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Detida por incêndio florestal na periferia da Guarda

por Correio da Guarda, em 07.10.25

 

Fogos florestais HS

A Polícia Judiciária (PJ), em estreita colaboração com o Grupo de Trabalho para a Redução de Ignições em Espaço Rural – Centro Interior (GNR, ICNF e PJ), e o NPA da GNR da Guarda, deteve, ontem, fora de flagrante delito, a presumível autora de nove incêndios florestais ocorridos na periferia da cidade, zona do Outeiro de São Miguel. Estes incêndios ocorreram durante os meses de julho e agosto.

A mulher, de 72 anos, terá ateado os incêndios por motivos fúteis, com recurso a chama direta, em acumulações de combustíveis secos junto de pequenas matas de pinheiro e carvalho, num período fortemente marcado por incêndios florestais no mesmo distrito e condições meteorológicas propicias à sua propagação, sendo que, em todos eventos, o risco de incêndio era máximo, conforme aviso emitido pelo IPMA.

A investigação, levada a cabo pelo Departamento de Investigação Criminal de Guarda da Polícia Judiciária apurou que os incêndios foram provocados durante a noite, não assumindo maiores proporções em virtude da rápida intervenção do Dispositivo Especial de Combate aos Incêndios Rurais.

Um dos fogos não teve grande progressão, pois os Inspetores que procediam à vigilância desses povoamentos florestais, na sequência de ignições anteriores, conseguiram conter o incêndio com uso de extintores até à chegada das equipas de intervenção rápida dos Bombeiros Voluntários da Guarda que o vieram a extinguir.

A detida irá ser presente a primeiro interrogatório judicial para aplicação das medidas de coação tidas por adequadas. O Inquérito é titulado pelo Ministério Público da Guarda.

 

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publicado às 11:53

Solidariedade com o interior, precisa-se…

por Correio da Guarda, em 21.08.25

 

Estas semanas escaldantes trouxeram de novo a tragédia dos incêndios que flagelaram impiedosamente, uma vez mais, as terras e as gentes do interior.

O país seguiu, através das imagens televisivas ou das publicações nas redes sociais, a voracidade inclemente das chamas, o hercúleo esforço dos bombeiros, das forças de segurança e das populações; os inúmeros dramas pessoais e familiares, a perda de bens, o desaparecimento irremediável de fauna e flora das regiões afetadas.

Ainda com o país a arder, é importante que as atenções estejam concentradas no combate e numa desejada e eficaz coordenação dos meios para se acabar com este cenário dantesco que deixou já um rasto de morte; contundo é urgente a atuação em prol deste interior que tem sido esquecido e abandonado; um interior que não cabe na redutora, ofensiva e incrível classificação de um território “com pessoas pobres e isoladas e que têm problemas de saúde mental…” como alguém (tem nome, claro) afirmou no decorrer dos comentários a um canal de televisão.

Curiosamente, foram essas mesmas pessoas, do dito interior, que enfrentaram estoicamente as chamas, unindo-se numa luta tremenda, manifestando uma enorme solidariedade, mostrando (de novo) a sua capacidade de resistência, a sua grande humanidade.

O jornalista Nuno Francisco (diretor do Jornal do Fundão) escrevia há dias que o interior não pode ser entendido “como uma realidade marcada num mapa, com fronteira definida e sinalizada pelo GPS do nosso carro. O Interior não é apenas um lugar, é uma consequência. E todos os verões estão cá para nos recordar disso. Não nos procurem nos mapas, porque a ausência e o esquecimento não são cartografados. Tal como a coragem de quem cá (ainda) resiste e insiste…”.

E quanta insistência tem havido, ao longo de décadas – por parte de quem vive e resiste nestes territórios raianos e do interior – para que se anulem as assimetrias e se desenvolvam estratégias e políticas solidárias, justas, pragmáticas…

O interior não aceita ser considerado como reserva paisagística (até as paisagens nos são roubadas pelo fogo…) para ser visitada ocasionalmente, de passagem obrigatória para outros destinos, ou em períodos de campanhas eleitorais; nem tão pouco ser notícia apenas nestas ocasiões de fogos florestais ou de fatídicos episódios ocasionais.

