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No Museu da Guarda está patente, desde ontem e até 29 de março de 2026, a exposição “Colecionismo Piné: memórias e surpresas”.
Esta exposição é promovida pela Colecionismo Piné, “entidade criada para concretizar um projeto inspirado no legado do colecionador, que inclui a reabilitação de um espaço no centro histórico”.
Como é referido numa nota informativa do Museu da Guarda, o título desta exposição “convoca, em simultâneo, a dimensão íntima e a abertura ao inesperado que marcam o percurso” de António Piné (1931-2022).

Natural do concelho de Pinhel, António Piné exerceu a profissão de farmacêutico na Guarda. “A sua paixão pela arte levou-o a construir uma das mais notáveis coleções privadas da região.”
Grande parte da sua coleção foi doada à Associação Nacional das Farmácias, integrando atualmente o acervo do Museu da Farmácia.
A exposição agora patente no Museu da Guarda, espaço #5, reúne cerca de trinta obras que “permaneceram no seio da família e na cidade, incluindo aquisições recentes realizadas em consonância com o espírito do colecionador”.
Noronha da Costa, Vhils, Cargaleiro, Cesariny, Cutileiro, Paula Rego, Graça Morais, Pedro Croft, Eduardo Batarda, José Guimarães, Bordalo II e Francisco Simões são alguns nomes representados neste certame que propõe um “reencontro com o espírito generoso e curioso de António Piné, para quem a arte foi sempre uma forma de conhecimento, de partilha e de futuro”.
A história da Guarda está indissociavelmente ligada ao segundo rei de Portugal que há 826 anos atribuiu carta de foral a esta cidade. Hoje é evocada a outorga desse documento e comemorado o feriado municipal, sendo oportuno conhecermos um pouco da vida deste monarca.
Sancho I, segundo rei de Portugal e cognominado como O Povoador, era filho de D. Afonso Henriques e D. Mafalda de Saboia. Nascido em Coimbra, em 11 de novembro de 1154, o herdeiro da coroa bem cedo ficou ligado à vida político-militar do reino português, com uma associação efetiva à governação a partir de 1172.
Dois anos depois, o futuro rei casou com D. Dulce de Aragão (filha da Rainha de Aragão e do Conde de Barcelona), continuando a assumir as responsabilidades decorrentes do seu estatuto real; em 1178 é D. Sancho que comanda uma expedição em território sob domínio muçulmano, incursão que chegou aos arredores de Sevilha.
Com a morte do pai, D. Sancho subiu ao trono em 6 de dezembro de 1185, sendo aclamado três dias depois na cidade de Coimbra. A reorganização do território português e a defesa das localidades junto às ainda indefinidas e instáveis fronteiras com os domínios de Leão e dos muçulmanos (a sul), foram duas das suas primeiras prioridades, que se articularam com a imperiosa necessidade de incrementar o povoamento e defesa das zonas conquistadas.
Assim, promoveu a vinda de colonos estrangeiros, doou terras e fortalezas às ordens militares, criou concelhos e mecanismos de administração pública, fomentou o surto económico e agrícola e concedeu forais a cerca de cinco dezenas de localidades, nomeadamente à Guarda, em 27 de novembro de 1199 (documento que segue o modelo do foral de Salamanca).

Antes desta data (1199), a Guarda confinava-se a uma pequena comunidade “guardada por uma pequena atalaia ou torre – uma guarda – que vigiava a circulação de gentes e bens que percorriam a via colimbriana, o principal eixo de penetração no planalto beirão”, como sustentou Helena da Cruz Coelho. A Guarda assumiu, deste modo, uma posição estratégica de vital importância na defesa da linha fronteiriça da época, protagonizando a centralidade de toda a vasta região envolvente, sobre a qual afirmava a sua influência direta; a sua notoriedade como polo urbano foi reforçada com transferência (entre 1201 ou 1202) da sede do Bispado da Egitânia, cimentando assim o seu estatuto de cidade.
Esta reorganização da jurisdição religiosa apoiou os propósitos régios ao nível do fortalecimento e valorização da zona fronteiriça. Com a conquista de Silves (que viria a perder algum tempo depois) em 1196, D. Sancho passou a intitular-se Rei de Portugal e dos Algarves.
A sua permanência no trono foi atravessada por diversas contendas militares, fomes e pestes, em especial no período entre 1192 e 1210. As lutas com o vizinho reino de Leão e sobretudo os constantes prélios com os almóadas (dinastia marroquina que dominava as terras da Península Ibérica sob alçada muçulmana) ocuparam muitos anos do reinado deste monarca português, que teve ainda de se debater com alguns sérios problemas levantados pelo clero (vejam-se os conflitos com D. Martinho Rodrigues, Bispo do Porto, e também com D. Pedro Soares, Bispo de Coimbra, com os quais se reconciliou no último ano do reinado).
A célebre cantiga de amigo “Muito me tarda / o meu amigo na Guarda”, foi durante muito tempo associada a D. Sancho I que a teria, segundo alguns autores, dedicado a D. Maria Pais Ribeiro (a célebre Ribeirinha, de quem teve seis filhos); os estudos mais recentes afastam-no da sua autoria dessa poesia, embora seja verdade que não foi alheio às necessidades de incremento cultural, como o comprova o apoio dado a alguns elementos do clero que estudaram além-fronteiras. D. Sancho I faleceu em Coimbra em 26 de março de 1211, tendo sido sepultado no Mosteiro de Santa Cruz.
Em dia de feriado municipal não poderíamos deixar de lembrar o segundo rei de Portugal. De referir que, tradicionalmente, e após o abandono da data de 3 de maio, o feriado municipal da Guarda era comemorado a 26 de novembro, evocando assim o nascimento, oficial, da cidade. A divergência sobre a data de atribuição da carta de foral foi expressa, pela primeira vez, num artigo (de Manuel Luís dos Santos) publicado, em 1985, no jornal "Notícias da Guarda".

