorme procura. O Pavilhão 1 (onde funciona atualmente a sede da Unidade Local de Saúde da Guarda) teve de ser aumentado um ano depois, duplicando a sua capacidade.

Em 31 de maio 1953 um novo pavilhão (que ladeia hoje a atual Avenida Rainha D. Amélia) foi acrescentado aos três já existentes. Com a construção deste novo pavilhão, o Sanatório Sousa Martins procurou aumentar a capacidade de resposta às crescentes solicitações das pessoas afetadas pela tuberculose, ampliando assim o seu papel na luta contra essa doença.

O elevado número de doentes com fracos recursos há muito fazia sentir a necessidade de dotar esta conhecida unidade de saúde com novas instalações; pretensão que os responsáveis pelo Sanatório Sousa Martins tinham já manifestado ao Ministro das Obras Públicas, aquando da sua visita, à Guarda, em 1947.

O Sanatório Sousa Martins ganhou, consequentemente, maior dimensão e capacidade de tratamento de tuberculosos.

Hoje, o incêndio ocorrido no Pavilhão Rainha D. Amélia é mais um desesperado alerta para o estado lastimoso em que se encontra o património físico de uma instituição com merecido relevo na história da saúde e da medicina em Portugal; um Sanatório ligado também à solidariedade, à cultura e à história da radiodifusão sonora portuguesa, mercê da emissora (Rádio Altitude) aqui criada em finais da década de quarenta do passado século.

 “A ausência de interesse tem sido gritante, imperdoável e inaceitável. Os edifícios em completa ruína, além de constituírem um perigo permanente, são um verdadeiro atentado à história local. Creio que é mesmo um dos maiores, se não o maior atentado patrimonial, cometido na Guarda, no último século.” Como sublinhou, ao Correio da Guarda, Dulce Borges (com meritório trabalho de investigação, estudo e divulgação sobre o Sanatório) ao Correio da Guarda. Uma entrevista que pode reler aqui.

Os históricos pavilhões Rainha D. Amélia e D. António de Lencastre continuam, apesar de sucessivos alertas e artigos publicados, a ser desprezados, esquecidos.

Sanatório da Guarda - Pavilhão D. Amélia - HS

A sua recuperação permitiria que fossem utilizados para fins assistenciais ou outros; houve já projetos para a criação de um espaço museológico no Pavilhão Rainha D. Amélia, para a valorização do património florestal da antiga cerca do Sanatório; em 2001/2002 foi elaborado “um projeto para o Hospital da Guarda, que englobava o Pavilhão D. Amélia para as Consultas Externas, acoplado com outro pavilhão moderno. O pavilhão D. António de Lencastre estava destinado à parte administrativa, fazia parte de um complexo para a parte administrativa, acoplado a outros espaços”, como nos disse o Dr. José Guilherme (que dirigiu o Hospital da Guarda), em entrevista publicada na Revista Praça Velha. Nas últimas décadas outras ideias foram surgindo, para utilização desses edifícios, sem que tivessem qualquer concretização até à presente data.

O abandono e degradação dos antigos pavilhões do Sanatório Sousa Martins não dignifica uma cidade que se quer afirmar pela história, pela cultura, pelo ensino, pelo turismo, pela qualidade do seu ar, pela sua localização…

A bandeira da cidade deve ser arvorada diariamente, por todos quantos sentem e vivem a Guarda, pensando globalmente e não se circunscrever a intervenções articuladas com calendários políticos ou pessoais; não devemos ser “socialmente, uma coletividade pacífica de revoltados”, na expressão de Miguel Torga.

É importante que contrariemos este estado de coisas, reivindicando soluções, apelando à união de esforço e à procura dos melhores planos/estratégias no sentido de serem recuperados, salvaguardados e utilizados esses edifícios seculares, elementos integrantes do ex-libris da Cidade da Saúde. “Tudo é ousado para quem a nada se atreve”, escrevia Pessoa. Haja firmeza na ousadia e salvaguardemos um património ímpar da cidade e do país. E nada como uma visita ao local para nos apercebermos da vergonhosa realidade daqueles pavilhões do antigo Sanatório Sousa Martins…

 

Hélder Sequeira

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:17

Festival do Cobertor de Papa

por Correio da Guarda, em 12.09.25

 

Na localidade de Maçainhas (Guarda) vai decorrer, amanhã e domingo, o Festival do Cobertor de Papa.

