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Sob o signo da oliveira...

por Correio da Guarda, em 04.01.26

 

A valorização da oliveira e do azeite de territórios como o do Vale da Teixeira, nas proximidades da Guarda, tem sido defendida em diversas iniciativas. 

Como foi sublinhado, nomeadamente nas Jornadas do Azeite que em 2023 foram realizadas na Vela (Guarda), a riqueza desta zona continua a estar nas suas terras, no fruto das suas oliveiras de onde é extraído o “ouro líquido”, cartaz de outras freguesias do Vale da Teixeira.

A oliveira, que tem já um dia no calendário, é indiscutivelmente, um ex-libris deste território do interior. O Dia Internacional da Oliveira foi assinalado a 26 de novembro, na sequência da recomendação da UNESCO (organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), na sua 206ª sessão realizada em Paris, no ano de 2020.

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A importância do Dia Internacional da Oliveira vai muito para além do aspeto cultural, acentuando também o papel desempenhado por essa árvore na proteção ambiental; a sua presença no solo evita a desertificação, protege contra a erosão e aumenta a fixação do dióxido de carbono na atmosfera, contribuindo para proteção da camada de ozono.

É uma árvore cultivada em vários continentes e contribui, diretamente, para o desenvolvimento económico de 57 países, assim como para preservação de recursos naturais. De recordar que os ramos da oliveira estão presentes na bandeira da ONU, como simbolismo da união das nações.

Na Grécia antiga, a oliveira era respeitada como árvore sagrada, carregando significados como paz, sabedoria, abundância e glória dos povos. Em Portugal a oliveira mais antiga do país está situada em Mouchão, Mouriscas, perto de Abrantes; calcula-se que tenha cerca de 3350 anos.

A oliveira é uma árvore com história, marca de uma zona onde se cruzaram vários povos e civilizações, estando mesmo presente na heráldica, nomeadamente da Ramela, uma das freguesias envolvidas nas recentes atividades da sua evocação e do azeite.

Riqueza de um território onde podemos aliar a história, a tradição, uma cultura secular que encontra aqui novos desafios e caminhos. Estudos recentes indicam que Portugal pode ser uma referência na “olivicultura moderna”, estimando-se também que possa alcançar dentro de uma década o estatuto de terceiro maior produtor mundial de azeite. Importa, pois, ganhar o futuro e trabalhar em cooperação, sem adiamentos. “As pessoas e as ideias, como as árvores, são uma harmonia com a hora e o lugar”, como escrevia Vergílio Ferreira.

Dar continuidade a iniciativas como as que decorreram sob o signo da oliveira e do azeite, ampliando outras ações embrionárias e materializar projetos que não tiveram a desejada aplicação prática, mormente na área da olivicultura, é fundamental; sensibilizando proprietários, produtores, populações, instituições, associações com vista à valorização da origem do azeite, da salvaguarda e reforço da tradição, da defesa da qualidade e autenticidade, estimulando a produtividade, implementando plataformas e circuitos de comercialização. Estas iniciativas podem e devem articular-se com as outras atividades (aliadas a uma multiplicidade de ações culturais que se podem juntar, convocando os vários escalões etários e instituições públicas ou privadas), sempre num trabalho em rede. Há que ter determinação. “Tudo é ousado para quem a nada se atreve”, como escreveu Pessoa.

O Azeite é um elemento fundamental na “Dieta Mediterrânica” que recuperou as tradições alimentares dos habitantes da bacia do Mediterrâneo (Portugal, Espanha, França, Itália e Grécia, entre outros). A investigação feita aponta para as vantagens de uma dieta rica em azeite, que pode explicar os baixos níveis de colesterol no sangue e reduzidos índices de doenças cardiovasculares dos povos mediterrânicos, comparativamente aos habitantes da América do Norte e da Europa Central. O azeite atua positivamente contra a gordura, diminui o risco de enfarte cardíaco, contribui para a prevenção de doenças cancerígenas; é importante para um bom equilíbrio alimentar.

