Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Poesia e independência crítica

por Correio da Guarda, em 25.07.25

 

Numa antologia sobre o autor de “Luar de Janeiro, José Miguel Amarelo anotava que “os grandes homens enobrecem o berço em que nasceram, pelas suas obras e agigantam-se nas cinzas do túmulo em que repousam pela memória do seu povo. Augusto Gil é uma glória da Guarda. Os monumentos da palavra que condensam a alma deste povo, exigem análoga recordação na memória imortal do mesmo povo: o monumento que melhor perpetua a nossa admiração pelo poeta e homem da Guarda é o canto vibrante da sua lírica”.

Vem isto a propósito da passagem (no final do corrente mês) dos 155 anos após o nascimento deste poeta. Augusto César Ferreira Gil nasceu na freguesia de Lordelo, Porto, a 30 de julho de 1870; berço fortuito devido à circunstância de sua mãe se encontrar ali, acidentalmente.

“Musa Cérula”, “Versos”, “Luar de Janeiro”, “O Canto da Cigarra”, “Gente de Palmo e Meio”, “Sombra de Fumo”, “Alba Plena”, “Craveiro da Janela” e “Avena Rústica” foram as principais produções literárias de Augusto Gil, cujo trabalho evoluiu quase à margem de escolas ou correntes literárias. “Não é um romântico, nem parnasiano, nem simbolista: é ele – o Augusto Gil – nome que é um gracioso ritmo”, observou Bulhão Pato.

Augusto GIL.jpeg

Sampaio Bruno considerava-o, numa missiva que lhe dirigiu em 1915, “um dos raros e grandes escritores” do país, pois “tem emoção e é poeta; tem correção, e é artista. Ter emoção e ter correção é a sua perfeição”. Muitos dos versos de Augusto Gil passaram para o cancioneiro popular, como sublinharam alguns estudiosos da sua obra. Contudo, como já qui escrevemos nas colunas de “O Interior”, prevalece ainda um grande desconhecimento sobre o poeta guardense; a sua projeção vai muito para além da popular “Balada da Neve” e desdobra-se em várias facetas. A sua obra suscita outras abordagens, como bem sublinhou Helena Rocha Pereira, num estudo intitulado “Poetas Gregos em Augusto Gil”. “Para quem conhecer apenas em Augusto Gil o poeta de verso dúctil e cadência fácil, cuja musicalidade lhe granjeou o aplauso dos salões nas primeiras décadas deste século, o cantor de temas não raro marcados pelo circunstancial, o autor sob a influência confessada de António Nobre, João de Deus, Guerra Junqueiro — para esses, será certamente motivo de surpresa ouvir falar da presença de modelos helénicos na sua arte (…)”.

Os versos de Augusto Gil foram também letra de alguns fados, nomeadamente o “Passeio de Santo António”, mas a sua atividade desenvolveu-se ainda no campo do jornalismo, pois dirigiu A Actualidade, publicação editada entre 1910 e 1912. Este jornal mereceu do matemático e docente universitário Aureliano Mira Fernandes o seguinte comentário: “(..) Tem ele mais do que a atitude altiva de quem não deve: tem a independência crítica de quem não pede. E, e se o não dever nobilita, porque eleva, o não pedir glorifica, porque educa.”

Augusto Gil insurgiu-se, nas páginas do semanário, contra as ameaças à liberdade de imprensa, defendeu os ideais republicanos, criticou frontalmente os erros da classe política – mormente dos seus correligionários – defendeu a democracia e os verdadeiros interesses da Guarda; onde “a demagogia da terra, de braço dado com a imbecilidade, criou a Augusto Gil todos os embaraços, lhe acarretou sensaborias e desgostos, sem deixar de o insultar”…o que deixou, aliás, transparecer nos seus versos: “Com alguns, não obstante reparti /Metade de minh’alma e do meu pão.../ Nas lutas que tiveram combati / Com um ardor, com uma exaltação, / Que nunca em pugnas minhas consegui...”

Acrescentando depois que “Quando lhes veio o dia da vitória / E do prestígio que o dinheiro alcança / Entre gente venal e transitória, / Lançaram-me calúnias por lembrança /E rudes vitupérios por memória...”

O nome de Augusto Gil está presente, de norte a sul do território português, integrando a toponímia guardense e figurando ainda em muitas cidades e vilas de Portugal. Será oportuno anotar que muita informação biográfica sobre o poeta, nomeadamente a dispersa em plataformas digitais, carece de correção e atualização.

Se Augusto Gil cultivou a poesia, as letras, o jornalismo, cultivou também o seu amor pela Guarda onde escreveu uma grande parte dos seus melhores poemas. Esta cidade não pode deixar apagar a sua memória e de reconhecer a sua obra literária, a sua intervenção social, política e cultural; o seu exemplo de cidadão…

 

Hélder Sequeira

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 08:25



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Arquivo

  1. 2026
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2025
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2024
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2023
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2022
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2021
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2020
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2019
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2018
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2017
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2016
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2015
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2014
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2013
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2012
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2011
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2010
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2009
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D
  235. 2008
  236. J
  237. F
  238. M
  239. A
  240. M
  241. J
  242. J
  243. A
  244. S
  245. O
  246. N
  247. D

Contacto:

correio.da.guarda@gmail.com