Fogo - HS.jpg

Será que nos restantes dias, meses e anos não há vida e não se vive ou nada acontece no interior? Felizmente há ainda exceções (poucas) de jornalistas que radicados nestas terras cumprem o seu dever e enobrecem a missão de informar, com rigor e verdade.

Aliás é também a verdade relativamente às causas dos incêndios, às falhas, aos atrasos nas decisões, às ausências institucionais que importa transmitir às populações, numa análise objetiva e serena; orientada para a necessária correção dos erros, aproveitamento das experiências colhidas no terreno, para uma estreita cooperação, para um diálogo construtivo entre todas as entidades intervenientes no combate aos incêndios, onde não entre o aproveitamento político, mas a determinação em poder e saber responder nestes momentos críticos.

É este o apelo das gentes do interior, dos nossos Bombeiros Voluntários (que fizeram o possível e o impossível no contexto das condições a que estavam circunscritos); dos elementos das forças de segurança e da proteção civil, dos agentes de investigação criminal (a Polícia Judiciária esteve também no terreno e deteve presumíveis incendiários); interior para o qual devem, desde já (não é preciso mais estudos ou comissões, há indicadores e trabalhos suficientes!) ser tomadas rápidas e consequentes medidas de apoio (os prejuízos são imensos, basta ver os casos de Trancoso, Meda, Sabugal, Seia, Guarda, Vila Nova de Foz Coa, por exemplo), respondendo aos casos mais urgentes e pensando – imediatamente – no “efeito cascata” que resulta das zonas ardidas onde as chuvas irão atuar de forma evidente, com o arrastamento de cinzas e outros detritos.

Nestas zonas atingidas, assim como nas mais próximas (que podem ser o refúgio para muitos animais e aves) deve ser repensada a atividade cinegética, se não queremos correr o risco de uma ainda maior exterminação…

Hoje, mais do que nunca, o interior e as regiões atingidas pelos incêndios (à hora em que escrevemos estas palavras ainda há fogos ativos) precisam da presença, atenção e intervenção do Governo e do poder local, da solidariedade dos restantes territórios, do empenhamento de todos numa maior capacitação, eficácia e consciência cívica para se responder no futuro a situações desta natureza. Aqui também é Portugal!...

 

Hélder Sequeira

in O Interior, 20_8_2025

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publicado às 00:01

Bispo da Guarda apela à defesa do Interior

por Correio da Guarda, em 20.08.25

 

O Bispo da Guarda afirmou ontem que “é preciso ultrapassar um discurso redutor e generalista sobre o Interior desertificado e envelhecido e preparar lugares com estruturas que se tornem atrativos para a fixação de novas empresas e famílias.” D. José Pereira fez esta afirmação no decorrer das exéquias fúnebres de Carlos Dâmaso que faleceu, em Vila Franca do Deão, no caombate ao incêndio que ali deflagrou.

“Mesmo sendo um país pequeno com fronteiras definidas no final do séc. XIII e sem conflitos regionais, somos uma casa única, mas não somos um lugar uniforme”, disse ainda o Bispo da Diocese da Guarda.

Bispo da Guarda_

D. José Pereira chamou também a atenção para o “desafio da coesão social entre comunidades de diferentes origens etno-geográficas e culturais. Com mais ou menos medidas de regulação, com estas ou aquelas políticas de integração, somos chamados a reconhecermo-nos habitantes da mesma casa, que se enriquecem na partilha de diferentes “lugares” humanos e culturais”.

Por outro lado, o Bispo da Guarda destacou ainda outro desafio que temos de considerar: “o desafio da gestão florestal e energética.” D. José Pereira afirmou que “também neste campo, a nossa casa comum tem lugares distintos com necessidades distintas. Ordenar o mato e a floresta é diferente na Serra da Amoreira ou de Monsanto e na Serra do Pisco, da Estrela ou da Malcata. Aquecer e arrefecer habitações, é diferente em Lisboa ou Oeiras e na Guarda ou Castelo Branco. É preciso oferecer atenções diferentes a lugares diferentes.”