O programa integra diversas atividades, nomeadamente um percurso pelas ruas de Maçainhas designado “À descoberta do Cobertor de Papa”, um concerto de concertinas, a apresentação do documentário “Guarda, Tradições, Cultura e Arte” e uma sessão/debate subordinada ao tema “Unidos por um fio – reflexão: a importância da preservação do património e identidade territorial”. O programa completo deste festival pode ser consultado aqui.

Esta iniciativa representa mais um alerta para o risco de extinção de um ecossistema enraizado nestas terras beirãs.

O cobertor de papa é uma manta tradicional da zona da Serra da Estrela, produzida – há vários séculos – a partir da lã churra (mais macia) que é retirada de ovelhas autóctones (ovelha mondegueira).

Após o necessário tratamento, a lã é tecida em teares artesanais e de acordo com métodos tradicionais, associando cores e desenhos com perfil diferenciador. O processo termina com o esticar dos cobertores nas “râmbolas” onde secam, ao ar livre, e adquirem o seu aspeto final.

Cobertor de Papa_Céu Reis_

Existem o cobertor branco com três listas castanhas, a manta barrenta ou manta do pastor, a manta lobeira ou manta espanhola, o cobertor branco, o cobertor bordado à mão e o cobertor de papa em várias cores (com o seu conhecido pelo comprido).

O seu uso não se fica apenas pela utilização como elemento de conforto térmico (na cama o seu pelo denso e pesado facilita a transpiração durante o sono e puxa a humidade para a superfície exterior do cobertor), mas passa também por distinto complemento de decoração de interiores.

A Associação Genuíno Cobertor da Papa, sediada naquela localidade, tem nos seus objetivos a produção daquele autêntico produto e a garantia da sua autenticidade, estando atualmente empenhada em alcançar a certificação daquele cobertor.

O declínio da indústria da lã e o surgimento de fibras sintéticas originaram um cenário onde quase se desenhou a sua extinção.

Elisa Pinheiro, que desenvolveu trabalhos de pesquisa sobre o cobertor de papa, assinalou-o como “produto final de um longo processo que plasma uma densidade de memórias, sejam elas as dos homens que os produziram, sejam daqueles que, ao longo dos tempos, os consumiram, uns e outros unidos pelos fios de lã que os teceram, num tempo longo da nossa história dos lanifícios”, sublinhando o seu enquadramento “em práticas ancestrais que importa salvaguardar”. Deste modo, é urgente preservá-lo, defender a sua autenticidade, a par de permanentes ações de valorização e promoção.

Este não é um trabalho simples, pois há que equacionar múltiplas realidades e condicionantes, como sejam a necessidade da existência de mais rebanhos de ovelhas autóctones – o que implica olhar com objetividade para a realidade agrícola, para as dificuldades relacionadas com a criação e alimentação dos animais, para o número de pessoas que se dedicam ao pastoreio e ao ciclo da produção de queijo, para as consequências das alterações climáticas que têm condicionado as áreas de pastagens e aumentado as dificuldades ao nível económico/financeiro) – , mais gente a trabalhar no campo e a saber valorizar/rentabilizar as potencialidades endógenas, uma maior consciencialização de todos no que concerne à qualidade e valor dos nossos produtos regionais, optando pela sua compra e incrementando a economia local/regional.

O incentivo e apoio a projetos (como este da revitalização do genuíno cobertor de papa, cuja produção é feita, naturalmente, numa escala consentânea com a dimensão dos recursos atuais, e em função da evolução do número de encomendas) não devem ficar apenas pelas amáveis palavras de circunstância, pelas manifestações de simpatia nas redes sociais ou pela presença (também importante, claro) em ações de sensibilização ou divulgação.

É fundamental o apoio das entidades em cuja área de competência ou influência se pode inscrever a ajuda necessária (e justa), a ação dos media na informação e divulgação dos produtos genuinamente regionais, a necessária transmissão aos mais jovens do saber fazer, o envolvimento da investigação académica, uma atitude ativa dos consumidores na preferência daquilo que tem alta qualidade e matriz tradicional e portuguesa.

 

Hélder Sequeira

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:52

Solidariedade com o interior, precisa-se…

por Correio da Guarda, em 21.08.25

 

Estas semanas escaldantes trouxeram de novo a tragédia dos incêndios que flagelaram impiedosamente, uma vez mais, as terras e as gentes do interior.

O país seguiu, através das imagens televisivas ou das publicações nas redes sociais, a voracidade inclemente das chamas, o hercúleo esforço dos bombeiros, das forças de segurança e das populações; os inúmeros dramas pessoais e familiares, a perda de bens, o desaparecimento irremediável de fauna e flora das regiões afetadas.