Neste território de proximidade vivemos sob o signo da oliveira, árvore sobre a qual António Manuel Gomes escreveu um belíssimo texto, dado a conhecer num espetáculo integrado nas Jornadas do Azeite, realizadas na Vela. “Venho dos lugares mais distantes da memória. Agarrei-me à terra com uma esperança sem fim (…). Seguro uma identidade sábia e serena que retira a pressa ao tempo.” Uma localidade que teve e tem o seu tempo, páginas de história para conhecer.

A Vela já foi uma vila, ainda que por escasso tempo. Fez história, é história. Sucintamente, anotamos que em 2 de janeiro de 1459, D. Afonso V outorgou a jurisdição civil e criminal da Vela a Álvaro de Sousa, mordomo-mor do rei, como já o fora seu pai (Diogo Lopes de Sousa), e elevou esta localidade à categoria de vila. 

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“Esta prerrogativa concedia-lhe o direito de a ter a “per si forca, picota como villa per si issemtamente a nenhu luguar sobieita”. Determinava o monarca que Álvaro de Sousa poderia colocar na nova vila os tabeliães que lhe aprouvesse e “que eles se chamem seus”, apesar de existirem algumas ordenações do reino que afirmassem encontrarem-se esses funcionários dependentes directamente da coroa. Este privilégio tinha apenas um carácter vitalício (…)”, como descreveu o historiador Humberto Baquero Moreno. “(…) A reação da cidade da Guarda à elevação da Vela à categoria de vila e à perca da jurisdição sobre a mesma, não se fez esperar por muito tempo. Representou uma viva e imediata contestação à deliberação tomada pela coroa (…)”, acrescentava num trabalho publicado sobre esta aldeia do concelho da Guarda.

Em 6 de junho de 1459 o Rei promulgou um diploma que anulou o documento assinado em 2 de janeiro de 1459. “Ficava assim a Vela privada da sua categoria de vila, situação em que permaneceu teoricamente durante uns escassos seis meses (…)”. E o referido investigador evidenciava que a reação das gentes da Guarda muito tinha a ver com a “riqueza do solo da aldeia (…). A emancipação da Vela conduziria inevitavelmente a um despovoamento da Guarda, na medida em que a maior parte dos residentes desta cidade possuía os seus bens nessa aldeia, sem os quais não poderia subsistir.”

Retomando as palavras iniciais, acrescentaremos que na zona referenciada, há vários caminhos para o desenvolvimento económico e social deste nosso território, onde existem potencialidades, condições climatológicas privilegiadas, campo para linhas de investigação histórica, sociológica e cultural.

Este é um território de esperança em que devemos acreditar, que devemos valorizar, que devemos viver e fruir sob o signo da oliveira, num cenário de harmonia entre passado, presente e futuro…

Hélder Sequeira 

 

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publicado às 21:36

Pela cidade...

por Correio da Guarda, em 01.01.26

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Entrados num novo ano  - que se espera mais venturoso e diferenciador  - há ruas que nos conduzem à Cidade Natal e ao espírito solidário que deverá ser uma constante ao longo do tempo...

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publicado às 20:31

Votos de Bom Ano Novo

por Correio da Guarda, em 31.12.25

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publicado às 08:30

Feira das Tradições em Pinhel

por Correio da Guarda, em 30.12.25

 

A trigésima primeira edição da Feira das Tradições vai decorrer em Pinhel de 13 a 15 de fevereiro de 2026.

Este ano, aquele certame tem como tema “Caminhos da Saudade: a Emigração Pinhelense pelo Mundo”.

Este evento “tem vindo a crescer e a afirmar-se pela qualidade com que brinda os milhares de visitantes que anualmente passam pelo recinto daquele que é já considerado o maior certame de inverno da Beira Interior.” Refere uma nota informativa divulgada pelo município de Pinhel.

A Feira das Tradições terá lugar no Centro Logístico de Pinhel. Até ao próximo dia 28 de janeiro estão abertas as inscrições para expositores. Outras informações estão disponíveis aqui.