 

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publicado às 09:02

Judiciária deteve mais um presumível incendiário

por Correio da Guarda, em 17.08.25

A Polícia Judiciária, através do Departamento de Investigação Criminal da Guarda, deteve ontem , um homem de 74 anos, em flagrante delito, por fortes suspeitas da prática do crime de incêndio florestal, ocorrido em Mêda, cidade do distrito da Guarda. A investigação teve início após a comunicação, sob anonimato, de um cidadão afetado.

Fogo_foto Helder Sequeira_

Foi possível apurar que o suspeito terá ateado o incêndio com recurso a chama direta, num espaço de floresta, nas proximidades de uma exploração agropecuária, sem motivo evidente, pondo em risco bombeiros e populares que a poucos metros de distância combatiam um incêndio preexistente, num dia fortemente marcado por incêndios florestais no distrito.

O incêndio colocado nas costas daqueles que procediam ao combate da primeira frente do fogo, não assumiu maiores proporções em virtude da pronta intervenção dos bombeiros. incendiáriosO detido, com antecedentes criminais noutro tipo de crimes, irá ser presente a primeiro interrogatório judicial para aplicação das medidas de coação tidas por adequadas.

O Inquérito é titulado pelo Ministério Público da Guarda.

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publicado às 16:53

Seminário sobre Incêndios na Serra da Estrela

por Correio da Guarda, em 06.05.25

 

O Rotary Club da Guarda vai promover nesta cidade, no próximo dia 9 de maio, o seminário “Incêndios na Serra da Estrela – Lições do Passado e Ação no Presente”.

Este seminário, que conta com colaboração dos Clubes Rotários da Beira Serra (Celorico da Beira, Covilhã, Mangualde, Seia, Trancoso, Viseu e Tondela), terá início pelas 9 horas, no auditório dos Serviços Centrais do Politécnico da Guarda.

Este evento marca o início do Ciclo de Seminários “Patrimonius da Beira Serra”, uma iniciativa anual organizada pelos Clubes Rotários da região.

Com este ciclo, “pretende-se explorar e valorizar os diferentes tipos de património da Serra da Estrela e das regiões próximas, desde o património natural e ambiental até ao histórico e cultural, promovendo a preservação e o desenvolvimento sustentável do território.” Refere uma nota informativa divulgada pelo Rotary Club da Guarda que acrescenta pretender “facilitar o encontro e a partilha de agentes do território para mais facilmente se encontrarem estratégias sustentáveis que promovam projetos que protejam os ecossistemas e melhorem a vida das populações.”

No caso da Serra da Estrela, este seminário surge como uma resposta ativa aos desafios enfrentados pelo território, reforçando a necessidade de cooperação entre municípios, instituições e cidadãos na defesa do ambiente.

Incêndios na Serra

O Rotary Club da Guarda sublinha, a propósito desta iniciativa, que “os incêndios florestais têm causado danos irreparáveis na Serra da Estrela, afetando a biodiversidade, as comunidades locais e a economia da região.”

Nesta primeira edição, realizada na Guarda, serão abordados os principais desafios relacionados com os incêndios florestais, debatendo estratégias concretas para a gestão dos espaços florestais e rurais assim como a recuperação das áreas afetadas.

De acordo com a organização, neste seminário irão estar presente especialistas, autarcas, forças de segurança, técnicos e membros da sociedade civil, que irão dialogar de forma construtiva sobre medidas de proteção e resiliência na Serra da Estrela.

O seminário contará com a participação de bombeiros, elementos da GNR, investigadores, técnicos das áreas ambientais, autarcas e gestores florestais, que irão apresentar perspetivas e técnicas científicas sobre incêndios florestais, resiliência ambiental e proteção da biodiversidade.

A inscrição é gratuita e pode ser feita aqui.

 

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publicado às 00:01

 

A falta de participação efetiva e de transparência do processo de elaboração do Programa de Revitalização do Parque Natural da Serra da Estrela foi denunciada, em carta aberta, por 28 associações cívicas e ambientais. O Movimento Associativo da Serra da Estrela questiona assim o Governo sobre o Programa de Revitalização do Parque Natural da Serra da Estrela.

Recorde-se que na sequência da Resolução do Conselho de Ministros de 8 de fevereiro, foi anunciado um investimento total de 155 milhões de euros no âmbito do Programa de Revitalização do Parque Natural da Serra da Estrela (PRPNSE).

