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Facas do Verdugal: no fio da tradição

por Correio da Guarda, em 27.10.11

 

 

     Espalhadas pelo país e além-fronteiras, as facas são um cartaz de excelência do Verdugal, localidade do concelho da Guarda, onde a tradição da cutelaria tem largas décadas.

    Embora o trabalho artesanal das peças de cutelaria ali produzidas conheça hoje uma nova realidade, perante a evolução dos equipamentos e as solicitações de uma clientela cada vez mais exigente, a tradição das facas do Verdugal continua a perdurar nos nossos dias.

    Actualmente existem duas oficinas de cutelaria, ligadas por laços familiares embora autónomas na produção; as suas raízes atravessam já quase quatro gerações, de trabalho árduo mas determinado em garantir artefactos de qualidade.

    Nas primeiras décadas do século passado, os tempos eram outros e as dificuldades das gentes beirãs eram um peso constante, condicionado a vidas das pessoas e inviabilizando sonhos, ou mesmo mudança de vida. A diminuta produção de facas não se comparava com as actuais solicitações, havendo nesse período uma maior procura de enxadas, machadas e ferramentas para os lavradores, relhas para os arados.

    A maioria dos clientes era da zona, embora houvesse compradores oriundos de outras regiões, que acabavam por ser agentes de divulgação dos produtos de cutelaria do Verdugal.

    Na ausência da energia eléctrica, que só chegou ao Verdugal em 1976, houve que recorrer durante largos anos a motores de petróleo (para o funcionamento de alguns dos equipamentos), combustível também utilizados nos candeeiros para iluminação.

    A energia eléctrica contribuiu para a entrada novo ciclo de produção e perspectivou o seu desenvolvimento das instalações; a velha forja abdicou a favor do forno eléctrico que veio facilitar as tarefas desenvolvidas.

    A função dos enormes foles que avivavam a forja foi dispensada; estas duas peças são bem o símbolo de uma época e de uma arte e que, conjuntamente com algumas antigas ferramentas, ilustram de forma clara e pedagógica, o que era, na realidade, o núcleo inicial destas cutelarias.

    Outra melhoria introduzida, decorrente da disponibilização de nova fonte de energia, foi a máquina de “picar as foices”, responsável pela execução “dentado”, um trabalho que até cerca de 1990 era feito à mão.

    Embora o recurso a algumas ferramentas, e máquinas, seja uma necessidade quotidiana, o saber fazer tem ainda um enorme peso na execução e qualidade das facas do Verdugal, sempre procuradas, nos vários modelos disponibilizados.

    Apesar de uma quebra pontual nas vendas, fruto da entrada no mercado de utensílios congéneres mais baratos, a procura das facas tem continuado e elas continuam a espalhar-se, seja nas bancas dos mercados e feiras, nas lojas do comércio tradicional ou nas “vendas” das aldeias.

    O tempo utilizado na confecção de uma faca não é determinado com rigor, dado as fases por que passa e as eventuais necessidades de conciliar o processo de produção com o incremento de uma tarefa específica dentro desse percurso.

    As placas de aço são colocadas na máquina onde é efectuado o corte da faca; será, seguidamente, aberto um orifício ao qual será fixado, mais tarde, o cabo de madeira ou de plástico, de acordo com as actuais exigências. Na lâmina é gravada a marca da cutelaria após o que será introduzida no forno, para lhe ser conferida dureza (há anos atrás era utilizada a velha forja), mergulhando-a depois em óleo.

    Corrigido algum eventual “empeno” da lâmina, a faca “vai depois a desbastar, uma vez de um lado, outra vez de outro”, de modo a que fique “fininha mas ainda não pronta para cortar”. Há, ainda, a necessidade de a passar pelo rebolo (a roda que antes era de duro granito da região) de forma a aperfeiçoá-la; nesta operação é notório ainda o trabalho artesanal.

    Posteriormente é inserido o cabo – mandado executar por encomenda – e colocada a anilha de alumínio que o irá envolver, antecedendo assim o furo do cabo de modo a que o orifício feito anteriormente no prolongamento da lâmina coincida com ele.

    É embutido uma espécie de prego, sem cabeça, de forma que o cabo fique bem seguro; a partir daí vai a polir, para “ficar com brilho”, após o que a faca fica pronta para os potenciais utilizadores. O tempo de vida de uma faca pode variar; mesmo sendo “perdido o fio”, e face à utilização do aço inox nas lâminas, este pode ser recuperado.

    A comercialização destes artefactos não se circunscreve ao território regional e nacional; há mesmo encomendas feitas para países longínquos, onde chega assim uma “marca” do concelho da Guarda.

    No Verdugal persiste, assim, a tradição do saber e bem-fazer e, neste caso, também de bem cortar. E é importante que não se corte o fio da tradição.

 

     Helder Sequeira, in "O Interior"

     20/10/2011

 

 

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