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publicado às 23:48

O desprezo pelo património…

por Correio da Guarda, em 28.12.25

 

Carlos Caetano, historiador e investigador na área de História da Arte, comentou-nos que “o património tem sido vítima da indiferença de quase todos (autoridades civis e eclesiásticas incluídas) mas também do snobismo cultural de muitos eruditos, que só têm tido olhos para as chamadas obras-primas”.

Acrescentava, depois que “o património é um lastro urbanístico e construtivo (e imaterial também) que tem que ser visto na sua globalidade, o que nunca foi feito – nem na Guarda nem, entre nós, praticamente em lado nenhum, infelizmente”.

Natural de Trancoso, Carlos Caetano conhece muito bem a realidade distrital, onde tem desenvolvido uma variada e meticulosa investigação que lhe confirma a evidência. “O distrito e a diocese da Guarda detêm um património de uma valia inestimável, que se manifesta em obras de todo o tipo e em muito grande parte desconhecidas e ignoradas ou então desvalorizadas pelos historiadores”. Aludindo ao “extraordinário património religioso, militar e civil que o passado nos legou”, confessa que é difícil fazer escolhas ou distinções, mas lembra todo um “património urbanístico sensacional de cidades, vilas e aldeias do distrito, constituído por inúmeros conjuntos urbanos fabulosos e sempre esquecidos – conjuntos urbanos cuja valia urge reconhecer e conservar na sua dignidade e na sua harmonia tão ferida ou ameaçada, às vezes por intervenções feitas com as melhores intenções…”.

A ação urgente e pragmática das entidades que tutelam o património é um dos sublinhados que faz nessa entrevista, onde defende que “a curto, médio e longo prazo, há que intervir também a nível educativo, de uma forma informal ou sistemática, visando uma efetiva educação artística com uma forte componente patrimonial – um desígnio pedagógico dos mais prementes e dos mais difíceis de alcançar.”

No decorrer das investigações efetuadas, na nossa zona, tem tido várias surpresas, face a importantes peças do nosso património, de “uma valia inestimável, que se manifesta em obras de todo o tipo e em muito grande parte desconhecidas e ignoradas ou então desvalorizadas pelos historiadores e até por alguns eruditos locais. Destaquem-se os fragmentos de marcos miliários reciclados para novas funções: para poiais dos cântaros no chafariz de Cavadoude ou para servir de pia de água benta na igreja do Codesseiro. Surpresa absoluta, as magníficas traves mudéjares de início do século XVI que sobreviveram do forro quinhentista (hoje perdido) desta mesma igreja. Outra surpresa absoluta foi o conjunto extraordinário de igrejas leonesas que sobrevivem na Raia (Castelo Rodrigo, Escarigo, Mata de Lobos…), com características morfológicas únicas.”

Outra surpresa, destacou ainda, prende-se com “a abundância e a valia extraordinária de escultura pré-barroca, manifestada em relevos e em imagens de vulto, alguma dela atribuída a mestres alemães e sobretudo flamengos quinhentistas, alguns já identificados”; outrossim os dois “chafarizes extraordinários da Vela, presentemente remontados no terreiro fronteiro ao Lar da Misericórdia local, que faziam parte do conjunto que integrava o chafariz de Santo André, colocado na Alameda homónima da Guarda ainda na primeira metade do século passado. Ora, todo este conjunto de chafarizes, verdadeiramente monumental, fazia parte de um jardim barroco que há-de ter sido sumptuoso e que integrava mesmo uma extraordinária e raríssima “casa de fresco” que chegou até nós e que é a única que conhecemos na Beira Alta. Quanto às esculturas dos chafarizes da Vela, pela erudição, pelas pretensões, pela singularidade da sua iconografia e pelo refinamento da factura, parece poderem ser atribuídas aos grandes mestres que criaram e modelaram o Escadório do Bom Jesus de Braga, como espero mostrar em lugar próprio.”

