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Rui de Pina na (re)descoberta da cidade…

por Correio da Guarda, em 04.12.25

 

Rui de Pina é uma das personalidades que estão ligadas à história da Guarda, estando o seu nome perpetuado numa das ruas do centro histórico da mais alta cidade de Portugal.

Cronista-Mor do Reino, funções que começou a exercer em 1497, por nomeação de D. Manuel I, Rui de Pina foi também guarda-mor da Torre do Tombo e da Livraria Régia; sete anos antes já D. João II o tinha encarregue de “escrever e assentar os feitos famosos assim como de nossos reinos”.

Este cronista terá nascido cerca de 1440, na Guarda; contudo, e à semelhança do que acontece com outras figuras da nossa história e da nossa literatura, há quem questione a sua naturalidade; neste caso é assinalada uma possível ligação a Montemor-o-Velho, onde casou e viveu o seu pai, Lopo Fernandes de Pina.

Certezas, relativamente aos laços que prendem Rui de Pina (oriundo de família nobre) à Guarda, existem quanto ao seu casamento nesta cidade, à sua residência aqui e ao nascimento do seu filho, Fernão de Pina, nesta secular urbe, a quem destinou alguns dos seus bens; tendo sido um homem abastado, o nosso cronista protagonizou uma enorme influência social na sua época.

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Rui de Pina integrou o círculo mais restrito do rei D. João II que o encarregou de várias missões diplomáticas ao Vaticano e a Espanha, nomeadamente na defesa dos interesses de Portugal após a viagem e a descoberta de Cristóvão Colombo; um trabalho que deixa transparecer as preocupações com os limites territoriais que seriam definidos, mais tarde, pelo célebre Tratado de Tordesilhas.

Rui de Pina morreu na Guarda em 1522, provavelmente na sua Quinta de Santiago, localizada na zona onde está o Chafariz d’El Rei, nas proximidades do atual quartel dos Bombeiros Voluntários Egitanienses.

Virgílio Afonso, na “Toponímia Histórica da Guarda”, faz alusão aos vestígios da sepultura do cronista, encontrados na antiga Igreja de Nossa Senhora do Mercado, nesta cidade, que se localizou na extremidade (poente) da hoje denominada Rua Augusto Gil.

Após a sua morte, as funções de Rui Pina seriam prosseguidas pelo seu filho Fernão (natural da Guarda, como atrás se disse), o qual assumiu em 1523 os cargos de guarda-mor da Torre do Tombo e de cronista régio.

Como escreveu José Mota da Romana na sua “Antologia de Escritores da Guarda (século XII a XX)”, o valor “historiográfico deste nosso conterrâneo é polémico e até muito contestado, já desde o século XVI”, havendo ainda quem o acuse de ter utilizado textos de Fernão Lopes. Contudo, como bem sublinha, “o conceito de originalidade ou até de plágio era bem diferente do que temos nos nossos dias com a evolução das teorias literárias”.

Rui de Pina redigiu as Crónicas de D. Sancho I, D. Sancho II, D. Afonso II, D. Afonso III, D. Dinis, D. Afonso V e D. João II.

Através destas duas últimas, sobretudo, o cronista régio que é recordado na toponímia guardense legou-nos um inquestionável contributo para a historiografia da expansão portuguesa e outrossim para o conhecimento do quotidiano do século XV, sustentado num estilo que enquadra a sobriedade e, não raro, uma expressiva dinâmica narrativa.

E as ruas da nossa cidade podem, também elas, conduzir-nos a múltiplas e interessantes narrativas, associadas e figuras e factos…

 

Hélder Sequeira 

 

 

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publicado às 23:10

Conversa aberta sobre Ribeiro Sanches

por Correio da Guarda, em 02.12.25

 

A nona “Conversa Aberta” sobre Médicos Ilustres na Guarda será dedicada a António Nunes Ribeiro Sanches.

Este médico e humanista português foi um dos maiores vultos da ciência e cultura europeia do século XVIII. Exerceu medicina em Benavente, Guarda e Amarante, antes de se exilar para o resto da vida.