Ainda com o país a arder, é importante que as atenções estejam concentradas no combate e numa desejada e eficaz coordenação dos meios para se acabar com este cenário dantesco que deixou já um rasto de morte; contundo é urgente a atuação em prol deste interior que tem sido esquecido e abandonado; um interior que não cabe na redutora, ofensiva e incrível classificação de um território “com pessoas pobres e isoladas e que têm problemas de saúde mental…” como alguém (tem nome, claro) afirmou no decorrer dos comentários a um canal de televisão.

Curiosamente, foram essas mesmas pessoas, do dito interior, que enfrentaram estoicamente as chamas, unindo-se numa luta tremenda, manifestando uma enorme solidariedade, mostrando (de novo) a sua capacidade de resistência, a sua grande humanidade.

O jornalista Nuno Francisco (diretor do Jornal do Fundão) escrevia há dias que o interior não pode ser entendido “como uma realidade marcada num mapa, com fronteira definida e sinalizada pelo GPS do nosso carro. O Interior não é apenas um lugar, é uma consequência. E todos os verões estão cá para nos recordar disso. Não nos procurem nos mapas, porque a ausência e o esquecimento não são cartografados. Tal como a coragem de quem cá (ainda) resiste e insiste…”.

E quanta insistência tem havido, ao longo de décadas – por parte de quem vive e resiste nestes territórios raianos e do interior – para que se anulem as assimetrias e se desenvolvam estratégias e políticas solidárias, justas, pragmáticas…

O interior não aceita ser considerado como reserva paisagística (até as paisagens nos são roubadas pelo fogo…) para ser visitada ocasionalmente, de passagem obrigatória para outros destinos, ou em períodos de campanhas eleitorais; nem tão pouco ser notícia apenas nestas ocasiões de fogos florestais ou de fatídicos episódios ocasionais.

Fogo - HS.jpg

Será que nos restantes dias, meses e anos não há vida e não se vive ou nada acontece no interior? Felizmente há ainda exceções (poucas) de jornalistas que radicados nestas terras cumprem o seu dever e enobrecem a missão de informar, com rigor e verdade.

Aliás é também a verdade relativamente às causas dos incêndios, às falhas, aos atrasos nas decisões, às ausências institucionais que importa transmitir às populações, numa análise objetiva e serena; orientada para a necessária correção dos erros, aproveitamento das experiências colhidas no terreno, para uma estreita cooperação, para um diálogo construtivo entre todas as entidades intervenientes no combate aos incêndios, onde não entre o aproveitamento político, mas a determinação em poder e saber responder nestes momentos críticos.

É este o apelo das gentes do interior, dos nossos Bombeiros Voluntários (que fizeram o possível e o impossível no contexto das condições a que estavam circunscritos); dos elementos das forças de segurança e da proteção civil, dos agentes de investigação criminal (a Polícia Judiciária esteve também no terreno e deteve presumíveis incendiários); interior para o qual devem, desde já (não é preciso mais estudos ou comissões, há indicadores e trabalhos suficientes!) ser tomadas rápidas e consequentes medidas de apoio (os prejuízos são imensos, basta ver os casos de Trancoso, Meda, Sabugal, Seia, Guarda, Vila Nova de Foz Coa, por exemplo), respondendo aos casos mais urgentes e pensando – imediatamente – no “efeito cascata” que resulta das zonas ardidas onde as chuvas irão atuar de forma evidente, com o arrastamento de cinzas e outros detritos.

Nestas zonas atingidas, assim como nas mais próximas (que podem ser o refúgio para muitos animais e aves) deve ser repensada a atividade cinegética, se não queremos correr o risco de uma ainda maior exterminação…

Hoje, mais do que nunca, o interior e as regiões atingidas pelos incêndios (à hora em que escrevemos estas palavras ainda há fogos ativos) precisam da presença, atenção e intervenção do Governo e do poder local, da solidariedade dos restantes territórios, do empenhamento de todos numa maior capacitação, eficácia e consciência cívica para se responder no futuro a situações desta natureza. Aqui também é Portugal!...

 

Hélder Sequeira

in O Interior, 20_8_2025

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 00:01


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Arquivo

  1. 2025
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2024
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2023
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2022
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2021
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2020
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2019
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2018
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2017
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2016
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2015
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2014
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2013
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2012
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2011
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2010
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2009
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2008
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D

Contacto:

correio.da.guarda@gmail.com