O nosso património não pode ser arrumado para um canto, esperando melhores momentos ou aguardando predisposições pessoais e políticas, sob a oportunidade de agendas eleitorais, sempre com argumentos financeiros subjacentes no contraponto com outras necessidades prioritárias.

Claro que resolver problemas equacionados como prioridade para a comunidade regional não significa haver impedimento de, paralelamente, as entidades ou instituições responsáveis se empenharem na procura das melhores soluções e da sua concretização. Veja-se, a título de exemplo, o que tem sucedido com o património construído do Sanatório Sousa Martins; um progressivo, constrangedor e reprovável adiamento da salvaguarda dos antigos e emblemáticos pavilhões que integravam aquela reputada unidade de tratamento da tuberculose. E sim, o Sanatório Sousa Martins foi um ex-libris da Guarda, e não os seus pavilhões individualmente considerados, como ouvíamos recentemente pela voz de quem tem obrigação de conhecer, minimamente, a história do Sanatório da Guarda…

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Ao longo das últimas cinco décadas houve muitas propostas e soluções apresentadas; assim não é por falta de diagnóstico, mas de tratamento, que a “saúde” dos pavilhões Rainha D. Amélia e D. António de Lencastre (já temos ouvido falar em D. Leonor de Lencastre…) não mereceu a mais que justa, premente e justificada atenção.

É contra esta indiferença que temos de agir, sem tibiezas, em prol da salvaguarda e promoção do nosso património, globalmente entendido; numa atuação inequívoca, assente num espírito de diálogo crítico e construtivo, recusando o anonimato, mas privilegiando a frontalidade e seriedade. É fundamental que deixemos de ser “socialmente, uma coletividade pacífica de revoltados” nas expressivas palavras de Miguel Torga.

Saibamos valorizar o nosso património, conhecer o passado para melhor compreendermos e vivermos o presente, garantindo o seu legado para o futuro!...

 

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publicado às 00:01

Madeiro de Natal vai arder na Guarda

por Correio da Guarda, em 23.12.25

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Na Praça Luís de Camões, na Guarda, terá lugar amanhã a habitual queima do Madeiro de Natal, com início agendado para as 16 horas.

Como tem acontecido em anos anteriores, a queima do Madeiro de Natal dá o mote para um brinde natalício e desejos de Boas Festas, por parte de quem se associar a esta iniciativa integrada no programa da Cidade Natal.

Na referida praça - para onde têm convergido muitos visitantes nacionais e estrangeiros -  haverá animação musical, bebidas e doces regionais típicos desta quadra natalícia.

 

 

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publicado às 23:30

Feliz Natal

por Correio da Guarda, em 22.12.25

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publicado às 15:27

A leitura do interior...

por Correio da Guarda, em 20.12.25

 

Uma sociedade sem imprensa” era o título do último editorial do semanário "O Interior", assinado pelo seu diretor, que escreveu a propósito da possível supressão da distribuição de jornais e revistas em territórios do interior. Referia, a determinada altura, que “a ausência de imprensa é apenas mais um marco neste processo de abandono estrutural que nenhum discurso político consegue disfarçar”.

Nesse texto, Luís Baptista-Martins alertava ainda para o facto de que “sem um despertar para o apoio aos jornais e rádios locais, a imprensa regional vai acabar em breve (…)”. Este é um cenário que nos deve preocupar a todos, tanto mais que a denominada imprensa regional tem, no nosso país, uma expressão muito particular.

No passado século, ao longo do território nacional existiram (outros persistem ainda, felizmente) os mais variados títulos que deram voz a múltiplas posturas e cuja influência deixou traços indeléveis na historiografia regional. Muitos desses jornais evoluíram, como se sabe, em função das conjunturas políticas, sociais e económicas. Os seus exemplares constituem, inquestionavelmente, importantes documentos para o estudo do perfil de cada região, das mentalidades, das instituições e das vivências.