As associações do território solicitaram o acesso ao Programa aprovado e denunciam várias falhas no seu processo de elaboração, sublinhando que “o instrumento tinha sido anunciado pela Ministra Ana Abrunhosa, como um plano que partisse do território, envolvendo as entidades e populações locais, o que acabou por não acontecer.”

SERRA da ESTRELA_foto de Helder Sequeira .jpg

Assim, 28 associações da Serra da Estrela e de âmbito nacional uniram-se “para partilhar preocupações e formular exigências relativamente ao que foi anunciado pelo Governo e pelos Municípios da Guarda e da Covilhã.” Como foi referido, “do seu conhecimento do terreno e do historial da gestão do Parque Natural, ressalta a indignação com a falta de modelos de participação, a falta de transparência e uma tendência para uma aposta que foca o investimento público na Serra da Estrela em projetos avulsos em vez de desenhar um plano resiliente, partindo de uma visão de longo prazo.”

Manuel Franco, presidente da Associação Guardiões da Serra da Estrela criada após os incêndios de 2017, considera que “houve uma auscultação inicial para a qual algumas associações foram convidadas de forma aleatória, mas não foi um processo abrangente nem suficientemente participado.”

A este propósito acrescentou que foram “confrontados com um comunicado que fala em grandes obras sem uma palavra dirigida à conservação ou resiliência, completamente desligado das verdadeiras origens das catástrofes cíclicas que assolam este parque natural.” Na referida carta aberta, as associações acrescentam que a “falta de transparência manifesta na definição e aprovação do PRPNSE impossibilitou a sua avaliação e discussão pública atempada, isto é, enquanto era possível colaborar na elaboração de uma estratégia conjunta para a Serra da Estrela.”

Os autores da carta aberta partilham o “receio de que o Programa não esteja realmente centrado na urgência de revitalização da paisagem destruída pelos incêndios, uma vez que a maior parte de possíveis projetos entretanto comunicados” pelo Ministério e pelos Municípios focam em grandes obras e infraestruturas, há muito reclamadas pelos poderes locais.

Na perspetiva dos signatários, “este programa deveria ter como principal preocupação a sustentação e regeneração de um território de conservação e de prestação de serviços de ecossistema, nomeadamente ao nível da água e dos solos, do carbono e da própria biodiversidade.”

Joana Viveiro, do Movimento Estrela Viva, criado também em seguimento da calamidade de 2017, afirmou que “as associações da Serra da Estrela depositavam neste ‘Plano Marshall’ para a Serra da Estrela, alguma esperança. Mas o processo começou mal, com a falta de envolvimento efetivo da sociedade civil e a pouca transparência na elaboração do documento, que não foi alvo de qualquer consulta pública. Para além disso, este programa deveria ter como principal preocupação a regeneração de um território de conservação e a remuneração justa pelos serviços de ecossistema, e parece-nos que não será bem essa a prioridade.’’

Essas preocupações comuns e a vontade de contribuir para uma regeneração efetiva da maior área protegida do país, levaram os signatários a solicitar uma audiência, com carácter urgente, ao Ministério da Coesão Territorial e à CIM-BSE.

Assinam esta carta aberta A Geradora - Cooperativa Integral, CRL; Acréscimo - Associação de Promoção ao Investimento Florestal;

Associação ALDEIA / CERVAS - Centro de Ecologia e Recuperação e Vigilância de Animais Selvagens; Associação Guardiões da Serra da Estrela; Associação Veredas da Estrela; Campo Aberto - associação de defesa do ambiente; CIDAMB - Associação Nacional para a Cidadania Ambiental; Coletivo à escuta; Ecoativo - Associação de Protecção e Conservação da Natureza; FAPAS - Associação Portuguesa para a Conservação da Biodiversidade; FOLGONATUR - Associação Sem Fins Lucrativos;  GEOTA - Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente; GO Romaria - Associação Cultural Gouveense; Grupo Lobo - Associação para a Conservação do Lobo e do seu Ecossistema;  IRIS - Associação Nacional de Ambiente; LPN - Liga para a Protecção da Natureza; Milvoz - Associação de Protecção e Conservação da Natureza; Movimento Estrela Viva - Associação Cívica pelo Desenvolvimento Sustentável e Integrado da Serra da Estrela; Núcleo Regional da Guarda - Quercus A.N.C.N.; Palombar - Associação de Conservação da Natureza e do Património Rural; ProTejo - Movimento Pelo Tejo; QUERCUS- A.N.C.N. - Associação Nacional de Conservação da Natureza; Rewilding Portugal; SPBotânica - Sociedade Portuguesa de Botânica; SPEN - Sociedade Portuguesa de Entomologia; Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA); URZE - Associação Florestal da Encosta da Serra da Estrela e ZERO - Associação Sistema Terrestre Sustentável.