A partir dessa altura alargou-se o interesse pelo estudo da questão e não faltaram argumentos sobre a prevalência de 26 de novembro; por outro lado, a favor do dia 27 deste mesmo mês os argumentos manifestaram igualmente a sua solidez.
De facto, o documento medieval da outorga da carta de foral refere que "foi feita esta carta em Coimbra no dia Quinto antes das Calendas de Dezembro de 1237, no ano do nosso reinado." Assim, e como foi sustentado pelos investigadores que defenderam a nova data, o dia V antes das Calendas de Dezembro é o dia 27 de novembro de 1237, o que convertido à data cristã (menos 38 anos) cai sobre o ano de 1199.
A data de 27 de novembro acabou, assim, por ser institucionalizada, há alguns anos atrás, como feriado municipal. O programa comemorativo deste 826º aniversário pode ser consultado aqui.
Parabéns, Guarda!
Hélder Sequeira

Na freguesia de Valhelhas, concelho da Guarda, foi hoje retomada a tradição da Procissão de São Martinho.
Este evento, realizado pela última vez há 30 anos, consiste na realização de um percurso pela aldeia, entre carpideiras e almieiras, que pretende abençoar a próxima colheita. A história do São Martinho foi celebrada com sátira, ironia, anedotas, alegria e convívio.
A tradição vai ser recuperada graças à recolha etnográfica deste património imaterial salvaguardado pelo Município da Guarda e pela comunidade de Valhelhas. A atividade que decorreu hoje resultou de uma iniciativa cultural da Associação Artística de Valhelhas (AAVAL) e do Teatro Municipal da Guarda.

Vivemos num território plurifacetado onde se cruzaram civilizações e múltiplos caminhos da nossa história, da qual ficaram marcos perenes, edificados ou retidos na nossa memória coletiva.
As nossas terras possuem uma vasta riqueza monumental, artística e cultural que importa salvaguardar, estudar e promover. Há vastas vias a percorrer, e nunca será demais o empenho pessoal e coletivo na afirmação da nossa identidade.
Contudo, é nas gentes deste interior que encontramos uma grande riqueza, com maior ou menor expressividade no nosso território geográfico ou de afetos; com recorte diferenciado na galeria humana de uma região que não tem tido a devida justiça perante o trabalho aqui desenvolvido, pela resiliência dos seus habitantes, pelos exemplos de fidelidade à terra mátria, na expressão de Pinharanda Gomes.
As nossas aldeias não oferecem apenas a sua singularidade, a arquitetura tradicional, os ciclos festivos, as atividades ligadas à sua vivência, as suas tradições; guardam também a memória dos seus naturais, que por este ou aquele motivo se evidenciaram.
É o caso da localidade de Vale de Estrela (anteriormente designada Porcas) onde nasceu um poeta singular: Joaquim Chamisso; ele verteu nos seus versos o amor à terra natal. “Porcas onde eu nasci, / Aldeia minha adorada, / C’o Chamisso aqui nascido / Ficas mais valorizada”.

Um dos contributos para o conhecimento deste poeta popular, nascido em 1886, foi dado com o trabalho publicado, em 1984, pelos professores António Correia, Alice Ribeiro, Duarte Menezes e António Correia (na altura na Escola Secundária da Sé), com a recolha dos versos de Joaquim Chamisso. Esta recolha foi feita a partir de “ecos repercutidos nos vetustos muros da fortaleza, no arco da Torre, no largo do Governo Civil, no claustro do Tribunal e, mais afogados em cascata ruidosa, no velho Café Mondego, no pátio da Polícia, junto às árvores do Sanatório – para ele “A Casa da Tosse” – e até nas valetas da rua pública (…)”.
Assim era escrito no prólogo da referida publicação sobre Joaquim Chamisso que “falava em verso, tinha na sua ignorância a sabedoria profética do provir e no seu filosofar inculto, sentia a cultura viver e pulsar (…)”.