A imprensa regional tem, por mérito próprio, um lugar de destaque na cultura portuguesa. Além disso, a imprensa regional tem sido um baluarte da forma de estar e de ser, das nossas gentes, das nossas terras. Trabalhar, com seriedade e profissionalismo, neste setor não se pode dizer que, nos dias de hoje, seja tarefa fácil; só quem vive e sente os problemas dos periódicos regionais, e o entusiasmo do ciclo do nascer e morrer de cada edição, pode apreender a vivência e a sensação que tornam estes jornais barómetros permanentes dos factos e das conjunturas das zonas em que são editados; outrossim, um catalisador constante de energias e esperanças.

A imprensa regional tem sabido enfrentar as suas vicissitudes, alimentando o direito à informação, rompendo o isolamento, desempenhando a sua função social, ainda que (por vezes) com alguns erros ou desvios no percurso.

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A imprensa regional viveu, durante largo tempo sem um enquadramento legal consentâneo com as modificações sociais, políticas e tecnológicas; daí que tenha sido reconhecida a necessidade em dotá-la de um estatuto próprio. Em 31 de Março de 1988 foi publicado o Estatuto de Imprensa Regional, que proporcionou o indispensável enquadramento legal dos jornais regionais e definiu os direitos e deveres dos jornalistas da imprensa regional, reconhecendo, como escrevemos então, a “relevância da sua função”. Mesmo assim, subsistiram questões em relação às quais foram apontadas, as adequadas soluções, proteladas ao longo dos anos.

Ainda no passado século, foram várias as iniciativas que chamaram a atenção para os problemas e as necessidades da imprensa regional do interior. Em 11 e 12 de abril de 1981, promovido pela Rádio Altitude, realizou-se o I Encontro de Comunicação Social da Beira Interior; o objetivo foi “chamar a atenção para os problemas e anseios dos media da nossa região e outrossim destacar a sua importância no desenvolvimento sociocultural desta”.

Da análise das diversas intervenções, como dos debates realizados, ressaltava (entre as várias conclusões) a necessidade de “uma distribuidora nacional que supere as dificuldades atuais de distribuição, impõe-se, tal como o fomento da leitura junto das populações para tal desmotivadas”. Isto era afirmado em 1981…

Algumas dessas necessidades foram reafirmadas, mais tarde no decorrer das I Jornadas Luso-Espanholas de Imprensa Regional, promovidas (pelo jornal Notícias da Guarda) em 18 e 19 de maio de 1985; em 16 de janeiro de 1988 num colóquio subordinado ao tema “Imprensa Regional e Poder Local” (que o mesmo jornal promoveu em Vila Nova de Foz Coa) acentuámos que “o desencanto comum, e recíproco, de algumas autarquias e jornais resulta, fundamentalmente, da falta de uma reflexão acerca do seu papel junto da comunidade em que se inserem ou de uma visão estreita e dogmática face a conceitos como democracia, liberdade de consciência e de expressão. Afirmar que de um relacionamento correto entre autarquias e jornais resultam mais benefícios do que prejuízos (e o cenário é a comunidade regional onde se inserem) não representa, de maneira alguma, uma novidade. Estes dois poderes devem estar, como já referimos, vocacionados para um serviço em prol das regiões(...)”. Nas conclusões desse colóquio era evidenciado que a imprensa regional se devia “afirmar como um interlocutor privilegiado no diálogo entre os munícipes e as autarquias, sobre as quais deve existir uma ação crítica e objetiva”.

Naturalmente que neste contexto, a que temos estado a aludir, não devemos esquecer a importância da Rádio, tanto mais que este distrito foi, pioneiro em termos radiofónicos, como é do domínio público; bastaria, para tanto, falarmos da Rádio Altitude, com as emissões oficiais foram iniciadas em 1948. As rádios locais continuam a desempenhar um destacado papel informativo.

Os constrangimentos, as necessidades dos media regionais, as suas reivindicações não dizem respeito à conjuntura atual, como anotámos atrás. O trágico desaparecimento de jornais e rádios é bem conhecido. Assim, que importam medidas anunciadas se elas não têm uma aplicação prática e célere?...