RIBEIRO SANCHES

A presença de Ribeiro Sanches, com um extenso tratado, na Enciclopédia Metódica de Diderot e d´Alembert, confirma a importância deste médico, natural de Penamacor, no contexto da medicina do século XVIII.

A “Conversa Aberta” irá decorrer no auditório do Museu da Guarda, no dia 22 de Janeiro de 2026 pelas 18h00 e terá o Dr. António Lourenço Marques como palestrante. A atividade é promovida pela Secção Sub-Regional da Guarda da Ordem dos Médicos, em parceria com o Museu da Guarda.

 

Nascido em Penamacor, a 7 de março de 1699, no seio de uma família de cristãos-novos, António Nunes Ribeiro Sanches viveu na Guarda, no período da adolescência, após ter concluído a formação escolar básica. Nesta cidade terá estudado música e, em particular, aprendeu a tocar cítara, seguindo as orientações paternas; alguns dos seus contactos citadinos possibilitaram-lhe a leitura de obras que o enriqueceram culturalmente, nomeadamente trabalhos de Damião de Góis.

Aos 16 anos foi estudar para Coimbra onde, mais tarde, cursou direito que, contudo, reconheceu não ser a sua vocação; o ambiente estudantil da cidade do Mondego provocou-lhe algum desagrado e em novembro de 1720 matriculou-se na Universidade de Salamanca (Espanha); aí estudou medicina e granjeou a estima de vários mestres; foi mesmo convidado para ali ficar como assistente; naquela cidade espanhola viveu calmamente, sem a preocupação de o identificarem como cristão-novo.

No período em que estudou em Salamanca, Ribeiro Sanches passou várias épocas de férias na Guarda, tendo aqui praticado o exercício da medicina com um clínico desta cidade, seu amigo.

Concluído o curso, em 1724, foi trabalhar para Benavente; os seus contactos familiares deram-lhe uma maior perceção da atividade, do peso e influência da Inquisição, a que foi denunciado como cristão-novo; facto que esteve, igualmente, na origem do impedimento de nomeação oficial como clínico, naquela localidade. Admite-se que esta situação, e o medo de vir a ser alvo da Inquisição, o tenham levado a sair de Portugal, nos finais de 1726. Terá partido, por via marítima em direção a Génova; em Itália frequentou, durante algum tempo, a Universidade de Pisa, visitando depois Montpellier e Londres (onde deu aulas e exerceu Medicina).

Mais tarde, acompanhado por um irmão (que ficou a estudar cirurgia em Paris), saiu para Bordéus e daí para Leiden (Holanda). D. Luis da Cunha, representante de Portugal em Haia, intercedeu a favor de Ribeiro Sanches junto de um influente ministro de D. João V, sem nenhum acolhimento. Frequentou, a partir de 1730, a Universidade de Leiden onde recebeu ensinamentos de Bernhard Siegfried Albinus Hieronymus, David Gaubius e de Herman Boerhaav; este último terá contribuído para a ida de Ribeiro Sanches para a Corte de Moscovo, onde chegou em outubro de 1731.

Nomeado médico do Senado e da cidade de Moscovo, foi transferido três anos depois para os serviços do exército russo. Em 1737 encontrava-se já em St. Petersburgo, como clínico do Corpo de Cadetes, uma estrutura de ensino e formação destinada à nobreza russa.

Ribeiro Sanches ingressou, por essa altura, na Academia das Ciências de Petersburgo, sendo nomeado em março de 1740, médico da Corte e posteriormente segundo médico da Regente Ana Léopoldovna e do, ainda, jovem Imperador Joannn Antonovič, sendo muito apreciado nos círculos do poder russo.

Um ano depois, Isabel Petrovna (filha de Pedro o Grande) passou a dirigir os destinos do império e Ribeiro Sanches foi, igualmente, seu médico, bem como de Catarina II que curou em 1744, quando esta tinha apenas 15 anos; facto que a futura czarina não esqueceu.

Em 1747, invocando problemas de saúde, Ribeiro Sanches pediu a demissão das suas funções.