Em 2003, num texto que integrava a publicação “Guarda – a memória das coisas”, Separata da Revista Praça Velha, António Correia escrevia que “a veia poética de Joaquim Chamisso não terá a força nem a expressividade dos versos de Aleixo, também poeta popular, mas de qualquer modo, estremece nos seus versos uma grandeza contida que indicia uma personagem forte, audaz, valente e destemida”.
O articulista (que foi um dos docentes intervenientes na recolha de poemas anteriormente mencionada) acrescentava depois haver “neste versejador uma vontade indómita; uma revolta incurável, uma inesperada humanidade, uma escandalosa e inusitada consciência moral, bem como uma prospetiva e imprevisível esperança quando denuncia os poderosos”: “Chamai tudo o que quiserdes/Sois uma gente atrasada; / Dizei tudo o que quiserdes; para mim não valeis nada”. Ou ainda, “Idiota me chamais; / Nada vedes, nada sabeis; / Idiota, que vos digo / Tudo quanto mereceis”.
A cidade mais alta de Portugal merecia, da sua parte um grande afeto. “Guarda, eu quero-te tanto / És a minha amada; / Tens gente que eu detesto, / Mas, por mim és adorada”; na Guarda não esquecia que lhe dedicava atenção. “Dr. Lopo de Carvalho / Homem de grande valor/ Também tu te destacaste / No meio dos outros doutores”; “O Senhor Dr. Antero /Tem um grande coração: /Alguns dentes me tirou / Sem me levar um tostão. (…) Homem bom e muito simples / Nunca devia morrer; / Devia ficar no mundo / Para sempre bem fazer”.
Isto num contraste com “Outros grandes exploradores / Que a terra há-de comer / Até se esquecem no mundo / Que um dia hão-de morrer”.
Joaquim Chamisso faleceu na Vela (no então Albergue Distrital) em outubro de 1965. “Em Vale de Estrela eu nasci / E à Vela vou morrer; /Gostava de morrer na terra / Mas isso não pode ser…”.
Desenho de Mário Carvalho
O poeta pode e deve ser mais um importante elemento de valorização da freguesia de Vale de Estrela, libertando Joaquim Chamisso “da poeira do esquecimento”, como em 1994 já defendiam os docentes que efetuaram a meritória recolha de versos que se desdobram em autobiografia, em referências familiares, alusões à cidade e à região da Guarda, em elogios a personalidades, na sátira e crítica social.
É importante que não se quebre o fio da memória, de forma a tecermos novos projetos, lançando pontes para um melhor conhecimento das nossas gentes e terras, numa profícua e interventiva rede de cultura e tradição.
Hélder Sequeira
in O Interior | 19_11_2025
“Discos Pedidos” é o título da curta metragem, realizada por Luís Sequeira, que fala de um dos mais carismáticos programas da Rádio Altitude, nas décadas que antecederam a revolução de 25 de Abril de 1974.
O realizador referiu que “Discos Pedidos dá-nos a conhecer a realidade tão querida dos programas com esse formato, na Rádio Altitude (…). Este filme, mostra o lado de lá dos discos pedidos com um fiel retrato de uma espécie de jukebox do povo."

No filme/ documentário é também evocado o contexto político e social, bem como referidas algumas das músicas que eram alvo da censura e a formas como eram contornados os obstáculos para a sua difusão, por parte dos locutores/animadores de emissão.
A curta-metragem (que contou com a participação de antigos colaboradores e profissionais da Rádio Altitude, como é o caso de Emílio Aragonez) tem exteriores gravados no Parque da Saúde da Guarda, onde funcionou o antigo Sanatório Sousa Martins, e filmagens nas instalações da estação emissora guardense. Pode ser vista aqui.
foto gerada por IA
Faleceu hoje Fernando Cabral que foi Governador Civil do Distrito da Guarda, deputado na Assembleia da República e dirigente político distrital e concelhio. Desempenhou ainda funções diretivas na antiga Direção Geral dos Desportos, na Guarda, e no Instituto Português da Juventude. Foi docente de Educação Física na Escola Secundária Afonso de Afonso de Albuquerque, na Guarda.

Nas redes sociais, António José Seguro (candidato à Presidência da República) lembrou Fernando Cabral. “(…) esteve presente na minha vida por mais de 30 anos e cuja amizade se tornou parte essencial da minha própria história no distrito da Guarda: ele governador civil, eu membro do governo do António Guterres. Mais tarde, no parlamento, ambos deputados. Mais recentemente, em tertúlias e conversas telefónicas.
É difícil encontrar palavras quando a alma está em silêncio. O Fernando foi daqueles amigos raros, que iluminam os dias com gestos simples, com uma conversa sincera, com uma mensagem de incentivo, com um sorriso que acolhia (…). Parte das minhas lutas foram feitas contigo (Fernando) ao meu lado, mesmo quando discordavas. Dizias o que pensavas e seguias solidário ao meu lado, fiel ao escreveste há mais de uma década: “Aconteça o que acontecer, com a amizade e solidariedade podes contar sempre”.
Perder o Fernando é como ver escurecer um pedaço do caminho que percorri.” Acrescentava António José Seguro, que teve Fernando Cabral como adjunto quando desempenhou as funções de Secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro (à altura, António Guterres).
Fernando Cabral tinha 69 anos. O velório decorre hoje na capela do Cubo (Guarda) e o funeral terá lugar amanhã, a partir das 14 h30, em Maçainhas (Guarda).
Guarda. Noite de nevoeiro.
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