O interior do país precisa de uma comunicação social de proximidade, com condições para ser capaz de exercer autónoma e independente a sua função informativa e social, com rigor e pluralismo. E precisa, igualmente, de poder aceder, como acontece nas outras regiões, às publicações de circulação nacional.

Aqui também é Portugal!...

 

Hélder Sequeira

in "O Interior", 17 dezembro 2025

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publicado às 23:14

A doente do quarto 23

por Correio da Guarda, em 18.12.25

 

“A Doente do quarto 23” foi um dos mais divulgados trabalhos de Ladislau Patrício, uma peça que chegou a ser representada em Goa, sendo este  médico apresentado como eminente tisiólogo português”. Referenciado ainda, a propósito da apresentação dessa peça,  como diretor de um dos melhores sanatórios de Portugal, destacavam-no como “como cientista de nomeada, de fama internacional na sua especialidade”, assim como “figura prestigiosa no mundo das letras”; “a doente do quarto 23 é uma jovem meiga e formosa, atingida pela tuberculose na flor da idade. Filha e neta de tuberculosos, o implacável bacilo de Koch não a poupa por sua vez”.

Doente do Quarto 23 

Foto, criada com IA

Uma peça de teatro onde, como sublinhou Antonieta Garcia, “perpassa um agudíssimo sentido do valor da vida humana, do absurdo da sua condição”, colocando o autor “do lado dos que não desistem, não se contentam, dos que questionam esperançadamente o tema da cura”. É certo que o terceiro diretor do Sanatório Sousa Martins enquadra esta obra no contexto da época, mas nem por isso deixa de ter ideias e verdades que estão ainda hoje válidas, atuais.

Mas quem foi Ladislau Patrício? Um guardense ilustre, médico distinto, apreciado escritor, um acérrimo defensor da sua terra, das qualidades das suas gentes, das suas riquezas históricas e culturais.

Ladislau Fernando Patrício nasceu na Guarda, a 7 de dezembro de 1883. Após concluir os estudos nesta cidade foi para Coimbra, onde conviveu “fraternalmente com alunos das diversas Faculdades, alguns dos quais se distinguiram mais tarde, pela vida fora, no campo das ciências, das artes, das letras e da política”, nomeadamente António Sardinha, Alfredo Pimenta, Hipólito Raposo, Alfredo Monsaraz, Cândido Guerreiro, Ramada Curto, João de Barros, entre outros.

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Antes de terminar a formação conducente à obtenção da licenciatura em Medicina, Ladislau Patrício prestava já cuidados médicos – como ele próprio revelou – tendo “praticado no Sanatório” em 1907, aquando da entrada em funcionamento desta unidade de tratamento da tuberculose. Em 1909 foi opositor a um concurso para exercer as funções de médico municipal em Loulé, cargo para o qual foi nomeado em 2 de setembro desse ano.

Com a implantação da República, este clínico teve uma fugaz passagem pela vida política; em 1910 aparece como Vice-Presidente da Comissão Executiva do Centro Republicano da Guarda, presidida por seu cunhado, o poeta Augusto Gil. Em 1911 esteve à frente dos destinos do município guardense, mas foi breve a sua permanência como autarca.

Augusto Gil, juntamente com o matemático Mira Fernandes (também cunhado de Ladislau Patrício), tentou convencer o médico guardense a fixar-se em Lisboa, para aí desenvolver a sua vida profissional; contudo nunca o conseguiu demover da ideia de permanecer na localidade que o viu nascer.

O registo biográfico de Ladislau Patrício inclui ainda a referência à passagem pelo Liceu Nacional da Guarda, onde lecionou a partir de 1911. Entre 1917 e 1919 dirigiu o Sanatório Militar de S. Fiel, em Louriçal do Campo (Castelo Branco), atividade da qual deixou interessantes indicações num relatório que publicou, em 1920, sob o título “A Assistência em Portugal aos feridos da guerra por tuberculose”.