A Imperatriz Isabel Petrovna distinguiu-o com um certificado de bons serviços e Academia Imperial das Ciências, nomeando-o membro honorário. De acordo com alguns biógrafos, esta repentina partida terá sido originada por alguma intriga na corte czarina que avivou a sua ligação judaica.

Após passar por Berlim, dirigiu-se a Paris onde passou a residir e a colaborar com os vultos mais eminentes do Iluminismo, escrevendo as suas principais obras: Dissertation sur la Maladie Vénérienne (1750), Tratado da Conservação da Saúde dos Povos (1756), Cartas sobre a Educação da Mocidade (1760), Método para Aprender e Estudar a Medicina (1763), Mémoire sur les Bains de Vapeur en Russie (1779).

Foi, até à sua morte, interlocutor de imensas figuras consideradas expoentes máximos da vida cultural e científica europeia, dessa época, sem ter tido a possibilidade de encontrar as condições para regressar a Portugal.

Ribeiro Sanches, um dos intelectuais portugueses que mais se distinguiu além-fronteiras e cuja vida passou pela mais alta cidade de Portugal, faleceu a 14 de outubro de 1783.

Esta será, sem dúvida, uma figura que bem se pode associar a uma Guarda culta e da ciência, merecendo adequado estudo e divulgação; figura que evocamos hoje, nesta coluna, a propósito da recente passagem de 315 anos após o seu nascimento.

 

Hélder Sequeira 

 

 

 

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publicado às 13:00

Guarda

por Correio da Guarda, em 01.12.25

Cidade NATAL_foto Hélder Sequeira

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publicado às 22:34

Colecionismo Piné no Museu da Guarda

por Correio da Guarda, em 30.11.25

No Museu da Guarda está patente, desde ontem e até 29 de março de 2026, a exposição “Colecionismo Piné: memórias e surpresas”.

Esta exposição é promovida pela Colecionismo Piné, “entidade criada para concretizar um projeto inspirado no legado do colecionador, que inclui a reabilitação de um espaço no centro histórico”.

Como é referido numa nota informativa do Museu da Guarda, o título desta exposição “convoca, em simultâneo, a dimensão íntima e a abertura ao inesperado que marcam o percurso” de António Piné (1931-2022).

Colecionismo Piné_ HS_ -2

Natural do concelho de Pinhel, António Piné exerceu a profissão de farmacêutico na Guarda. “A sua paixão pela arte levou-o a construir uma das mais notáveis coleções privadas da região.”

Grande parte da sua coleção foi doada à Associação Nacional das Farmácias, integrando atualmente o acervo do Museu da Farmácia.

A exposição agora patente no Museu da Guarda, espaço #5, reúne cerca de trinta obras que “permaneceram no seio da família e na cidade, incluindo aquisições recentes realizadas em consonância com o espírito do colecionador”.

Noronha da Costa, Vhils, Cargaleiro, Cesariny, Cutileiro, Paula Rego, Graça Morais, Pedro Croft, Eduardo Batarda, José Guimarães, Bordalo II e Francisco Simões são alguns nomes representados neste certame que propõe um “reencontro com o espírito generoso e curioso de António Piné, para quem a arte foi sempre uma forma de conhecimento, de partilha e de futuro”.

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publicado às 23:15

Guarda: 826º aniversário

por Correio da Guarda, em 27.11.25

 

A história da Guarda está indissociavelmente ligada ao segundo rei de Portugal que há 826 anos atribuiu carta de foral a esta cidade. Hoje é evocada a outorga desse documento e comemorado o feriado municipal, sendo oportuno conhecermos um pouco da vida deste monarca.

Sancho I, segundo rei de Portugal e cognominado como O Povoador, era filho de D. Afonso Henriques e D. Mafalda de Saboia. Nascido em Coimbra, em 11 de novembro de 1154, o herdeiro da coroa bem cedo ficou ligado à vida político-militar do reino português, com uma associação efetiva à governação a partir de 1172.