 

 

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publicado às 14:46

A Estrela que nos guia...

por Correio da Guarda, em 21.09.22

 

A chuva intensa que caiu na passada semana provocou, como é do conhecimento público, elevados prejuízos na freguesia de Sameiro (Manteigas).

A força das águas danificou habitações, destruiu telhados, arrastou viaturas, derrubou postes de iluminação pública, provocou inúmeros e elevados prejuízos.

Era, aliás, previsível a ocorrência deste tipo de situações face à tragédia que se abateu sobre a Serra da Estrela. Na nossa memória devem continuar presentes as imagens das labaredas que destruíram histórias de vida e trabalho árduo, dizimaram espécies animais e vegetais, transformaram a cor da esperança num crepitante manto negro onde ficaram comoventes súplicas de troncos carbonizados, quais esculturas de terror e morte…e muitos desses troncos de árvores irremediavelmente feridas foram agora lançados na fúria da água e da lama…

Serra da Estrela - fot HS.jpg

Sobre o fogo que lavrou na Estrela há múltiplas questões que têm de ser equacionadas, esclarecidas, resolvidas com decisões firmes, sem subalternizações geográficas ou em função do peso dos indicadores demográficos na definição do quadro político.

Somos todos Portugal e a Serra da Estrela, o interior recusa a ser tratado como até acontecido até aqui, pesem argumentos (sobretudo eleitoralistas) em sentido contrário. Não podemos continuar a ser, “socialmente, uma coletividade pacífica de revoltados” (na elucidativa expressão de Torga) e a merecer atenção apenas em dias de tragédia ou de lamentáveis episódios.

Passados que foram os dias de desespero, anunciadas as intenções governamentais de tornar a Serra da Estrela “melhor do que estava,” declarada e definida a situação de calamidade pública, feito o balanço dos prejuízos, identificados os casos onde deve haver um apoio urgente, anunciadas as verbas a aplicar, importa passar das palavras aos atos. Há que desencadear medidas que não pactuem com o tradicional esquecimento e comodismo, ou fiquem enredadas na sobreposição de esferas de competências institucionais, com as consequentes demoras nas decisões específicas. Em especial as relativas aos auxílios e apoios a quantos viram dizimados os seus haveres e meios de subsistência.

Neste contexto, é justa uma referência às associações e aos voluntários que imediatamente estiveram no terreno serrano e foram ao encontro das pessoas, sobretudo mais idosas e fragilizadas.

Esta solidariedade deve ser enaltecida e servir de desafio a todos quantos sentem e vivem a Estrela que nos guia; onde deve ser célere a planificação, escolha cuidada de espécies autóctones e pronta reflorestação.

Escrevia João de Araújo Correia que “(…) o melhor remédio curativo e preventivo contra a corrupção do ar é o arvoredo. Onde houver uma árvore, há uma fonte que lava o sangue do homem. Quero até crer que lhe lava a alma como transcendente espelho de beleza. Hoje, que a alma comum se deixou inquinar, só à vista da árvore se pode desencardir (…)”. E só com novas árvores retiraremos o manto de luto que continua estendido por uma larga área da Serra.

A dimensão e as consequências do fogo que deflagrou num Parque Natural, numa zona classificada como geoparque mundial da UNESCO (a merecer mais informação e sinalética) não podem ser esquecidas pelas entidades governamentais e autárquicas, a quem se deve exigir atuação preventiva, firme e eficaz no quadro das suas competências.