Em 1922, a convite do médico Amândio Paul, passou a trabalhar (como subdiretor) no Sanatório Sousa Martins, dirigido nessa época por aquele clínico, a quem viria a suceder, em 1932; nessas funções permaneceu até 7 de dezembro de 1953. Os sanatórios constituíram, aliás como aconteceu com os Dispensários, um dos pilares essenciais da luta contra a tuberculose

Na vida de Ladislau Patrício sobressai, de facto, um “autêntico sacerdócio pela Guarda e pelos doentes do Sanatório”, onde, como é sabido, se encontravam doentes de todas as condições sociais e económicas; provenientes das mais diversas origens geográficas. A sua atividade clínica estendeu-se igualmente ao Hospital Francisco dos Prazeres, tendo presidindo à Liga de Amigos daquela unidade de saúde; trabalhou ainda na Delegação de Saúde da Guarda e no Lactário desta cidade, após a morte do Dr. António Proença

No ano de 1939, Ladislau Patrício foi eleito vogal da Ordem dos Médicos, estrutura profissional que teve como primeiro bastonário o Prof. Elísio de Moura. Na sequência de uma proposta do médico guardense foi criada, no âmbito da Ordem, a especialidade de Tisiologia, “com o acordo unânime dos membros do Conselho Geral”. Especialidade cuja criação tivemos o ensejo de evocar, no passado ano, no Congresso Português de Pneumologia.

No Sanatório Sousa Martins sabemo-lo empenhado em apoiar, em finais da década de quarenta, a radiodifusão sonora; o primeiro regulamento da Rádio Altitude (1947), estação que nasceu naquele espaço sanatorial, tem a chancela de Ladislau Patrício,

Um dos seus principais sonhos concretizou-se em 31 de maio de 1953, com a inauguração do Pavilhão Novo do Sanatório Sousa Martins (paralelo à atual Avenida Rainha D. Amélia), um “edifício gigantesco com 250 metros de comprido e com 350 leitos destinados exclusivamente a doentes pobres”; meses depois completou 70 anos, “atingindo assim o limite de idade oficial como delegado de Saúde e diretor do Sanatório. Em finais de fevereiro de 1955 Ladislau Patrício foi viver para Lisboa; aí escolhido para Presidente do Conselho Regional da Casa das Beiras, função que viria mais tarde abandonar, a seu pedido.

Ladislau Patrício, que faleceu na noite de Natal de 1967, é um dos nomes consagrados na galeria de médicos-escritores, tendo manifestado bem cedo a sua faceta de homem de cultura. No Sanatório Sousa Martins apoiou projetos com indiscutível alcance cultural e social; veja-se o caso do jornal “Bola de Neve” e da Rádio Altitude.

O “Bacilo de Kock e o Homem” é uma das suas obras, de cariz científico mais divulgadas, a qual se integra na Biblioteca Cosmos, dirigida por Bento de Jesus Caraça; “Altitude: o espírito na Medicina” é outro dos mais significativos trabalhos de Ladislau Patrício, reunindo impressões, “vivas reações dum temperamento perante determinada série de factos”, onde o autor deixa vincado que o médico, para além das suas funções técnicas, “tem uma missão espiritual a cumprir. A sua atitude na vida, e sobretudo no tratamento dos doentes, deverá ser a do sábio que procura a verdade e a do artista que cultiva a ilusão”.

Ladislau Patrício escreveu ainda “Teatro Sem Actores” “Casa Maldita” e “O Mundo das Pequenas Coisas”, para além da peça a que aludimos no início, merecedora de ser, de novo, levada à cena.

Lembrar o nome de Ladislau Patrício (que integra a toponímia da Guarda e de Lisboa) é um inquestionável ato de justiça, pelo seu exemplo, pela sua dedicação aos doentes, pela postura intransigente na defesa dos cuidados de saúde e do progresso da mais alta cidade de Portugal.

 

Hélder Sequeira

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publicado às 21:29

Presépio

por Correio da Guarda, em 17.12.25

Presépio Paço da Cultura_HS_ 9-2 

Guarda. Presépio no Paço da Cultura.

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publicado às 22:08


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