Dois anos depois, o futuro rei casou com D. Dulce de Aragão (filha da Rainha de Aragão e do Conde de Barcelona), continuando a assumir as responsabilidades decorrentes do seu estatuto real; em 1178 é D. Sancho que comanda uma expedição em território sob domínio muçulmano, incursão que chegou aos arredores de Sevilha.

Com a morte do pai, D. Sancho subiu ao trono em 6 de dezembro de 1185, sendo aclamado três dias depois na cidade de Coimbra. A reorganização do território português e a defesa das localidades junto às ainda indefinidas e instáveis fronteiras com os domínios de Leão e dos muçulmanos (a sul), foram duas das suas primeiras prioridades, que se articularam com a imperiosa necessidade de incrementar o povoamento e defesa das zonas conquistadas.

Assim, promoveu a vinda de colonos estrangeiros, doou terras e fortalezas às ordens militares, criou concelhos e mecanismos de administração pública, fomentou o surto económico e agrícola e concedeu forais a cerca de cinco dezenas de localidades, nomeadamente à Guarda, em 27 de novembro de 1199 (documento que segue o modelo do foral de Salamanca).

Guarda 825 anos-1

Antes desta data (1199), a Guarda confinava-se a uma pequena comunidade “guardada por uma pequena atalaia ou torre – uma guarda – que vigiava a circulação de gentes e bens que percorriam a via colimbriana, o principal eixo de penetração no planalto beirão”, como sustentou Helena da Cruz Coelho. A Guarda assumiu, deste modo, uma posição estratégica de vital importância na defesa da linha fronteiriça da época, protagonizando a centralidade de toda a vasta região envolvente, sobre a qual afirmava a sua influência direta; a sua notoriedade como polo urbano foi reforçada com transferência (entre 1201 ou 1202) da sede do Bispado da Egitânia, cimentando assim o seu estatuto de cidade.

Esta reorganização da jurisdição religiosa apoiou os propósitos régios ao nível do fortalecimento e valorização da zona fronteiriça. Com a conquista de Silves (que viria a perder algum tempo depois) em 1196, D. Sancho passou a intitular-se Rei de Portugal e dos Algarves.

A sua permanência no trono foi atravessada por diversas contendas militares, fomes e pestes, em especial no período entre 1192 e 1210. As lutas com o vizinho reino de Leão e sobretudo os constantes prélios com os almóadas (dinastia marroquina que dominava as terras da Península Ibérica sob alçada muçulmana) ocuparam muitos anos do reinado deste monarca português, que teve ainda de se debater com alguns sérios problemas levantados pelo clero (vejam-se os conflitos com D. Martinho Rodrigues, Bispo do Porto, e também com D. Pedro Soares, Bispo de Coimbra, com os quais se reconciliou no último ano do reinado).

A célebre cantiga de amigo “Muito me tarda / o meu amigo na Guarda”, foi durante muito tempo associada a D. Sancho I que a teria, segundo alguns autores, dedicado a D. Maria Pais Ribeiro (a célebre Ribeirinha, de quem teve seis filhos); os estudos mais recentes afastam-no da sua autoria dessa poesia, embora seja verdade que não foi alheio às necessidades de incremento cultural, como o comprova o apoio dado a alguns elementos do clero que estudaram além-fronteiras. D. Sancho I faleceu em Coimbra em 26 de março de 1211, tendo sido sepultado no Mosteiro de Santa Cruz.

Em dia de feriado municipal não poderíamos deixar de lembrar o segundo rei de Portugal. De referir que, tradicionalmente, e após o abandono da data de 3 de maio, o feriado municipal da Guarda era comemorado a 26 de novembro, evocando assim o nascimento, oficial, da cidade. A divergência sobre a data de atribuição da carta de foral foi expressa, pela primeira vez, num artigo (de Manuel Luís dos Santos) publicado, em 1985, no jornal "Notícias da Guarda".

Guarda__

A partir dessa altura alargou-se o interesse pelo estudo da questão e não faltaram argumentos sobre a prevalência de 26 de novembro; por outro lado, a favor do dia 27 deste mesmo mês os argumentos manifestaram igualmente a sua solidez.

