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Quinta-feira, 16 de Julho de 2015
Uma casa com tradição

 

     A Casa Espigado, fundada em 1916, é um dos estabelecimentos comerciais mais emblemáticas da Guarda, com particular expressividade no campo do artesanato. Uma faceta que, independentemente dos tempos e das circunstâncias, continua a manter, mercê do empenho do atual proprietário.

     É uma pequena quanto simbólica loja – existente na Rua da Torre, Guarda – criada no século passado por Joaquim Rodrigues Espigado; nome que não sobressaiu apenas no sector comercial guardense mas projetou-se também, de forma eminente, no campo do voluntariado; foi um dos mais destacados Comandantes que passaram pela Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários Egitanienses.

    No longínquo ano de 1916, em plena primeira Grande Guerra, Joaquim Espigado implementou, naquela conhecida artéria citadina, a arte da funilaria, iniciando uma considerável produção de objetos e utensílios manufaturados em folha-de-flandres – chapa fina de ferro estanhado, com resistência elevada à corrosão – e chapa zincada. Candeias, almotolias, regadores, baldes, caldeiros, alguidares ou seja tudo o que o lavrador precisava ali era feito; artefactos para a recolha de leite e manufatura do queijo, para a ordenha do gado ou amanho das terras.

     Os destinatários destes produtos, ali manufaturados, eram, principalmente, os agricultores do concelho da Guarda; na Casa Espigado adquiriam desde copos para as noras que asseguravam a rega dos campos, a regadores, caldeiros para a comida do gado, ferradas, francelas e cinchos, utensílios indispensáveis à feitura do queijo; na oficina desta loja citadina foram igualmente produzidas muitos milhares de potes para azeite, funis, medidas para o vinho, candeias e lanternas de iluminação. A cobrirem as paredes interiores ainda hoje podemos ver exemplares dos vários objetos produzidos.

    Nessa época, o trabalho era essencialmente artesanal, com o recurso a uma fieira (máquina utilizada para efetuar as molduras e virar os fundos dos objetos), bigornas (peças de ferro nas quais se batiam as peças a executar), maços (martelos em madeira cuja utilização impedia que ficassem mossas na folha das peças) e ferros de soldar a carvão, feitos pelo proprietário da casa. Nos trabalhos de funilaria e latoaria eram, entre outras ferramentas, igualmente utilizados tesouras (para cortar a folha de flandres ou a chapa zincada), alicates (que serviam para apoiar o trabalho e virar, consoante a necessidade, os materiais), ponteiros (necessários na abertura de orifícios), compasso (no desenho dos moldes circulares), riscador (ponteiro de aço para riscar os moldes), martelo de bolear (o qual dava ao trabalho um aspeto côncavo) e a quinadeira (máquina utilizada para a feitura de quinas).

    As modificações nas tradicionais relações comerciais – resultantes, entre outros fatores, do desenvolvimento industrial e tecnológico – operaram profundas mudanças nos hábitos dos consumidores, seduzidos pelos produtos vendidos nos grandes espaços comerciais.

    Durante muito tempo a comercialização das peças era feita no próprio estabelecimento mas os seus proprietário também participava em feiras e mercados. Há alguns anos atrás, e na recolha de informação para um pequeno livro sobre esta casa comercial, Júlio Espigado (já falecido), filho do fundador, recordava que chegaram “a fazer potes para azeite, com capacidade para 800 litros; parte da confeção foi feita na rua porque não era possível dentro da loja”.

    Ao longo dos anos a venda das vasilhas (com capacidade de cinco, dez e vinte litros), para fins diversos, funcionava como uma espécie de indicador dos bons ou maus anos agrícolas. “Quando se vendiam mais era sinal que o trabalho dos agricultores se traduzira numa boa produção, em boas colheitas”. Igualmente nos anos de Verão mais rigoroso era notória a procura de utensílios para a rega (os regadores, por exemplo), enquanto na época das vindimas aumentava a venda de medidas, funis e cântaros; já com o aproximar do Outono e Inverno as gentes do campo procuravam, com mais regularidade, lanternas, candeias, braseiras e escalfetas (caixa em cujo interior se colocavam brasas, estando o tampo coberto de pequenas réguas de madeira, nas quais se apoiavam os pés, para aquecerem).

    As tradicionais “leiteiras” e as “medidas” eram outros dos produtos com bastante procura na Casa Espigado, quer para as pessoas que distribuíam o leite pela cidade, quer mesmo para uso doméstico. As mulheres que transportavam o leite, nesses recipientes, andavam de porta em porta e era “com as medidas de litro e meio litro que batiam à porta” dos clientes.

Rua da Guarda - HS.jpg

      A partir de 1974, e após a saída de três artífices, a estratégia passou pela comercialização e venda de outros produtos, nomeadamente cobres, ferros forjados, fogões de aquecimento e pulverizadores.

    Hoje, apesar das dificuldades e conjunturas, esta casa comercial continua a ser uma marca citadina na Guarda da tradição, que importa salvaguardar e valorizar. H.S.

     In O Interior, 16-7-2015

 

 



publicado por Helder Sequeira às 21:11
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