A Serra da Estrela “em cujo seio de pedra palpita o amorável coração de Portugal” (Ladislau Patrício) pode e deve ser um símbolo de unidade de esforços, competências, recursos e ideias, alargado a todo o território nacional em prol de um harmonioso e equilibrado desenvolvimento.

Entretanto, a Estrela continua majestosa, convidativa à (re)descoberta em qualquer época do ano e suscitando um vasto conjunto de percursos e propostas ao longo dos territórios que a têm como guia perene.

 

Helder Sequeira

in O Interior, 21| Set | 2022

 

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publicado às 12:55

Respeito e gratidão...

por Correio da Guarda, em 20.08.22

 

Fogos florestais HS  .jpg

Ao escrevermos estas palavras [já na noite de segunda-feira] não conhecemos ainda o cenário resultante dos fogos que estão a atingir Gonçalo, Seixo Amarelo, Famalicão da Serra, Vale de Amoreira, Valhelhas, Colmeal da Torre e outras zonas circunvizinhas, mas adivinha-se trágico e desolador…

Com estes novos incêndios [já depois de enviado o texto para publicação foi registado mais um incêndio no concelho de Gouveia] e reacendimentos é, infelizmente, ampliada a mancha negra que tem ferido a Serra da Estrela há mais de uma semana; realidade que se traduz em graves consequências para a economia local e regional, para um elevado número de pessoas, para o património florestal e ambiental, para a biodiversidade…

O interior ficou, inquestionavelmente mais pobre e débil com este golpe violento do fogo impiedoso numa Serra “alta, imensa, enigmática” cuja “presença física é logo uma obsessão”, como escreveu Miguel Torga.

A Estrela, contudo, “não divide, concentra”, dizia ainda o poeta. Nestes fatídicos dias a Serra voltou a concentrar os esforços de centenas de bombeiros e outros operacionais (de instituições e serviços diversos) que merecem o nosso elevado respeito e gratidão por tudo quanto têm feito em prol da defesa de pessoas, bens, animais, floresta; travando uma luta difícil, em condições inimagináveis para muitos.

Sobretudo para aqueles que, em especial no comodismo e anonimato proporcionado pelas redes sociais, criticam, elaboram teorias, emitem opiniões que roçam o ridículo, deturpam realidades, enquadram as suas expressões numa atitude maldizente e tendenciosa…perante a situação que estamos a viver é fundamental uma postura cívica e colaborante, o apoio os homens e mulheres que estão no terreno, perante as chamas, o perigo constante.

E por vezes há gestos simples que traduzem o apreço e admiração por aqueles que envergam a farda dos bombeiros, da GNR, das forças especiais, sapadores, etc. Assim, não poderíamos deixar de transcrever as palavras que um bombeiro de Almada – que esteve aqui na Serra da Estrela a combate – escreveu numa rede social (as redes sociais também têm, obviamente, virtualidades quando utilizadas com responsabilidade e bom senso).

“Olá Criança: Desculpa tratar-te assim , mas não sei como te chamas [soube-se depois tratar-se de um menino chamado Gonçalo], nem tive oportunidade de falar contigo, sou o Chefe da equipa do veículo dos Bombeiros de Almada que passou por ti perto do Vale de Amoreira (…), tínhamos tido umas horas de combate complicado estávamos cansados, mas passámos na estrada junto ao café onde estavas com os teus familiares, de repente voltaste - te para nós e bateste-nos continência; na altura e porque havia trabalho a fazer, respondemos apenas com o toque da buzina de ar, mas o teu gesto aliviou o nosso cansaço e deu-nos ânimo. Dizem que as crianças são puras e que não enganam, como eu gostaria que os adultos fossem assim. Pelo ânimo dado a esta equipa com o teu gesto e como Chefe da mesma, retribuo o gesto dizendo-te em nosso nome: Muito Obrigado.”

Passados que forem estes dias de tragédia certamente serão conhecidas muitas outras expressivas atitudes de agradecimento para quem tem estado, dias e dias seguidos, no teatro de operações; ou mesmo para realçar exemplos de coragem.