De facto, o documento medieval da outorga da carta de foral refere que "foi feita esta carta em Coimbra no dia Quinto antes das Calendas de Dezembro de 1237, no ano do nosso reinado." Assim, e como foi sustentado pelos investigadores que defenderam a nova data, o dia V antes das Calendas de Dezembro é o dia 27 de novembro de 1237, o que convertido à data cristã (menos 38 anos) cai sobre o ano de 1199.

A data de 27 de novembro acabou, assim, por ser institucionalizada, há alguns anos atrás, como feriado municipal. O programa comemorativo deste 826º aniversário pode ser consultado aqui.

Parabéns, Guarda!

                                                                                                                                                                                                                                Hélder Sequeira

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publicado às 00:34

Procissão de São Martinho em Valhelhas

por Correio da Guarda, em 22.11.25

 

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Na freguesia de Valhelhas, concelho da Guarda, foi hoje retomada a tradição da Procissão de São Martinho.

Este evento, realizado pela última vez há 30 anos, consiste na realização de um percurso pela aldeia, entre carpideiras e almieiras, que pretende abençoar a próxima colheita. A história do São Martinho foi  celebrada com sátira, ironia, anedotas, alegria e convívio.

A tradição vai ser recuperada graças à recolha etnográfica deste património imaterial salvaguardado pelo Município da Guarda e pela comunidade de Valhelhas. A atividade que decorreu hoje resultou de uma iniciativa cultural da Associação Artística de Valhelhas (AAVAL) e do Teatro Municipal da Guarda.

Procissão de São Martinho_foto HS_

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publicado às 23:50

Joaquim Chamisso: um poeta singular

por Correio da Guarda, em 20.11.25

 

Vivemos num território plurifacetado onde se cruzaram civilizações e múltiplos caminhos da nossa história, da qual ficaram marcos perenes, edificados ou retidos na nossa memória coletiva.

As nossas terras possuem uma vasta riqueza monumental, artística e cultural que importa salvaguardar, estudar e promover. Há vastas vias a percorrer, e nunca será demais o empenho pessoal e coletivo na afirmação da nossa identidade.

Contudo, é nas gentes deste interior que encontramos uma grande riqueza, com maior ou menor expressividade no nosso território geográfico ou de afetos; com recorte diferenciado na galeria humana de uma região que não tem tido a devida justiça perante o trabalho aqui desenvolvido, pela resiliência dos seus habitantes, pelos exemplos de fidelidade à terra mátria, na expressão de Pinharanda Gomes.

As nossas aldeias não oferecem apenas a sua singularidade, a arquitetura tradicional, os ciclos festivos, as atividades ligadas à sua vivência, as suas tradições; guardam também a memória dos seus naturais, que por este ou aquele motivo se evidenciaram.

É o caso da localidade de Vale de Estrela (anteriormente designada Porcas) onde nasceu um poeta singular: Joaquim Chamisso; ele verteu nos seus versos o amor à terra natal. “Porcas onde eu nasci, / Aldeia minha adorada, / C’o Chamisso aqui nascido / Ficas mais valorizada”.

Joaquim Chamisso_

Um dos contributos para o conhecimento deste poeta popular, nascido em 1886, foi dado com o trabalho publicado, em 1984, pelos professores António Correia, Alice Ribeiro, Duarte Menezes e António Correia (na altura na Escola Secundária da Sé), com a recolha dos versos de Joaquim Chamisso. Esta recolha foi feita a partir de “ecos repercutidos nos vetustos muros da fortaleza, no arco da Torre, no largo do Governo Civil, no claustro do Tribunal e, mais afogados em cascata ruidosa, no velho Café Mondego, no pátio da Polícia, junto às árvores do Sanatório – para ele “A Casa da Tosse” – e até nas valetas da rua pública (…)”.

Assim era escrito no prólogo da referida publicação sobre Joaquim Chamisso que “falava em verso, tinha na sua ignorância a sabedoria profética do provir e no seu filosofar inculto, sentia a cultura viver e pulsar (…)”.

Vale de Estrela_  (1)HS

Em 2003, num texto que integrava a publicação “Guarda – a memória das coisas”, Separata da Revista Praça Velha, António Correia escrevia que “a veia poética de Joaquim Chamisso não terá a força nem a expressividade dos versos de Aleixo, também poeta popular, mas de qualquer modo, estremece nos seus versos uma grandeza contida que indicia uma personagem forte, audaz, valente e destemida”.

O articulista (que foi um dos docentes intervenientes na recolha de poemas anteriormente mencionada) acrescentava depois haver “neste versejador uma vontade indómita; uma revolta incurável, uma inesperada humanidade, uma escandalosa e inusitada consciência moral, bem como uma prospetiva e imprevisível esperança quando denuncia os poderosos”: “Chamai tudo o que quiserdes/Sois uma gente atrasada; / Dizei tudo o que quiserdes; para mim não valeis nada”. Ou ainda, “Idiota me chamais; / Nada vedes, nada sabeis; / Idiota, que vos digo / Tudo quanto mereceis”.

A cidade mais alta de Portugal merecia, da sua parte um grande afeto. “Guarda, eu quero-te tanto / És a minha amada; / Tens gente que eu detesto, / Mas, por mim és adorada”; na Guarda não esquecia que lhe dedicava atenção. “Dr. Lopo de Carvalho / Homem de grande valor/ Também tu te destacaste / No meio dos outros doutores”; “O Senhor Dr. Antero /Tem um grande coração: /Alguns dentes me tirou / Sem me levar um tostão. (…) Homem bom e muito simples / Nunca devia morrer; / Devia ficar no mundo / Para sempre bem fazer”.

Isto num contraste com “Outros grandes exploradores / Que a terra há-de comer / Até se esquecem no mundo / Que um dia hão-de morrer”.

Joaquim Chamisso faleceu na Vela (no então Albergue Distrital) em outubro de 1965. “Em Vale de Estrela eu nasci / E à Vela vou morrer; /Gostava de morrer na terra / Mas isso não pode ser…”.

J CHAMISSO_ 

Desenho de Mário Carvalho

O poeta pode e deve ser mais um importante elemento de valorização da freguesia de Vale de Estrela, libertando Joaquim Chamisso “da poeira do esquecimento”, como em 1994 já defendiam os docentes que efetuaram a meritória recolha de versos que se desdobram em autobiografia, em referências familiares, alusões à cidade e à região da Guarda, em elogios a personalidades, na sátira e crítica social.

É importante que não se quebre o fio da memória, de forma a tecermos novos projetos, lançando pontes para um melhor conhecimento das nossas gentes e terras, numa profícua e interventiva rede de cultura e tradição.

Hélder Sequeira

in O Interior | 19_11_2025

 

 

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publicado às 00:02

Memórias...

por Correio da Guarda, em 19.11.25

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publicado às 23:12

Rota das Faias

por Correio da Guarda, em 17.11.25

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Manteigas.

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publicado às 00:02

Dia Internacional da Mulher Empreendedora

por Correio da Guarda, em 16.11.25
O NERGA e o Rotary Club da Guarda vão promover a 19 de novembro, pelas 17 horas, uma iniciativa que pretende assinalar o Dia Internacional da Mulher Empreendedora.

Mulher Empreendedora_ 

foto gerada por IA

"Celebrar o talento, a determinação e a inspiração das mulheres empreendedoras do Distrito da Guarda é o propósito" deste evento que, como sublinha a organização, pretende "valorizar e dar visibilidade ao papel das mulheres empreendedoras, promovendo a partilha de experiências inspiradoras e o diálogo entre diferentes setores da sociedade."
A iniciativa  -  que decorrerá nas instalações do NERGA  -  conta com a  presença de mulheres "empreendedoras de referência na região, bem como de representantes institucionais e empresariais, num momento de reflexão, partilha e reconhecimento do talento e da força feminina que impulsionam o desenvolvimento local e regional."
A inscrição pode ser feita aqui.
 

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