No local do Covão da Abelha (zona da Serra de Baixo), Parque Natural da Serra da Estrela elementos da GNR resgataram um cidadão ameaçado pelas chamas. O próprio fez o relato, num agradecimento que dirigiu ao Comandante do Posto da Guarda Nacional Republicana de Manteigas (e posteriormente divulgado pelo Comando Territorial da Guarda): “salvaram a minha vida, com a sua rápida e decisiva entrada na zona já circunscrita em chamas. Este facto verificou-se após inesperado e violento reacendimento, com acelerada progressão das chamas, provocado por fortíssima e permanente intensidade de vento na zona onde me encontrava. Em local de difícil acesso em montanha (1300 metros), irromperam na sua viatura para o meu resgate, em tempo de sair da zona onde o fogo progrediu em forma de tenaz. Esta ação demonstra, a meu ver, ato heroico de bravura, de excecional abnegação e valentia, com comprovado perigo da sua vida (…)”.

Haverá tempo para serem conhecidos outros atos como este, a par da resposta que algumas associações e grupos de cidadãos deram de imediato ao nível do apoio a pastores e agricultores que foram atingidos fortemente pela onda devastadora dos fogos. E há que sublinhar o papel ativo das gentes locais na ajuda ao combate às chamas, quer com intervenção direta, quer com a orientação no terreno cujo conhecimento dominam.

Haverá tempo para se perceber o que falhou no combate inicial ao fogo na Serra (não sendo especialista na matéria, parece-me haver um consenso de que a situação não terá sido devidamente avaliada no que concerne à provável evolução das chamas e aos meios terrestres e aéreos necessários a uma resposta mais musculada), que dificuldades houve ao nível da coordenação e comunicações, na logística de apoio às corporações de bombeiros, etc…

Contudo não há tempo a perder na implementação dos apoios necessários a quem perdeu bens e sustento, no desenvolvimento das necessárias ações tendentes a neutralizar as falhas verificadas, na aplicação das medidas conducentes a uma rápida revitalização deste território, no rigoroso planeamento da reflorestação. São precisas decisões e atos e não mera retórica mediática.

Enquanto isso, evidenciamos, de novo, o respeito e gratidão para com todos os operacionais, agentes e corporações que têm estado na linha da frente no combate ao fogo.

 

Hélder Sequeira

 

In "O Interior", 17 de agosto 2022

 

 

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publicado às 18:30

Serra da Estrela: aumentou a área queimada

por Correio da Guarda, em 12.08.22

Serra da Estrela - área queimada 12AG2022.jpg Incêndio ativo e áreas queimadas (até esta hora) no espaço do Parque Natural da Serra da Estrela.

Fonte: Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais (EFFIS)

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publicado às 10:20

Tragédia na Serra da Estrela

por Correio da Guarda, em 11.08.22

Zona Ardida na Serra da Estrela -1.jpg Fonte: Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais (EFFIS)

 

Continua ativo na Serra da Estrela o fogo que começou na madrugada do passado sábado em Garrocho (Covilhã) e que se estendeu aos municípios de Manteigas, Guarda e Gouveia. Foram registados, até ao momento 11 feridos ligeiros, tendo ardido uma área de cerca de 10 mil hectares até ontem (um valor dado ainda como provisório). No terreno estão perto de 1500 operacionais e perto de 470 veículos.

Até agora ardeu uma parte significativa do Parque Natural da Serra da Estrela. Recorde-se que fez no passado dia 10 de julho dois anos que a UNESCO reconheceu a Serra da Estrela como Geopark Mundial.

Área protegida 1.jpg Zona Protegida na área da Serra da Estrela      |     Fonte: Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais (EFFIS)

 

Incêndio ativo e áreas queimadas-1.jpg Incêndio ativo e áreas queimadas.  Fonte: Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais (EFFIS)

 

Para além das pesadas consequências em termos económicos, paisagísticos, patrimoniais e ambientais o fogo provocou já “um dano enorme na biodiversidade da Serra da Estrela” como sublinhou José Conde, biólogo do Centro Interpretação da Serra da Estrela (CISE).

Na tarde de hoje as chamas evoluíram, entre outras frentes, em direção à aldeia histórica de Linhares da Beira, ameaçando também Freixo da Serra e Figueiró da Serra, no concelho de Gouveia. (em atualização).

 

 

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publicado às 15:49


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